A cura de Schopenhauer

Irvin D. Yalom

Digitalizao revisada por Renato Sant'Ana

Do mesmo autor de

Quando Nietzsche chorou


A morte invade a vida a todo o instante. A perda de um parente prximo, uma doena grave, ou mesmo uma notcia ou foto de alguma tragdia no jornal podem nos fazer
confrontar a inevitabilidade do fim.

Em A Cura de Schopenhauer, o diagnstico de um cncer maligno fora o renomado psiquiatra Julius Hertzfeld a fazer um balano de sua vida e de seu trabalho. A depresso
e a tristeza do lugar  vontade de rever pacientes antigos e  pergunta: ser que seu trabalho fez alguma diferena na vida daquelas pessoas? Julius resolve procurar
Philip Slate, um viciado em sexo e seu mais retumbante fracasso na longa carreira de terapeuta. Ao encontr-lo, Hertzfeld descobre que Philip curou a si prprio
seguindo a filosofia pessimista de Arthur Schopenhauer. E, mais surpreendente ainda, que se tornou um orientador filosfico. Para obter a licena que o habilitaria
a atender pacientes, ele prope a Julius que o supervisione e, em troca, o ensinar o pensamento filosfico de Schopenhauer - segundo ele, a cura para as angstias
de Julius em relao  morte iminente. Mas como uma pessoa to auto-suficiente e que sente um profundo desprezo pelas pessoas pode se tornar um terapeuta? Julius
decide aceitar a proposta, mas exige que Philip participe das sesses de terapia em grupo. A partir da, o leitor vai acompanhar um embate emocionante entre pcientes
e terapeuta, em que cada um expe seus medos, defesas e fraquezas e aprende a ser mais humano e feliz.

Entrelaando realidade e fico, A cura de Schopenhauer oferece um recorte fiel dos meandros da terapia em grupo, tendo como pano de fundo a vida e a obra de Arthur
Schopenhauer, e revela o doloroso processo de autoconhecimento.-

cientes e terapeuta, em que cada um expe seus medos, defesas e fraquezas e aprende a ser mais humano e feliz.

Entrelaando realidade e fico, A cura de Schopenhauer oferece um recorte fiel dos meandros da terapia em grupo, tendo como pano de fundo a vida e a obra de Arthur
Schopenhauer, e revela o doloroso processo de autoconhecimento.

1

A cura de Schopenhauer

ROMANCE

Irvm D. Yalom

TRADUO DE

Beatriz Horta

5a reimpresso

Ediouro

Ttulo original The Schopenhauer Cure

Copyright (c) 2005 by Irvin D. Yalom Copyright da traduo (c) Ediouro Publicaes Ltda., 2005

Publicado originalmente por HarperCollins Publishers

Direitos de traduo representados por Sandra Dijkstra Literary Agency

Todos os direitos reservados

Y17c

e Projeto grfico ngelo Venosa

Imagem da capa Getty Images

Copidesque Shirlei Nataline

Reviso

Fernanda Jardim Elisa Rosa

Produo editorial Cristiane Marinho

CIP-BRASIL. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

05-1048

Yalom, Irvin D. 1931-

A cura de Schopenhauer / Irvin D. Yalom; traduo de Beatriz Horta. - Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

Traduo de: The Schopenhauer cure ISBN 85-00-01483-0

1. Schopenhauer, Arthur, 1788-1860 - Fico. 2. Psicoterapia de grupo - Fico. 3. Fico americana. I. Horta, Beatriz. II. Ttulo.

CDD 813

CDU 821.111(73)-3

06 07  08  09   10

54321

Todos os direitos reservados  Ediouro Publicaes Ltda.

R. Nova Jerusalm, 345 - Bonsucesso

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Para meu grupo de companheiros mais velhos, que me privilegiam com sua amizade, partilham comigo as inevitveis perdas e diminuies da vida e continuam a me oferecer
apoio e sabedoria para a vida da mente: Robert Berger, Murray Bilmes, Martel Bryant, Dagfinn Follesdahl, Joseph Frank, Van Harvey, Julius Kaplan, Herbert Kotz, Morton
Lieberman, Walter Sokel, Saul Spiro e Larry Zaroff.

Agradecimentos

Este livro teve uma longa gestao e sou muito grato a todas as pessoas que me apoiaram. Aos editores que me ajudaram nessa estranha mistura de fico, psicobiografia
e pedagogia da psicoterapia: Marjorie Braman (enorme apoio e orientao na HarperCollins) e Kent Carroll. E aos meus maravilhosos editores domsticos: meu filho
Ben e minha mulher Marilyn. Tambm aos amigos e colegas que leram trechos ou todo o original e deram sugestes: Van e Margaret Harvey, Walter Sokel, Ruthellen Josselson,
Carolyn Zaroff, Murray Bilmes, Julius Kaplan, Scott Wood, Herb Kotz, Roger Walsh, Saul Spiro, Jean Rose, Helen Blau, David Spiegel. Agradeo ao meu grupo de apoio
formado por colegas terapeutas, que durante toda a execuo desse projeto me ofereceram amizade e apoio irrestritos. E ainda ao meu incrvel e multitalentoso agente
literrio Sandy Dijkstra, que, entre outras opinies, sugeriu o ttulo (como fez com meu livro anterior, The Gift of Therapy). Por fim, agradeo ao meu pesquisador-assistente,
Geri Doran.

Grande parte da correspondncia de Shopenhauer continua no traduzida ou mal traduzida para o ingls. Preciso agradecer aos meus pesquisadores-assistentes alemes,
Markus Buergin e Felix Reuter, pelas tradues e pela excelente pesquisa em bibliotecas. Walter Sokel deu tima orientao e ajudou a traduzir para o ingls os aforismos
do incio de cada captulo, que refletem bem a prosa lcida e vigorosa de Schopenhauer.

*** 1

Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaa. (...) No final, ela vence, pois desde o nascimento esse  o nosso destino e ela brinca um pouco com sua
presa antes de com-la. Mas continuamos vivendo com grande interesse e inquietao pelo maior tempo possvel, da mesma forma que sopramos uma bolha de sabo at
ficar bem grande, embora tenhamos absoluta certeza de que vai estourar.

Como todo mundo, Julius conhecia as homilias a respeito da vida e da morte. Concordava com os esticos, que diziam: "Comeamos a morrer quando nascemos", e com Epicuro,
que refletia: "Onde estou, a morte no est, e onde ela est, no estou. Ento, por que tem-la?" Como mdico e psiquiatra, tinha dito, baixinho, esse consolo no
ouvido dos doentes graves.

Embora acreditasse que essas sombrias reflexes fossem teis para seus pacientes, Julius jamais achou que tivessem algo a ver com ele. At o momento em que enfrentou
uma situao muito difcil, ocorrida h quatro semanas e que mudou para sempre a sua vida.

Foi durante o exame mdico anual de rotina. Seu clnico, Herb Katz - um velho amigo e colega de classe na Faculdade de Medicina -, acabou de examin-lo e, como sempre,
pediu para Julius se vestir e voltar  sala para uma conversa.

Herb sentou-se  mesa e falou olhando as fichas de Julius:

 - No geral, voc est muito bem para um sujeito de sessenta e cinco anos. A prstata est um pouco aumentada, mas a minha tambm est. Os exames de sangue, colesterol
e os nveis de lipdio esto bons, prova que os remdios e a dieta esto fazendo efeito. Eis a receita para
    9

(*)compra do Lipitor, que junto com as corridas (*)reduziram bastante seu colesterol. Portanto, voc pode comer um ovo (*)de vez em quando. Eu como dois no caf
da manh dos domingos. (*)E esta  a receita para o sintiride. Aumentei um pouco a dose. Sua tireide est diminuindo aos poucos, as clulas boas esto morrendo
e sendo substitudas por material fibrtico. Situao perfeitamente benigna, como voc sabe. Acontece com todo mundo, tambm estou tomando remdio para a tireide.

- , Julius, nenhuma parte de ns escapa da velhice. Alm da tireide, sua cartilagem do joelho est gasta, seus folculos capilares esto morrendo e seus discos
lombares superiores no so mais os mesmos. Sua pele tambm piora de forma evidente: as clulas epiteliais esto simplesmente acabando, basta reparar nessas ceratoses
senis no seu rosto, essas manchas lisas, marrons.

Segurou um espelhinho para Julius olhar.

- Deve ter aparecido mais uma dzia, desde a ltima vez que examinei voc. Quanto tempo tem passado no sol? Usa um chapu de abas largas, como recomendei? Quero
que consulte um dermatologista sobre isso. Bob King  um bom especialista. Fica no prdio ao lado. Aqui est o telefone dele. Conhece-o?

Julius assentiu com a cabea.

- Ele pode queimar as manchas mais aparentes com uma gota de nitrognio lquido. No ms passado, tirou vrias minhas.  rpido, s uns cinco a dez minutos. Muitos
clnicos tambm esto fazendo isso agora. H uma mancha nas suas costas que quero que ele examine: no d para voc ver, fica bem embaixo da omoplata direita. Parece
diferente das outras, tem pigmentao desigual e as bordas no so ntidas. No deve ser nada, mas  melhor ele ver. Certo, amigo?

"No deve ser nada, mas  melhor ele ver." Julius ouviu o tom tenso e foradamente informal na voz de Herb. Mas, sejamos francos, a frase "tem pigmentao desigual
e as bordas no so ntidas", dita de um mdico para outro, era alarmante. O cdigo para um provvel melanoma, e, pensando nisso depois, Julius marcou aquela frase,
aquele exato momento, como sendo o instante em que a vida despreocupada terminou e a morte, at ento sua inimiga invisvel, se materializou em toda a sua terrvel
realidade. A morte tinha chegado para ficar, no saiu mais do lado dele, e todos os horrores que se seguiram foram ps-escritos previsveis.
    10.

Anos antes, Boh King tinha sido paciente dele, como tambm muitos mdicos de San Francisco. Julius imperava na comunidade psiquitrica h trinta anos. Como professor
de psiquiatria na Universidade da Califrnia, tinha treinado levas de estudantes e, cinco anos antes, havia sido eleito presidente da Associao Americana de Psiquiatria.

A fama dele? De mdico dos mdicos. Terapeuta de ponta, um bruxo sagaz e disposto a fazer tudo para ajudar o paciente. Foi por isso que, dez anos antes, Bob King
o procurou para tratar seu velho vcio em Vicodan, a droga que viciava os mdicos porque era muito fcil de conseguir. Na poca, King estava com muitos problemas.
Tinha aumentado muito sua necessidade de consumir a droga, pois o casamento estava acabando, seu consultrio ia mal e ele precisava do remdio todas as noites para
dormir.

Bob King tentou se tratar, mas todas as portas se fecharam para ele. Os terapeutas que consultou insistiram para que fizesse um programa de recuperao para mdicos,
idia que ele no aceitou porque no queria comprometer sua privacidade freqentando grupos de terapia com colegas viciados. Os terapeutas no iam fazer nada. Se
tratassem um mdico viciado e em atividade, sem usar o programa oficial de recuperao, arriscavam-se a serem punidos pelo Conselho de Medicina ou processados (caso,
por exemplo, o paciente cometesse um erro mdico).

Como ltimo recurso antes de largar o consultrio e ir se tratar como annimo em outra cidade, Bob King procurou Julius, que aceitou o risco e confiou que conseguiria
largar o Vicodan. Embora a terapia tivesse sido difcil, como sempre  com viciados, Julius tratou o colega por trs anos, sem ajuda de um programa de recuperao.
E foi um daqueles segredos que todo psiquiatra guarda, um sucesso teraputico que no poderia de forma alguma ser discutido em congresso, nem publicado em livro
ou revista especializada.

Depois de sair do consultrio de Herb Katz, Julius sentou-se no carro. O corao batia to forte que o carro parecia balanar. Respirou fundo para dominar seu medo
crescente, tomou flego outra vez e mais outra, abriu o celular e, com mos trmulas, pediu uma consulta urgente com Bob King.

 - No gostei - disse Bob na manh seguinte, enquanto examinava as costas de Julius com uma grande lupa redonda de aumento. - Pegue a lupa, quero que voc veja,
podemos olhar em dois espelhos.
    11

Bob ps Julius ao lado do espelho de parede e colocou um grande espelho manual junto  mancha. Julius olhou o dermatologista pelo espelho: era loiro, de rosto corado,
culos grossos sobre o nariz comprido e imponente. Lembrou de Bob contando que, na infncia, as outras crianas o provocavam chamando-o de "nariz de pepino". Ele
no havia mudado muito em dez anos. Parecia ansioso como na poca em que foi paciente de Julius - agitado, chegando sempre alguns minutos atrasado. Julius lembrava
sempre da frase do Coelho, de Alice no pas das maravilhas. "Estou atrasado, atrasado para um encontro importante", quando Bob entrava correndo em seu consultrio.
Tinha engordado, mas continuava mido. Parecia mesmo um dermatologista. Algum conhece um dermatologista grande? Julius olhou para ele - oh, oh, eles pareciam apreensivos
-, as pupilas estavam bem dilatadas.

-  isso aqui. - Julius olhou pelo espelho enquanto Bob mostrava com uma caneta com ponta de borracha. - Esse sinal embaixo do ombro direito sob a omoplata. Est
vendo?

Julius concordou.

Segurando uma pequena rgua, ele continuou: - O dimetro  menor que um centmetro. Voc com certeza lembra da prtica lei ABCD de seu curso de dermatologia na faculdade
(...)

Julius interrompeu: - No lembro nada do curso de dermatologia na faculdade. Faa como se eu fosse idiota.

- Certo. ABCD. A de assimetria: olhe aqui - ele passou a caneta por cima da leso. - No  bem redonda, como todas as outras nas suas costas, veja essa aqui e essa
- disse, apontando para duas pequenas manchas prximas.

Julius tentou quebrar a tenso respirando fundo.

 - B de bordas, olha aqui, sei que est difcil ver. - Bob mostrou outra vez a leso subescapular. - Veja, a parte de cima tem a borda definida mas o centro no,
vai sumindo na pele. C de cor. Aqui, desse lado, veja que  marrom-claro. Se eu ampliar com a lupa, h um tom de vermelho, um pouco de preto, talvez at de cinza.
D  de dimetro, digamos, menos de dois centmetros.  de bom tamanho, mas no sabemos quanto tempo tem, isto , com que rapidez est crescendo. Herb Katz diz que
no havia mancha alguma quando examinou voc no ano passado.
    12.

Finalmente, se olharmos com a lupa, no h dvida, o centro est ulcerado.

Deixando o espelho de lado, ele pediu: - Vista a camisa.

Depois que Julius terminou de abotoar a camisa, Bob sentou-se no banquinho da sala de exame e comeou: - bom, Julius, voc conhece a literatura mdica sobre o tema.
O caso  preocupante, claro.

- Escute, Bob. Sei que nosso relacionamento anterior faz com que essa situao seja difcil para voc, mas, por favor, no me pea para fazer seu trabalho. No pense
que entendo alguma coisa disso. Lembre que estou apavorado, quase em pnico. Quero que voc assuma a situao, seja totalmente honesto comigo e cuide de mim. Exatamente
como fiz com voc. E, Bob, olhe para mim! Se voc evita me olhar como fez agora, fico assustado pra caralho.

- Certo, desculpe - olhou Julius de frente. - Voc cuidou muito bem de mim. vou fazer o mesmo. - Pigarreou: - Olha, na minha opinio,  um melanoma.

Percebendo que Julius titubeou, acrescentou: - Mas o diagnstico em si diz pouco. Lembre que a maioria dos melanomas, eu disse maioria,  facilmente tratvel, mas
alguns so foda. Precisamos saber umas coisas com o patologista:  um melanoma mesmo? Se for, qual a profundidade? Ele aumentou? O primeiro passo  a bipsia e uma
amostra do tecido para o patologista.

- Assim que terminarmos, vou chamar um cirurgio-geral para extirpar a leso. vou ficar ao lado dele. A seguir, o patologista far o exame de uma parte congelada
e, se o resultado for negativo, timo, paramos a. Se der positivo e for um melanoma, removemos o ndulo mais suspeito e, se necessrio, fazemos uma resseco mltipla
do ndulo. No  preciso hospitalizao, tudo  feito no centro cirrgico. Tenho certeza de que no ser preciso enxerto de tecido e voc perde no mximo um dia
de trabalho. Mas vai sentir alguns dias de desconforto no local da cirurgia. No h mais o que dizer, at sabermos o resultado da bipsia. Como voc pediu, vou cuidar
de voc. Confie na minha avaliao, j tratei centenas de casos. Certo? Minha enfermeira liga mais tarde para voc dando todos os detalhes de hora, local e cuidados
preparatrios. Certo?

Julius concordou. Os dois se levantaram.
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- Desculpe, gostaria de lhe poupar de tudo isso, mas no posso

- disse Bob, entregando um folheto. - Sei que voc no quer, mas sempre dou mais informaes para pacientes nessa situao. Alguns se sentem seguros, outros preferem
no saber e jogam fora o folheto quando saem do consultrio. Depende da pessoa. Espero que aps a cirurgia eu possa dizer algo mais animador.

Mas no houve nada mais animador; as notcias posteriores foram piores ainda. Trs dias aps a bipsia, eles se encontraram outra vez. - Quer ler isso? - perguntou
Bob, com o diagnstico final do patologista. Como Julius no quis, Bob deu uma olhada no papel outra vez e disse: - Certo, vamos deixar isso de lado. Preciso dizer
que a notcia no  boa.  um melanoma com diversas, como dizer, caractersticas notveis:  profundo, cerca de quatro milmetros, ulcerado e com cinco ndulos positivos.

- O que isso significa? Vamos, Bob, no fique dando voltas. "Notveis", quatro milmetros, ulcerado, cinco ndulos? Seja claro, fale como se eu fosse um leigo.

- Significa m notcia.  um melanoma de tamanho considervel e se espalhou pelos ndulos. O perigo  se espalhar mais, o que s saberemos depois da tomografia computadorizada
que marquei para voc fazer amanh, s oito.

Dois dias depois, continuaram a conversa. Bob informou que a tomografia deu negativo, no havia prova de que o melanoma tivesse se espalhado por outra parte do corpo.
Essa foi a primeira boa notcia.

- Mesmo assim, Julius, esse melanoma  grave.

- Grave a que ponto? Do que estamos falando? Qual  o ndice de sobrevivncia? - perguntou Julius, com a voz falha.

- Voc sabe que s podemos responder em termos de estatsticas. Cada pessoa  diferente. Mas para um melanoma ulcerado, de quatro milmetros de profundidade, cinco
ndulos, as estatsticas mostram uma sobrevida de menos de vinte e cinco por cento.

Julius ficou vrios minutos com a cabea cada, o corao batendo pesado, lgrimas nos olhos, antes de pedir: - Pode continuar. Voc est sendo objetivo. Preciso
saber o que dizer aos meus pacientes. Como a doena vai progredir? O que vai acontecer?

-  impossvel precisar, pois nada mais vai lhe acontecer at o melanoma aparecer em outra parte do corpo. Se isso ocorrer,
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principalmente se houver metstase, o processo pode ser rpido, talvez de semanas ou meses. Quanto aos seus pacientes,  duro dizer, mas seria razovel pensar que
voc vai ter um ano de sade. Julius assentiu lentamente, de cabea baixa.

- Onde est sua famlia, Julius? Voc no devia ter vindo aqui com algum ?

- Acho que voc sabe que minha mulher faleceu h dez anos. Meu filho mora na Costa Leste e minha filha, em Santa Brbara. Ainda no contei nada, achei que no valia
a pena atrapalhar a vida deles sem necessidade. De todo jeito, sou de curtir as tristezas sozinho, mas tenho certeza de que minha filha vir na mesma hora em que
eu contar.

- Julius, lastimo ser obrigado a dizer tudo isso. Quero terminar com uma pequena notcia boa. H muita pesquisa sendo feita, talvez uma dzia de laboratrios de
pesquisa muito eficientes trabalhando, aqui e no exterior. Por motivos desconhecidos, nos ltimos dez anos a incidncia de melanomas aumentou, quase dobrou, por
isso h muita pesquisa nessa rea. Deve aparecer logo uma cura.

Julius passou a semana seguinte num torpor. A filha, Evelyn, professora de Humanidades, cancelou as aulas e veio imediatamente passar vrios dias com ele. Julius
conversou muito com ela, com o filho, com a irm, o irmo e os amigos ntimos. Passou a acordar assustado s trs da manh, gritando e com falta de ar. Cancelou
por duas semanas as consultas de pacientes individuais e do grupo de terapia e passou horas pensando como e quando dar a notcia para eles.

O espelho lhe dizia que ele no parecia um homem que tinha chegado ao fim da vida. Seus nove quilmetros dirios de corrida mantiveram o corpo jovem e elstico,
sem nenhuma gordura. Havia rugas em volta dos olhos e da boca, no muitas; o pai dele morreu sem nenhuma. Tinha olhos verdes, dos quais sempre se orgulhou. Olhos
firmes e sinceros, nos quais se podia confiar e que conseguiam encarar qualquer pessoa. Olhos jovens, do Julius de dezesseis anos. O homem que ia morrer e o rapaz
de dezesseis se viram no espelho dcadas afora.

Olhou a boca. Lbios polpudos e simpticos que, mesmo naquele momento de desespero, estavam prontos a dar um sorriso caloroso. A cabea era coberta de cabelos negros
e rebeldes, ficando grisalhos s nas laterais. Quando era adolescente no Bronx, o velho barbeiro anti-semita
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de cabelos grisalhos e cara vermelha, que ficava entre a loja de balas de Meyer e o aougue de Morris, xingava os cabelos rebeldes quando os puxava com
um pente de ao e cortava-os rente. E agora Meyer, Morris e o barbeiro estavam mortos e o jovem Julius de dezesseis anos estava na lista de chamada da morte.

Uma tarde tentou controlar um pouco o problema lendo a literatura sobre melanoma na biblioteca da Faculdade de Medicina, mas no adiantou, foi intil. Mais que intil:
fez com que as coisas ficassem mais horrendas. Quando percebeu o verdadeiro horror que era sua doena, passou a pensar no melanoma como um animal voraz, cravando
garras negras na carne dele. Incrvel pensar que, de repente, ele no era mais a forma superior da vida. Ao contrrio, era um hospedeiro, era comida, alimento para
um organismo com clulas devoradoras que se multiplicavam com enorme rapidez, um organismo que atacava e anexava os protoplasmas prximos e que naquele momento estava
preparando bandos de clulas para entrarem na corrente sangnea e invadirem rgos distantes, talvez seu silencioso e destrutvel fgado, ou seus esponjosos e labirnticos
pulmes.

Julius deixou de lado a leitura. Mais de uma semana tinha se passado e precisava ir em frente. Ver o que estava realmente acontecendo. - Sente-se, Julius - ordenou
para si mesmo. - Sente-se e pense na morte. - Fechou os olhos.

Quer dizer que a morte finalmente entrou em cena, pensou ele. Mas no foi uma entrada banal: as cortinas foram abertas por um dermatologista gorducho, com nariz
de pepino, lupa na mo e jaleco branco de hospital, com o nome bordado em letras manuscritas azulescuras no bolso do peito.

E a cena final, como seria? Tinha toda a possibilidade de ser banal tambm. O figurino dele seria o amassado pijama listrado dos New York Yankees, com o nmero cinco
do jogador DiMaggio nas costas. O cenrio? A mesma cama grande na qual ele dormia h trinta anos, roupas empilhadas na cadeira ao lado e, na mesa de cabeceira, um
monte de romances que ignoravam que jamais seriam lidos. Um final frustrante, choramingas. Certamente, pensou, a gloriosa aventura de sua vida merecia algo mais
(...) mais (...) mais o qu?

Lembrou de uma cena que viu alguns meses antes, nas frias passadas no Hava. Ao dar uma caminhada, chegou por acaso num grande
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centro de meditao budista e viu uma jovem andando num labirinto circular feito com pequenas pedras de lava. Ao chegar ao centro do labirinto, a jovem parou e ficou
meditando em p. A reao imediata de Julius a esse tipo de ritual religioso no era muito complacente; costumava ficar entre a zombaria e a repulsa.

Mas agora, ao pensar na jovem meditando, sentiu algo mais terno, uma onda de compaixo por ela e por todos os demais humanos que eram vtimas daquela excntrica
virada de evoluo que permite ter conscincia de si mesmo, mas no as ferramentas psicolgicas necessrias para lidar com a dor da existncia transitria. E assim,
por anos, sculos e milnios afora, construmos sem parar negaes paliativas da finitude. Ser que ns, ser que algum de ns, jamais cessar de buscar um poder
superior no qual possamos nos fundir e existir para sempre, parar de querer manuais de instrues dados por um Deus, de querer um desgnio maior, de buscar rituais
e cerimnias?

Apesar disso, considerando que seu nome estava na lista de morte, Julius pensou que uma cerimnia discreta no seria m idia. Afastou a idia como se queimasse,
j que a vida inteira ele foi profundamente contra rituais. Sempre detestou as formas que as religies usam para tirar a razo e a liberdade de seus seguidores:
os trajes cerimoniais, o incenso, os livros sagrados, os cantos gregorianos com seu som hipnotizante, os cilindros de orao dos budistas, os tapetes para ajoelhar,
os mantos e solidus, as mitras e os bastes dos bispos, as hstias e os vinhos bentos, as extrema-unes, as cabeas batendo e os corpos balanando no ritmo de
velhas cantilenas. Ele considerava tudo aquilo a parafernlia da mais poderosa e duradoura vigarice, que fortalecia os lderes e satisfazia o desejo de submisso
da comunidade.

Mas naquela hora, com a morte ao lado, Julius notou que sua veemncia perdeu a fora. Talvez no gostasse apenas do ritual imposto. Talvez fosse possvel elogiar
uma cerimnia discreta e criativa. Ficou sensibilizado com a cena que os jornais descreveram dos bombeiros no local do atentado ao World Trade Center em Nova York,
todos de p, tirando os capacetes em homenagem aos mortos,  medida que os corpos eram trazidos  superfcie. No tinha nada de errado em honrar os mortos, no,
os mortos no, mas a vida daqueles que morreram. Ou seria algo mais do que homenagear, mais do que santificar? O gesto, o ritual dos bombeiros, tambm no tinha
um sentido de
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ligao? Reconhecendo que estavam ligados, que formavam uma unidade com cada uma das vtimas?

Dias aps a fatdica consulta com o dermatologista, Julius sentiu um sabor de ligao ao encontrar seu grupo de apoio formado por colegas mdicos. Todos ficaram
pasmos quando ele contou do melanoma. Depois de incentiv-lo a falar, cada um demonstrou seu choque e tristeza. Julius no conseguiu dizer mais nada, nem ningum.
Por duas vezes, algum comeou a falar e parou, depois foi como se o grupo concordasse tacitamente que as palavras eram desnecessrias. Nos vinte minutos finais,
ficaram todos em silncio. Esses silncios prolongados em grupo costumam ser estranhos, mas aquele foi diferente, quase consolador. Julius no conseguia admitir,
ainda que para si mesmo, que o silncio parecia sagrado. Mais tarde, achou que as pessoas estavam demonstrando no s tristeza, mas tambm tirando seus capacetes,
atentos, participando e homenageando a vida dele.

E talvez aquela fosse uma forma de homenagear a vida deles mesmos, pensou Julius. O que mais temos? O que mais seno aquele abenoado e milagroso intervalo de ser
e estar consciente? Se algo deve ser homenageado e abenoado, deveria ser apenas isso, a incalculvel ddiva do mero existir. Viver desesperado porque a vida acaba
ou porque no tem outra finalidade maior ou desgnio intrnseco  pura ingratido. Pensar num criador onisciente e dedicar a vida a um ajoelhar-se sem-fim parece
sem sentido. Alm de um desperdcio: por que dar todo esse amor a um fantasma, quando h to pouco amor em volta da Terra? Melhor aceitar a soluo de Einstein e
Spinoza: apenas inclinar a cabea e bater no chapu para as elegantes leis e mistrios da natureza, mas tratar de viver.

Essas idias no eram novas para Julius. Ele sempre soube da finitude e da evanescncia da conscincia. Mas h saber e saber. E a morte em cena fez com que ficasse
mais prximo de realmente saber. No que tivesse ficado mais sbio, mas a falta de outras coisas - ambio, desejo de sexo, dinheiro, prestgio, aplauso, popularidade
- proporcionava uma viso mais pura. No foi esse desprendimento a verdade pregada por Buda? Talvez fosse, mas ele preferia o caminho dos gregos: tudo pela moderao.
Grande parte da graa da vida se perde se nunca tiramos nossos mecanismos de proteo e partilhamos da alegria. Por que correr para a porta de sada antes da hora
de fechar?
    18.

Alguns dias depois, quando se sentiu mais calmo, com menos ondas de pnico, passou a pensar no futuro. Bob King tinha dito: "Um ano, seria razovel pensar em pelo
menos um ano de boa sade". Mas como passar esse ano? Julius decidiu que o jeito era no deixar que aquele nico ano ficasse ruim por ser apenas um.

Certa noite, sem conseguir dormir e precisando se animar um pouco, foi mexer nos livros da biblioteca. No encontrou nada na sua rea que pudesse, mesmo remotamente,
aliviar a situao, nada que dissesse como uma pessoa deveria viver, ou encontrar sentido nos dias de vida que ainda lhe restam. Viu ento um exemplar bastante manuseado
de Assim falou Zaratustra, de Nietzsche. Conhecia bem aquele livro: dcadas antes, ele o tinha estudado muito quando escrevia um artigo sobre a grande, mas no reconhecida,
influncia de Nietzsche sobre Freud. Achava Zaratustra um livro corajoso, que, mais que qualquer outro, ensina como reverenciar e celebrar a vida. Sim, podia ser
a resposta. Ansioso demais para ler com mtodo, percorreu as pginas aleatoriamente e leu algumas linhas que estavam sublinhadas.

"Mudar" foi assim para "eu quis assim"  o que chamo de redeno.

Entendeu que as palavras de Nietzsche significavam que era preciso escolher sua vida - ele tinha que usufru-la em vez de ser "usufrudo" por ela. Em outras palavras,
tinha que amar seu destino. E, acima de tudo, havia a pergunta que Zaratustra sempre fazia - se gostaramos de repetir a mesma vida eternamente. Uma idia curiosa
e, quanto mais Julius pensava nela, mais seguro se sentia: a mensagem de Nietzsche para ns era viver de forma a querer a mesma vida sempre.

Continuou folheando as pginas e parou em dois trechos bem sublinhados por tinta rosa. "Complete sua vida." "Morra na hora certa."

Isso mesmo. Viva o melhor possvel e, s ento, morra. No deixe nada por viver. Julius costumava comparar as idias de Nietzsche a um teste de Rorschach, pois tinham
tantos pontos de vista opostos que a concluso dependia de quem lesse - ou, no teste, de quem olhasse. Naquele instante, leu de uma forma bem diferente. A presena
da morte incitava a uma leitura diferente e mais ampla: pgina ps pgina, ele percebeu uma ligao pantesta que no tinha visto antes. Por mais que Zaratustra
exaltasse, at glonficasse a solido, por mais que exigisse o isolamento para poder pensar, ainda assim estava preocupado
    19

em amar e exaltar os outros, em ajud-los a se aperfeioar e se exceder, em compartilhar com eles sua maturidade. Compartilhar sua maturidade - isso era com ele,
pensou Julius.

Colocou o livro de volta na estante, sentou-se no escuro e ficou olhando o farol dos carros que atravessavam a ponte Golden Gate, pensando nas palavras de Nietzsche.
Aps alguns minutos, conseguiu: descobrir o que fazer e como passar seu ltimo ano de vida. Iria viver exatamente do mesmo jeito que o ano anterior e o antes do
anterior. Gostava de ser terapeuta, gostava de se ligar a outras pessoas e ajudar a trazer algo  vida. Talvez seu trabalho fosse uma sublimao da ligao que tinha
com a mulher. Talvez (*)ele precisasse do aplauso, da ratificao e da gratido daqueles a quem ajudava. Mesmo assim, mesmo se houvesse motivos latentes, ele estava
grato pela funo que tinha. Abenoada seja ela!

Julius foi at a parede de arquivos, abriu uma gaveta cheia de fichas e de transcries de sesses gravadas com pacientes h anos. Olhou os nomes: cada ficha era
um monumento a um pungente drama humano que um dia se desenrolou naquela mesma sala. Enquanto olhava as fichas, a maior parte dos rostos veio imediatamente  sua
memria. Alguns rostos sumiram, mas, aps ler poucos pargrafos das anotaes, tambm voltavam. Outros foram realmente esquecidos, rostos e histrias perdidos para
sempre.

Como a maioria dos terapeutas, Julius tinha dificuldade em lidar com os repetidos ataques ao campo da terapia. Os ataques vinham de vrias direes: de empresas
farmacuticas e de seguros de sade que financiavam pesquisas superficiais para provar a eficcia das drogas e das terapias mais curtas. Ataques dos meios de comunicao,
que no se cansavam de ridicularizar os terapeutas. Dos behavioristas. Dos milhares de palestrantes sobre motivao; das hordas de curandeiros e de seitas da Nova
Era, todos competindo para ganhar quem tem algum problema. E, claro, havia dvidas que vinham da prpria medicina, como as suscitadas pelas incrveis descobertas
neurobiolgicas sobre molculas, relatadas com freqncia cada vez maior e fazendo at os terapeutas mais experientes questionarem a importncia de seu trabalho.

Julius no era imune a esses ataques e muitas vezes duvidava da eficcia do tratamento que oferecia. E com a mesma freqncia, se acalmava.
    20

Claro que ele era um psicanalista eficiente. Claro que ele oferecia algo de valor para a maioria dos pacientes, talvez at para todos.

Mas a dvida continuava: "Ser que voc foi realmente, verdadeiramente, til para seus pacientes? Talvez s tenha ajudado os que iam melhorar de qualquer jeito."

No. Errado! No fui eu que aceitei os maiores desafios?

Argh, agora chega! Qual foi a ltima vez que voc realmente se esforou, que chegou a um flagrante limite no tratamento? Ou enfrentou um caso de esquizofrenia grave
ou um paciente de comportamento bipolar?

Continuou a mexer em velhas fichas e surpreendeu-se com a quantidade de informao ps-terapia que tinha, obtidas atravs de eventuais contatos depois da anlise
terminada, consultas de reciclagem, encontros casuais com ex-pacientes ou recados trazidos por novos pacientes, indicados por antigos. Mesmo assim, ser que ele
fez uma grande diferena para aquelas pessoas? Talvez os resultados fossem evanescentes. Talvez muitos de seus pacientes bem-sucedidos tivessem tido uma recada
e no lhe contaram por pura bondade.

Tinha conscincia de seus fracassos tambm com as pessoas que no estavam preparadas para seu avanado estilo de tratamento. "Espera a, Julius", pensou ele. "Como
sabe que foram realmente fracassos? Fracassos para sempre? (*) Voc nunca mais viu os pacientes. Todo mundo sabe que muita gente amadurece tarde."

Bateu os olhos na pilha de fichas de Philip Slate. Por falar em fracasso, pensou ele, esse foi um. Fracasso antigo e de bom tamanho. Philip Slate. Foi h mais de
vinte anos, mas a imagem dele continuava ntida. Os cabelos castanhos-claros penteados para trs, o nariz fino e elegante, as mas salientes que davam um toque
de nobreza ao rosto e aqueles agitados olhos verdes que lembravam o mar do Caribe. Pensou em quanto detestava tudo nas sesses com Philip. Exceto uma coisa: o prazer
de olhar aquele rosto.

Philip Slate era to alienado de si mesmo que nunca pensou em olhar para dentro, preferindo surfar na superfcie da vida e dedicar toda a sua energia ao sexo. Graas
 sua bela estampa, no lhe faltavam parceiras. Julius balanou a cabea ao passar os olhos pela ficha de Philip: trs anos de tratamento, todo aquele envolvimento,
apoio e afeto, todas aquelas interpretaes sem uma gota de progresso. Incrvel! Talvez ele no fosse o psicanalista que achava que era.
    21

Bom, no tire concluses, pensou. Por que Philip faria um tratamento por trs anos, se no recebesse nada em troca? Por que continuaria a gastar todo aquele dinheiro
por nada? E Deus sabe que Philip detestava gastar dinheiro. Talvez as sesses tivessem mudado Philip. Talvez ele fosse uma pessoa que amadurece tarde, um daqueles
pacientes que precisam de tempo para digerir o alimento dado pelo analista, daqueles que guardam a boa comida do terapeuta e levam para casa, como um cachorro que
guarda o osso para roer depois, sozinho. Julius teve pacientes to competitivos que escondiam as melhoras s para no darem ao terapeuta a satisfao (e o poder)
de t-los ajudado.

Depois que pensou em Philip Slate, Julius no conseguiu mais tir-lo da cabea. Era como se Philip tivesse cavado um buraco e se enraizado l dentro. Exatamente
igual ao melanoma. Seu fracasso com Philip se transformou no smbolo de todos os seus fracassos na terapia. O caso de Philip Slate tinha algo peculiar. De onde ele
tirava toda aquela fora? Olhou a ficha e leu a primeira anotao, feita vinte e cinco anos antes.

PHILIP SLATE - 11 de dezembro de 1980

Vinte e seis anos, solteiro, branco, qumico, trabalha na DuPont - cria novas frmulas de pesticidas -, muito bonito, veste-se em estilo casual mas sofisticado,
formal, senta-se reto, poucos gestos, no demonstra sentimentos, srio, ausncia de humor, no ri nem sorri, s negcios, nenhuma relao social relatada. Recomendado
pelo clnico dele, Dr. Wood.

MAIOR QUEIXA: "Sou dominado, contra minha vontade, por impulsos sexuais".

Por que resolveu se tratar agora? Gota d'agua foi h uma semana, fato relatado como se fosse decorado.

Cheguei de avio a Chicago para uma reunio de trabalho, sa no saguo do aeroporto, procurei o telefone mais prximo e consultei minha lista de mulheres na cidade
com quem pudesse fazer sexo naquela noite. Estava sem sorte! Todas tinham compromisso. Claro: era sexta-feira  tarde. Eu sabia que ia a Chicago, podia ter ligado
antes, at semanas antes. Depois de falar com o ltimo nome da agenda, desliguei e pensei: "Que timo, assim posso ler e dormir bem, que era o que realmente queria
fazer".
    22.

Paciente diz que ficou assustado a semana toda com essa frase, essa contradio: "O que realmente queria fazer", que  o motivo especfico para procurar tratamento.
" o que quero ver na terapia", ele diz. "Dr. Hertzfeld, se o que realmente quero  ler e dormir bem, por que no posso, no consigo fazer isso?"

Aos poucos, Julius se lembrou de mais detalhes da anlise de Philip Slate. Tinha ficado intelectualmente intrigado com o paciente. Na poca da primeira consulta,
Julius estava escrevendo um artigo sobre anlise e vontade, e a pergunta de Philip - "Por que no consigo fazer o que realmente quero?" - era uma tima abertura
para o texto. Alm do mais, lembrou-se da incrvel imutabilidade de Philip: aps trs anos de tratamento, parecia no ter sido afetado, nem mudar nada. E estava
mais dominado pelo sexo do que nunca.

Que fim teria levado Philip Slate? No teve mais notcia desde que o paciente interrompeu de repente o tratamento, h vinte e dois anos. Mais uma vez, Julius se
perguntou se, sem saber, ele teria sido til a Philip. Subitamente, precisou saber aquilo, parecia uma questo de vida ou morte. Pegou o telefone e discou "auxlio
 lista".
    23

*** 2

xtase no ato da cpula.  isso! Essa  a verdadeira essncia e cerne de tudo, a meta e a finalidade de
toda a existncia.
- Al,  Philip Slate?

- Pois no,  ele.

- Aqui quem fala  o Dr. Hertzfeld. Julius Hertzfeld.

- Julius Hertzfeld?

- Uma voz do seu passado.

- Passado distante. Perodo plistoceno. Julius Hertzfeld. Incrvel, deve ter quantos anos? No mnimo, vinte. E a que devo o telefonema?

- Bem, Philip, estou ligando por causa de pagamento. Acho que voc ficou devendo a nossa ltima sesso.

- Como? A ltima sesso? Mas tenho certeza de que (...)

-  brincadeira, Philip. Desculpe, h coisas que no mudam, o velho aqui continua animado e desreprimido. Agora vou falar srio. Para resumir, estou ligando porque
estou com problemas de sade e pensando em me aposentar. Enquanto amadurecia essa idia, fui tendo uma necessidade irresistvel de encontrar alguns ex-pacientes,
s para acompanhar o caso, satisfazer minha curiosidade. Posso explicar melhor depois, se voc quiser. Ento, pergunto:
"Poderia me encontrar? Conversar durante
uma hora? Rever nosso tratamento e dizer o que voc tem feito?
    24

Ser interessante para mim e vai me ajudar. Quem sabe? Talvez seja para voc tambm."

- Hum, uma hora. Por que no? Suponho que sem cobrar?

- No, a no ser que voc queira me cobrar, Philip, estou pedindo o seu tempo. Pode ser no final desta semana? Digamos, na sexta  tarde?

- Sexta? timo. Combinado. Dou-lhe uma hora, s treze. No precisa pagar, mas desta vez vamos nos encontrar no meu consultrio. Estou na Union Street, 431. Perto
da Franklin. Procure o nmero do consultrio no quadro da portaria, estou em Dr. Slate. Agora tambm sou terapeuta.

Julius teve um arrepio ao desligar o telefone. Girou a cadeira e esticou o pescoo para dar uma olhada na ponte Golden Gate. Depois daquela ligao, precisava ver
alguma coisa bonita. E sentir um pouco de calor nas mos. Encheu de fumo Balkan Sobranie seu cachimbo de espuma do mar, acendeu o fsforo e tragou.

Ah, que delcia, pensou Julius, aquele sabor clido de terra no fumo da Latakia, aquele cheiro delicioso de mel no tinha igual no mundo. Difcil acreditar que no
fumava h tantos anos. Entrou num devaneio e pensou no dia em que parou de fumar. Devia ter sido logo depois daquela consulta ao dentista, seu vizinho de consultrio,
o velho Dr. Denboer, que morreu h vinte anos. Vinte anos, ser possvel? Julius ainda era capaz de ver muito bem a cara comprida de holands e os culos de aro
dourado. O velho Dr. Denboer estava embaixo da terra h vinte anos. E ele, Julius, continuava em cima. Por enquanto.

 - Essa bolha no cu da boca parece algum problema. Vamos precisar de uma bipsia - disse o Dr. Denboer, balanando de leve a cabea. E, embora o resultado da bipsia
fosse negativo, chamou a ateno de Julius porque na mesma semana foi ao enterro de Al, seu velho parceiro de tnis, tabagista, morto de cncer do pulmo. Influiu
tambm o fato de estar lendo Freud, vida e morte, de Max Schur, mdico de Freud, que contava como o cncer, causado por fumar charuto, devorou aos poucos o palato,
a mandbula e, finalmente, a vida de Freud. O mdico prometeu ajudar Freud a morrer quando fosse a hora e, no dia em que Freud finalmente disse que estava com tanta
dor que no fazia mais sentido continuar vivendo, Schur mostrou ter palavra.
    25

Aplicou uma dose fatal de morfina. Isso  que  mdico. Hoje, aonde se vai achar um Dr. Schur?

Mais de vinte anos sem fumar e tambm sem comer ovos, queijos ou gorduras animais. Abstinncia com sade e alegria. At o dia daquele maldito exame clnico. Agora,
podia tudo: fumar, tomar sorvete, comer costeleta de porco, ovos, queijo, tudo. Que diferena fazia? Que diferena fazia qualquer coisa? Dentro de um ano Julius
Hertzfeld estaria enterrado, as molculas dispersas,  espera da prxima tarefa. E mais cedo ou mais tarde, em alguns milhes de anos, todo o sistema solar estaria
acabado.

Sentindo que a cortina do desespero estava comeando a baixar, Julius passou a pensar no telefonema para Philip Slate. Philip, terapeuta? Como era possvel? Lembrava
dele como um homem frio, insensvel, indiferente aos outros. A julgar pelo telefonema, continuava o mesmo. Julius segurou o cachimbo e balanou a cabea em silenciosa
surpresa, enquanto abria a ficha de Philip e continuava lendo as anotaes transcritas da primeira sesso.

PROBLEMA ATUAL: Dominado pelo sexo desde os 13 anos - masturbao compulsiva da adolescncia at hoje (s vezes, quatro a cinco vezes por dia), obcecado por sexo,
masturba-se para se acalmar. Passou maior parte da vida fixado em sexo: "O tempo que gastei correndo atrs de mulheres, poderia ter feito um doutorado em filosofia,
chins em dialeto mandarim e astrofsica".

RELACIONAMENTOS: Solitrio. Mora com cachorro em casa pequena. Sem amigos homens. Nenhum. Nem contato com conhecidos do passado, do colgio, da faculdade, do doutorado.
Muito isolado. Jamais teve relacionamento duradouro com mulher. Evita relaes que durem (prefere sair uma noite s). s vezes chega a ver uma mulher durante um
ms - em geral, a mulher rompe, porque quer mais dele ou se irrita por estar sendo usada ou porque ele encontra outras. Deseja novidade (gosta da caada sexual),
mas nunca se sacia. s vezes, quando viaja, atrai uma mulher, faz sexo, se livra dela e uma hora depois sai do hotel  caa, outra vez. Mantm registro das parceiras
que teve; nos ltimos doze meses fez sexo com noventa mulheres. Diz tudo isso sem qualquer emoo - nem vergonha, nem vantagem.
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Fica ansioso se no tem um encontro  noite. Sexo costuma fazer o efeito de um Valium. Depois do sexo, fica calmo o resto da noite e pode
ler tranqilo. Sem atividades ou fantasias homossexuais.

COMO  UMA NOITE TPICA? Sai cedo, atrai uma mulher num bar, vai para a cama (prefere antes de jantar), livra-se da mulher o mais rpido que pode -; se possvel,
sem ter que lhe pagar jantar, mas em geral acaba sendo obrigado. Importante ter maior tempo para ler antes de dormir. No assiste tev, no vai ao cinema, no tem
vida social, no pratica esporte. nico lazer  ler e ouvir msica clssica. Leitor voraz dos clssicos, histria e filosofia; nada de fico, nada atual. Queria
falar nos filsofos Zeno e Aristarco, seus
atuais interesses.

PASSADO: Nasceu em Connecticut, filho nico, classe mdia alta. Pai banqueiro que se suicidou quando Philip tinha 13 anos. No sabe das circunstncias ou dos motivos
do suicdio, vaga idia de que o pai piorou com as crticas contnuas da me. Amnsia da infncia - lembra pouco dos primeiros anos e nada do enterro do pai. Me
casou-se de novo quando ele tinha 24 anos. Solitrio na escola, estudioso fantico, nunca teve amigos prximos e depois que entrou para Yale, aos 17 anos, afastou-se
da famlia. Fala com a me pelo telefone uma ou duas vezes por ano. No conhece o padrasto.

TRABALHO: Qumico de sucesso - criou novos pesticidas  base de hormnios, para a DuPont. Trabalha das 8 s 17 horas, sem grande interesse pela rea. De uns tempos
para c tem se entediado. Mantm-se informado das pesquisas em sua rea, mas s dentro do horrio de trabalho. Alto salrio e possui aes de valor na bolsa de valores.
Retentivo, gosta de verificar as aplicaes e controlar os investimentos, almoa sempre sozinho, estudando o movimento das bolsas.

IMPRESSO: Esquizide, compulsivo sexual - muito distante / no olhou para mim / impresso de nada pessoal entre ns -, no demonstra relacionamentos pessoais. Respondeu
 pergunta sobre
    27

que impresso teve de mim com cara de surpresa, como se eu estivesse falando catalo ou suali. Parecia irritado e fiquei pouco  vontade com ele. Sem qualquer senso
de humor. Nada. Muito inteligente, articulado, mas de poucas palavras - me faz trabalhar duro. Muito preocupado com o preo do tratamento (embora possa pagar com
folga). Pediu abatimento no preo, recusei. Pareceu insatisfeito por eu comear com um pouco de atraso; perguntou logo se podia compensar o atraso no final da sesso
para no ter prejuzo. Perguntou duas vezes com que antecedncia tinha de cancelar uma sesso para no precisar pagar.

Fechando a pasta, Julius pensou: "Agora, vinte e cinco anos depois, Philip  terapeuta. Existe algum no mundo menos adequado para esse trabalho? Ele parece o mesmo:
sem senso de humor, preocupado com dinheiro (vai ver que eu no devia fazer aquela brincadeira da falta de pagamento). Terapeuta sem senso de humor? E uma pessoa
to fria. E aquela exigncia de marcar o encontro no consultrio dele." Julius teve outro arrepio.
    28

*** 3

A vida  uma coisa miservel. Decidi passar a vida pensando nisso.

A Union Street estava ensolarada e animada. O tilintar dos talheres e o som alegre de conversa de almoo vinha das mesas apertadas dos restaurantes na calada (Prego,
Beetlenut, Exotic Pizza e Perry's). Bales azuis e vermelhos amarrados nos parqumetros avisavam da liquidao de fim de semana na calada. Enquanto ia para o consultrio
de Philip, Julius mal olhou as pessoas almoando, nem as barracas com pilhas de roupas de grife do vero. Tambm no olhou nenhuma de suas vitrinas preferidas, a
loja de mveis japoneses antigos Morita e a loja tibetana Asian Treasures, com o alegre telhado colorido do sculo XVIII mostrando uma incrvel mulher guerreira,
que ele jamais deixava de admirar quando passava por l.

Tambm no pensou em morte. As dvidas em relao a Philip Slate fizeram com que no pensasse naquelas coisas inquietantes. Primeiro, a dvida em relao  prpria
memria, como conseguiu lembrar de Philip com tanta clareza. Onde ficaram escondidos o rosto, o nome e a histria de Philip durante todos aqueles anos? Era difcil
acreditar que a lembrana de toda a sua relao com Philip era um processo neuroqumico localizado em algum ponto do crtex cerebral. Era provvel que o paciente
estivesse numa intricada rede "Philip"
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de neurnios conectados que, quando acionados pelos neurotransmissores certos, entravam em ao e projetavam uma imagem de Philip numa tela em seu crtex visual.
Achou incrvel pensar que tinha um pequenssimo rob protecionista dentro do crebro.

Mais intrigante ainda era o enigma de querer encontrar Philip. De todos os pacientes antigos, por que escolheu aquele para levantar todo o seu arquivo de memria?
Seria apenas por que o tratamento foi to malsucedido? Certamente, era mais que isso. Afinal, havia muitos outros pacientes que ele no tinha conseguido ajudar.
Mas quase todos os rostos e nomes dos fracassos tinham sumido sem deixar vestgio. Talvez porque a maioria dos fracassos tivesse largado o tratamento logo. Philip
era um fracasso incomum, que tinha insistido. Puxa, como insistiu! Em trs frustrantes anos, nunca faltou a uma sesso. Nunca chegou atrasado um minuto, era caro
demais para desperdiar. At que um dia, sem qualquer aviso prvio, anunciou de forma simples e definitiva, no final da sesso, que aquela era a ltima.

Mesmo quando Philip interrompeu a anlise, Julius ainda o considerou tratvel, mas sempre achou que todo mundo era. Por que fracassou? Philip tinha a inteno de
resolver seus problemas, era desafiador, inteligente, com cabea para pensar. Embora Julius raramente aceitasse um paciente do qual no gostasse, no havia nada
de
pessoal em no gostar de Philip: ningum gostava. Bastava lembrar que nunca teve amigos.

Embora pudesse no gostar de Philip,adorava o enigma intelectual que ele representava. Sua maior reclamao ("Por que no posso fazer o que realmente quero?") era
um timo exemplo de paralisia da vontade. E o tratamento podia no ter sido til, porm foi muito bom para os textos de Julius, teve muitas idias a partir das sesses,
usadas em seu festejado artigo O terapeuta e a vontade, e em seu livro Desejar, querer e agir. Achou de repente que talvez tivesse explorado Philip. Talvez naquele
momento, de posse de um senso maior de ligao, pudesse se redimir, pudesse conseguir o que no pde antes.

O nmero 431 da Union Street era um modesto prdio de esquina, dois andares, de tijolos aparentes. No saguo, Julius viu o nome afixado na parede: "Philip Slate,
Ph.D., Orientao Filosfica". Orientao filosfica? Que diabo seria aquilo? Daqui a pouco, Julius ironizou, teremos barbeiros oferecendo terapia "tonsorial" e
verdureiros
    30

anunciando aconselhamento "verdurial" e "legumial". Subiu a escada e tocou a campainha.

Uma cigarra soou enquanto a tranca da porta se abria com um clique e Julius entrou numa saleta de espera de paredes nuas, com apenas uma poltrona de dois lugares
de vinil preto pouco convidativa. Philip estava na porta do consultrio propriamente dito e, sem se aproximar, fez sinal para Julius entrar. No estendeu a mo para
cumprimentar.

Julius comparou Philip com a imagem que tinha na memria. Combinava bastante. No havia mudado muito nos ltimos vinte e cinco anos, exceto por algumas rugas em
volta dos olhos e uma certa flacidez no pescoo. Os cabelos castanhos-claros continuavam penteados para trs, os olhos verdes ainda eram profundos, ainda arredios.
Julius lembrava que raras vezes seus olhos haviam encontrado os de Phihp em todos aqueles anos juntos. Philip lembrava um daqueles colegas muito arrogantes, que
ficavam sem tomar notas na aula, enquanto ele e todos os demais queriam pegar tudo que pudesse aparecer depois, numa prova.

Ao entrar no consultrio, Julius pensou em fazer graa com aqueles mveis espartanos: uma mesa gasta e atulhada de coisas, duas cadeiras descombinadas, com cara
de desconfortveis, uma parede enfeitada s com um diploma. Mas pensou melhor, sentou-se empertigado na cadeira que Philip mostrou e aguardou o seu comando.

 - Bom, quanto tempo. Muito tempo - Philip falava com voz formal, profissional, e no demonstrou nervosismo em liderar a entrevista e assim trocar de papel com seu
antigo terapeuta.

- Vinte e dois anos. Consultei meus arquivos.

- E qual o motivo para me procurar, Dr. Hertzfeld?

- Quer dizer que no vamos bater um papinho antes? - perguntou Julius, ao mesmo tempo que pensou "no, esquea!", lembrando que Philip no tinha senso de humor.

Philip parecia no ter se perturbado. - Essa  uma tcnica elementar de entrevistas, Dr. Hertzfeld. O senhor sabe como . Dar as coordenadas. J marcamos dia e local
(alis, minha sesso  de sessenta minutos, no os cinqenta habituais) e o preo, no caso, a ausncia de cobrana. Assim, o prximo passo  a meta. Estou tentando
me colocar  sua disposio, Dr. Hertzfeld, para que a sesso seja a mais eficiente possvel para o senhor.
    31

- Certo, Philip. Agradeo. A pergunta que voc fez, "por que agora?",  sempre boa, uso sempre. Foca a sesso. Vai direto ao assunto. Como falei pelo telefone, estou
com problemas de sade, graves, por isso tive vontade de ver e avaliar meu trabalho com os pacientes. Talvez seja a idade, a hora de fazer um balano de vida. Acho
que, quando voc tiver sessenta e cinco anos, vai entender.

- Quanto a balano de vida, tenho de acreditar no que voc diz. No entendi direito o motivo para querer me ver ou a qualquer de seus pacientes, nem tenho interesse
nisso. Meus clientes me pagam uma quantia e eu lhes dou minha orientao especializada. Nossa troca termina a. Quando terminamos, eles sentem que valeu o preo,
eu sinto que fiz o melhor que pude. Nem me passa pela cabea v-los algum dia, no futuro. Mas estou  sua disposio. Por onde comear?

Julius no costumava se alongar nas entrevistas. Era um de seus pontos fortes; as pessoas achavam que ele acertava direto. Mas, naquele dia, obrigou-se a ir devagar.
Estava pasmo com o jeito brusco de Philip, mas no foi l para lhe dar conselho. Queria apenas a verso honesta do trabalho que fizeram juntos e quanto menos Julius
comentasse de seu estado psicolgico, melhor. Se Philip soubesse do desespero, da busca de sentido, da necessidade que Julius estava sentindo de ter tido algum papel
duradouro na vida do outro, poderia, sem ser por pena, dizer exatamente o que Julius queria ouvir. Ou talvez, devido ao seu esprito antagonista, Philip podia fazer
exatamente o inverso.

 - Bom, comeo agradecendo a boa vontade em aceitar me ver. O que quero , primeiro, sua opinio sobre o nosso trabalho conjunto, como ajudou voc ou no. Segundo
- e esse  um pedido mais difcil -, gostaria muito de ter um resumo de sua vida desde a ltima vez em que nos encontramos. Gosto de saber o final das histrias.

Se ficou surpreso com o pedido, Philip no demonstrou. Calouse alguns minutos, de olhos fechados, apoiando as mos na ponta dos dedos. Numa voz cuidadosamente medida,
comeou: - A histria ainda no est no final; na verdade, minha vida mudou tanto nos ltimos anos que  como se estivesse comeando agora. Mas vou fazer uma cronologia
a partir da terapia. Garanto logo que a terapia foi um fracasso absoluto. Uma perda de tempo e de dinheiro. Acho que
    32

cumpri meu papel como paciente. Pelo que me lembro, cooperei bastante, trabalhei duro, no faltei s consultas, paguei, lembrei dos sonhos, segui tudo o que voc
disse. Concorda?

- Se concordo que voc foi um paciente participante? Totalmente. Diria at mais, foi dedicado.

Olhando para o teto outra vez, Philip concordou e prosseguiu: - Pelo que me lembro, eu o vi durante trs anos inteiros. E grande parte desse tempo, duas vezes por
semana. So muitas horas, pelo menos duas mil. Cerca de vinte mil dlares.

Julius quase reagiu. Toda vez que um paciente dizia uma coisa daquelas, o reflexo dele era acrescentar: "um buraco no bolso". E depois mostrar que os temas tratados
na anlise tinham dificultado a vida do paciente durante tanto tempo que no podiam mudar de uma hora para outra. Costumava dar tambm um dado pessoal: que sua anlise
didtica tinha sido cinco vezes por semana, durante trs anos, somando mais de sete mil horas. Mas Philip, naquele momento, no era paciente dele e Julius no estava
l para convenc-lo de nada. Estava para ouvir. Mordeu o lbio em silncio.

Philip prosseguiu. - Quando comecei o tratamento com voc, eu estava no fundo do poo, na sarjeta, seria mais exato. Trabalhando como qumico e criando novas formas
de matar insetos, entediado com a profisso, entediado com a vida e com tudo mais, exceto com a leitura de filosofia e a reflexo sobre os grandes enigmas da histria.
Mas procurei-o por causa de meu comportamento sexual. Lembra disso, no  mesmo?

Julius concordou.

- Eu estava descontrolado. S queria sexo. Estava obcecado. Insacivel. Tremo de pensar na vida que levava. Queria seduzir o maior nmero possvel de mulheres. Aps
o coito, a compulso dava uma breve trgua, mas logo o desejo voltava.

Julius reprimiu um sorriso por Philip usar a palavra coito e pensou no estranho paradoxo de ele mergulhar na carne, mas evitar qualquer palavro.

- Era s nesse curto perodo logo aps o coito que eu conseguia viver plena e harmoniosamente, quando conseguia me conectar com os grandes pensadores do passado.

 - Lembro de voc com os filsofos Aristarco e Zeno.
    33

Sim, esses e muitos outros desde ento, mas as trguas, os espaos no-compulsivos eram curtos demais. Agora estou livre. Agora estou num plano superior o tempo
todo. Mas vou continuar recapitulando minha anlise com voc. No  essa a funo principal? Julius concordou.

- Lembro de ter ficado muito apegado  nossa anlise. Tornou-se outra compulso, mas infelizmente no substituiu a sexual, apenas coexistiu com ela. Lembro de esperar
cada sesso com ansiedade e terminar desapontado.  difcil lembrar muita coisa do que fizemos, acho que tentamos compreender minha compulso a partir da minha histria
de vida. Entender, sempre tentvamos entender. Mas todas as solues me pareciam suspeitas. Nenhuma tese era bem argumentada ou bem estruturada e, pior, nenhuma
teve o menor efeito sobre minha compulso.

- E era uma compulso. Eu sabia que era. E que precisava parar com aquilo. Demorei, mas acabei concluindo que voc no sabia como me ajudar e perdi a confiana em
nosso trabalho conjunto. Lembro que gastou um tempo enorme explorando meus relacionamentos com os outros e principalmente com voc. Isso nunca fez sentido para mim.
No fazia na poca. Continua no fazendo. com o tempo, ficou doloroso encontrar com voc, doloroso ficar explorando nosso relacionamento como se ele fosse real ou
duradouro ou qualquer outra coisa, menos o que realmente era: a compra de um servio.

Philip parou e olhou para Julius com as mos espalmadas para cima, como quem diz: "Voc perguntou, a est a resposta".

Julius estava pasmo. Uma voz, que no parecia ser dele, disse: - Perfeito, timo. Obrigado, Philip. Agora, o resto de sua histria. O que fez desde ento?

Philip juntou a palma das mos, encostou o queixo nos dedos, olhou para o teto para se concentrar e continuou: - bom, vejamos. vou comear pela rea do trabalho.
Minha capacidade de criar agentes hormonais para impedir a reproduo de insetos foi tima para a empresa e meu salrio foi subindo. Mas eu estava muito entediado
com a qumica. Ento, aos trinta anos, venceu um dos seguros que meu pai fez em meu nome. Foi a ddiva da liberdade. Eu tinha como me sustentar por vrios anos,
ento cancelei as assinaturas de publicaes sobre qumica, larguei o trabalho e passei a dar ateno ao que eu realmente queria na vida: ter cultura.
    34

- Eu continuava mal, ansioso, obcecado por sexo. Tentei outros analistas, mas nenhum conseguiu me ajudar mais do que voc. Um deles, que tinha estudado com Jung,
disse que eu precisava mais do que psicanlise. Disse que, para um viciado como eu, a maior esperana de libertao estava na converso espiritual. Essa sugesto
me levou  filosofia da religio, principalmente as idias e costumes do Extremo Oriente, os nicos que faziam algum sentido. Todos os demais sistemas religiosos
no conseguiam abordar as questes filosficas fundamentais e usavam Deus para evitar a verdadeira anlise filosfica. Cheguei a passar algumas semanas em centros
de meditao. Foi interessante. No aplacou minha obsesso, mas tive a impresso de que ali havia alguma coisa interessante. S que eu ainda no estava preparado
para ela.

- Enquanto isso, exceto pelo perodo de castidade forada no ashram, no centro de meditao, consegui descobrir algumas portas corredias, e continuei a caada sexual.
Como sempre, fiz sexo com muitas mulheres, s dzias, s centenas. s vezes, duas por dia, em qualquer lugar, a qualquer hora que conseguisse uma, exatamente como
quando estava me tratando com voc. Sexo uma vez, s vezes duas com a mesma mulher, depois passava adiante. Aps a primeira vez, nunca era excitante; voc deve conhecer
o velho ditado que diz: S se pode ter sexo pela primeira vez, com a mesma garota, uma vez. Philip tirou as mos do queixo e virou-se para Julius.

- Esse ditado era para fazer graa, Dr. Hertzfeld. Lembro que voc uma vez disse que era interessante que eu, em todas as horas em que estivemos juntos, jamais contei
uma piada.

Julius, que naquele momento no estava com qualquer disposio para bobagens, forou-se a sorrir, embora sabendo que foi ele quem contou aquela piada para Philip.
Pensou em Philip como sendo um grande boneco mecnico com uma chave para dar corda no alto da cabea. Estava na hora de dar corda outra vez. - E ento, o que aconteceu?

Olhando para o teto, Philip continuou: - Ento, um dia tomei uma deciso. J que nenhum terapeuta tinha conseguido me ajudar e, desculpe, inclusive voc, Dr. Hertzfeld.

 - J entendi isso - interrompeu Julius e acrescentou, rpido: - Voc no precisa se desculpar. Est apenas respondendo as minhas perguntas com sinceridade.
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- Desculpe, no tive a inteno. Continuando: como a terapia no tinha me dado uma resposta, resolvi me curar, fazer uma biblioterapia, um tratamento atravs dos
livros, assimilando o pensamento dos maiores sbios que j existiram. Assim, comecei a ler filosofia com mtodo, desde os pr-socrticos at Popper, Rawls e Quine.
Aps um ano de estudo, minha compulso sexual no tinha melhorado, mas cheguei a algumas concluses importantes: estava no caminho certo e a filosofia era o meu
negcio. Esse foi um grande passo; lembro de termos comentado que eu no me sentia  vontade em lugar algum.

Julius concordou: - , tambm me lembro disso.

- Resolvi que, como eu ia passar anos lendo filosofia, podia transformar aquilo numa profisso. Meu dinheiro no ia durar eternamente. Ento, fiz mestrado em filosofia,
na Columbia. Fui bem, defendi bem minha tese e cinco anos depois fiz o doutorado. Passei a dar aulas e, h dois anos, me interessei em aplicar a filosofia ou, como
prefiro chamar, me interessei pela filosofia clnica. E c estou.

- Voc no terminou de contar sobre a cura.

 - Bom, na Columbia, nas minhas leituras, conheci um psicanalista, o analista perfeito que me deu o que ningum conseguiu.

- Ele  de Nova York, no? Como se chama? Na Columbia mesmo? Pertence a que sociedade psicanaltica?

- Ele se chama Arthur - Philip parou e ficou olhando Julius com um meio sorriso.

- Arthur?

- Arthur Schopenhauer, meu terapeuta.

- Schopenhauer? Voc est brincando comigo, Philip.

- Nunca fui to srio.

- Conheo pouco Schopenhauer, s os clichs sobre seu enorme pessimismo. Nunca ouvi o nome dele citado no contexto da terapia. Como ele conseguiu ajudar voc? O
qu?

- Detesto ter que interromper, Dr. Hertzfeld, mas tenho um cliente chegando e at hoje no consigo me atrasar para um compromisso, isso no mudou. Por favor, me
d seu carto de visitas. Numa outra ocasio conto mais sobre ele, o terapeuta feito para mim. No exagero ao dizer que devo a vida ao gnio de Arthur Schopenhauer.
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*** 4

Talento  quando um atirador atinge um alvo que
Os outros no conseguem. Gnio  quando um atirador atinge
Um alvo que os outros no vem.

4.

1787 - O Gnio:
comeo dificil e falso inicio .

Comeo dificil: o gnio tinha apenas dez centimetros de comprimento quando houve a tempestade. Em setembro de 1787, o mar amnitico que o envolvia se encapelou,
jogando-o de um lado para outro e ameaando a fragil ligao com     a praia uterina. A agua do mar recendia a raiva e o medo. Ele foi invadido pelos amargos cidos
da nostalgia e do desespero. Acabaram-se para sempre os suaves e doces dias flutuando. Sem ter para onde ir e sem esperana de sossego, seus pequenos impulsos neurais
dilataram-se e espocara em todas as direes.

O que se aprende quando pequeno, aprende-se melhor. Arthur Schopenhauer nunca esqueceu suas primeiras lies.

Falso incio, ou como Arthur Schopenhauer quase foi ingls: - Arthurrr. Arthurrr. Arthurrr - Heinrich Florio
Schopenhauer; escandia cada letra. Arthur era um excelente
nome para o futuro chefe da importante empresa comercial Schopenhauer.
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Era o ano de 1787 e Johanna, a jovem esposa de Heinrich, estava grvida de dois meses quando ele resolveu: se o filho fosse menino, ia se chamar Arthur. Homem honrado,
Heinrich no permitia que nada viesse antes do dever. Exatamente como seus antepassados entregaram-lhe a direo da grande casa comercial Schopenhauer, ele a passaria
para o descendente. Os tempos estavam difceis, mas Heinrich tinha certeza de que seu futuro filho iria dirigir a empresa rumo ao sculo XIX. Arthur era um nome
perfeito para o cargo. Escrevia-se igual nas maiores lnguas europias, passaria com facilidade por todas as fronteiras do pas. Mas, acima de tudo, era um nome
ingls!

Durante sculos, os antepassados de Heinrich comandaram os negcios com grande eficincia e sucesso. O av hospedou Catarina, a Grande, da Rssia e, para garantir
seu conforto, mandou jogar conhaque no piso de todos os aposentos da hspede e atear fogo para que ficassem secos e perfumados. O pai de Heinrich recebeu a visita
de Frederico, rei da Prssia, que passou horas tentando inutilmente convenc-lo a mudar a empresa de Danzig, na Polnia, para a Prssia. A direo da grande casa
comercial estava agora com Heinrich, que garantia que um Schopenhauer com o nome de Arthur levaria a empresa a um brilhante futuro.

A Schopenhauer vendia gros, madeira e caf, e era, h muitos anos, uma das maiores empresas de Danzig, a respeitvel cidade integrante da Liga Hansetica que dominava
o comrcio no Mar Bltico. Mas os maus tempos tinham chegado  grande cidade livre. com a Prssia ameaando pelo lado oeste, a Rssia pelo leste e a Polnia fraca,
incapaz de continuar garantindo a soberania da cidade, Heinrich tinha certeza de que os tempos de liberdade e estabilidade comercial de Danzig estavam perto do fim.
A Europa estava imersa em distrbios polticos e financeiros, com exceo da Inglaterra. A Inglaterra era o rochedo. Era o futuro. A empresa e a famlia Schopenhauer
teriam um porto seguro na Inglaterra. Mais que um porto seguro, a empresa iria prosperar se seu futuro dirigente fosse nascido l e tivesse nome ingls. Herr Arthurrr
Schopenhauer, ou melhor, Mister Arthurrr Schopenhauer, um ingls capitaneando a empresa, era essa a senda para o futuro.

Assim, sem dar ouvidos aos protestos da esposa grvida, que era quase uma adolescente e implorava para ter o primeiro filho na
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presena tranqilizante da me, Heinrich partiu com ela a reboque, na longa viagem rumo  Inglaterra. A jovem Johanna ficou consternada, mas teve de obedecer  vontade
irredutvel do marido. Depois se instalaram em Londres, ela retomou seu temperamento extrovertido e seu encanto logo conquistou a sociedade. Escreveu em seu dirio
de viagem que recebeu muito apoio dos novos e simpticos amigos ingleses e que logo se sentiu cheia de atenes.
Ateno e carinho demais para o casmurro Heinrich, cujo cime logo se transformou em pnico. Nervoso, sentindo uma tenso que Darecia prestes a arrebentar no peito,
ele tinha de fazer alguma coisa. Ento, saiu de Londres num rompante, levando a esposa grvida de quase seis meses de volta a Danzig, num dos invernos mais rigorosos
do sculo. Anos depois, Johanna escreveu como se sentiu ao ser arrancada de Londres: "Ningum me ajudou, tive de vencer o sofrimento sozinha. O homem me arrastou
por metade da Europa para conseguir controlar a prpria inquietao."

Esse, portanto, foi o tempestuoso ambiente da gestao do gnio: um casamento sem afeto, uma me assustada e revoltada, um pai ansioso e ciumento, duas rduas viagens
pela Europa no inverno.
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*** 5

Uma vida feliz  impossvel. O mximo que se pode ter  uma vida herica.

Julius saiu atordoado do consultrio de Philip. Desceu a escada apoiado no corrimo, trpego, e cambaleou ao sair na luminosidade do dia. Ficou em frente ao prdio,
sem saber se virava  esquerda ou  direita. A liberdade de uma tarde sem compromissos trouxe confuso em vez de alegria. Julius sempre foi uma pessoa ocupada. Quando
no estava atendendo pacientes, tinha projetos e atividades (escrever, dar aulas, jogar tnis, pesquisar) exigindo sua ateno. Mas, naquele dia, nada parecia importante.
Ele desconfiava de que nada jamais teve importncia, sua cabea deu importncia a coisas e depois, esperta, apagou os rastros. Naquele dia, ele enxergou atravs
do emaranhado de uma vida. No tinha nada importante para fazer  e caminhou lentamente, sem rumo, pela Union Street.

Quase no fim da rea de escritrios depois da Fillmore Street, uma velha se aproximou, empurrando ruidosamente um andador. - Puxa, que figura!- pensou Julius. Virou
o rosto para o lado, depois olhou para trs para avaliar. As roupas da mulher (vrios suteres sob um enorme casaco) no eram para um dia quente como aquele. A
mulher tinha cara de esquilo e mexia a boca sem parar, certamente para segurar a dentadura. Mas o pior era aquela bola de carne numa
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das narinas, uma verruga rosada e transparente do tamanho de uma uva, com vrios plos duros e compridos.

- Velha idiota - pensou novamente Julius, e acrescentou rpido: - No deve ser mais velha que eu. Na verdade, ela sou eu amanh, com a verruga, o andador, a cadeira
de rodas. - Ao se aproximar dela, ouviu-a resmungar: - Vamos ver o que tem nessas lojas a na frente. O que deve ter? O que vou achar l?

- Senhora, no tenho a menor idia, estou dando uma volta por aqui - gritou Julius para ela.

- No estava falando com voc.

- No h mais ningum por perto.

- Isso no significa que eu esteja falando com voc.

- Se no era comigo, era com quem ? - Julius colocou as mos em concha na testa e fingiu procurar para cima e para baixo na rua vazia.

- Isso  da sua conta? Malditos malucos de rua - resmungou a mulher, batendo o andador no cho e seguindo.

Julius teve um calafrio. Olhou em volta para garantir que ningum tinha visto a cena. "Puxa", pensou, "perdi as estribeiras; que merda eu estava fazendo? Ainda bem
que no tenho pacientes esta tarde. Sem dvida, ver Philip Slate no me fez bem."

Virou-se na direo do inebriante cheiro de caf da Starbucks e resolveu que uma hora com Philip dava direito a um expresso duplo. Sentou-se numa cadeira  janela
e ficou assistindo s pessoas passando na calada. Nenhum velho  vista, nem dentro, nem fora do caf. com sessenta e cinco anos, ele era a pessoa mais velha por
ali, o mais velho dos velhos, envelhecendo ainda mais por dentro,  medida que o melanoma continuava sua silenciosa invaso.

Duas balconistas ousadas flertavam com alguns fregueses da loja. Eram aquelas garotas que jamais olhavam para o lado dele, jamais flertaram com ele quando jovem,
nem trocaram olhares depois que envelheceu. Era hora de ver que sua vez jamais chegaria, que aquelas garotas casadoiras e peitudas, com cara de Branca de Neve, jamais
chegariam para ele com um sorriso tmido e perguntariam: "U, voc no tem aparecido aqui. Como vo as coisas?" Isso no iria acontecer. A vida era bem linear e
irreversvel.

Chega. Chega de ter pena de si mesmo. Ele sabia o que dizer aos queixosos: trate de olhar para fora, de sair de dentro de voc. Sim, era
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esse o jeito: descobrir como transformar aquela merda em ouro. Por que no escrever sobre o tema? Talvez em estilo de dirio ou blog. Depois, algo mais visvel (o
qu, por exemplo?), talvez um artigo no Journal of the American Psychiatric Association, sobre O psiquiatra frente  morte. Ou algo comercial para o suplemento dominical
do New York Times. Podia ser. Por que no um livro? Qualquer coisa como Autobiografia de uma morte. Nada mal! s vezes, quando o ttulo  forte, o livro vai se escrevendo
sozinho. Pediu um expresso, pegou a caneta e desdobrou um saco de papel que achou no cho. Comeou a rabiscar, a boca num meio sorriso, pensando na origem humilde
de seu grande livro.

Sexta-feira, 2 de novembro de 1990, 16 dias aps o DDM (Dia da Descoberta da Morte)

Sem qualquer dvida, procurar Philip Slate foi uma m idia. M idia achar que poderia conseguir alguma coisa dele. M idia encontrar com ele. Nunca mais. Philip,
terapeuta? Inacreditvel, um terapeuta sem empatia, sem sensibilidade, sem afeto. Falei ao telefone que estava com problemas de sade e que esse era, em parte, o
motivo para querer encontr-lo. E ele nem perguntou o que eu tinha. Sequer um aperto de mo. Frio. Desumano. Ficou a vinte passos de mim. Durante trs anos trabalhei
 bea por aquele sujeito. Dei tudo a ele. O melhor que eu tinha. Filho da puta ingrato.

Ah, sim, sei o que ele diria. Consigo at ouvir aquela voz precisa e sem alma: - Ns fizemos uma transao comercial: eu dei dinheiro e voc deu seus servios especializados.
Paguei por cada hora de consulta. A transao terminou. Estamos quites, no lhe devo nada.

Ele ento acrescentaria: - Devo menos que nada, Dr. Hertzfeld, pois o senhor ficou com o melhor da nossa troca. Recebeu o pagamento completo, enquanto eu no recebi
nada.

O pior  que ele tem razo. No me deve nada. Costumo brincar dizendo que a psicanlise  uma vida a servio. Servio feito com amor. No tenho nenhum saldo com
ele. Por que esperar retribuio? De todo jeito, seja o que for que eu esteja querendo, ele no tem para dar.

"No tem para dar", quantas vezes eu disse isso aos meus pacientes, referindo-me a maridos, mulheres, pais e mes. Mesmo
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assim, no posso largar Philip, esse homem inexorvel, empedernido, egosta. Ser que fao uma ode  obrigao que os pacientes tm com seus terapeutas anos depois?

E por que tanto interesse? Por que, dentre todos os meus pacientes, escolhi falar com ele? Continuo sem saber. Achei uma pista na minha pasta de anotaes: procurei-o
por achar que estava falando com meu fantasma quando jovem. Talvez haja mais de um vestgio de Philip em mim, o eu que nos meus dez, vinte, trinta anos ficou escondido
pelos hormnios. Achei que sabia o que ele ia fazer, achei que tinha uma pista para cur-lo. Por isso insisti tanto? Por que dei mais ateno e mais energia a ele
do que a quase todos os meus pacientes juntos? Em todo consultrio de terapeuta, h sempre um paciente que consome uma quantidade enorme de energia e ateno. Para
mim, Philip foi esse paciente durante trs anos.

Naquela tarde, Julius voltou para uma casa escura e fria. O filho, Larry, tinha passado o fim de semana com ele, mas foi embora na segunda-feira de manh para Baltimore,
onde fazia pesquisa neurobiolgica no Hospital Johns Hopkins. Julius quase ficou aliviado com a sada do filho, pois o olhar angustiado e os esforos carinhosos,
porm desajeitados, para confort-lo deram mais tristeza do que serenidade. Julius pegou o telefone, comeou a ligar para Marty, um dos colegas no grupo de apoio,
mas estava muito desanimado. Colocou o fone no gancho e ligou o computador para copiar as anotaes feitas no saco amassado da Starbucks. Uma notcia o saudou na
tela: "Voc tem um e-mail" e, para sua surpresa, a mensagem era de Philip. Leu, rpido:

No final de nossa conversa hoje, voc perguntou sobre Schopenhauer e como a filosofia dele me ajudou. Tambm deu a entender que gostaria de saber mais sobre ele.
Talvez seja do seu interesse minha palestra no Coastal College, na prxima segundafeira, s 19 horas. (Sala Toyon, na Fulton Street, 340.) Estou ministrando um curso
sobre filsofos europeus e na segunda-feira farei uma breve exposio sobre Schopenhauer (tenho que cobrir dois mil anos em doze semanas). Quem sabe podemos conversar
um pouco aps a palestra. Philip Slate

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Na mesma hora, Julius respondeu: "Obrigado. Estarei l". Abriu a agenda na segunda-feira seguinte e escreveu a lpis: "Sala Toyon, Fulton Street, 340, 19 horas".

s segundas-feiras, Julius atendia um grupo de terapia das quatro e meia s seis horas. Mais cedo, nesse dia, ficou pensando se contava ao grupo da doena. Tinha
resolvido adiar a notcia para os pacientes individuais at se reequilibrar, mas o grupo colocava um problema diferente: os participantes costumavam falar nele,
era bem possvel que algum notasse uma mudana de comportamento e comentasse.

Mas as preocupaes foram infundadas. O grupo aceitou a desculpa do resfriado para ele cancelar as duas sesses anteriores e passou a tratar das duas ltimas semanas
na vida de cada um. Stuart, um pediatra baixo e atarracado, que parecia sempre distrado como se estivesse com pressa para atender o prximo paciente, parecia oprimido
e pediu para falar. Foi um pedido totalmente fora do comum; em um ano de grupo, Stuart raramente pediu ajuda. Tinha entrado no grupo por presso da mulher, que lhe
enviou um e-mail dizendo que, se no fizesse uma terapia e mudasse muito, ia larg-lo. Disse tambm que mandava uma mensagem eletrnica porque ele dava mais ateno
ao contato por computador do que a qualquer coisa dita diretamente. Na semana anterior, a mulher tinha radicalizado saindo do quarto do casal, e grande parte da
sesso foi passada ajudando Stuart a avaliar seus sentimentos naquela situao.

Julius gostava muito do grupo. Muitas vezes ficava impressionado com a coragem das pessoas quando assumiam novas atitudes e grandes riscos. Aquela sesso tambm
foi assim. Todos apoiaram Stuart por mostrar que estava vulnervel, e a sesso passou rpido. No final, Julius estava bem melhor. Ficou to preso ao tema da sesso
que, por uma hora e meia, esqueceu o prprio desespero. Isso era comum acontecer. Todo terapeuta de grupo sabe das grandes propriedades curativas de um grupo. Muitas
e muitas vezes, Julius tinha entrado numa sesso inquieto e sado bem melhor, embora sem ter,  claro, tocado em nenhum problema prprio.

Mal teve tempo para um jantar rpido no We Be Sushi, que ficava perto do consultrio. Ia sempre l e, ao sentar-se, foi saudado pelo chefe dossushi-men, Mark. Quando
no estava acompanhado, preferia
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ficar no balco, pois, como todos os seus pacientes, no se sentia  vontade sozinho numa mesa de restaurante.

Julius pediu o de sempre: rohnhos Califrnia, enguia no vapor e um sortido de maki vegetariano. Gostava muito de sushi, mas evitava peixe cru por medo de parasitas.
Aquela altura, toda aquela batalha contra invasores externos parecia piada! No final, que ironia, o problema seria interno. Foda-se. Julius jogou os cuidados para
o alto e pediu um ahi sushi para o surpreso chef.  Comeu com grande prazer, antes de correr para a Sala Toyon e seu primeiro encontro com Arthur Schopenhauer.
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*** 6

A slida base de nossa viso do mundo e tambm o
grau de sua profundidade so formados na infncia. Essa viso  depois elaborada e aperfeioada, mas, na essncia, no se altera.

MAME  E  PAPAI  SCHOPENHAUER

- Zu HAUSE

Que tipo de pessoa era Heinrich Schopenhauer? Duro, rgido, reprimido, inflexvel, orgulhoso. Conta-se que em 1783, cinco anos antes do nascimento de Arthur, a cidade
de Danzig foi bloqueada pelos prussianos e havia pouca comida e forragem para os animais. Os Schopenhauer foram obrigados a aceitar que um general inimigo se instalasse
na casa de campo deles. Como retribuio, o oficial prussiano ofereceu a Heinrich o privilgio de receber forragem para os cavalos. Mas ele respondeu: - Minhas cocheiras
tm bastante forragem, e quando acabar a comida dos cavalos, mando mat-los.

E como era Johanna, a me de Arthur? Romntica, gentil, criativa, alegre, coquete. Embora toda a Danzig de 1787 achasse a unio de Heinrich e Johanna um grande acontecimento,
na realidade foi um trgico desencontro. A famlia dela, os Troiseners, era de origem modesta e sempre admirou os arrogantes Schopenhauer. Assim, quando Heinrich,
aos trinta e oito anos, passou a cortejar Johanna, de dezessete, os pais ficaram muito satisfeitos e Johanna aceitou a escolha deles.
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Ser que Joana achava seu casamento um erro? Leia o que escreveu anos depois, quando dava conselhos para moas sobre casamento: "Toda moa que pensa em se casar,
fica atrada pelo esplendor, a distino e o ttulo obtidos atravs dos laos matrimoniais (...) um erro que ter por conseqncia um duro castigo pelo resto da
vida".

"Um duro castigo pelo resto da vida" - duras palavras da me de Arthur. Em seus dirios, ela confidenciou que antes de ser cortejada por Heinrich, teve um jovem
amor que o destino afastou e ela ento, resignada, aceitou a proposta de casamento de Heinrich. Ser que teve escolha?  bem provvel que no. Este tpico casamento
de convenincia do sculo XVIII foi acertado pelos pais dela, por questes de posse e posio social. Ser que havia amor? No se falou em amor entre Heinrich e
Johanna. Nunca. Mais tarde, em suas memrias, ela escreveu: "Eu no fingia amor ardente, nem ele exigia." Tambm no havia muito amor para outras pessoas na casa
- nem para o pequeno Arthur, nem para a irm Adele, nascida nove anos depois dele.

O amor dos pais gera amor pelos filhos. s vezes, ouve-se falar de pais que se amam tanto que consomem todo o amor disponvel na casa, deixando apenas cinzas de
carinho para os filhos. Mas esse modelo econmico, de amor zero, no faz muito sentido. O inverso parece verdadeiro: quanto mais se ama, mais isso se reflete nos
filhos e nos outros, de uma forma afetuosa.

A falta de amor na infncia teve graves implicaes no futuro de Arthur. As crianas que no recebem carinho materno costumam no se sentir seguras para gostarem
de si mesmas, para acreditarem que os outros vo gostar delas ou para gostarem de viver. Na idade adulta, tornam-se distantes, recolhidas em si mesmas, e tm uma
relao difcil com os outros. Foi esse o cenrio psicolgico que formou a viso do mundo de Arthur.
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*** 7

Se olharmos a vida em seus pequenos detalhes, tudo parece bem ridculo.  como uma gota d'agua vista num microscpio, uma s gota cheia de protozorios. Achamos
muita graa como eles se agitam e lutam tanto entre si. Aqui, no curto perodo da vida humana, essa atividade febril produz um efeito cmico.

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Faltando cinco minutos para as dezenove horas, Julius bateu as cinzas de seu cachimbo de espuma e entrou na Sala Toyon. Sentou-se na quinta fila da direita e olhou
o auditrio: trinta fileiras a partir do estrado onde seria dada a palestra. A maioria dos duzentos lugares estava vazia; havia umas trinta poltronas quebradas e
isoladas com um plstico amarelo. Dois mendigos e suas colees de jornais se espalhavam pelas poltronas da ltima fila. Cerca de trinta poltronas estavam ocupadas
por alunos desleixados, espalhados pelo auditrio, com exceo das trs primeiras filas que continuavam vazias.

Exatamente como num grupo de terapia, pensou Julius, ningum quer sentar perto do orientador. At no seu grupo, naquela tarde, os lugares dos dois lados ficaram
vazios para os que chegassem atrasados, e ele brincou dizendo que ficar ao lado dele parecia ser um castigo pelo atraso. Julius pensou na terapia de grupo e seu
folclore a respeito de lugar na sala: as pessoas mais dependentes sentam  direita do orientador enquanto os mais paranicos ficam bem na frente dele. Mas, pela
sua experincia, a relutncia de sentar ao lado do orientador era a nica regra confirmada sempre.
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O mau estado e o estrago da Sala Toyon eram tpicos ao campus do Coastal College da Califrnia, que tinha comeado como escola de comrcio vespertina, depois se
ampliou e funcionou por pouco tempo como escola de administrao  tarde, e naquele momento estava em fase de decadncia. No caminho para a sala, passando pelo inspido
quarteiro de hotis, restaurantes e delegacias policiais, Julius quase no conseguiu diferenar os estudantes desleixados dos mendigos que moravam por l. Que professor
no se sentiria desmoralizado num lugar como aquele? Julius comeou a entender por que Philip queria mudar de profisso e trabalhar em consultrio.

Olhou o relgio. Sete horas em ponto e, pontualmente, Philip entrou na Sala, com uniforme profissional de calas caqui, camisa xadrez e jaqueta de veludo grosso,
com acabamento de couro nos cotovelos. Tirando as anotaes da palestra de uma pasta adequadamente gasta, e mal olhando a platia, comeou:

Este  um resumo da filosofia ocidental, palestra dezoito, sobre Arthur Schopenhauer. Hoje, vou fazer diferente e me aproximar de minha presa de forma mais indireta.
Se parecer sem mtodo, peo compreenso, prometo voltar logo ao assunto em pauta. Vamos comear falando sobre os grandes comeos da histria.

Philip deu uma olhada na platia buscando algum sinal de compreenso e, no encontrando, apontou para um estudante sentado mais perto dele e mostrou o quadro negro.
Depois, soletrou e definiu trs palavras e-r-r-a-d-i-o, c-o-m-p-r-e-e-n-s--o ed--b-u-t-s, que o aluno copiou no quadro. Quando o rapaz ia voltar para seu lugar,
Philip mostrou uma poltrona na primeira fila e mandou que ficasse l.

Quanto aos grandes comeos, fiquem tranqilos, vo entender aos poucos por que inicio a palestra assim. Imaginem Mozart encantando a corte imperial vienense ao tocar
espineta com perfeio, aos nove anos. Ou, se o nome de Mozart no lhes diz muita coisa (nesse ponto, um leve sorriso do palestrante), pensem em algo mais prximo
de vocs, os Beatles, aos dezenove anos, cantando suas msicas para o pblico de Liverpool.
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Outros incrveis comeos incluem o extraordinrio Johann Fichte. (Sinal para o estudante escrever
 F-i-c-h-t-e no quadro. Alguns de vocs lembram desse nome, da ltima palestra, quando discuti os grandes filsofos idealistas alemes que seguiram Kant no final
do sculo XIII e incio do XIX, Hegel, Schellmg e Fichte? Dentre esses, a vida e o comeo de Fichte foram os mais interessantes, pois ele era um pobre e analfabeto
pastor de gansos em Rammenau, pequena aldeia alem cuja nica fama eram os inspirados sermes do padre aos domingos.

Bem, certo domingo, um rico aristocrata chegou  aldeia muito atrasado para ouvir o sermo. Ficou do lado de fora da igreja, desapontado, at que um velho aldeo
se aproximou e disse para ele no se preocupar que o pastor de gansos, o jovem Johann, poderia repetir o sermo inteiro para ele. O aldeo chamou o menino que, realmente,
repetiu tudo, literalmente. O baro ficou to impressionado com a incrvel memria do menino que patrocinou a educao dele e conseguiu que freqentasse o Pforta,
famoso colgio interno onde mais tarde passaram muitos pensadores alemes famosos, inclusive o tema de nossa prxima palestra, Friedrich Nietzsche.

Johann teve excelente desempenho no colgio e depois na universidade, mas, quando seu mecenas morreu, no pde se sustentar e aceitou o emprego de tutor numa residncia.
Foi contratado para dar aulas a um jovem sobre a filosofia de Kant, que ele ainda no tinha lido. Logo se encantou com a obra do divino Kant (...)

Philip de repente olhou para suas anotaes e depois para a platia. No vendo qualquer sinal de interesse, perguntou, baixinho:

Ol, tem algum a na platia ? Kant, Emanuel Kant, Kant, lembram? (Fez sinal para o rapaz do quadro negro escrever  K- a - n - t.) Na semana passada, falamos nele
durante duas horas. Kant que, ao lado de Plato, forma a dupla de maiores filsofos do mundo. Garanto uma coisa: Kant ser tema no final. R-r, vejo sinais de vida
na platia, movimento, alguns olhos se abrindo. Uma caneta entrando em contato com o papel.

Ento, em que parte eu estava? Ah, sim. O pastor de gansos. A seguir, Fichte recebeu um convite para ser tutor particular em Varsvia, na Polnia,
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e, sem um tosto, foi a p at essa cidade. Chegando l, no conseguiu o emprego. Como estava a poucos quilmetros de Knigsberg, cidade natal
de Kant, resolveu conhecer o mestre em pessoa. Caminhou dois meses e, ousado, foi direto  casa de Kant, bateu na porta, mas no foi recebido. Kant era metdico
e no recebia estranhos. Na semana passada, contei para vocs a monotonia de seus horrios, to rgidos que os habitantes da cidade podiam acertar os relgios quando
o viam sair para a caminhada diria.

Fichte achou que no conseguiu falar com o filsofo porque no tinha cartas de recomendao, e resolveu escrever. Num ataque extraordinrio de energia criativa,
escreveu seu primeiro texto, o famoso Ensaio de uma crtica a toda a revelao, que usava a viso de Kant sobre a tica e o dever, conforme interpretados pela religio.
Kant ficou to impressionado com o texto que no s concordou em receber Fichte como incentivou a publicao do texto.

Devido a um estranho mal-entendido, talvez um golpe de marketing do editor, a Crtica saiu annima. Era um trabalho to brilhante que os crticos e os leitores pensaram
que fosse uma nova obra de Kant. O filsofo acabou tendo que fazer uma declarao pblica de que o autor daquele excelente texto no era ele, mas um jovem muito
talentoso chamado Fichte. O elogio de Kant garantiu o futuro de Fichte na filosofia, e um ano e meio depois ele foi convidado para dar aulas na Universidade de Jena.

- Isso - disse Philip, tirando os olhos de suas anotaes, absorto, e depois socando o ar numa esquisita demonstrao de entusiasmo -, isso  o que chamo um comeo!

Nenhum estudante olhou ou deu sinal de notar a breve e estranha demonstrao de entusiasmo. Se ele ficou frustrado com a falta de reao da platia, no demonstrou
e, sem se alterar, continuou:

Agora, pensem algo mais prximo de vocs: o comeo de grandes atletas. Quem pode esquecer de Chris Evert, Tracy Austin ou Michael Chang, que venceram campeonatos
profissionais de tnis aos quinze ou dezesseis anos? Ou os prodgios adolescentes do xadrez Bobby Fischer e Paul Morphy ? Ou Jos Raul Capablanca, que ganhou o campeonato
nacional de xadrez em Cuba aos onze anos?
    51.

Por fim, quero falar num comeo literrio, o mais brilhante de todos os tempos, de um rapaz de vinte e poucos anos que brilhou na literatura com um romance fantstico
(...)

Nesse ponto, Philip parou para fazer suspense e olhou para cima, o rosto brilhando de segurana. Tinha segurana do que fazia, isso era evidente. Julius olhou, sem
acreditar, O que Philip estava querendo? Que os alunos ficassem na beira das poltronas, trmulos de curiosidade, se perguntando quem era aquele prodgio literrio?

De sua poltrona na quinta fila, Julius virou a cabea para examinar a platia: os estudantes, olhos parados, jogados nas poltronas, rabiscavam ou olhavam jornais,
fazendo palavras- cruzadas. A esquerda dele, um aluno tinha se esticado sobre duas poltronas e dormia.  direita, no final da fila, um casal de alunos trocava um
longo beijo. Na fila bem na frente, um rapaz cutucava o outro e os dois olhavam de esguelha para o fundo da sala. Julius ficou curioso, mas no virou para ver o
que era, devia ser a saia de alguma mulher, e voltou sua ateno para Philip.

E quem foi esse prodgio? (Philip insistia .) Seu nome era Thomas Mann. Na idade de vocs, isso mesmo, na idade de vocs, comeou a escrever uma obra-prima, um
maravilhoso romance chamado Os Buddenbrooks, que publicou quando tinha apenas vinte e seis anos. Thomas Mann, que espero que vocs conheam, tornou-se uma das
maiores figuras do mundo literrio no sculo XX tendo ganho o Nobel da Literatura (Nesseponto, soletrou M-a-n-n e B-u-d-d-e-nb-r-o-o-k-s para seu escnba no quadro
negro.) Lanado em 1901, o livro conta a vida de quatro geraes de uma famlia alem burguesa e todas as suas vicissitudes.

E o que isso tem a ver com filosofia e com o tema da palestra de hoje? Conforme prometi, sa um pouco do tema central para voltar com mais fora ainda

Julius ouviu um movimento na platia e o som de passos. Os dois rapazes que tinham se cutucado, bem na frente dele, juntaram seus pertences com estardalhao e saram
da sala. O casal que se beijava no final da fila tinha ido embora, e at o estudante no quadro negro havia sumido.
    52.

Philip continuou:

Para mim, os trechos mais marcantes de Os Buddenbrooks esto no final do romance, quando o protagonista, o velho patriarca Thomas Buddenbrooks, est para morrer.
E surpreendente que um escritor com vinte e poucos anos tivesse tal noo e tal sensibilidade em relao ao fim da vida. (Um leve sorriso nos lbios e Philip segurou
o livro com pginas marcadas?) Recomendo essas pginas para qualquer pessoa que pretenda morrer.

Julius ouviu o riscar de fsforos; eram dois estudantes que acendiam cigarros ao sair do auditrio.

Quando a morte veio busc-lo, Thomas Buddenbrooks ficou confuso e desesperado. Nada do que ele acreditava o consolava: nem a religio, que h muito tinha deixado
de satisfazer s suas necessidades metafsicas, nem seu ceticismo e sua inclinao pelo materialismo de Darwin. Nada, nas palavras de Mann, conseguia oferecer ao
doente grave uma s hora de calma, ao aproximar-se dos olhos penetrantes da morte.

Nesse ponto, Philip olhou para cima. - O que ocorre a seguir  de grande importncia e aqui comeo a me aproximar do tema de nossa palestra dessa noite.

Em seu desespero, Thomas Buddenbrooks viu por acaso em sua estante um livro de filosofia barato e mal encadernado, que tinha comprado h anos numa barraca de sebo.
Comeou a ler e sentiu um conforto imediato. Ficou maravilhado, como diz Mann, "como um mestre podia dominar essa coisa cruel e irnica chamada vida".

A extraordinria clareza de viso no livro de filosofia encantou

o doente e as horas se passaram sem que ele parasse de ler. At chegar ao captulo intitulado Sobre a morte e sua relao com nossa imortalidade e, inebriado pelas
palavras, continuar, como se lesse para viver. Ao terminar, Thomas Buddenbrooks tinha se transformado num homem que encontrou o conforto e a paz que precisava.
    53

O que descobriu o doente? (De repente Philip usou voz de orculo.)  Oua bem, Julius Hertzfeld, porque isso pode ser til para sua prova final na vida (...)

Chocado por algum se dirigir diretamente a  ele numa palestra, Julius se aprumou na poltrona Olhou em volta, nervoso, e se surpreendeu ao ver que a platia estava
vazia, todos tinham ido embora, at os dois mendigos.

Mas Philip, imperturbvel com sua platia ausente, continuou, calmo:

- Lerei um trecho dos Buddenbroolks. (Abriu uma brochura em mau estado.) - Voc deve ler esse livro, principalmente o captulo nove, com muita ateno. Ser de imenso
valor para voc, muito mais do que tentar encontrar sentido nas lembranas de pacientes de muitos anos atrs.

Ser que eu queria continuar vivo em meu filho? Numa personalidade ainda mais fraca, insegura e medrosa do que a minha ? Cego e pueril engano! O que meu filho pode
fazer por mim? Onde estarei depois de morto? Ah, e to brilhantemente claro Estarei em todos aqueles que j disseram, dizem ou diro "eu", principalmente naqueles
que dizem com mais segurana, mais fora e alegria! (...) Ser que alguma vez detestei a vida, esta pura, forte e implacvel vida? Loucura e engano! Detestei apenas
a mim mesmo por no conseguir suport-la. Amo vocs todos, abenoados, e logo, logo, deixarei de estar separado de vocs por um crcere apertado, dentro em breve,
aquela parte de mim que os ama se libertar e estar com vocs e em vocs, com vocs e em vocs todos.

Philip fechou o livro e voltou s anotaes.

Quem era o autor do trecho que tanto transformou Thomas Buddenbrooks? Mann no revela no romance, mas, quarenta anos depois, ele escreveu um excelente ensaio onde
dizia que o autor era Arthur Schopenhauer E conta que, aos vinte e trs anos, teve a grande alegria de ler Schopenhauer pela primeira vez. Ficou no s encantado
com o som das palavras que descreve como "to perfeitas e consistentemente claras,
    54

to harmoniosas, com uma apresentao e linguagem to fortes, to elegantes e infalivelmente adequadas, to apaixonadamente brilhantes,
to magnficas e alegremente severas como nenhum outro escritor na filosofia alem", mas tambm com a essncia do pensamento de Schopenhauer, que descreve como "emocional,
empolgante, jogando com contrastes enormes, entre instinto e mente, paixo e redeno". Mann concluiu que descobrir Schopenhauer era uma experincia preciosa demais
para guardar s para ele e usou-a imediatamente de forma criativa, oferecendo o filsofo para o sofrido heri de seu romance.

No s Thomas Mann, mas outras grandes inteligncias admitiram sua dvida com Schopenhauer. Tolsti chamou-o de "gnio por excelncia". Para Richard Wagner, ele
foi "uma ddiva do cu" Nietzsche disse que sua vida nunca mais foi a mesma depois que comprou um gasto exemplar de Schopenhauer num sebo em Leipzig e, como disse,
"deixou aquele gnio dinmico e lgubre agir na minha mente". Schopenhauer mudou para sempre o mapa intelectual do Ocidente, e sem ele Freud, Nietzsche, Hardy, Wittegenstem,
Beckett, Ibsen, Conrad seriam muito diferentes e menos fortes.

Philip pegou um relgio de bolso, consultou-o um instante e, bem solene, informou:

Aqui termina minha introduo a Schopenhauer. A filosofia dele tem tal amplido e profundidade que no comporta um resumo. Por isso preferi atiar sua curiosidade,
na esperana de que leia atentamente o captulo, que tem sessenta pginas. Prefiro dedicar os ltimos vinte minutos da palestra s perguntas da platia e debate.
A platia tem alguma pergunta, Dr. Hertzfeld ?

Sem se alterar com o tom de voz de Philip, Julius mais uma vez deu uma olhada na platia vazia, depois perguntou com delicadeza:
    - Philip, ser que no percebeu
que sua platia foi embora?

    - Que platia ? Eles ? Os alunos, digamos assim ? - Philip revirou a mo com menosprezo para mostrar que no mereciam a ateno dele, chegarem e sarem no fez
qualquer diferena para ele. - Hoje, Dr. Hertzfeld, voc  a minha platia. Fiz a palestra s para voc - disse Philip,
    55

sem demonstrar qualquer estranhesa por conversar com uma pessoa a nove metros de distancia, num auditorio deserto e escuro.
    - Certo, vou responder. Por que sou sua plateia hoje?
    - Pense um pouco, Dr. Hertzfeld.
    - Gostaria que voc me chamasse de Julius, j que eu o chamo de Philip e suponho que goste, ento  no mnimo adequado que me chame de Julius. Ah, j tratamos
disso
tambm, lembro que anos atras pedi, por favor, para me chamar pelo nome porque no somos estranhos.
    - No costumo tratar meus clientes pelo nome, sou consultor profissional e no amigo deles. Mas, j que voc quer ser chamado assim, que seja. Vou comear de
novo.
Voc pergunta por que  minha platia. A resposta  que estou apenas atendendo ao seu pedido de ajuda. Pense, Julius, voc me procurou querendo uma entrevista e
dentro desse pedido havia outros.

    -  mesmo?
    - . Vou me estender sobre o tema. Primeiro, sua voz tinha um toque de pressa. Era muito importante para voc se encontra comigo. Obviamente, seu pedido no
era
pela simples curiosidade de saber como estou. No, voc queria mais. Mencionou que sua sade estava ameaada e, estando com sessenta e cinco anos, voc deve estar
assustado e buscando algum tipo de consolo. Minha palestra hoje  uma resposta ao seu pedido.
 -  Uma resposta por vias tortas, Philip.
 - To tortas quanto seu pedido, Julius.
 - Concordo! Mas, pelo que lembro,voc jamais deu importancia as vias tortas.
 - Mas agora me sinto  vontade. Voc pediu ajuda e eu dei apresentando o homem que, mais que qualquer um, pode ser til a voc.
 - Ento sua inteno era me consolar mostrando como o personagem doente de Mann recebeu consolo de Schopenhauer?
 - Exattamente. E ofereci apenas um petisco, uma amostra do que voc pode ter. H muita coisa que eu, como seu guia no pensamento de Schopenhauer, posso lhe oferecer
e gostaria de fazer uma proposta.
    56

- Proposta? Philip, voc continua a surpreender. Agora estou curioso.

- Fiz o curso de orientao e cumpri todas as exigncias para receber o registro do estado, mas faltam as duzentas horas de superviso por um profissional. Posso
continuar praticando como filsofo clnico, rea que no est regulamentada pelo estado, mas o registro de orientador tem vrias vantagens, inclusive seguro contra
tratamento inadequado de paciente e licena para divulgar melhor meu servio. Ao contrrio de Schopenhauer, no tenho respaldo financeiro nem qualquer apoio acadmico.
Voc viu o desinteresse pela filosofia demonstrado pelos alunos idiotas dessa porcaria de universidade.

- Philip, por que temos de conversar aos berros? A palestra terminou. No prefere sentar-se e continuar a discusso mais  vontade?

- Claro. - Philip juntou suas anotaes, enfiou-as na pasta e sentou-se numa poltrona na primeira fila. Embora mais prximos, ainda estavam separados por quatro
fileiras de poltronas e Philip era obrigado a virar a cabea para ver Julius.

- Acho que voc est propondo uma troca: eu fao sua superviso e voc me d aulas sobre Schopenhauer? - perguntou Julius, agora em voz baixa.

- Isso mesmo! - Philip virou a cabea, mas no o bastante para encarar Julius.

- E voc pensou como seria o nosso acerto na prtica?

- Pensei muito. Na verdade, Dr. Hertzfeld (...)

- Julius.

- Sim, sim, Julius. Eu ia dizer que pensei semanas em ligar para voc e pedir a superviso, mas fui adiando, principalmente por motivos financeiros. Ento, fiquei
impressionado com a incrvel coincidncia de voc me ligar. Na prtica, sugiro um encontro semanal e dividir nossa consulta: meia hora voc d orientao sobre meus
pacientes e meia hora eu oriento voc sobre Schopenhauer.

Julius fechou os olhos e ficou pensando.

Philip esperou dois minutos e disse: - O que acha da proposta? Embora eu tenha certeza de que nenhum aluno v aparecer, tenho hora marcada depois da palestra, por
isso tenho de voltar para o prdio da administrao.
    57

- Bem, Philip, no  uma proposta que se recebe todos os dias.
Preciso mais tempo para pensar. Vamos nos encontrar de novo esta semana. Tenho as tardes de quarta-feira livres, voc pode s quatro horas?
        Philip concordou. - s quartas, termino s trs. Pode ser no meu consultrio?
- No, no meu. Fica na minha casa, na Pacifc Avenue, nmero duzentos e quarenta e nove. Perto do meu antigo consultrio. Olha, fique com meu carto de visitas.

                        Trechos do dirio de Julius

        Fiquei pasmo com a resposta de Philip aps a palestra. Com que rapidez uma pessoa entra na rea do outro! Parece as lembranas que surgem nos sonhos, em
que
o cenrio mostra que voc j esteve naquele lugar em outro sonho. O mesmo ocorre quando se fuma um baseado, d-se dois tapinhas e de repente estamos num lugar conhecido,
pensando coisas que s surgem sob o efeito da erva.
        Com Philip  a mesma coisa. Basta ficar um pouquinho com ele e pronto, voltam as velhas lembranas que tenho, somadas a um estranho efeito-Philip. Como ele
 arrogante, quanto desprezo. Est se lixando para os outros. Mesmo assim, alguma coisa forte (o que seria?) me atrai nele. Seria a inteligncia? Seria a arrogncia
e o desligamento somados a uma tremenda ingenuidade? No mudou nada em vinte e dois anos. No, mudou sim! Est livre as compulso por sexo, no precisa mais ficar
farejando xoxotas. Vive nas esferas mais altas do intelecto, como sempre quis. Mas seu espirito manipulador continua l, to bvio; ele nem percebe como  evidente,
achou que eu ia aceitar correndo a proposta, que daria duzentas horas do meu tempo em troca do que ele me ensinaria sobre Schopenhauer. Ainda teve em troca do que
ele me ensinaria sobre Schopenhauer. Ainda teve o descaramento de falar como se a sugesto fosse minha, fosse eu quem quisesse e precisasse. No nego que tenho um
certo interesse por Schopenhauer, mas passar duzentas horas com ele para aprender sobre o filosofo no faz parte das minhas prioridades agora. E se aquele trecho
que leu do Buddenbrooks doente  um bom exemplo de que Schopenhauer pode me oferecer, fico gelado. A idia de reintegrar-se  unidade universal sem qualquer interferncia
minha ou de minhas lembranas  um glido consolo. No, nem chega a ser consolo.
    58

E qual a atrao que exero sobre ele? Essa  outra pergunta a ser feita. Aquela agresso que me fez no outro dia, dos vinte mil dlares que gastou na anlise comigo,
talvez esteja querendo um retorno do investimento.

Supervisionar Philip? Fazer com que ele seja um analista legtimo, sacramentado? Tenho minhas dvidas. Ser que quero patrocin-lo? Como dar minha bno, se acredito
que uma pessoa que odeia (e ele odeia) no pode ajudar ningum a crescer?
    59

*** 8

A religio tem todas as coisas a seu favor: a revelao feita por Deus aos homens, as profecias, a proteo do governo, das figuras mais respeitveis e importantes.
Mais que isso, o enorme privilgio de poder gravar sua doutrina na mente das pessoas quando elas so crianas e, com isso, as idias se tornam quase congnitas.

    8

TEMPOS FELIZES DA INFNCIA

Johanna anotou em seu dirio que quando Arthur nasceu, em fevereiro de 1788, ela, como todas as mes jovens, gostava de brincar com seu "novo boneco". Mas bonecos
novos logo ficam antigos, e poucos meses depois ela estava cansada do brinquedo e passou a se sentir entediada e isolada em Danzig. Algo novo surgia nela, um vago
sentimento de que a maternidade no era seu verdadeiro destino, que havia um outro futuro  sua espera. Os veres passados na casa de campo da famlia eram especialmente
difceis. Embora Heinrich, acompanhado de um padre, ficasse os fins de semana com ela, o resto do tempo passava sozinha com o beb e as criadas. Por causa de seu
enorme cime, Heinrich proibiu a esposa de receber os vizinhos ou sair de casa, fosse qual fosse o motivo.

Quando Arthur estava com cinco anos, a famlia sofreu um grande trauma. A Prssia anexou a cidade de Danzig e logo depois tropas prussianas ficaram sob o comando
do mesmo general para quem Heinrich, anos antes, dera uma resposta rspida. Ento, a famlia
    60

mudou-se para Hamburgo e l, numa cidade estranha, Johanna deu  luz a Adele e se sentiu ainda mais presa e angustiada.

Heinrich, Johanna, Arthur, Adele: pai, me, filho e filha, os quatro juntos, mas no ligados.

Para Heinrich, Arthur era uma crislida que se transformaria no futuro chefe da casa comercial Schopenhauer. Heinrich era o pai tradicional, que cuidava dos negcios
e no pensava no filho; s iria entrar em ao e assumir seus deveres paternos quando Arthur sasse da infncia.

E a esposa, que planos tinha para ela? Era a chocadeira dos Schopenhauer. Mas tinha muita vida, o que era um perigo, por isso ela precisava ser contida, protegida
e reprimida.

Johanna, o que achava? Tinha cado numa armadilha! Seu esposo e provedor tinha sido um erro mortal, seu triste carcereiro, que consumiu sua energia. E o filho, Arthur?
No fazia parte da armadilha, no era ele a tampa de seu caixo morturio? Talentosa, Johanna queria cada vez mais se expressar e se realizar. E Arthur seria, infelizmente,
uma triste recompensa para a auto-renncia dela.

E a filha caula Adele? Recebia pouca ateno do pai, teve papel secundrio na cena familiar e iria passar a vida inteira como assistente da me.

Assim, cada um tomou seu rumo.

O pai, cheio de ansiedade e angstia, buscou a morte dezesseis anos aps o nascimento de Arthur. Subiu at o ltimo andar do armazm da casa comercial e de l saltou
para as guas glidas do canal Hamburgo.

Graas a esse salto, a me escapou da armadilha matrimonial, tirou dos sapatos a poeira de Hamburgo e foi, rpido como o vento, para Weimar, onde logo inaugurou
um dos mais animados sales literrios da Alemanha. Tornou-se grande amiga de Goethe e outros letrados importantes, escreveu uma dzia de livros romnticos que venderam
muito, vrios tendo por tema mulheres obrigadas a se casarem contra a vontade, mas que se recusavam a ter filhos e continuavam querendo amar.

E o jovem Arthur? Seria um dos maiores sbios que j existiram. E um dos mais desesperados, que detestava a vida, e aos cinqenta e cinco anos escrevia:

cinco anos escreveria:
    61

Poderamos prever que, s vezes, as crianas parecem inocentes prisioneiros, condenadas no  morte, mas  vida, sem ter conscincia ainda do que significa essa
sentena. Mesmo assim, todo homem deseja chegar  velhice, poca em que se pode dizer: "Hoje est ruim e cada dia vai piorar at o pior acontecer".
    62

*** 9

Num espao infinito, inmeras esferas luminosas em torno das quais rodam dezenas de outras menores, quentes no centro e cobertas com uma casca dura e fria onde uma
nvoa bolorenta originou a vida e os seres conhecidos. Esta  a realidade, o mundo.

A espaosa casa de Julius em Pacific Heights era muito maior do que qualquer uma que ele poderia comprar agora: ele foi um dos afortunados milionrios de San Francisco
que teve a sorte de comprar uma casa, qualquer casa, trinta anos antes. A compra foi graas  herana de trinta mil dlares que a mulher dele, Mriam, recebeu e,
ao contrrio de qualquer investimento feito pelo casal, o valor da casa subiu como um foguete. Aps a morte de Mriam, Julius pensou em vender a casa, que era grande
demais para uma pessoa, mas acabou transferindo seu consultrio para o primeiro andar.

Quatro degraus levavam da rua para um patamar onde havia uma fonte revestida de azulejos azuis.  esquerda, uma pequena escada dava acesso ao consultrio de Julius;
 direita, uma escada maior ia para a casa. Philip chegou exatamente na hora. Julius cumprimentou-o na porta, acompanhou-o at o consultrio e mostrou uma poltrona
de couro marrom.

- Aceita caf ou ch?

Philip no olhou em volta quando se sentou e, ignorando a pergunta de Julius, disse: - Estou esperando sua resposta sobre a superviso.
    63

- Ah, mais uma vez, voc vai direto ao assunto. Estou com dificuldade de resolver isso. Muitas dvidas. H alguma coisa em seu pedido, uma enorme contradio que
me intriga muito.

- Claro, voc quer saber por que peo a sua superviso depois de ficar to insatisfeito com voc como terapeuta, no?

- Exatamente. Numa linguagem bastante clara, voc disse que nosso tratamento foi um fracasso absoluto, perda de trs anos e de muito dinheiro.

- No h contradio no meu pedido - replicou Philip, na hora. -  possvel ser um terapeuta e supervisor competente mesmo falhando com determinado paciente. As
pesquisas mostram que o tratamento no faz efeito para cerca de um tero dos pacientes. Alm disso, sem dvida tive uma participao importante no fracasso da terapia,
por ser teimoso, rgido. O nico erro seu foi escolher a terapia errada para mim e insistir nela durante tempo demais. Mas reconheo seu esforo e at seu interesse
em me ajudar.

- Que bom, Philip. Parece razovel. Mesmo assim,  estranho pedir superviso de um terapeuta que no lhe deu nada. Fosse eu, procurava outro. Tenho a impresso de
que existe mais alguma coisa que voc no diz.

- Talvez eu deva fazer uma pequena correo. No  verdade que no recebi nada. Voc disse duas coisas que me marcaram e podem ter servido para eu melhorar.

Por um instante, Julius ficou furioso por ser obrigado a pedir detalhes. Ser que Philip achava que ele no queria saber? Ser que era to desligado assim? Finalmente,
desistiu e perguntou: - Quais foram as duas coisas?

 - Bom, a primeira no parece muito importante, mas teve certa fora. Eu tinha contado a voc uma das minhas noites tpicas: atrair uma mulher, levar para
jantar, fazer a cena de seduo no meu quarto, seguindo a mesma seqncia e com a mesma msica para dar clima. Lembro de perguntar o que voc achava da minha noite,
se achava desagradvel ou imoral.

- No lembro o que respondi.

- Disse que no achava nem desagradvel nem imoral, apenas chato. Tive um choque de pensar que minha vida era um tdio, montona.
    64

- Ah, interessante. Essa foi uma coisa. E a outra?

 - Estvamos falando em frases de tmulos. No lembro por que, mas acho que falei na frase que eu escolheria.


-  bem provvel, sempre pergunto isso quando estou num impasse e preciso de uma interveno de impacto. Ento?

 - Bom, voc sugeriu que meu epitfio fosse "Ele gostava de foder" e que a frase podia servir para a lpide do meu cachorro tambm (podia usar a mesma para ns dois).

- Duro. Fui to agressivo assim?

- Se foi ou no, no interessa. O importante  a eficcia e a adequao. Bem mais tarde, uns dez anos depois, aproveitei isso.

- So as intervenes de efeito retardado! Sempre achei que so mais importantes do que se pensa. E sempre quis estudar isso. Mas voltando aos motivos de estarmos
hoje aqui, por que no quis falar isso em nosso ltimo encontro, reconhecer que, apesar de pouco, fui til para voc?

- Julius, no sei se  importante para o nosso assunto, que  saber se voc quer ou no ser meu terapeuta supervisor. Em troca, eu seria seu orientador sobre Schopenhauer.

- O fato de voc no achar importante faz com que fique mais importante. Olha, no vou usar de meias palavras. Eis o que acho, de cara: no sei se voc tem condies
de ser um terapeuta e por isso no sei se faz sentido esta superviso.

- Voc disse se tenho condies? Explique melhor, por favor - pediu Philip, sem qualquer sinal de constrangimento.

- Bem, digamos que sempre considerei a psicoterapia mais como uma vocao do que uma profisso, adequada para pessoas que se interessam e se importam com os outros.
No vejo isso em voc. O bom analista quer aliviar o sofrimento, quer ajudar as pessoas a crescerem. Mas s vejo em voc desdm pelos outros: pense como dispensou
e insultou seus alunos. O terapeuta tem que interagir com os pacientes, mas, para voc, pouco importa o sentimento dos outros. Pense na nossa situao. Voc me disse
que, pelo que falei ao telefone, eu estava com uma doena fatal. Mesmo assim, no me deu uma s palavra de consolo ou solidariedade.

- Ser que ajudava se eu rosnasse umas besteiras solidrias? Eu dei mais, muito mais. Preparei e fiz uma palestra inteira para voc.
    65

- Eu agora percebo isso. Mas foi feito de uma forma to indireta, Philip, que me senti usado e no acolhido. Teria sido melhor para mim, bem melhor, se voc fosse
direto, se tivesse enviado uma mensagem do seu afeto para o meu. Nada muito grande, talvez s umas perguntas sobre a situao e como estou me sentindo, ou, porra,
podia ter dito: "S lastimo saber que voc est morrendo. Seria difcil?"

- Se eu estivesse doente, no gostaria de ouvir isso. Teria preferido as ferramentas, as idias, a viso de Schopenhauer em relao  morte. E foi o que fiz para
voc.

- At agora, Philip, voc no se incomodou de confirmar se estou com uma doena mortal.

- Eu estava enganado?

- Vamos, Philip. Diga tudo, no vai me magoar.

- Voc disse que estava com problemas graves de sade. Pode me contar mais um pouco?

- Muito bem, Philip, comeou bem. Uma pergunta direta  muito melhor. - Julius parou para pensar e ver at que ponto poderia contar a Philip.  - Bom, h poucas semanas
eu soube que estou com um tipo de cncer de pele chamado melanoma maligno, que  muito perigoso, embora meus mdicos garantam que estarei bem por um ano.

- Tenho mais certeza ainda que a viso de Schopenhauer dada na minha palestra seria muito til para voc. Lembro-me que, na nossa anlise, voc disse uma vez que
a vida  uma situao temporria que tem uma soluo permanente. Isso  puro Schopenhauer.

- Philip, isso foi uma piada.

 - Bom, ns sabemos o que seu guru Sigmund Freud pensava a respeito de chistes. Continuo achando que a  sabedoria de Schopenhauer tem muita coisa til para voc.

- No sou seu supervisor, isso ainda est para ser resolvido, mas vou dar a primeira lio de terapia, grtis. No so as idias, nem a viso, nem as ferramentas
que realmente interessam na psicanlise. Se, no final de um tratamento, voc perguntar ao paciente qual foi o processo da anlise, do que ele se lembra? Nunca das
idias e sempre do relacionamento com o terapeuta. Eles raramente se lembram de uma concluso importante do terapeuta, mas se lembram com carinho da relao. E me
arrisco a dizer que isso serve para voc tambm.
    66

Por que se lembra to bem de mim e valoriza tanto o que aconteceu entre ns a ponto de agora, depois de tantos anos, querer que eu seja seu supervisor? No  por
causa daqueles dois comentrios que fiz, por mais instigantes que fossem. No,  por alguma ligao que tivesse por mim. Acho que voc deve ter um grande afeto por
mim e que o nosso relacionamento, por mais difcil que tenha sido, foi significativo. Por isso voc est me procurando de novo, na esperana de receber algum tipo
de afeto.

- Tudo errado, Dr. Hertzfeld.

- , to errado que a mera meno da palavra afeto faz voc correr para trs de ttulos formais.

- Tudo errado, Julius. Primeiro, aviso para no cometer o erro de achar que a sua viso  a verdadeira, a rs naturalis. E que sua funo  impor sua viso aos outros.
Voc precisa e valoriza os relacionamentos e conclui erradamente que eu, ou melhor, todo mundo deve fazer o mesmo, e, se eu discordo,  porque estou reprimindo minha
necessidade de relacionamento.

-  provvel que, para uma pessoa como eu, um enfoque filosfico seja bem prefervel. A verdade  que ns dois somos muito diferentes. Eu jamais tive prazer na companhia
dos outros, as bobagens que dizem, as exigncias que fazem, seus esforos insignificantes e efmeros. Suas vidas sem sentido so um aborrecimento e um obstculo
para minha comunho com os inmeros grandes pensadores do mundo com algo importante a dizer.

- Ento, por que ser terapeuta? Por que no fica com os grandes pensadores do mundo? Por que se incomoda em oferecer ajuda para essas vidas sem sentido?

 - Se, como Schopenhauer, eu tivesse uma herana para me sustentar, garanto que no estaria aqui hoje.  s uma questo de necessidade financeira. As despesas com
estudos reduziram minha conta bancria, recebo uma misria pelas aulas, a faculdade est quase falida e acho que no vai renovar meu contrato. Preciso de poucos
clientes por semana para pagar minhas despesas, levo uma vida muito sbria, no preciso de nada, exceto da liberdade de ter o que  realmente importante para mim:
ler, pensar, meditar, ouvir msica, jogar xadrez e caminhar com Rugby, meu cachorro.
    67

- Voc ainda no respondeu  minha pergunta: por que me procurou, se  bvio que trabalho de forma totalmente diferente da que voc quer? Tambm no respondeu 
minha hiptese de que algo em nosso relacionamento passado faz voc me procurar.

- No respondi por que foge ao assunto. Mas, j que parece importante para voc, vou continuar avaliando a sua tese. No v pensar que estou questionando a existncia
de necessidades interpessoais bsicas. Schopenhauer disse que os bpedes - termo dele - precisam se juntar em volta do fogo para se aquecer. Mas avisou do perigo
de se chamuscarem por ficarem muito perto do fogo. Ele gostava dos porcos-espinhos, que se encostam para se aquecerem, mas usam os espinhos para manter uma distncia.
Schopenhauer valorizava muito seu isolamento, dependia apenas de si mesmo para ser feliz. Nesse ponto, no estava sozinho, outros grandes homens, como Montaigne,
por exemplo, concordavam com essa idia.

- Eu tambm temo os bpedes e concordo que o homem feliz  o que consegue evitar quase todo mundo. E como no concordar que os bpedes criam o inferno aqui na Terra?
Schopenhauer dizia: "Homo homini lpus", o homem  o lobo do homem. Tenho certeza de que ele inspirou o Livro Entre quatro paredes, de Sartre.

- Certo, Philip. Mas voc confirma o que eu acho: que no est preparado para trabalhar como terapeuta. Sua viso das coisas no deixa espao para amizades.

- Toda vez que me aproximo de algum, acabo ficando com menos para mim. No tive uma amizade na idade adulta, nem me preocupo em ter. Voc deve se lembrar que fui
uma criana solitria, minha me no se interessava por mim e meu pai era to infeliz que acabou se matando. Para ser sincero, jamais encontrei ningum com algo
interessante para me oferecer. No que no tenha procurado. Toda vez que tentei ser amigo de algum, tive a mesma experincia de Schopenhauer, que disse s ter encontrado
pessoas infelizes, de inteligncia limitada, mau corao e ms intenes. Falo de pessoas vivas, no dos grandes pensadores do passado.

- Voc me conheceu, Philip.

 - Aquele era um relacionamento profissional. Estou falando em relaes sociais.
    68

- D para perceber isso em seu comportamento. com o desprezo que sente e a incapacidade de se relacionar por causa desse desprezo, como vai interagir com os outros
de forma teraputica?

- Nesse ponto, estamos de acordo: tenho de conseguir me relacionar socialmente. Schopenhauer disse que, usando de um pouco de amizade e afeto,  possvel manipular
as pessoas da mesma forma que  preciso aquecer a cera para us-la.

Julius levantou-se, balanando a cabea. Serviu um caf para ele e ficou andando de um lado para outro. - A cera no  apenas uma metfora ruim,  uma das piores
metforas para psicanlise que eu j ouvi. Alis,  a pior. Sem dvida, voc no est usando a sua inteligncia. Nem est conseguindo que eu aprecie seu amigo e
terapeuta Arthur Schopenhauer.

Julius sentou-se de novo, deu um gole no caf e disse: - No vou perguntar outra vez se aceita caf porque conclu que a nica coisa que voc quer  a resposta para
a superviso. Voc parece bem decidido, Philip, por isso serei simptico indo direto ao assunto. Sobre a superviso, decidi que (...)

Philip, que evitou olhar para Julius durante toda a conversa, encarou-o pela primeira vez.

- Voc  muito inteligente, Philip. Sabe muita coisa. Talvez encontre um jeito de usar seu conhecimento na terapia. Talvez acabe dando contribuies para ela. Espero
que sim. Mas no est preparado para ser um terapeuta. Nem para ter uma superviso. Suas qualidades, sensibilidade e conscincia precisam ser trabalhadas, bastante
trabalhadas. Mas quero ser til a voc. Falhei uma vez e agora tenho outra chance. Consegue me ver como seu aliado, Philip?

- Respondo  pergunta depois de ouvir sua proposta, que imagino venha a seguir.

- Puxa! Est bem, eis a proposta. Eu, Julius Hertzfeld, concordo em ser supervisor de Philip Slate com a nica e exclusiva condio de ele freqentar meu grupo de
terapia como paciente.

Dessa vez, Philip ficou assustado. No tinha previsto aquela proposta de Julius. - Voc est brincando.

- Nem um pouco.

 - Depois de tantos anos patinando na lama, eu finalmente consegui arrumar minha vida. Quero me sustentar como terapeuta e para isso
    69

preciso de um supervisor, mais nada. Mas voc oferece o que no quero e no posso pagar.

- Repito que voc no est preparado para uma superviso nem para ser terapeuta, mas acho que essa terapia de grupo pode comear a suprir suas falhas. So essas
as minhas condies. Primeiro, uma terapia de grupo, e s depois fao a superviso.

- Quanto custa a terapia de grupo?

- No muito. Setenta dlares a sesso de noventa minutos. Alis, pagos mesmo quando voc no comparecer.

- Quantos pacientes h no grupo?

- Tento manter uma mdia de sete.

- Sete vezes setenta dlares so quatrocentos e noventa dlares por uma hora e meia.  um bom negcio. E qual o objetivo da sua terapia de grupo?

- O objetivo? O que ns estvamos falando? Olha, Philip, vou ser claro: como voc pode ser terapeuta se no sabe que merda h entre voc e os outros?

- No, no. Eu entendi esse objetivo. Minha pergunta foi mal formulada. Nunca fiz terapia de grupo e queria saber como funciona. Que vantagem eu levo em ouvir as
pessoas contarem suas vidas e seus problemas? S de pensar nesse coro de infelicidades j me assusto, mas, como diz Schopenhauer,  sempre um prazer saber que os
outros sofrem mais do que voc.

- Ah, voc est pedindo uma explicao.  pertinente. Sempre informo o paciente que comea sobre o funcionamento desse mtodo de terapia. Todo terapeuta devia fazer
isso. Pois vou lhe dizer. Primeiro, meu enfoque  do relacionamento entre as pessoas e tenho por hiptese que elas esto l devido a dificuldades para manter relaes
duradouras.

- Mas, esse no  o meu caso. No quero e nem preciso.

 - Eu sei, eu sei. Ria do que eu disse, Philip. Falei apenas que suponho que existem tais dificuldades, voc pode concordar ou no. Quanto ao meu objetivo no grupo,
serei bem claro:  ajudar cada pessoa a entender o melhor possvel como ela ou ele se relaciona com cada um no grupo, inclusive com o terapeuta. Mantenho um enfoque
de "aqui e agora", um conceito essencial para voc ter como analista, Philip. Em outras palavras, o grupo trabalha sem conotao de tempo. Enfocamos
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o agora, no  preciso investigar muito o passado de cada um do grupo. Enfocamos o presente e o aqui, esquea o que as pessoas dizem que deu errado em outros relacionamentos.
Acredito que as pessoas tm no grupo o mesmo comportamento que criou problemas para elas na vida. Acredito tambm que vo usar o que aprendem dos relacionamentos
no grupo, nos relacionamentos fora dele. Est claro? Se quiser, posso lhe dar algumas apostilas.

- Est claro. Quais so as regras bsicas do grupo?

- A primeira,  discrio absoluta, no se comenta com ningum de fora sobre os integrantes do grupo. Segunda, procurar se mostrar e ser sincero nas suas impresses
sobre os outros e o que sente por eles. Terceira: tudo deve se passar dentro do grupo. Se as pessoas tm contato fora da sesso, isso deve ser trazido depois para
o grupo.

- S assim voc aceita fazer minha superviso?

- S. Se quiser que eu treine voc, essa  a condio.

Philip ficou em silncio, de olhos fechados, cabea apoiada nas mos. Abriu os olhos e disse: - vou aceitar sua idia s se voc considerar as sesses no grupo como
de superviso.

- Isso  um exagero, Philip. Consegue imaginar o dilema tico que me coloca?

- Pode imaginar o dilema que sua proposta me coloca? Dar ateno s minhas relaes com os outros quando eu no quero que ningum seja nada para mim. Alm disso,
voc no disse que melhorando meu desempenho social vou ser um terapeuta mais eficiente?

Julius levantou-se, levou a xcara de caf para a pia, balanou a cabea, pensando aonde tinha se metido e voltou para sua cadeira. Expirou devagar e disse: - Est
bem, eu considero as horas de terapia de grupo como sendo de superviso.

- Outra coisa: no discutimos a logstica da minha orientao sobre Schopenhauer.

 - Seja como for, teremos de aguardar, Philip. Outra recomendao na terapia: evite relacionamentos dbios com os pacientes porque interferem no tratamento. Estou
falando de qualquer tipo de relacionamento: amoroso, de negcios e at de professor com aluno. Por isso e por voc, prefiro que nosso relacionamento seja claro e
definido. Por isso tambm, sugeri que comecemos com o grupo e depois, no futuro, passemos a uma relao de superviso e, depois ainda, talvez
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(no estou prometendo) uma orientao sobre filosofia. Embora, no momento, eu no tenha muita vontade de estudar Schopenhauer.

- Mesmo assim, podemos estabelecer uma quantia para sua orientao filosfica.

- Isso  uma possibilidade e bem remota, Philip.

- Mesmo assim, gostaria de estabelecer uma quantia.

- Voc continua a me surpreender, Philip. As merdas que preocupam voc! E as que no preocupam.

- Mesmo assim, quanto cobrar?

- Costumo cobrar pela superviso o mesmo que pela anlise individual, com desconto para estudantes que esto comeando.

- Certo - disse Philip, concordando com a cabea.

- Espera a, Philip. Quero ter certeza de que voc ouviu eu falar que essa orientao sobre Schopenhauer no  muito importante para mim. Quando falamos nisso pela
primeira vez, eu apenas demonstrei certo interesse em saber como o filsofo tinha lhe ajudado tanto. Voc foi em frente e achou que tnhamos combinado uma coisa.

- Espero aumentar seu interesse pelo trabalho dele. Ele tinha muito a dizer sobre a nossa rea. E antecipou Freud em muitas coisas, que usou todo o trabalho dele
sem nem reconhecer.

- vou ficar atento, mas repito: grande parte do que voc falou no aumenta meu interesse em conhecer melhor o trabalho dele.

- Inclusive o que eu disse na palestra sobre a viso dele da morte?

- Principalmente. Pensar que um dia me juntarei a uma vaga e etrea fora universal no me d qualquer consolo. Se a conscincia no permanece, que consolo h? Da
mesma forma, pouco consola saber que as molculas do meu corpo se dispersaro no espao e que meu DNA acabar fazendo parte de alguma outra forma de vida.

- Gostaria que lssemos juntos os ensaios dele sobre a morte e sobre a permanncia do ser. Se fizermos isso, tenho certeza de que (...)

 - Agora no, Philip. No momento, estou mais interessado em viver o mais plenamente possvel e no em pensar na morte. S isso.

- A morte est sempre presente,  o horizonte de todas as preocupaes. Scrates foi bem claro: "Para aprender a viver bem,  preciso aprender a morrer bem".
E Sneca: "S quem aceita a morte e est     pronto para morrer pode sentir o verdadeiro sabor da vida".
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- Sim, sim, conheo essas frases, pode ser que, no fundo, sejam verdade. E no tenho problema em juntar a sabedoria da filosofia  psicoterapia. Sou totalmente
a favor. Sei tambm que Schopenhauer foi til a voc de vrias maneiras. Mas no em todas: talvez voc precise de ajuda e  nesse ponto que entra o grupo. Espero
voc aqui na sua primeira sesso, segunda-feira s quatro e meia.
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*** 10

Na infncia, o aparelho sexual ainda est inativo enquanto o crebro j funciona plenamente; por isso, essa  a poca da inocncia e da felicidade, o paraso perdido
do qual sentimos falta pelo resto da vida.

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Os  ANOS MAIS FELIZES DA VIDA DE ARTHUR

Quando Arthur fez nove anos, o pai concluiu que estava na hora de cuidar da educao do menino. O primeiro passo foi mand-lo passar dois anos no porto francs do
Havre, na casa de um colega de comrcio, Gregories de Blesimaire. L, Arthur teve de aprender francs, traquejo social e, como disse Heinrich, "escolarizar-se nos
livros do mundo."

Um menino expulso de casa, separado dos pais aos nove anos? Quantas crianas no consideraram esse exlio um marco dramtico na vida? Mais tarde, porm, Arthur viu
esses dois anos como "os mais felizes da sua infncia".

Algo importante ocorreu no Havre: talvez pela nica vez na vida, Arthur se sentiu amado e gostou de viver. Passou anos lembrando com prazer do simptico casal Blesimaire,
com o qual conheceu algo parecido com o amor de pai e me. As cartas que escreveu para casa elogiavam tanto o casal que a me de Arthur precisou lembrar-lhe as qualidades
e a generosidade do pai dele: "No se esquea de que seu pai deixou voc comprar aquela flauta de marfim que custou uma moeda de ouro".
    74.

Outro fato importante durante a estada no Havre foi que Arthur arrumou um amigo, um dos poucos que teve na vida. Anthime, filho dos Blesimaire, era da mesma idade,
e os dois se aproximaram e trocaram algumas cartas depois que Arthur voltou para Hamburgo.

Anos mais tarde, quando tinham vinte anos, eles se reencontraram e saram algumas vezes  procura de aventuras amorosas. Depois, os caminhos e os interesses mudaram.
Anthime virou comerciante e sumiu da vida de Arthur por trinta anos, quando voltaram a se corresponder. Arthur queria conselhos sobre finanas e Anthime respondeu
que poderia administrar as posses do amigo em troca de algum pagamento, mas Arthur parou de escrever de repente. Na poca, ele suspeitava de todo mundo, no confiava
em ningum. Deixou de lado a carta de Anthime e escreveu no verso do envelope uma frase cnica de Graciano, filsofo espanhol que o pai admirava muito: "Entre nos
negcios do outro para cuidar dos seus".

Arthur e Anthime se viram pela ltima vez dez anos depois, num estranho encontro onde no acharam muito o que conversar. Arthur disse que seu amigo de tantos anos
se tornara "um velho insuportvel" e escreveu em seu dirio que "o encontro de dois amigos aps uma vida inteira  um desaponto com a prpria vida".

Outro fato marcou a estadia no Havre: Arthur foi apresentado  morte. Enquanto morava na Frana, um colega de infncia, Gottfried Janish, faleceu em Hamburgo. Embora
Arthur parecesse no se perturbar e dissesse que nunca mais pensou no colega, parece que jamais esqueceu dele, nem do choque de seu primeiro contato com a morte,
pois trinta anos depois anotou no dirio um sonho que teve: "Eu estava num pas desconhecido, havia um grupo de homens num campo e um deles, alto e esguio, no sei
por que se apresentou como sendo Gottfried Janish e me deu as boas-vindas".

Arthur no teve muita dificuldade em interpretar o sonho. Na poca, estava morando em Berlim, onde havia uma epidemia de clera. A imagem onrica de se juntar a
Gottfried s podia significar um aviso de morte prxima. Assim, resolveu escapar da morte saindo imediatamente de Berlim. Foi para Frankfurt e viveu l trinta anos,
principalmente por achar que a cidade no poderia ser atingida pela doena.
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*** 11

A maior sabedoria  ter o presente como objeto maior da vida, pois ele  a nica realidade, tudo o mais  imaginao. Mas poderamos tambm considerar isso nossa
maior maluquice, pois aquilo que existe s por um instante e some como sonho no merece um esforo srio.

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PRIMEIRA SESSO DE PHILIP NO GRUPO

Philip chegou quinze minutos adiantado na primeira sesso de terapia de grupo, usando as mesmas roupas dos dois encontros com Julius: a amassada e desbotada camisa
xadrez, as calas caqui e a jaqueta de veludo. Impressionado com a indiferena de Philip por roupas, mveis de escritrio e platia de estudantes, ou, aparentemente,
por qualquer pessoa com quem se relacionasse, Julius mais uma vez colocou em dvida sua idia de convid-lo para participar do grupo. Ser que foi uma avaliao
profissional correta ou era a velha ousadia descarada mostrando a carantonha outra vez?

Ousadia descarada, que em idiche era chutzpah, palavra sem uma correspondncia exata em outras lnguas, mas bem definida na histria do menino que matou os pais
e depois pediu clemncia aos jurados por ser rfo. Julius sempre lembrava dessa palavra quando pensava em como enfrentava a vida. Talvez ele tivesse uma ousadia
descarada desde que nasceu, mas resolveu adotar esse comportamento no outono em que fez quinze anos e mudou-se com os pais do Bronx, em Nova York, para Washington,
D.C. O pai sofreu um revs financeiro
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e instalou a famlia a noroeste da cidade, numa das pequenas casas iguais da Farragut Street. As dificuldades financeiras paternas no eram para ser comentadas,
mas Julius sabia que estavam ligadas s pistas de corridas de Aqueduct e a uma gua chamada She's All That, que o pai tinha em sociedade com Vic Vicello, um de seus
parceiros no pquer. Vic era um sujeito difcil de definir, que usava lencinho rosachoque no bolso do palet esporte amarelo e no entrava na casa deles se a me
estivesse l.

O novo emprego do pai era gerenciar uma loja de bebidas que pertencera a um primo, morto do corao aos quarenta e cinco anos (corao, aquele inimigo soturno, que
tinha lesado ou matado uma gerao inteira de judeus asquenazitas cinqentes, criados com creme azedo e fatias de carne de peito). O pai detestava o novo emprego,
mas conseguiu manter as contas da famlia em dia; alm de o salrio ser bom, as longas horas de funcionamento da loja o mantinham longe da Laurel e Pimlico, as pistas
de turfe prximas.

Em setembro de 1955, no primeiro dia de aula na escola Roosevelt High, Julius tomou uma grande deciso: ia se reinventar. Ningum o conhecia em Washington, era uma
alma livre e sem passado. Os trs anos que passou na Public School 1.126, no Bronx, no foram de ningum se orgulhar. Jogar era to mais interessante do que as outras
atividades escolares que ele passava todas as tardes na pista de boliche recebendo apostas nele ou no amigo Marty Geller, grande jogador de canhota. Julius mantinha
tambm uma pequena banca onde aceitava apostas de dez para um para quem marcasse trs jogadores de beisebol que fizessem seis lances no dia que o apostador escolhesse.
Fosse qual fosse o nome que os trouxas escolhessem (Mantle, Kaline, Aaron, Vernon ou Stan Musial, o Cara), acertavam no mximo uma a cada vinte ou trinta apostas.
Julius andava com valentes da mesma laia, ganhou fama de briguento na rua para intimidar provveis caloteiros; nas aulas, ele se fazia de burro porque achava legal
e matava muitas aulas  tarde para ver Mantle jogar no campo do Yankee Stadium.

Tudo mudou no dia em que ele e os pais foram chamados  sala do diretor, que apresentou o livrinho de apostas que Julius h dois dias procurava sem parar. O castigo
foi duro: no sair  noite por dois meses, no ir ao boliche nem ao Yankee Stadium, no fazer esporte depois das aulas, ficar sem mesada. Julius viu que o pai no
estava dando muita importncia ao fato,
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estava era intrigado com o fato de trs jogadores acertarem seis lances. Apesar de tudo, Julius gostou do diretor e ficou to
assustado de ser considerado mau aluno que resolveu se emendar. Mas como isso era querer demais, o mximo que conseguiu foi ganhar nota cinco, o que j era uma melhora.
No deu para fazer novos amigos: estava preso ao papel que tinham lhe destinado e ningum conseguia ver nele o novo garoto que tinha decidido ser.

Por causa disso, mais tarde Julius teve uma estranha sensibilidade para o fenmeno do papel a que se destinou: viu muitos pacientes mudarem totalmente, mas continuarem
sendo vistos do mesmo jeito pelo resto do grupo. Isso ocorre tambm nas famlias. Muitos pacientes passavam por maus pedaos ao visitarem a casa dos pais: tinham
de ficar atentos para no serem jogados no velho papel que a famlia tinha lhes reservado e precisavam de muito esforo e energia para convencer pais e parentes
de que tinham realmente mudado.

O grande teste de Julius na reinveno de si mesmo comeou com a mudana da famlia. Aquele primeiro dia de aula em Washington, D.C., era uma manh suave de vero.
Julius pisou no cho coberto de folhas de pltanos e entrou pela porta da frente da Roosevelt High pensando num bom plano de mudana. Reparou nos cartazes do lado
de fora do auditrio que indicavam os candidatos a presidente de turma e teve uma boa idia. Antes mesmo de saber onde ficava o banheiro dos meninos, ele j tinha
se candidatado.

Candidatar-se foi uma jogada ambiciosa, mais que isso, foi como querer sair do buraco apostando nos incompetentes jogadores de beisebol do Washington Senators, time
que pertencia ao po-duro Clark Griffith. Julius no sabia nada sobre a escola e no conhecia um colega de turma. Ser que o velho Julius do Bronx teria se candidatado?
De jeito nenhum. Mas era por isso mesmo, exatamente por isso que o novo Julius aceitou o desafio. O que podia acontecer de pior? O nome dele estaria l e todos reconheceriam
Julius Hertzfeld como uma fora, um lder potencial, um cara a se pensar. Alm do mais, ele adorava agitar.

Claro, os adversrios iriam rejeit-lo como uma piada de mau gosto, um mosquito, um desconhecido, um nada. Sabendo que essas crticas seriam feitas, Julius se preparou
e pensou em argumentar que um recm-chegado podia enxergar erros invisveis para os que esto muito perto. Ele tinha a vantagem da boa lbia, aperfeioada em
muitas horas na pista de boliche convencendo os babacas nos jogos.
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O novo Julius no tinha nada a perder e, destemido, procurou os grupinhos de alunos para anunciar:
- Ol, sou Julius, novo na rea, espero que votem em mim para presidente de turma. No sei nada de poltica estudantil, mas s vezes uma viso nova  a melhor viso.
Alm disso, sou totalmente independente, no tenho nem turma, pois no conheo ningum.

O fato  que Julius no s se reinventou, mas venceu a eleio. A Roosevelt High tinha um time de futebol que perdeu dezoito jogos seguidos e um time de basquete
quase to ruim quanto; portanto, estava desmoralizada. Os outros dois candidatos podiam ser derrubados: Catherine Schumann, a inteligente filha de um pastor baixinho
e de cara comprida, que iniciava a reza antes de cada assemblia na escola, era afetada e impopular. J Richard Heishman, era bonito, de cabelos ruivos e pescoo
vermelho, zagueiro do time de futebol, mas com um bocado de inimigos. Julius liderou os votos de oposio. Alm disso, para surpresa prpria, foi imediatamente apoiado
por todos os alunos judeus, que eram trinta por cento da escola e at ento mantinham uma participao discreta e apoltica. Eles o adoraram com aquele amor que
os tmidos, indecisos e discretos judeus que viviam abaixo da linha divisria Mason-Dixon tinham pelos decididos e arrojados judeus de Nova York.

A eleio foi a virada na vida de Julius. Foi to recompensado pelo atrevimento que reformulou toda a sua identidade com base na pura ousadia descarada, chutzpah.
Passou a ser disputado pelas trs fraternidades judaicas da escola, que o consideravam um cara com coragem e personalidade, o indefnvel Santo Graal da adolescncia.
Em pouco tempo, estava cercado de colegas na lanchonete e depois da escola era visto de mos dadas com a encantadora Mriam Kaye, editora do jornal da escola e nica
aluna inteligente o bastante para competir com Catherine Schumann como oradora oficial de fim de ano. Julius e Mriam tornaram-se inseparveis. Ela o apresentou
 arte e esttica, e ele jamais conseguiu fazer com que ela entendesse o alto nvel de dramaticidade contido num lance de boliche ou beisebol.

, ele foi longe, graas  ousadia descarada. Julius continuava ousado, orgulhava-se disso e, mais tarde, gostava de ser definido como um sujeito original, um independente,
o terapeuta que tinha coragem de aceitar pacientes que derrotaram os outros terapeutas.
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Mas a ousadia tinha seu lado ruim: a megalomania. Julius errou algumas vezes ao querer fazer mais do que
poderia ser feito, pedindo a pacientes que mudassem mais do que podiam, ou deixando outros numa longa terapia que acabava no dando resultado.

Portanto, ser que foi por compaixo ou por simples insistncia clnica que achou ainda ser possvel recuperar Philip? Ou foi por muita ousadia descarada? Sinceramente,
no sabia. Ao conduzir Philip para a sala de terapia de grupo, deu uma longa olhada em seu relutante paciente. Philip estava com os cabelos castanhos-claros penteados
para trs, sem repartir, a pele tensa nas mas salientes, os olhos atentos, o andar pesado como se estivesse sendo levado para a execuo.

Julius teve uma onda de compaixo e ofereceu consolo com a voz mais suave e confortadora que conseguiu. - Sabe, Philip, os grupos de terapia so muito complexos,
mas tm uma caracterstica totalmente previsvel.

Se Julius esperava uma pergunta sobre qual era a caracterstica totalmente previsvel, no deu sinal de desapontamento com o silncio de Philip. Continuou falando
como se o outro tivesse demonstrado a esperada curiosidade. -  que a primeira sesso num grupo de terapia  mais agradvel e mais acolhedora do que os novos integrantes
esperam.

- Estou bem, Julius.

- Ento, apenas guarde o que eu disse para consultar caso fique nervoso.

Philip parou na porta do escritrio onde ele e Julius estiveram alguns dias antes, mas Julius tocou no brao dele e o conduziu pelo corredor at a porta seguinte,
que abria para uma sala com trs paredes cobertas de estantes, do piso ao teto. Na quarta parede, trs janelas com vidraas em caixilho de madeira abriam para um
jardim japons com pinheiros anes, dois montes de pequenos seixos e um lago estreito de dois metros de comprimento onde deslizavam carpas douradas. Os mveis da
sala eram simples e funcionais, apenas uma pequena mesa ao lado da porta e sete confortveis cadeiras de vime colocadas em crculo com mais duas de reserva, nos
cantos.

 - Chegamos. Essa  a sala da minha biblioteca e do grupo. Enquanto aguardamos os outros, vou dar as coordenadas de funcionamento da casa.
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Nas segundas-feiras, destranco a porta da frente uns dez minutos antes da hora da sesso e as pessoas entram nesta sala. Chego s quatro e meia e comeamos,
terminando s seis. Para facilitar o controle, o pagamento  feito no final de cada sesso; basta deixar um cheque na mesa ao lado da porta. Alguma dvida?

Philip balanou a cabea e olhou a sala, respirando fundo. Foi direto para as estantes, enfiou o nariz perto dos livros encadernados de couro e respirou outra vez,
demonstrando grande prazer. Continuou l e percorreu, atento, os ttulos.

Logo em seguida chegaram cinco pessoas e cada uma olhou as costas de Philip antes de sentar-se. Apesar da agitao que causaram, Philip no virou a cabea, nem interrompeu
a tarefa de examinar os livros de Julius.

Nos seus mais de trinta e cinco anos como terapeuta de grupos, Julius tinha visto muita gente chegar. A situao era previsvel: o novo integrante est bastante
apreensivo e se comporta de forma respeitosa com os outros, que do boas-vindas e se apresentam. De vez em quando, num grupo recm-formado, alguns se enganam achando
que os benefcios da terapia so diretamente proporcionais  ateno que recebem do terapeuta, podendo haver uma certa m vontade com novatos. Mas em grupos j formados,
as pessoas so simpticas: acham que o grupo completo  bom para a eficcia da terapia.

s vezes, o recm-chegado entra direto na discusso, mas em geral fica em silncio por quase toda a primeira sesso, enquanto tenta ver quais so as regras, e espera
at algum convid-lo para participar. Mas um novo membro to indiferente que fica de costas e ignora os outros? Julius jamais tinha visto uma coisa daquelas. Nem
em grupos de pacientes psicticos na enfermaria psiquitrica.

Sem dvida, pensou Julius, tinha sido besteira convidar Philip para o grupo. Naquela sesso, ele tinha de falar de seu cncer, o que era mais que suficiente para
a agenda do dia. Sentiu um peso por ter de se preocupar com Philip.

O que estaria havendo com Philip? Ser que estava s morrendo de medo e tmido? Era pouco provvel. No, devia estar irritado com minha insistncia para fazer a
terapia e, no seu estilo passivoagressivo, estava mandando o grupo e eu  merda. Cus, pensou Julius, gostaria de dependur-lo num varal para secar. No fazer nada.
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Deixar que ele afunde ou nade. Seria um prazer sentar-se e apreciar o ataque feroz que o grupo certamente faria.

Julius no costumava guardar o final das piadas, mas lembrou de uma que ouviu anos antes. Um filho diz para a me: - No quero ir  escola hoje.

- Por qu? - pergunta a me.

- Porque detesto os alunos e eles me detestam.

- Pois tem de ir por dois motivos - diz a me -, primeiro, voc tem quarenta e cinco anos, e segundo,  o diretor da escola.

Sim, Julius era adulto. E o terapeuta do grupo. Seu trabalho consistia em integrar novos membros, proteg-los dos outros e deles prprios. Ele nunca era o primeiro
a falar numa sesso, preferia incentivar os integrantes a isso, mas naquele dia no tinha escolha.

- Quatro e meia, vamos comear. Philip, pegue uma cadeira.

- Philip virou-se para olh-lo, mas no fez meno de pegar nada. Vai ver que ficou surdo, pensou Julius. Ser que  um idiota social? S depois de Julius fazer
sinais enfticos com os olhos indicando uma cadeira vazia foi que Philip sentou-se.

Julius ento lhe disse: - Este  o nosso grupo. Falta uma pessoa, Pam, que est viajando por dois meses. - Virando-se para o grupo, informou: - Comentei h algumas
sesses que talvez trouxesse uma pessoa nova. Estive com Philip na semana passada e ele comea hoje. (Claro que comea hoje, pensou Julius. Burro, comentrio burro.
Pronto, chega de levar o outro pela mo. Ele que afunde ou nade.)

Nesse instante, Stuart entrou na sala, correndo da clnica peditrica no hospital e, ainda de jaleco branco, resmungou uma desculpa pelo atraso e afundou numa cadeira.
Todos ento olharam para Philip e quatro pessoas se apresentaram e deram as boas-vindas: - Meu nome  Rebecca. Tony. Bonnie. Stuart. Ol. Prazer em conhecer. Seja
bem-vindo. bom voc estar aqui com a gente. Precisamos de sangue novo, quer dizer, de novas contribuies.

O integrante que faltou falar era um rapaz bonito, com a cabea precocemente calva e um halo de cabelos castanhos-claros no alto, um corpo forte de juiz de futebol
meio velho que, numa voz calma, disse:

- Ol, meu nome  Gill. Espero, Philip, que voc no ache que o estou ignorando, mas hoje preciso muito de falar. Nunca precisei tanto do grupo como agora.
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Nenhuma reao de Philip.

- Certo, Philip? - insistiu Gill.

Assustado, Philip arregalou os olhos e concordou com a cabea.

Gill virou-se para os rostos familiares do grupo e comeou: - Aconteceram muitas coisas e tudo culminou esta manh, depois de uma sesso com o psicanalista da minha
mulher. Nas ltimas semanas, contei para vocs que o analista de Rose deu-lhe um livro sobre abuso sexual de crianas e ela se convenceu de que sofreu abuso quando
pequena. Isso se transformou numa idia fixa na cabea dela, como  mesmo que se diz, uma idia fixada? - Gill perguntou para Julius.

- Uma ide fixe - interveio Philip, falando com o sotaque francs perfeito.

- Isso, obrigado - disse Gill, que deu uma olhada em Phillip e acrescentou, baixo: - Opa, essa foi rpida - e voltou para sua histria.  - Bom, Rose tem idia fixa
de que quando pequena foi molestada pelo pai. No consegue pensar em outra coisa. Ela lembra de algum abuso sexual? No. Tem alguma testemunha? No. Mas o analista
acha que, se ela est deprimida, com medo de sexo, tem lapsos de ateno e emoes descontroladas, principalmente raiva de homens, ento sofreu abuso.  o que diz
o maldito livro. E o analista dela jura que  isso mesmo. Assim, h meses, como j contei aqui at enjoar, no falamos em outra coisa. A psicanlise da minha mulher
 a nossa vida. No h espao para mais nada. No h outro assunto. Nossa vida sexual est morta e enterrada. Nada. Esquea. Duas semanas atrs, ela pediu para eu
ligar para o pai, pois no fala com ele, e convid-lo para uma sesso da anlise. Queria que eu tambm fosse por proteo, conforme ela disse.

- Ento liguei e ele concordou na hora. Ontem, tomou um nibus em Portland e apareceu na sesso hoje de manh carregando a maleta surrada, pois depois voltava direto
para a rodoviria. A sesso foi um desastre. Um horror. Rose simplesmente despejou tudo no pai sem parar. Sem limites, sem uma palavra de agradecimento pelo velho
ter viajado centenas de quilmetros por causa dela e dos noventa minutos da sesso dela. Acusou-o de tudo, at de convidar os vizinhos, os parceiros de pquer, os
colegas de trabalho no Corpo de bombeiros (ele foi bombeiro), para fazerem sexo com ela quando criana.
    83

- Qual a reao do pai? - perguntou Rebecca, uma mulher alta e esguia, de quarenta anos, muito bonita, que estava inclinada para frente, ouvindo atenta o relato
de Gill.

- Ele foi equilibrado e sensato.  um sujeito timo, de uns setenta anos, gentil, carinhoso. Foi a primeira vez que o vi. Ele foi incrvel, puxa, gostaria de ter
um pai assim. Ficou s sentado l ouvindo e disse a Rose que, se ela estava com tanta raiva, devia ser melhor pr para fora. Negou, calmo, todas as loucas acusaes
e sups (acho que tinha razo) que ela estava com raiva porque ele largou a famlia quando ela estava com doze anos. Disse que a raiva foi adubada (palavra dele,
que hoje tem um stio) pela me, que envenenou a cabea da filha desde pequena contra ele. Disse que teve de largar o casamento, estava deprimido com a vida que
levava com a mulher e teria morrido se continuasse l. vou dizer uma coisa, conheo a me de Rose e ele acertou. Acertou em cheio.

- Ento, no final da sesso ele pediu carona at a rodoviria e, antes de eu responder, Rose disse que no se sentia segura de ficar no mesmo carro que ele. - Entendi
- disse ele, e foi embora com sua maleta.

- Bem, dez minutos depois, Rose e eu passvamos de carro pela Market Street e vi aquele velho grisalho e curvado carregando uma mala. Comeava a chover, e pensei:
"Que merda." Perdi a calma e disse a Rose que ele viera l de Portland por causa dela, para a sesso de anlise dela, estava chovendo e, porra, eu ia lev-lo  rodoviria.
Parei no meio-fio e lhe ofereci carona. Rose me fuzilou com os olhos e disse que, se ele entrasse no carro, ela sairia. Mandei fazer o que bem entendesse. Mostrei
a loja da Starbucks e disse para esperar l, eu voltava logo. Ela saiu, irritada, e cinco horas depois ainda no tinha aparecido na Starbucks. Fui de carro para
o Golden Gate Park e fiquei andando sem parar. Estou pensando em nunca mais voltar para casa.

Depois de dizer isso, Gill se encostou na cadeira, exausto.

Todo o grupo (Tony, Rebecca, Bonnie e Stuart) aprovou em coro. - Muito bem, Gill... J estava na hora... Puxa, voc conseguiu... Fez muito bem. - E Tony acrescentou:
-   difcil expressar a alegria que sinto por voc se livrar dessa filha da puta. - E Bonnie: - Se precisar de um lugar para dormir, tenho um quarto vago - disse,
nervosa, passando a mo nos cabelos castanhos e crespos e ajustando os culos de
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armao amarela. - No se preocupe, sou bem mais velha que voc e minha filha est em casa - acrescentou, com uma risadinha.

Julius no estava satisfeito com a presso que o grupo estava exercendo, tinha visto muitos pacientes sarem de grupos por medo de desapontar os demais. Assim, fez
sua primeira interveno: - Voc est recebendo bastante apoio, Gill. Como est se sentindo?

- timo. Muito bem mesmo. S que no quero desapontar as pessoas. Est tudo to rpido, aconteceu hoje de manh, estou confuso, no sei o que vou fazer.

- Voc quer dizer que no quer substituir as exigncias de sua mulher pelas exigncias do grupo - disse Julius.

- . Acho que sim. Entendo o que voc quer dizer. Certo. Mas  uma coisa confusa, eu preciso, preciso mesmo desse apoio, obrigado, preciso de ajuda, isso pode ser
uma mudana na minha vida. Todo mundo falou, menos voc, Julius. E, claro, o nosso novo colega de grupo. Seu nome  Philip, no?

Philip concordou.

- Philip, sei que voc no conhece o meu caso, mas voc conhece - Gill virou-se para encarar Julius. - O que acha? O que acha que eu devia fazer?

Sem querer, Julius se encolheu e esperou que ningum tivesse percebido. Como quase todo terapeuta, ele detestava aquela pergunta, a maldita "o que eu fao, o que
no fao". Tinha percebido que ia ser feita.

- Gill, voc no vai gostar da minha resposta. No posso lhe dizer o que fazer: essa  uma deciso sua, e no minha. Um dos motivos para voc estar neste grupo 
aprender a confiar na sua prpria avaliao. Outro motivo para minha resposta  que s sei de Rose e do seu casamento atravs do que voc diz. E  difcil voc no
me dar uma informao tendenciosa. A nica coisa que posso fazer  ajudlo a ver como contribuir para a vida que tem. No podemos entender ou mudar Rose, aqui 
voc que importa, seus sentimentos, seu comportamento, porque  isso que voc pode mudar.

Fez-se silncio. Julius estava certo: Gill no gostou da resposta. Nem o resto do grupo.

Rebecca tirou as duas presilhas e sacudiu os longos cabelos negros, antes de prend-los de novo e quebrar o silncio dirigindo-se a
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Philip: - Voc  novo aqui, no sabe tudo o que sabemos. Mas, s vezes, da boca de um beb recm-nascido...

Philip ficou quieto. No dava para saber nem se ele tinha ouvido o que foi dito.

- Tem algum comentrio a fazer sobre isso, Philip ? - perguntou Tony numa voz suave que no era comum nele. Tony era moreno, tinha muitas marcas de acne no rosto
e um corpo esguio e atltico, valorizado pela camiseta negra dos San Francisco Giants e pelos jeans apertados.

- Tenho uma observao e um conselho - disse Philip, com as mos entrelaadas, a cabea para trs e os olhos no teto da sala. - Nietzsche uma vez escreveu que a
maior diferena entre o homem e a vaca era que a vaca sabia como existir, como viver sem angstia (isto , sem medo) no bendito presente, sem o peso do passado e
a preocupao com os horrores do futuro. Mas ns, humanos infelizes, somos to perseguidos pelo passado e pelo futuro que s podemos passar rapidamente pelo presente.
Sabe por que sentimos tanta saudade da maravilhosa infncia? Segundo Nietzsche, porque foi a nica poca despreocupada, ou seja, sem preocupao antes de termos
lembranas tristes e graves do lixo do passado. Permita que eu acrescente uma coisa: estou falando num ensaio de Nietzsche, mas essa idia no era dele. Como tantas
outras, Nietzsche tirou-a de Schopenhauer.

Fez uma pausa. Caiu um silncio pesado sobre o grupo. Julius mexeu-se na cadeira, pensando. Ah, merda, eu devia estar louco quando quis trazer esse sujeito para
c. Foi a pior e a mais estranha forma que j vi de um paciente entrar num grupo.

Bonnie quebrou o silncio. Olhando direto para Philip, disse: - Muito interessante, Philip. Sei que vivo lamentando a infncia perdida, mas nunca percebi que ela
parece livre e maravilhosa porque no tem o peso do passado. Obrigada, no vou esquecer isso.

- Nem eu. Muito interessante mesmo. Mas voc disse que tinha um conselho para mim? - perguntou Gill.

 - Tenho,  o seguinte. - Philip falava sem alterar a voz e ainda sem olhar para ningum. - Sua mulher  uma dessas pessoas particularmente incapazes de viver no
presente porque est sobrecarregada de passado.  um navio afundando. Aconselho voc a saltar do navio e sair a nado. Sua mulher vai causar uma onda enorme
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quando afundar, por isso sugiro que voc nade o mais rpido e mais longe que puder.

Silncio. O grupo parecia pasmo.

- Puxa, ningum pode lhe acusar de no revidar. Perguntei uma coisa, voc respondeu. Obrigado, gostei muito. Seja bem-vindo ao grupo. Qualquer outro comentrio que
voc tiver, eu quero ouvir - disse Gill.

- bom Bom - disse Philip, continuando a olhar para o teto. - Nesse caso, vou acrescentar uma coisa. Kierkegaard dizia que algumas pessoas tm duplo desespero, isto
, esto desesperadas, mas nem sabem. Voc deve estar nesse desespero duplo. Quero dizer o seguinte: grande parte do sofrimento de uma pessoa vem por sentir desejo,
realiz-lo, ter um instante de saciedade que logo se transforma em tdio e, por sua vez,  interrompido pelo surgimento de outro desejo. Schopenhauer achava que
era essa a condio humana universal: desejar, saciar-se, entediar-se e desejar outra vez.

- Voltando a voc: no sei se j pensou nesse ciclo de desejos sem-fim. Talvez esteja to preocupado com os desejos de sua mulher que no v os prprios, no? No
foi por isso que as pessoas hoje cumprimentaram voc aqui? No foi por finalmente no querer se definir pelos desejos dela? Em outras palavras, pergunto se no adiou
ou no fez o que precisava fazer em voc por estar preocupado em atender aos desejos dela.

Gill escutou, boquiaberto, olhar fixo em Philip. - Profundo. Isso que voc disse tem algo de profundo e importante, essa idia do desespero duplo, mas no estou
entendendo bem.

Todos olhavam para Philip, que continuava a s ter olhos para o teto. Rebecca terminou de colocar as presilhas no cabelo e perguntou: - Philip, voc disse que a
terapia de Gill s vai comear quando ele se livrar da mulher?

E Tony: - Ou que a relao impede que ele veja como est fodido? Sei disso pela minha relao com a terapia. Nessa semana, conclu que fico to preocupado em me
envergonhar de ser carpinteiro, operrio, ganhar pouco, ser rejeitado, que no trato do verdadeiro problema que deveria estar cuidando aqui.

Julius observou, perplexo, o grupo sedento por cada palavra de Philip, concordando. Percebeu uma vontade de competir surgindo dentro dele,
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mas conteve-se dizendo para si mesmo que as metas do grupo estavam sendo atendidas. Calma, Julius, o grupo precisa de voc. No vo largar voc para
ficar com Philip. E  timo o que est acontecendo aqui, eles esto assimilando o novo membro e tambm colocando temas para futuras sesses.

Ele tinha pensado em falar, naquela dia, sobre a doena. De certa forma, era obrigado a isso, pois j tinha falado com Philip do melanoma e, para no dar a impresso
de uma relao especial com ele, tinha de avisar o grupo. Mas foi tomado por outros assuntos. Primeiro, pela urgncia de Gill falar, e depois, pela total fascinao
do grupo por Philip. Olhou o relgio. Faltavam dez minutos para a sesso terminar. No dava tempo. Resolveu que comearia a prxima sesso com a m notcia. Ficou
em silncio e deixou o relgio correr.
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*** 12

Os reis deixaram aqui suas coroas e cetros; os heris, suas armas. Mas os grandes espritos, cuja glria estava neles e no em coisas externas, levaram com eles
sua grandeza.

- ARTHUR SCHOPENHAUER, aos dezesseis anos, na Catedral de Westminster, em Londres

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1799 - ARTHUR APRENDE o QUE 

ESCOLHER E OUTROS HORRORES

Quando o menino Arthur, de 11 anos, voltou do Havre, o pai matriculou-o numa escola particular especializada em preparar futuros comerciantes. L, o menino aprendeu
o que os bons comerciantes da poca deviam saber: fazer contas com moedas estrangeiras, escrever cartas comerciais nas lnguas europias mais importantes, estudar
as rotas de transporte, os centros comerciais, a produo agrria e outros temas igualmente fascinantes. Mas Arthur no ficou fascinado, no tinha interesse naqueles
assuntos, no fez amigos na escola, e ficava cada dia mais apavorado com o plano do pai para o futuro dele: fazer um aprendizado de sete anos com um magnata local
dos negcios.

O que Arthur queria? No a vida de um comerciante, odiava at a idia. Queria ser um erudito. Muitos colegas dele tambm no gostavam de pensar num longo aprendizado,
mas o protesto de Arthur era mais profundo. Apesar da firme recomendao dos pais (uma carta da me mandava que deixasse de lado todos esses escritores por um tempo
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(...) voc tem quinze anos e j leu e estudou os melhores autores alemes, franceses e parte dos ingleses), ele passava todas as horas livres estudando
literatura e filosofia.

Heinrich, o pai, ficava desesperado com os interesses de Arthur. J havia sido informado pelo diretor da escola que o filho era apaixonado por filosofia e tinha
excepcional talento para erudies, e seria bom transferi-lo para um ginsio, onde se prepararia melhor para a universidade. No fundo, Heinrich pode ter entendido
a sensatez do conselho; era evidente que o filho lia e compreendia vorazmente todos os livros de filosofia, histria e literatura da enorme biblioteca dos Schopenhauer.

O que Heinrich podia fazer? Estava em jogo sua sucesso na empresa, assim como o futuro dela e o compromisso com os antepassados de manter a estirpe dos Schopenhauer.
Alm disso, tremia de pensar num herdeiro do nome sobrevivendo com os parcos proventos de um erudito.

Primeiro, Heinrich pensou em criar uma renda anual vitalcia para o filho atravs da sua igreja, mas seria caro demais. Depois, os negcios iam mal e ele tambm
era obrigado a garantir o futuro financeiro da esposa e da filha.

Ento, foi surgindo uma soluo em sua cabea, de certa forma diablica. Heinrich vinha resistindo h algum tempo aos pedidos de Johanna para fazerem uma longa viagem
pela Europa. Os tempos estavam difceis e a poltica interna to instvel que ameaava a segurana das cidades da Liga Hansetica, o que exigia dele ateno constante
nos negcios. Mas o cansao e a vontade de largar o peso das responsabilidades no trabalho minaram sua resistncia ao pedido da esposa. Aos poucos, imaginou um plano
inspirado que teria dois propsitos: agradar a esposa e decidir o futuro de Arthur.

Resolveu dar uma escolha ao filho de quinze anos. - Ou voc acompanha seus pais numa grande viagem de um ano por toda a Europa, ou fica com a carreira de erudito.
Ou promete para mim que no dia em que voltar da viagem, comea o aprendizado nos negcios, ou esquece a viagem, fica em Hamburgo e imediatamente passa a estudar
os clssicos e assim se preparar para a vida acadmica.

Imagine-se um menino de quinze anos tendo de tomar uma deciso que valeria pelo resto da vida. Talvez o sempre pedante
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Heinrich estivesse dando uma lio de vida. Talvez estivesse ensinando ao filho que as escolhas so excludentes, para todo sim existe um no. (Anos depois, Arthur
escreveria: "Aquele que quer ser tudo no pode ser nada".)

Ou ser que Heinrich estava dando ao filho um aperitivo de renncia, ou seja, se no podia renunciar ao prazer da viagem, como renunciaria aos prazeres mundanos
e teria a vida modesta de um erudito?

Talvez estejamos sendo muito generosos com Heinrich.  mais provvel que sua proposta fosse falsa, pois sabia que o filho no ia, nem podia, recusar a viagem. Nenhum
rapaz de quinze anos podia fazer isso no ano de 1803. Na poca, uma viagem assim custava uma fortuna que poucos privilegiados faziam uma vez na vida. Antes da inveno
da fotografia, os lugares no exterior s eram conhecidos por desenhos, quadros, livros e dirios de viagem (gnero, alis, que Johanna Schopenhauer iria explorar
mais tarde com muito brilho).

Ser que Arthur achou que estava vendendo a alma? Ser que ficou atormentado com a deciso? No se sabe. Sabemos apenas que em
1803, aos quinze anos, ele partiu com o pai, a me e um criado numa viagem de quinze meses por toda a Europa Ocidental e a Gr-Bretanha. Adele, a irm de seis anos,
ficou com um parente em Hamburgo.

Arthur registrou muitas impresses em seus dirios de viagem, escritos, como pediram seus pais, na lngua do pas visitado. Tinha enorme talento para lnguas e aos
quinze anos era fluente em alemo, francs e ingls, alm de ter noes de italiano e espanhol. Acabaria dominando uma dzia de lnguas modernas e antigas e tendo
por hbito (como quem visita sua biblioteca pode notar) fazer anotaes nas margens dos livros na lngua em que foram escritos.

Os dirios de viagem de Arthur do uma pequena idia dos interesses e traos que iriam formar a base de sua personalidade. Um forte subtexto nos dirios  a atrao
pelos horrores da humanidade. com muitos detalhes, Arthur descreve cenas impressionantes de mendigos esfomeados na Westflia, multides fugindo em pnico da guerra
iminente (as campanhas napolenicas estavam para comear), os bandos de ladres, batedores de carteira e bbados em Londres, os grupos de saqueadores em Poitiers,
a guilhotina exibida para o pblico em
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Paris, os seis mil condenados s gals em Toulon mostrados como animais num zoolgico, acorrentados pelo resto da vida em navios parados e arruinados demais para
navegar. Arthur descreveu tambm a fortaleza em Marselha, onde havia estado o Homem da Mscara de Ferro, e o Museu da Peste, onde se lia a recomendao que as cartas
enviadas das partes isoladas da cidade deviam antes ser mergulhadas em baldes de vinagre quente. E em Lyon, Arthur observou que as pessoas caminhavam, indiferentes,
pelo mesmo lugar onde seus pais e irmos foram mortos na Revoluo Francesa.

Arthur aperfeioou o ingls num colgio interno em Wimbledon, na Inglaterra, onde estudou Lorde Nelson; assistiu a execues pblicas e ao chicoteamento de marinheiros,
visitou hospitais e asilos, e andou pelos enormes e atulhados cortios de Londres.

Quando jovem, Buda morou no palcio do pai, onde foi poupado de conhecer os pobres do mundo. S quando saiu do palcio pela primeira vez, viu os trs grandes males
da vida: os doentes, os velhos e os mortos. Descobrir a natureza trgica e terrvel da existncia fez com que renunciasse a tudo e buscasse alvio do sofrimento.

A vida e a obra de Arthur Schopenhauer tambm foram profundamente influenciadas por essas vises precoces do sofrimento. Ele percebeu a semelhana de sua experincia
com a de Buda, e, anos depois, ao escrever sobre a viagem, disse: "Aos dezessete anos, sem educao escolar, entendi a misria do mundo, como Buda em sua juventude
ao ver a doena, a dor, a velhice, a morte".

Arthur nunca teve uma fase religiosa, no tinha f, e quando jovem, quis acreditar, teve vontade de fugir de uma vida totalmente descrente. Mas, se acreditasse na
existncia de um Deus, teria passado por dura prova na viagem pelos horrores da civilizao europia. Aos dezoito anos, escreveu: " esse o mundo que dizem ter sido
criado por um Deus? No, deve ter sido por um demnio!"
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*** 13

No fim da vida, a maioria dos homens percebe, surpresa, que viveu provisoriamente e que as coisas que largou como sem graa ou sem interesse eram, justamente, a
vida. E assim, trado pela esperana, o homem dana nos braos da morte.

O problema  que o gatinho acaba virando gato. O problema  que o gatinho acaba virando gato.

Julius sacudiu a cabea para afastar os versos incmodos e sentou-se na cama, acordando. Eram seis da manh, uma semana tinha se passado, dia do grupo outra vez
e as palavras do poeta Ogden Nash davam voltas na cabea dele como msica de fundo, em mais uma noite maldormida.

Todo mundo sabe que a vida  uma sucesso de perdas, mas poucos sabem que uma das piores perdas que nos aguardam nas dcadas finais  dormir mal. Julius sabia muito
bem disso. Suas noites consistiam num leve cochilo que quase nunca chegava a um profundo e abenoado sono em freqncia delta, interrompido por tantos despertares
que ele muitas vezes temia se deitar. Como tantos insones, acordava achando que tinha dormido menos horas do que dormiu, ou que passou a noite acordado. Em geral,
s conseguia se convencer de que tinha dormido revendo o que pensou  noite e percebendo que, acordado, no pensaria coisas to estranhas e irracionais.
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Naquela manh, no tinha a menor idia de quantas horas dormiu. Os versos do gatinho-gato deviam ter aparecido num sonho, mas as outras coisas em que pensou durante
a noite ficaram numa terra de ningum, sem a clareza e a objetividade da viglia, nem os ardis caprichosos dos pensamentos onricos.

Sentou-se na cama, repetindo os versinhos de olhos fechados, seguindo a recomendao que dava aos pacientes para separar as fantasias e imagens que aparecem entre
o sono e a viglia. O poema falava nas pessoas que gostam de gatinhos, mas no quando eles viram gatos. E o que isso tinha a ver com ele, Julius? Gostava de gatinhos
e de gatos, gostou dos dois gatos na loja do pai, gostou dos filhotes deles e dos filhotes dos filhotes, no conseguia entender por que os versos grudaram na cabea
dele de forma to cansativa.

Pensando melhor, talvez os versos fossem um lembrete amargo de como ele tinha passado a vida inteira preso ao mito errado de que tudo em Julius Hertzfeld (seu destino,
sua fama e glria) era uma espiral ascendente e que a vida s iria melhorar. Claro, ele agora percebia que o inverso era verdade (o versinho estava certo), a idade
do ouro vinha primeiro, a inocncia, o engatinhar, as brincadeiras, o esconde-esconde, o jogo de pique, construir fortes com caixotes vazios de bebidas na loja do
pai, quando no sentia o peso da culpa, do engano, do conhecimento ou do dever, aquela tinha sido a melhor poca da vida. com o passar dos anos, a chama diminuiu
e a vida ficou implacavelmente mais sombria. O pior ficava no fim. Lembrou do que Philip falou da infncia na sesso anterior. Sem dvida, Nietzsche e Schopenhauer
acertaram.

Balanou a cabea, triste. Era verdade, ele nunca tinha realmente desfrutado o momento, nunca tinha sentido o presente, nunca pensou: "
isso, agora, hoje,  isso
o que eu quero! Os velhos bons tempos so hoje, exatamente agora. vou ficar nesse instante, vou criar razes nesse lugar para sempre." No, ele sempre achou que
o melhor da vida ainda estava por ser descoberto e ansiava pelo futuro, quando estaria mais velho, mais inteligente, maior, mais rico.
E, ento, veio a revolta,
a grande virada, a sbita e dramtica desidealizao do futuro e o incio do doloroso desejar o que j tinha sido.

Quando foi aquela mudana ? Quando a nostalgia substituiu a promessa dourada do amanh? No foi no colgio, onde ele considerava
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tudo como um preldio (e um obstculo) para o grande prmio: entrar na Faculdade de Medicina. Tambm no foi na faculdade onde, nos primeiros anos, ansiava para
sair das salas de aula e entrar nas enfermarias como mdico, de jaleco branco, um estetoscpio saindo do bolso ou dependurado casualmente no pescoo como um xale
de ao e borracha. Tambm no foi no terceiro e quarto anos da faculdade, quando finalmente assumiu seu posto no hospital. Ento, desejou mais autoridade: ser importante,
tomar decises mdicas vitais, salvar pessoas, batalhar, olhar um paciente e empurr-lo na maca pelo corredor para o centro cirrgico numa emergncia. Tambm no
foi quando se tornou residente-chefe de psiquiatria, escondido atrs da cortina do xamanismo, e ficou pasmo com os limites e incertezas da profisso que escolheu.

Sem dvida, a mania crnica de no se prender ao presente tinha destrudo seu casamento. Ele gostou de Mriam desde o instante em que a viu no colgio, ao mesmo
tempo em que a considerou um impedimento para no aproveitar a multido de mulheres que ele queria ter. Julius nunca admitiu por completo que sua caada tinha acabado
ou que a liberdade de obedecer ao desejo estava, no mnimo, reduzida. Quando comeou no hospital, descobriu que o dormitrio dos residentes ficava ao lado dos quartos
da Escola de Enfermagem, cheia de jovens casadouras que adoravam mdicos. Era uma verdadeira loja de doces e ele se empanturrou de todos os sabores.

A mudana deve ter sido s depois da morte de Mriam. Nos dez anos seguintes ao acidente de carro que a levou, sentiu mais carinho por ela do que quando era viva.
s vezes, ficava angustiado ao pensar em sua satisfao fsica com Mriam, os momentos realmente idlicos e sublimes da vida tinham surgido e acabado sem que ele
aproveitasse de verdade. Mesmo naquela hora, dez anos depois, no conseguia pronunciar seu nome rpido, tinha de fazer uma pausa em cada slaba. Sabia tambm que
no se interessaria muito por nenhuma outra mulher. Vrias tinham afastado a solido dele por algum tempo, mas logo percebeu, e elas tambm, que jamais iriam ocupar
o lugar de. Mriam. Nos ltimos tempos, a solido era atenuada pelos dois filhos e por um vasto crculo de amigos homens, vrios deles colegas no grupo teraputico
de apoio. Nesses anos, tinha passado todas as frias com os dois filhos e cinco netos.
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Mas todas essas idias e lembranas foram apenas trechos e partes do que pensou durante a noite; o principal foi ensaiar o que teria de dizer ao grupo de terapia
naquela tarde.

J havia contado do cncer para muitos amigos e para os pacientes individuais, mas, estranho, estava muito preocupado com seu desempenho no grupo. Achava que tinha
um pouco a ver com o fato de ser apaixonado pelo grupo de terapia. H vinte e cinco anos aguardava ansioso por cada sesso. O grupo era mais que um bando de gente,
pois tinha vida prpria e personalidade forte. Apesar de no restar ningum do grupo original (exceto ele, claro), havia um sentimento persistente e estvel, uma
cultura (no jargo da profisso, uma srie de normas tcitas) que parecia imortal. Nenhum integrante era capaz de listar as normas do grupo, mas todos sabiam se
determinado comportamento convinha ou no.

Aquela atividade exigia dele mais energia do que qualquer outra na semana e Julius esforava-se muito para manter o grupo navegando. Era como um venerando e misericordioso
navio que havia transportado uma horda de gente atormentada at portos mais seguros e mais felizes. Quantas pessoas? bom, como a mdia de permanncia era de dois
a trs anos por pessoa, achava que tinha tido pelo menos uma centena de passageiros. De vez em quando, lembrava de algum que tinha sado, fragmentos de uma permuta,
uma imagem passageira de um rosto ou fato. Pena que esses fogos-ftuos de memria fossem s o que sobrara de horas ricas e vibrantes, de fatos borbulhantes de vida,
significado e pungncia.

Anos antes, Julius tinha experimentado gravar o grupo em vdeo e mostrar na sesso seguinte alguma coisa especialmente problemtica. As velhas fitas tinham formato
antigo, que no era mais compatvel com os equipamentos atuais. s vezes, ele pensava em peglas no poro, mandar transcodific-las e ressuscitar os pacientes que
se foram. Mas nunca fez isso, no agentava se expor  iluso de vida armazenada numa fita brilhante e ver com que rapidez o instante presente e todos os seguintes
sumiriam no nada das pequenas ondas eletromagnticas.

Os grupos de terapia precisam de tempo para alcanar estabilidade e segurana. Muitas vezes, um grupo novo rejeita quem no consegue (por falta de motivao ou capacidade)
se envolver, isto ,
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interagir com os outros e analisar essa interao. Pode haver ento semanas de conflitos difceis, com os integrantes competindo por uma posio de poder, ateno
e influncia, mas, quando ganham confiana, a possibilidade de cura aumenta. Scott, um colega de Julius, uma vez comparou um grupo de terapia com uma
ponte construda numa batalha. Na primeira fase da construo h muitas vtimas (isto , gente que larga o grupo), mas depois que a ponte fica pronta, conduz muitos
(as pessoas que estavam antes e todos os que chegaram depois  para um lugar melhor.

Julius tinha escrito artigos em publicaes especializadas sobre as diversas formas de a terapia de grupo ajudar os pacientes, mas era sempre difcil descrever o
ingrediente realmente importante: o ambiente curativo. Num artigo, comparou esse ambiente com um tratamento contra uma grave leso na pele, em que o paciente fica
imerso em banhos calmantes de aveia.

Uma das maiores vantagens adicionais dessa atividade (nunca citada na literatura especializada)  que um bom grupo costuma curar os pacientes e tambm
o terapeuta. Julius costumava sentir um alvio" aps uma sesso, mas nunca soube de que forma exatamente aquilo funcionava. Ser que era apenas uma questo de esquecer
de si mesmo por noventa minutos, ou do ato altrustico da terapia, ou de aproveitar do prprio conhecimento, orgulhoso de sua capacidade e de merecer a admirao
dos outros? Todas as opes acima? Julius desistiu de saber; nos ltimos anos, aceitava a explicao simplista de apenas mergulhar nas guas curativas do grupo.

Comunicar ao grupo sobre o melanoma parecia um momento grave. Ele achava que uma coisa era contar  famlia, aos amigos e a todos os colegas; outra, tirar a mscara
para sua platia primeira, aquele seleto bando para o qual ele havia sido o que cura, o mdico, o sacerdote e xam. Era um passo irreversvel admitir que estava
incapacitado, confessar em pblico que sua vida no era mais uma espiral para cima rumo a um futuro maior e mais brilhante.

Julius pensou muito em Pam, que estava ausente e s devia voltar de viagem dentro de um ms. Lastimou que ela no estivesse l para ouvir aquela revelao. Achava
que ela era a pessoa-chave no grupo, uma presena sempre confortadora e curativa para os outros (e para ele). Ficou aborrecido porque o grupo no conseguiu ajud-la
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em sua raiva e obsesso com o ex-marido e o ex-amante, e ela, desesperada, foi buscar ajuda num centro de meditao budista na ndia.

Assim, lidando com todos esses sentimentos, Julius entrou na sala do grupo s quatro e meia. Todos j estavam sentados e cada um olhava um papel que sumiu quando
ele entrou.

Que estranho, pensou. Ser que estava atrasado? Deu uma olhada rpida no relgio. No, quatro e meia em ponto. Esqueceu aquilo e comeou a recitar o que tinha ensaiado.

 - Bom, vamos comear. Como sabem, no costumo iniciar a sesso, mas hoje  exceo porque preciso tirar um peso do peito, uma coisa difcil de dizer.  o seguinte.

- Cerca de um ms atrs, soube que estou com uma forma grave ou, melhor, mais que grave, uma forma letal de cncer de pele, um melanoma maligno. Eu achava que estava
bem de sade; soube disso num recente exame mdico de rotina.

Julius parou. Alguma coisa estava esquisita. O rosto e a linguagem no-verbal das pessoas no estavam combinando. O comportamento deles estava errado. Deviam ter
se virado e olhado para ele, mas ningum olhou, ningum o encarou, olhavam para o outro lado, para nada, menos Rebecca, que estudava disfaradamente o papel no colo.

- O que h? - perguntou Julius. - Ser que no estou sendo claro? Vocs parecem preocupados com outra coisa. Rebecca, o que est lendo?

Ela imediatamente dobrou o papel, enfiou na bolsa e evitou olhar para Julius. Ficaram todos quietos at Tony quebrar o silncio.

 - Bom, vou falar. No posso falar por Rebecca, s por mim. O problema, quando voc estava falando,  que eu j sabia o que ia contar da sua sade. Por isso era
difcil
olhar para voc e fingir que estava ouvindo uma novidade. Ao mesmo tempo, no podia interromper voc e dizer que j sabia.

- Como? Como sabia o que eu ia dizer? Que diabo est havendo?

 - Julius, desculpe, vou explicar - disse Gill. - Quer dizer, de certa forma, o culpado sou eu. Depois da ltima sesso, eu continuava mal, sem saber se ia para
casa e aonde dormir naquela noite. Insisti para irmos todos  lanchonete, onde continuamos a falar.
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- Ah, sim? E A? - Julius insistiu, rodando a mo em pequenos crculos como se dirigisse uma orquestra.

 - Bom, Philip contou qual era o problema, da sua sade e do mieloma maligno.

- Melanoma - corrigiu Philip, calmo.

Gill deu uma olhada no papel que tinha na mo. - Isso, melanoma. Obrigado, Philip. Continue, estou confuso.

- Mieloma mltiplo  um cncer dos ossos - disse Philip. - Melanoma  cncer da pele, a palavra vem de melanina, pigmento da pele.

- Ento esses papis so (...) - interrompeu Julius, indicando para Gill ou Philip explicarem.

- Philip baixou na Internet informaes sobre a sua doena e fez um resumo para ns, que entregou quando entramos na sala, minutos atrs. - Gill estendeu sua cpia
para Julius, que leu o ttulo: Melanoma maligno.

Atordoado, Julius recostou-se na cadeira. - Eu, hum, no sei como dizer, me sinto invadido, parece que eu tinha uma grande notcia para dar a vocs e fui furado
na reportagem da minha vida, ou da minha morte. - Virando-se para Philip, perguntou: - Voc pensou em como eu me sentiria?

Philip continuou impassvel, sem responder nem olhar para Julius.

- Julius, voc no est sendo muito justo - disse Rebecca, tirando a presilha, soltando os longos cabelos negros e enrolando-os num coque no alto da cabea. - Philip
no fez nada de errado. Primeiro, ele no queria ir  lanchonete depois da sesso. Disse que no se enturmava, que tinha de preparar uma aula. Ns quase tivemos
que arrast-lo.

 - Isso mesmo - concordou Gill, e acrescentou: - Falamos principalmente de mim e de minha mulher e onde eu poderia dormir naquela noite. Depois, claro, perguntamos
a Philip porque ele estava fazendo terapia, o que  bastante natural (toda pessoa que entra responde a isso), e ele disse do telefonema que voc deu por causa da
sua doena. Ficamos muito surpresos e tivemos de insistir para ele contar tudo. Considerando a situao, acho que ele no conseguiria escapar da gente.
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- Philip at perguntou se era legal o grupo se reunir sem   voc.

- Legal? Philip usou essa palavra? - perguntou Julius.

 - Bom, no. Fui eu que usei - explicou Rebecca. - Mas, era o que ele queria dizer e contei que costumamos nos encontrar depois na lanchonete e que voc nunca foi
contra, s pede que contemos tudo a quem no estava para no haver segredo entre ns.

Foi bom que Rebecca e Gill deram um espao de tempo, para Julius se acalmar. A cabea dele ardia com pensamentos negativos. Esse babaca, filho da puta traioeiro.
Tentei ajud-lo e eis a retribuio, toda boa ao  castigada. Posso imaginar o quanto falou nele mesmo e que fez terapia comigo primeiro porque (...) aposto uma
nota que esqueceu de propsito de contar quefudeu com mais de mil mulheres sem ter qualquer afeto ou interesse por nenhuma.

Mas Julius esqueceu tudo isso, afastou o rancor aos poucos e considerou os fatos ocorridos aps a ltima sesso. Viu que, claro, o grupo insistiria para Philip ir
 lanchonete e ele se sentiria obrigado a ir. Na verdade, Julius achava que estava em falta por no ter avisado Philip daquelas reunies peridicas ps-sesso.
E, claro, o grupo iria perguntar por que Philip estava na terapia, Gill tinha razo, eles sempre perguntam a uma pessoa nova e claro que Philip teria que contar
aquela estranha histria e o que combinaram, como no? Quanto  idia de distribuir informao sobre o melanoma maligno, claro que foi para ser simptico com o grupo.

Julius estava trmulo, no conseguia sorrir, mas tomou coragem e continuou: - bom, vou me esforar para falar nisso. Rebecca, me empreste esse papel. - Deu uma olhada
rpida. - As informaes mdicas parecem corretas, por isso no vou repeti-las, s completar com o que aconteceu. Comeou quando meu mdico percebeu uma mancha diferente
nas minhas costas, que a bipsia confirmou ser um melanoma maligno. Evidente que por isso cancelei as sesses duas semanas, foram semanas duras, muito duras, mergulhei
fundo. - A voz de Julius fraquejou. - Como vem, ainda  duro. - Parou, tomou flego e prosseguiu: - Os mdicos no podem prever, mas o importante  que acreditam
que tenho pelo menos um ano de sade. Portanto, esse grupo estar funcionando como sempre nesses doze meses. No, esperem, vou dizer de outro jeito: se a sade permitir,
me comprometo a ficar com vocs por mais um ano,
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quando ento o grupo acaba. Desculpem a falta de jeito, no tenho prtica nisso.

- Julius, sua doena  mesmo letal? A informao que Philip encontrou na Internet, aquelas estatsticas sobre os estgios do melanoma? -perguntou Bonnie.

- A resposta direta para uma pergunta direta  "sim",  letal. H grande chance da coisa me pegar. Sei que no foi fcil perguntar isso, mas agradeo sua objetividade,
Bonnie, pois sou igual  maioria das pessoas com doenas graves: detesto que os outros fiquem cheios de dedos comigo. Isso s faria me isolar e assustar. Preciso
me acostumar com a nova realidade. No gosto da idia, mas o fato  que levar a vida como uma pessoa saudvel e despreocupada, bom, isso est realmente acabando.

- Pensei no que Philip disse a Gill na semana passada. Ser que serve para voc, Julius? - perguntou Rebecca. - No sei se foi na lanchonete ou aqui no grupo, mas
era algo sobre se definir ou definir sua vida atravs dos afetos.  isso, Philip?

- Quando falei com Gill na semana passada - respondeu Philip, em tom medido e sem encarar ningum - mostrei que quanto mais apegos se tem, mais pesada fica a vida
e mais sofre a pessoa quando perde isso. Schopenhauer e o budismo dizem que no devemos nos apegar a nada e (...)

- No acho que isso v me ajudar - interrompeu Julius. - Tambm no acho que essa sesso deva tomar esse rumo. - Percebeu um olhar rpido e preocupado entre Rebecca
e Gill, mas continuou: - Pelo contrrio, ter muitas ligaes  fundamental para uma vida plena e evit-las por achar que causaro sofrimento  uma boa receita para
viver s pela metade. No quero cortar o que voc estava dizendo, Rebecca, porm acho mais adequado saber sua reao e a de todos em relao  notcia que dei. Obviamente,
saber que estou com cncer causou emoes fortes, conheo vrios de vocs h muito tempo. - Julius parou e olhou as pessoas.

Tony, que estava jogado na cadeira, se aprumou. - Bem, levei um susto quando voc disse que o importante para ns era saber por quanto tempo voc poderia continuar
com o grupo (esse comentrio me doeu, apesar de me acusarem de ser casca grossa). Admito que pensei nisso, mas, Julius, o que mais me preocupa  o que
isso significa para voc,
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quer dizer, voc foi muito, quer dizer, realmente importante para mim, me ajudou em coisas muito difceis, quer dizer, tem alguma coisa que eu, que ns,
possamos fazer? Deve ter sido terrvel para voc.

- Concordo - disse Gill e todos os demais concordaram (menos Philip, que ficou calado).

- Vou responder a voc, Tony, mas antes quero dizer que estou bem emocionado e que h dois anos atrs vocs no conseguiriam ser to objetivos e demonstrar tanta
generosidade. Respondendo  sua pergunta, foi terrvel. Meus sentimentos vm em ondas. Bati no fundo do poo nas duas primeiras semanas, quando cancelei as sesses.
Conversei muito com meus amigos, com toda a minha rede de apoio. Agora, nesse momento, estou melhorando. A gente se acostuma com tudo, at com uma doena fatal.
Na noite passada ficou na minha cabea a frase  A vida  s uma porra de perda aps outra.

Julius calou-se. Ningum falou. Todos olhavam para baixo. Ele ento disse: - Quero lidar com essa situao de frente, aceito discuti as coisas, no quero fugir de
nada, mas, a no ser que faam uma pergunta especfica, j falei bastante e no preciso da sesso inteira hoje. Quero dizer que tenho fora para trabalhar com vocs
aqui do jeito de sempre. Alis,  importante para mim que continuemos como sempre

Aps um pequeno silncio, Bonnie disse: - Para ser sincera, Julius, tenho um assunto para falar, mas no sei, meus problemas precm insignificantes comparados
com o seu.

Gill olhou para cima e acrescentou: - Eu tambm. O meu caso se aprendo ou no a falar com minha mulher, se fico com ela ou largo o navio afundando, tudo isso parece
bobagem comparado com voc.

Philip achou que era a deixa para ele entrar.
- Spinoza gostava de usar uma expresso latina, sub specie aeternitatis, que significa do ponto de vista da eternidade.
Dizia que os fatos perturbadores do cotidiano ficam menos complicados se forem vistos sob a perspectiva da eternidade. Acho que esse conceito talvez seja uma ferramenta
pouco valorizada na terapia. Talvez - nesse ponto, Philip virou-se diretamente para Julius - possa dar um pouco de consolo at para o grave problema que voc est
enfrentando.

- Vejo que voc tenta me dar alguma coisa, Philip, e agradeo. Mas agora, nesse momento, pensar numa viso csmica da existncia
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no  o remdio que me serve. Explico por qu. Na noite passada no dormi bem, estava triste por no ter conseguido apreciar o que tinha no momento em que tive.
Quando jovem, sempre considerei o presente como uma preparao para algo melhor que aconteceria no futuro. E ento os anos se passaram e eu de repente estava fazendo
o contrrio (e mergulhando na nostalgia). No consegui valorizar cada instante e esse  o problema com sua sugesto de desapego. Acho que v a vida pelo lado errado
do telescpio.

- Gostaria de fazer uma observao, Julius - disse Gill. - Acho que voc no vai aceitar nada do que Philip disser.

- Aceito sempre uma observao, mas essa  uma opinio, Gill. Qual  a observao?

 - Bom,  que voc no tem respeitado nada do que ele oferece.

- Sei o que Julius vai dizer, Gill - interveio Rebecca. - Continua no sendo uma observao,  uma hiptese do que ele sente. Essa foi a primeira vez que Julius
e Philip se falaram, embora indiretamente. Acho tambm que Julius interrompeu Philip vrias vezes hoje, e nunca o vi fazer isso com ningum.

- Muito bem, Rebecca. Uma observao direta e correta - disse Julius.

- Julius, no estou entendendo bem essa histria.  verdade que voc ligou para Philip, assim, de repente? - perguntou Tony.

Julius ficou de cabea baixa alguns minutos, depois disse: - , deve ter sido complicado para vocs entenderem. bom, vou contar tudo, ou tudo o que lembrar. Aps
o diagnstico da doena, fiquei desesperado. Achei que era uma sentena de morte e fiquei atordoado. Entre outras coisas ruins, pensei se tinha feito alguma coisa
na vida que fosse duradoura em algum sentido. Pensei nisso uns dois dias e, como minha vida  to ligada ao trabalho, pensei nos pacientes antigos. Ser que eu tinha
influenciado a vida de algum para sempre? Achei que no havia tempo a perder e, na mesma hora, resolvi procurar alguns pacientes. Philip foi o primeiro e, at o
momento, o nico que consegui localizar.

- E por que escolheu Philip? - perguntou Tony.

- Essa  a pergunta que vale cem mil dlares, talvez a quantia esteja defasada, deve valer um milho de dlares. Resposta curta: no sei. Pensei bastante nisso.
No foi uma atitude inteligente da minha parte
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porque, se eu queria confirmar meu valor, teria muitas outras pessoas a quem recorrer. Por mais que tenha me esforado durante trs longos anos, no ajudei
Philip. Talvez eu esperasse ouvir algum efeito retardado da terapia, alguns pacientes tm isso. Mas no houve com ele. Talvez eu estivesse sendo masoquista, quisesse
esfregar o fato no nariz. Talvez, ainda, eu tenha escolhido meu maior fracasso para me dar uma segunda chance. Confesso que no sei quais foram os motivos. E ento,
durante nossa conversa, Philip contou que tinha mudado de profisso e perguntou se eu poderia fazer a superviso dele. Suponho que voc tenha contado tudo isso ao
grupo - disse Julius, virando-se para Philip.

- Dei os detalhes necessrios.

- Pode ser um pouco mais claro?

Philip desviou o olhar enquanto o resto do grupo ficava constrangido e, aps um longo silncio, Julius disse: - Desculpe a ironia, Philip, mas voc consegue perceber
como fico com a sua resposta?

- Como eu disse, dei os detalhes necessrios - repetiu Philip. Bonnie olhou para Julius. - Para ser sincera, isso est ficando
desagradvel, vou tentar ajudar. Acho que voc hoje no precisa ser contestado, precisa  de receber carinho. Por favor, o que podemos fazer por voc hoje?

- Obrigado, Bonnie, tem razo. Hoje estou muito confuso, sua pergunta  tima, mas no sei se consigo responder. vou contar-lhes um grande segredo: algumas vezes
entrei nesta sala me sentindo mal por causa de problemas pessoais e sa melhor s por fazer parte desse grupo maravilhoso. Portanto, talvez seja a resposta para
sua pergunta. O melhor para mim  apenas que todos usem o grupo e no permitam que meu problema interrompa nada.

Aps um curto silncio, Tony disse: - Tarefa difcil, considerando o que houve hoje.

- Eu tambm me sentiria mal de falar de outra coisa - concordou Gill.

- Nessas horas, sinto falta de Pam, ela sempre sabia o que fazer, por mais difcil que fosse a situao - lembrou Bonnie.

- Engraado, tambm pensei nela - acrescentou Julius.

 - Deve ser telepatia, pensei em Pam h um minuto, quando Julius falou em vitrias e fracassos - disse Rebecca, e virando-se para Julius:
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- Sei que ela era sua preferida aqui na nossa famlia e isso no se discute,  bvio. Mas pergunto: voc acha que fracassou por ela passar dois
meses fora do grupo, buscando outro tipo de tratamento por no conseguirmos ajud-la? No deve ter sido bom para sua auto-estima.

Julius fez um gesto na direo de Philip: - Acho que voc pode explicar um pouco para ele.

Ento Rebecca disse a Philip, sem conseguir que se olhassem: - Pam  uma grande fora aqui no grupo. O casamento dela e um caso amoroso acabaram ao mesmo tempo,
pois ela resolveu largar o marido, mas o amante preferiu ficar com a mulher com quem era casado. Pam ficou irritada com os dois e obcecada por eles. Por mais que
tentssemos, no conseguimos ajud-la. Desesperada, ela foi para a ndia procurar um famoso guru num centro de meditao budista.

Philip no disse nada.

Rebecca virou-se para Julius. - O que achou da viagem dela?

- Olha, se fosse h quinze anos, eu ficaria bem preocupado. Mais: teria sido totalmente contra e diria que buscar outro tipo de soluo era apenas uma resistncia.
Mas mudei. Hoje, preciso de toda ajuda que puder receber. E acho que procurar um outro tipo de crescimento, mesmo que seja meio maluco, sempre pode oferecer novas
sadas para nosso trabalho teraputico. Espero realmente que isso acontea com Pam.

- Pode no ter sido uma coisa meio maluca, mas uma tima escolha para ela - disse Philip. - Schopenhauer apreciava as tcnicas de meditao orientais e o destaque
que elas do  liberao da mente, de ver atravs da iluso e aliviar o sofrimento aprendendo a arte do desapego. Alis, foi ele quem trouxe o pensamento oriental
para a filosofia do Ocidente.

O comentrio de Philip no foi dirigido a ningum em particular e ningum respondeu. Julius ficou irritado de ouvir tantas vezes o nome de Schopenhauer, mas calou-se
ao perceber que vrias pessoas gostaram da observao.

Aps um pequeno silncio, Stuart comentou: - No seria bom voltarmos ao assunto de cinco minutos atrs, quando Julius disse que o melhor para ele  trabalharmos
no grupo?

 - Concordo, mas por onde comeamos? - perguntou Bonnie. - Que tal voltarmos a falar de voc e sua mulher, Stuart? A ltima coisa que ouvimos
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foi que ela mandou um e-mail dizendo que pensava em terminar o casamento.

- J nos acertamos, est tudo bem. Ela se mantm a distncia, mas pelo menos as coisas no pioraram. Vejamos o que mais ficou pendente no grupo. - Stuart deu uma
olhada nas pessoas. - Pensei em duas coisas. Gill, que tal contar como esto voc e Rose? E Bonnie, voc disse antes que tinha algo a dizer, mas parecia comum demais.

- Hoje, abro mo da minha vez - disse Gill, olhando para baixo. - Semana passada tomei muito tempo na sesso. Mas a verdade  que fui vencido, capitulei. Estou envergonhado
de voltar para a mesma situao em casa. No adiantaram todos aqueles bons conselhos de Philip e de vocs. E voc, Bonnie?

- Hoje minhas coisas esto parecendo bobagem.

- Lembrem da minha verso da Lei de Boyle - disse Julius. - Uma pequena quantidade de inquietao vai acabar ocupando todo o nosso espao de inquietao. A sua 
to ruim quanto a dos outros, que tm causas obviamente mais graves. - Olhou o relgio: - J estamos quase passando da hora, vocs querem falar? Ou colocar na agenda
da prxima semana?

- Voc prefere que eu fale agora para no ficar com medo na semana que vem, no? - perguntou Bonnie. - Boa idia. O que eu tinha a dizer est ligado a eu ser sem
graa, gorda e desajeitada, enquanto Rebecca e Pam so lindas e interessantes. Mas Rebecca, voc principalmente, me traz sentimentos antigos e tristes que sempre
tive (de ser boba, sem graa, desprezada). - Bonnie parou e olhou para Julius. - Pronto, saiu.

 - E os comentrios ficam na agenda da prxima semana - disse Julius, levantando-se para mostrar que a sesso tinha terminado.
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Uma pessoa de raros dons intelectuais, obrigada a fazer um trabalho apenas til,  como um jarro valioso, com as mais lindas pinturas, usado como pote de cozinha.

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1807 - COMO SCHOPENHAUER QUASE FOI COMERCIANTE

A grande viagem da famlia Schopenhauer terminou em 1804 e Arthur, ento com dezesseis anos, cumpriu pesaroso a promessa feita ao pai e iniciou o aprendizado de
sete anos com Senator Jenisch, grande comerciante de Hamburgo. Passou a levar uma vida dupla, cumprindo todas as tarefas do aprendizado, mas, nas horas livres, estudava
escondido as grandes idias da histria do pensamento. A figura do pai, porm, estava to internalizada que o rapaz sentia muito remorso por esses momentos roubados.

Nove meses depois, ocorreu o grande fato que marcou a vida de Arthur para sempre. Embora o pai tivesse apenas sessenta e cinco anos, sua sade mental piorava rapidamente:
ele parecia ciumento, cansado, deprimido e muito confuso, s vezes no conseguia reconhecer nem velhos companheiros. No dia vinte de abril de 1805, embora doente,
conseguiu subir devagar at o ltimo andar do armazm e jogouse da janela no Canal Hamburgo. Horas depois, seu corpo foi encontrado flutuando nas guas geladas.
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Todo suicdio deixa um rastro de choque, culpa e raiva nos que ficam e Arthur sentiu tudo isso. Imagine-se a complexidade de seus sentimentos. O amor que tinha pelo
pai resultou em enorme tristeza e perda. O rancor causou remorso e mais tarde ele comentou vrias vezes o quanto sofreu com a dureza excessiva do pai. E a maravilhosa
perspectiva de liberao deve ter provocado muita culpa: Arthur sabia que o pai jamais teria deixado que ele se tornasse um filsofo. Nesse aspecto, pode-se pensar
nos dois outros grandes filsofos morais livrepensadores, Nietzsche e Sartre, que perderam o pai quando jovens. Ser que Nietzsche teria se tornado o Anticristo
se o pai, um pastor luterano, no tivesse morrido quando ele era criana? Na autobiografia de Sartre, ele demonstra alvio por no precisar ter a aprovao do pai.
Outros, como Kierkegaard e Kafka, por exemplo, no tiveram tanta sorte: passaram a vida oprimidos pelo julgamento do pai.

Embora a obra de Schopenhauer contenha uma enorme gama de idias, temas, curiosidades histricas e cientficas, conceitos e sentimentos, h apenas dois trechos pessoais
e ternos, ambos sobre o pai. Num, Arthur demonstra orgulho pela honestidade do pai ao dizer que trabalhava para ganhar dinheiro, e compara essa sinceridade com a
falsidade de muitos colegas filsofos (sobretudo, Hegel e Fitche) que almejam riqueza, poder e fama, mas fingem que trabalham pela humanidade.

Aos sessenta anos, Arthur pensou em dedicar sua obra completa  memria do pai. Escreveu e reescreveu a dedicatria que acabou jamais sendo publicada. Uma das verses
dizia: "Nobre e maravilhoso esprito ao qual devo tudo o que sou e tenho (...) quem encontrar em minha obra qualquer alegria, consolo, erudio, que oua o nome
dele e saiba que, se Heinrich Schopenhauer no tivesse sido quem foi, Arthur Schopenhauer teria acabado cem vezes."

A intensidade da devoo filial continua intrigante, j que Heinrich no manifestava qualquer afeto pelo filho. As cartas que lhe escreveu eram cheias de crticas,
como: "Danar e andar a cavalo no sustentam um comerciante cujas cartas precisaro ser lidas e, portanto, devem ser bem escritas. As vezes, vejo que suas letras
maisculas so horrveis." Ou: "No fique encurvado, d pssima aparncia. (...) num jantar, se algum v uma pessoa curvada, acha que  um alfaiate ou sapateiro
disfarado." Na ltima carta que escreveu para o filho,
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Heinrich ensinou: "Quanto a andar e sentar-se ereto, deve pedir a quem estiver com voc para lhe dar um soco nas costas sempre que esquecer esse
detalhe importante.  o que fazem os filhos dos prncipes, sem se importar com a dor passageira.  melhor do que parecer parvo."

Arthur era parecido com o pai no s no fsico, mas no temperamento. Quando estava com dezessete anos, a me escreveu: "Sei que voc no foi um jovem muito feliz
e que tinha grande tendncia  melancolia, triste herana que recebeu de seu pai".

Arthur herdou tambm o grande senso de integridade do pai, que teve peso decisivo no dilema que enfrentou aps ficar rfo: deveria continuar o aprendizado, apesar
de odiar comrcio? Resolveu fazer o que o pai teria feito: cumprir a promessa.

Escreveu sobre essa deciso: "Continuo com meu patro no comrcio, em parte porque minha enorme tristeza quebrantou meu esprito e em parte porque ficaria culpado
se contrariasse meu pai logo aps sua morte".

Se Arthur se sentiu paralisado e com uma obrigao aps o suicdio do pai, a me no teve tais problemas. Rpida como um remoinho, ela mudou tudo. Numa carta ao
filho de dezessete anos, escreveu: "Sua personalidade  to diferente da minha; voc  indeciso por natureza, enquanto eu resolvo tudo rpido". Poucos meses aps
ter enviuvado, ela vendeu a manso e a respeitvel empresa da famlia e mudou-se de Hamburgo. Contou vantagem para o filho: - Sempre escolho o que for mais emocionante.
Em vez de me mudar para a cidade natal e voltar para os amigos e parentes como qualquer mulher teria feito, preferi Weimar, que mal conheo.

Por que Weimar? Johanna era ambiciosa e queria ficar no centro da cultura alem. Segura de seu traquejo social, sabia que conseguiria bons resultados e, realmente,
em poucos meses criou uma incrvel vida nova. Promovia o mais animado salo literrio de Weimar e foi grande amiga de Goethe e de vrios outros grandes escritores
e artistas. Logo se tornou tambm uma bem-sucedida autora de dirios de viagem, relatando a excurso da famlia e uma viagem ao sul da Frana. Depois, por insistncia
de Goethe, passou para a fico e escreveu uma srie de romances sentimentais. Foi uma das primeiras alems realmente liberadas e a primeira a se sustentar como
escritora.
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Nos dez anos seguintes, Johanna se tornou uma renomada escritora, a Danielle Steel do sculo XIX, e, por vrias dcadas, Arthur foi conhecido apenas como "o filho
de Johanna Schopenhauer." No final da dcada de 1820, ela lanou sua obra completa em vinte volumes.

Apesar de ter sido considerada uma narcisista (graas, principalmente,  crtica severa do filho) e pouco carinhosa, no h dvida de que liberou Arthur de sua escravido
e abriu-lhe o caminho para a filosofia. O instrumento de libertao foi uma carta decisiva que escreveu em abril de 1807, dois anos aps o suicdio do marido.

Querido Arthur,

O tom calmo e srio de sua carta de 28 de maro passou da sua para a minha mente, mostrando e revelando que voc pode estar prestes a perder sua vocao! Por isso
tenho de fazer toda e qualquer coisa que possa salv-lo, sei o que  ter uma vida que repugna  alma e, se for possvel, vou lhe poupar, meu querido filho, esse
sofrimento. Ah, meu querido Arthur querido, como a minha opinio era to pouco importante, o que voc queria era, na verdade, o que eu mais desejava e lutei muito
para que se realizasse, apesar de tudo o que se dizia contra mim. (...) se voc no quiser entrar para a honrada classe dos fariseus, eu, meu caro Arthur, no quero
colocar qualquer impedimento em seu caminho,  voc quem deve buscar e escolher seu caminho. Depois, eu aconselho e ajudo, onde e como puder. Em primeiro lugar,
tente ficar em paz consigo mesmo (...) lembre que deve escolher algo que prometa um bom salrio, inclusive porque ser seu nico sustento, pois no poder viver
s da sua herana. Se voc j escolheu, me diga, mas a deciso deve ser sua. (...) Se tem fora e vontade de fazer isso, vou lhe dar todo o apoio. Mas no pense
que a vida de um erudito  fcil. Eu vejo  minha volta, querido Arthur.  uma vida cansativa e complicada, de muito trabalho, s o prazer dela faz com que seja
interessante. Ningum enriquece com essa vida, um escritor sobrevive com dificuldade. (...) Para ganhar a vida como escritor,  preciso escrever algo excelente.
(...) e agora mais que nunca h falta de cabeas brilhantes. Arthur, pense bem e escolha, mas depois fique firme, seja perseverante, pois conseguir seu intento.
Escolha o que quer (...) mas com lgrimas nos olhos imploro, no se menospreze. Seja srio e honesto com voc.
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() bem-estar da sua vida est em jogo, assim como a felicidade da minha velhice, pois s voc e Adele podem compensar minha juventude perdida. Eu no suportaria
saber que voc est infeliz, sobretudo se tivesse de me culpar por deixar essa grande desgraa acontecer a voc, apesar de toda a minha flexibilidade. Veja, caro
Arthur, que gosto muito de voc e quero ajud-lo em tudo. Recompense-me com sua confiana e decida, seguindo meu conselho de escolher o que quiser. E no me magoe
com a rebeldia. Voc sabe que no sou teimosa. Sei aceitar argumentos e jamais exigirei nada de voc que no possa aceitar com argumentos. (...)

Adieu, querido Arthur, escrevo com pressa e meus dedos doem. Pense em tudo o que eu disse e escrevi, e responda logo.

Sua me,

J. Schopenhauer .

J idoso, Arthur escreveu: - Quando terminei de ler essa carta, chorei muito. - Respondeu que preferiu largar o aprendizado comercial e Johanna argumentou: - Se
voc fosse outra pessoa, eu ficaria preocupada por tomar uma deciso to rpida. Acharia que foi precipitada, mas, sendo voc, considero que a deciso foi motivada
por seu desejo mais profundo.

Johanna no perdeu tempo, avisou o patro do filho e o proprietrio da casa onde morava que ele estava saindo de Hamburgo, providenciou a mudana e matriculou Arthur
numa escola em Gotha, a cinqenta quilmetros da casa dela em Weimar.

Arthur tinha rompido os grilhes.
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*** 15

 interessante que, alm da vida real, o homem sempre tem uma segunda vida abstrata onde, com calma deliberao, o que antes o deixava nervoso e irritado parece
frio, sem graa e distante: ele  mero espectador e observador.

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PAM NA NDIA

Quando o trem que ia de Bombaim para Igatpuri reduziu a marcha e parou numa pequena aldeia, Pam ouviu o tinir dos cmbalos rituais e olhou pela vidraa suja da janela.
Um menino de olhos negros, que devia ter uns dez ou onze anos, veio correndo com um pano na mo e um balde de plstico amarelo. H duas semanas, desde que tinha
chegado  ndia, Pam s fazia balanar a cabea para mostrar que no queria. No queria uma volta com guia pela cidade, no queria engraxar os sapatos, nem tomar
suco de tangerina natural e fresco, comprar sari, tnis Nike, trocar dinheiro. No para mendigos e para inmeros convites para fazer sexo, insinuaes s vezes feitas
s claras; s vezes, discretamente, com piscadelas, iar de sobrancelhas, lamber de lbios, ou movimentos de lngua. At que enfim, pensou ela, algum me oferece
algo que preciso. Fez sinal enftico que sim, sim, para o menino limpador de vidraas, que respondeu com um sorriso enorme e dentuo. Encantado com o interesse de
Pam, lavou a janela com longos gestos teatrais.
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Pam pagou com generosidade e quando ele ficou olhando fixo para ela, fez sinal para que se afastasse. Recostou-se na poltrona e viu uma procisso de aldees
serpentear por uma rua empoeirada atrs de um sacerdote de largas calas vermelhas e xale amarelo. Iam para a praa local e carregavam uma grande esttua de papel
mach de Ganesha, divindade baixo e gordo como Buda, mas com cabea de elefante. Todos (o sacerdote, os homens de brilhantes tnicas brancas e as mulheres, de amarelo
e laranja) levavam pequenas esttuas do deus. Meninos iam, dois a dois, com muitas flores e incensrios de bronze que lanavam nuvens de fumaa. Em meio ao tinir
dos cmbalos e ao som de bumbos, todos cantavam Ganapathi bappa Moraya, Purchya varshi laufyariyalaukariya.

- Por favor, pode me dizer o que eles esto cantando? - perguntou Pam ao homem de pele acobreada, sentado na frente dela, tomando ch, o nico passageiro no compartimento.
Era delicado, simptico e usava calas e tnica largas de algodo branco. Ao ouvir a voz de Pam, ele engasgou e tossiu furiosamente. Gostou da pergunta, j que desde
que o trem saiu de Bombaim tentava em vo conversar com a linda mulher na sua frente. Aps tossir bastante, ele se desculpou: - Perdo, madame. O corpo nem sempre
obedece. O que o povo daqui e de toda a ndia est cantando hoje  "Amado Ganapati, senhor de Moraya, volte outra vez no incio do prximo ano".

- Ganapati?

- Sim,  um pouco difcil de explicar. Talvez voc o conhea pelo nome mais comum, Ganesha. Ele tem vrios outros nomes, como Vighnesvara, Vinayaka, Gajanana.

- E a procisso, o que ?

- Marca o incio dos dez dias de festas de Ganesha. Talvez voc tenha a sorte de estar em Bombaim na prxima semana, no fim do festival, e ver a cidade inteira ir
 praia mergulhar suas esttuas de Ganesha no mar.

- Ah, e aquilo, o que ? Uma lua? Um sol? - Pam mostrava quatro crianas, cada uma com um grande globo de papel mach amarelo.

Vijay gostou das perguntas. Esperava que a parada na estao fosse longa e a conversa continuasse. Mulheres voluptuosas como aquela na frente dele apareciam sempre
nos filmes americanos, mas ele
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nunca teve a sorte de falar com uma. A graa e a beleza da pele clara atiavam a imaginao de Vijay. Parecia ter sado das antigas esculturas erticas do Kama
Sutra. - Aonde aquilo iria parar? - pensou ele. - Seria aquele o fato que mudaria sua vida e pelo qual esperava h tanto tempo? Estava livre e, graas  sua fbrica
de roupas, tinha virado um homem rico para os padres indianos. Sua noiva adolescente morrera de tuberculose dois anos antes e, at os pais dele escolherem outra,
estava desimpedido.

- Ah,  uma lua que as crianas levam seguindo uma antiga lenda. Saiba que o deus Ganesha era famoso pelo apetite. Basta ver sua enorme barriga. Uma vez, foi a um
banquete e se empanturrou com doces chamadosladdoos. J experimentou os laddoos?

Pam negou com a cabea, temendo que ele tirasse um da valise de mo. Uma amiga contrara hepatite numa casa de ch na ndia, por isso Pam seguiu o conselho mdico
de s comer em hotis quatro estrelas. Quando no estava no hotel, restringia-se a comidas que pudesse descascar, como tangerinas, ovos cozidos e amendoins.

- Minha me fazia deliciosos laddoos de coco e amndoas - disse Vijay. - So bolinhos de farinha fritos e servidos com calda de cardamomo. Parece uma mistura estranha,
mas garanto que so mais do que a soma dos ingredientes. Voltando ao deus Ganesha, ele comeu tanto que no conseguiu ficar de p, perdeu o equilbrio e caiu. Sua
barriga estourou deixando sair todos os laddoos.

- Isso aconteceu  noite, tendo por testemunha apenas a lua, que achou muita graa. Irritado, Ganesha amaldioou-a e expulsou-a do universo. Mas o mundo todo lamentou
a falta dela. Os deuses se reuniram e pediram a Shiva, pai de Ganesha, que mandasse o filho perdoar a lua. Ela tambm se desculpou e Ganesha mudou a maldio: a
lua teria que ficar invisvel um dia por ms, parcialmente visvel o resto do ms e s aparecer cheia, em todo seu esplendor, apenas um dia.

Aps um breve silncio, Vijay acrescentou: -  por isso que a lua participa dos festivais de Ganesha.

- Obrigada pela informao.

- Eu me chamo Vijay Pande.

 - E eu, Pam Swanvil. Linda essa histria e que engraado esse deus com cabea de elefante e corpo de Buda. Os aldees parecem levar seus mitos to a srio, como
se fossem realmente (...)
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-  interessante a imagem de Ganesha - Vijay interrompeu, gentil, tirando de dentro da camisa uma grande medalha de Ganesha que trazia numa corrente. - Repare que
tudo em Ganesha tem um sentido, uma lio de vida. A grande cabea de elefante  para pensarmos muito. E as orelhas grandes? Para ouvirmos mais. Os olhos pequenos
lembram de nos concentrarmos, e a boca pequena, de falarmos menos. No esqueo a recomendao de Ganesha nem enquanto falo com voc (procuro no falar demais). Pode
ajudar dizendo se estou falando mais do que voc quer saber.

- No, no, tenho muito interesse na imagem desse deus.

- H outras informaes, veja mais de perto: ns, indianos, somos pessoas muito srias - disse ele, pegando uma pequena lupa na pasta de couro pendurada no ombro.

Segurando a lupa, Pam inclinou-se para ver a medalha de Vijay. Sentiu o cheiro de canela, cardamomo e de algodo recm passado a ferro. Como ele podia ter um cheiro
to agradvel e fresco naquele compartimento empoeirado e fechado? - Ganesha s tem uma presa - notou ela.

- Isso quer dizer: fique com o bom, jogue fora o ruim.

- E o que segura? Um machado?

- Sim, para cortar todos as ligaes, os apegos.

- Isso lembra a doutrina budista.

- Sim, lembre que Buda saiu da me-oceano de Shiva.

- E o que segura na outra mo? No d para ver direito,  um tecido?

- Uma corda para manter a pessoa prxima de sua meta. De repente, o trem balanou e movimentou-se.

- Nosso trem voltou  vida - disse Vijay. - Repare no veculo usado por Ganesha, aqui, sob os ps dele.

Pam aproximou-se para olhar na lupa e discretamente sentir o cheiro de Vijay. - Ah, sim, o rato. Vi em toda esttua e gravura dele, nunca entendi porque o rato.

- Esse  o atributo mais interessante de todos. O rato significa o desejo. Voc s pode montar nele se o controlar, seno ele causa destruio.

Pam calou-se. O trem passou por rvores mirradas, templos, bufalos mergulhados em lagos lamacentos e fazendas cujo solo vermelho

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havia se exaurido por milhares de anos de plantio. Olhou Vijay e sentiu uma onda de gratido. Como ele fora discreto e gentil em mostrar a medalha, evitando assim
que ela passasse pelo constrangimento de fazer algum comentrio irreverente sobre a religio dele. Quando  que um homem fora to atencioso com ela? "No", disse
para si mesma, "no menospreze outros homens queridos." Lembrou do grupo de terapia. De Tony, que faria tudo por ela. Stuart tambm sabia ser generoso. E Julius,
que parecia ter um amor infinito. Mas a sutileza de Vijay era incomum, era extica.

E o que pensava Vijay? Tambm devaneava sobre a conversa com Pam. Estranhamente animado, o corao dele batia forte. Procurou se acalmar. Abriu a pasta de couro
e pegou um velho e amassado mao de cigarros, mas no ia fumar (o mao estava vazio e alm do mais ele sabia que os americanos so esquisitos em relao a cigarro).
Queria apenas olhar o mao azul e branco com o perfil de uma mulher de cartola e, em ntidas letras negras, a marca Cena que passa.

Um de seus primeiros mestres religiosos tinha chamado a ateno para aquela marca que o pai dele fumava e pediu que iniciasse a mgditacjigjjensando na vida como
uma cena que passa, um rio levando todas as coisas, todas as experincias, todos os desejos, enquanto Vijay assistia, inabalvel. Vijay pensou na imagem de um rio
fluindo e ouviu as palavras mudas de sua menteanitya, anitya (passagem). - Nada  permanente -lembrou ele -, a vida e todas as coisas passam,  to certo e garantido
quanto a paisagem correndo na janela do trem. Fechou os olhos, respirou fundo e encostou a cabea na poltrona. O pulso ficou mais lento e ele entrou no bem-vindo
porto da serenidade.

Pam olhava Vijay discretamente, e, quando o mao de cigarro caiu no cho, pegou-o, leu a marca e disse: - Cena que passa, que nome diferente para cigarros.

Vijay abriu os olhos devagar e disse: - Como eu falei, ns, indianos, somos muito srios, at os maos de cigarro trazem mensagens de conduta. A vida  uma cena
que
passa, medito sobre isso sempre que sinto uma turbulncia interna.

- Era o que estava fazendo um minuto atrs? Eu no devia tlo interrompido.

Ele sorriu e balanou a cabea, calmo. - Meu mestre uma vez me disse que ningum pode ser perturbado por outra pessoa. S ns
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podemos perturbar nossa prpria serenidade. - Vijay ficou inseguro, sentindo que estava cheio de desejo: queria tanto a ateno da companheira de viagem que transformou
sua meditao numa mera curiosidade, tudo para receber um sorriso daquela adorvel mulher que era uma apario, parte de uma cena que passa, logo sairia da vida
dele e se dissolveria na inexistncia do passado. Mesmo sabendo que isso o afastaria mais ainda do caminho, Vijay continuou:

- Gostaria de dizer uma coisa: vou valorizar muito nosso encontro e nossa conversa. Daqui a pouco vou saltar num ashram onde
ficarei dez dias em silncio e estou imensamente grato pelas palavras
que trocamos, os momentos que compartilhamos. Lembrei dos filmes americanos onde o condenado  morte tem direito de pedir o que quiser em sua ltima refeio. Posso
dizer que tive meus desejos totalmente atendidos na minha ltima conversa.

Pam apenas concordou com a cabea. Raramente ela ficava sem palavras, mas no sabia como responder  delicadeza de Vijay. - Dez dias num ashram? Est falando de
Igatpuri? vou fazer um retiro l.

- Ento vamos para o mesmo lugar e temos a mesma inteno, aprender a meditao Vipassana com o honrado guru Goenka.  daqui a pouco, pois  a prxima parada.

- Voc disse dez dias de silncio?

- Sim, Goenka sempre pede um valioso silncio. Fora as conversas necessrias com a equipe, os alunos no devem falar. Voc j fez meditao?

Pam negou com a cabea. - Sou professora universitria de literatura inglesa e no ano passado uma aluna teve uma cura e uma experincia transformadora em Igatpuri.
Passou ento a organizar retiros de meditao Vipassana nos Estados Unidos e pretende promover uma viagem de Goenka para l.

- Sua aluna queria dar um presente  professora. Ela espera que voc tambm se transforme?

- Bem, algo parecido. Ela no acha que preciso mudar nada em mim, mas aproveitou tanto dessa experincia que quis compartilhar comigo e com outras pessoas.

 - Claro. Formulei mal a pergunta, no queria de jeito nenhum dizer que voc precisa de uma transformao. Estava interessado no entusiasmo da sua aluna. Mas
ela preparou voc para esse retiro?
    117

- Diretamente, no. Veio para c por acaso e disse que seria melhor se eu tambm chegasse com a mente totalmente aberta. Voc est balanando a cabea. Discorda.

- Ah, os indianos balanam a cabea da direita para a esquerda quando concordam e de cima para baixo quando discordam, ao contrrio dos americanos.

- Ai, meu Deus. Acho que inconscientemente percebi, por isso meus sinais foram recebidos com certa estranheza. Devo ter confundido todas as pessoas com quem falei.

- No, no, os indianos que tm contato com ocidentais se adaptam. Quanto ao conselho de sua aluna, talvez voc deva se preparar. Esse no  um retiro para iniciantes.
 difcil manter rigoroso silncio, iniciar as meditaes s quatro da manh, dormir pouco, fazer uma refeio por dia. Voc deve ser forte. Ah, o trem est parando,
estamos em Igatpuri.

Vijay levantou-se, pegou seus pertences e tirou a valise de Pam da prateleira acima da poltrona. O trem parou. Vijay preparou-se para sair e disse: - Comea a experincia.

As palavras dele pouco consolavam e Pam estava ficando mais apreensiva. - Isso quer dizer que no poderemos nos falar durante o retiro?

- Nenhuma comunicao, nem por escrito.

- E-mail pode?

Vijay no sorriu. - O valioso silncio  o caminho para aproveitar a meditao Vipassana. - Ele parecia diferente. Pam sentiu como se ele estivesse sumindo.

- Pelo menos, vai ser confortador saber que voc est l.  menos ruim ficar sozinha estando acompanhada.

- Ficar sozinha estando acompanhada, que frase feliz - Vijay respondeu, sem olhar para ela.

- Talvez possamos nos encontrar outra vez no trem, depois do retiro,.

 - No devemos pensar nisso. Goenka vai nos ensinar que s podemos viver no presente. No existe ontem, nem amanh. As lembranas do passado, as preocupaes com
o futuro s
causam inquietao. O caminho para a serenidade est em observar o presente e deixar que
flutue pelo rio de  nossa conscincia.
 - Sem olhar para trs, Vijay
ps a pasta no ombro, abriu a porta do compartimento e saiu.
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*** 16

S a mente masculina, turvada pelo impulso sexual, poderia chamar o sexo que tem baixa estatura, ombros estreitos, coxas largas e pernas curtas de belo sexo.

Arthur Schopenhauer, sobre as mulheres

Seus eternos sofismas, suas reclamaes do mundo estpido e da misria humana no deixam que eu durma direito e me causam pesadelos. Todos os meus momentos desagradveis
foram por sua causa.

Carta de Johanna Schopenhauer para seu filho

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A MULHER MAIS IMPORTANTE NA VIDA DE SCHOPENHAUER

A me foi a mulher mais importante na vida de Arthur, uma relao atormentada e dbia que acabou mal. A carta de Johanna aprovando que o filho largasse o aprendizado
no comrcio tinha grandes sentimentos maternais: a preocupao com o bem dele, o amor, as esperanas. Mas tudo isso com uma condio: que ficasse longe dela. Da
a carta dizer para ele mudar de Hamburgo para Gotha e no para a casa dela em Weimar, distante cinqenta quilmetros.

Aps aprovar que Arthur deixasse o aprendizado, os sentimentos afetuosos se evaporaram porque ele ficou pouco tempo na escola preparatria de Gotha. Passou seis
meses l e, aos 19 anos, foi expulso por escrever um inteligente porm cruel poema zombando de um professor. Implorou ento  me para morar com ela e continuar
os estudos em Weimar.

Johanna no gostou da idia; na verdade ficava nervosa s de pensar em compartilhar a casa com Arthur. O filho visitou-a algumas vezes nos seis meses que passou
em Gotha, causando sempre muito
    119

desprazer. As cartas que escreveu para ele aps a expulso da escola so das mais agressivas que uma me j mandou para um filho.

(...) Conheo voc, (...)  uma pessoa irritante e agressiva, acho muito difcil conviver com voc. Todas as suas qualidades ficam comprometidas por ser to inteligente
e deixam de ter utilidade no mundo. (...) voc acha defeitos em tudo e em todos, menos em si mesmo. (...) e assim exaspera os que esto perto - ningum quer ser
melhorado ou ilustrado  fora, muito menos pela pessoa insignificante que voc continua sendo. Ningum agenta tambm ser criticado por quem mostra uma tal fraqueza,
principalmente em sua insistncia em garantir, em tom de orculo, que as coisas so de determinada forma, sem sequer desconfiar que pode estar errado.

Se voc no fosse assim, seria apenas ridculo, mas sendo como , se torna muito desagradvel. (...) Voc podia, como milhares de outros estudantes, freqentar a
escola e morar em Gotha (...) mas no quis e foi expulso. (...) Escrever um dirio literrio, como voc queria,  algo odioso e intil, porque no se pode pular
as pginas escritas ou jogar todo o lixo atrs do fogo, como se faz com as pginas impressas.

Johanna acabou se conformando com o fato de ter de hospedar o filho enquanto ele se preparava para entrar na universidade, mas escreveu outra carta, caso ele no
tivesse entendido a primeira, e mostrou bem sua preocupao.

Acho melhor dizer-lhe logo o que desejo e o que acho, para que possamos nos entender. Creio que no duvida que gosto muito de voc. Mostrei isso e mostrarei enquanto
viver. Para ser feliz, preciso saber que voc est feliz, embora no precise comprovar. Sempre disse que  difcil conviver com voc. (...) Quanto mais o conheo,
mais difcil acho.

No vou esconder: j que voc  do jeito que , prefiro qualquer sacrifcio a ficar perto de voc (...) o que me afasta no est no seu corao, est fora de voc,
no dentro. So suas idias, seu julgamento, seus hbitos; em uma palavra: no concordamos em nada em relao ao mundo exterior.
    120

Olhe, querido Arthur, toda vez que me visitou por poucos dias,

tivemos cenas violentas por qualquer motivo. S voltei a respirar aliviada quando voc foi embora, pois sua presena, suas reclamaes de coisas que no podem ser
mudadas, sua cara zangada, seu mau humor, as opinies estranhas que tem (...) - tudo isso me deprime e me preocupa, e no o ajuda em nada.

O raciocnio de Johanna parece claro. Pensava que seria prisioneira do casamento para sempre, mas, com a graa dos cus, havia escapado dele. Tonta de liberdade,
adorava pensar que nunca mais teria de prestar contas a ningum. Ia viver sua vida, encontrar-se com quem quisesse, ter ligaes amorosas (mas jamais se casar) e
explorar seus valiosos talentos.

A possibilidade de perder a liberdade por causa de Arthur era insuportvel. No s era ele uma pessoa muito difcil, controladora, mas filho de seu ex-carcereiro
e encarnao viva de muitos defeitos de Heinrich.

Havia tambm o problema do dinheiro, que surgiu pela primeira vez quando Arthur, aos dezenove anos, acusou a me de gastar demais, o que ameaava a herana que ele
receberia aos vinte e um anos. Johanna irritou-se, garantiu que todos sabiam que ela servia apenas po com manteiga em seu salo literrio, e acusou o filho de viver
alm das posses, freqentando restaurantes caros e tendo aulas de equitao. s vezes, as discusses sobre dinheiro ficavam insuportveis.

Os sentimentos de Johanna em relao ao filho e  maternidade se refletem em seus romances. Num deles, a herona, bastante parecida com a autora, perde tragicamente
seu verdadeiro amor e se conforma com um marido de boa situao financeira, equilibrado, mas sem amor e s vezes autoritrio. Por desafio e afirmao, ela no quer
filhos.

Arthur no confiava seus sentimentos a ningum e mais tarde a me destruiu todas as cartas dele. Mas h sinais bvios de uma forte ligao entre os dois. Arthur
sempre teve medo de que sua relao com Johanna acabasse (aquela me diferente: alegre, sincera, bonita, com idias livres, culta, muito lida). Certamente, ela e
Arthur conversavam sobre o mergulho dele na literatura antiga e moderna.
    121

Pode ser que, para ficar junto da me, o rapaz de quinze anos tenha preferido fazer a grande viagem pela Europa em vez de se preparar para a universidade.

S aps a morte do pai o relacionamento mudou. As esperanas de Arthur de substituir o pai no corao da me devem ter sido destrudas pela rpida deciso dela de
deix-lo em Hamburgo e mudar-se para Weimar. Se ele teve novas esperanas quando a me liberou-o da promessa feita ao falecido pai, acabaram-se outra vez quando
ela o mandou para Gotha, embora as escolas de Weimar fossem muito melhores. Talvez, como a me deu a entender, ele quis ser expulso de Gotha. Se o comportamento
dele se pautava pelo desejo de reencontrar a me, deve ter desanimado com a m vontade com que foi recebido na nova casa e com a presena de outros homens na vida
dela.

A culpa que Arthur sentia pelo suicdio do pai era causada tanto pela alegria da liberdade quanto pelo medo de ter apressado a morte dele com o desinteresse pelo
comrcio. No demorou para sua culpa se transformar numa ardente defesa do bom nome do pai e numa crtica impertinente ao comportamento da me em relao ao pai.
Anos mais tarde, ele escreveu:

Sei como so as mulheres. Elas encaram o casamento apenas como uma instituio destinada a sustent-las. Quando meu pai ficou muito doente, a nica pessoa a ficar
com ele foi um criado fiel que, com seu caridoso afeto, ofereceu o carinho necessrio. Minha me dava festas enquanto meu pai ficava deitado sozinho; minha me se
divertia enquanto ele sofria muito. Assim  o amor das mulheres!

Arthur foi para Weimar e preparou-se com um tutor para entrar na universidade, mas a me obrigou-o a ficar em aposentos separados, que ela mesma escolheu. L, Arthur
encontrou uma carta de franqueza cruel, com as regras e limites do relacionamento.

Veja bem minhas condies: voc fica  vontade na sua casa, mas na minha,  hspede (...) e no se intromete nos arranjos domsticos. Todos os dias, voc deve chegar
s treze horas e ficar at as quinze, e no lhe vejo mais, exceto nos dias em que eu receber no
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salo literrio, que pode freqentar, se quiser, quando tambm far a refeio na minha casa, desde que no provoque discusses cansativas, o que me irrita. (...)
Durante o dia, pode me contar tudo o que devo saber de voc; nas outras horas, voc cuida de si mesmo. No  possvel que o seu conforto seja s custas do meu. Ciente
disso, espero que no retribua meus cuidados e amor maternos com hostilidade.

Durante os dois anos em que viveu em Weimar, Arthur respeitou as condies estabelecidas pela me e foi apenas uma presena no salo literrio, sem jamais conversar
com o arrogante Goethe. Seu domnio de grego e latim, seus conhecimentos de autores clssicos e de filosofia aumentaram com enorme rapidez e, aos vinte e um anos,
ele entrou para a universidade, em Gttingen. Na mesma poca, recebeu a herana de vinte mil Reichstalers, suficientes para sustent-lo at o fim da vida, embora
modestamente. Como previu o pai, ele dependeria muito dessa herana, pois jamais ganharia um centavo como erudito.

com o tempo, Arthur passou a ver o pai como anjo, e a me como demnio. Acreditava que o cime e a desconfiana do pai em relao  fidelidade da me tinham fundamento,
e que ela acabaria desrespeitando a memria dele. Em nome do pai, exigiu que ela levasse uma vida calma e isolada. E atacou com firmeza os homens que julgava serem
pretendentes dela, considerando-os inferiores, "criaturas produzidas em massa", indignos de substituir o pai.

Alm de Gttingen, Arthur estudou na Universidade de Berlim e doutorou-se em filosofia pela Universidade de Jena. Viveu pouco tempo em Berlim devido  iminente guerra
contra Napoleo, voltando a morar em Weimar com a me. Logo surgiram as mesmas batalhas domsticas, pois ele no s acusava a me de mau uso do dinheiro que recebia
para cuidar da av, mas tambm de manter uma ligao com o amigo Mller Gerstenbergk. Tornou-se to agressivo que Johanna foi obrigada a ver Mller s quando o filho
no estava em casa.

Nesta fase houve uma conversa, sempre citada, quando deu  me uma cpia de sua dissertao de doutorado, um brilhante estudo sobre os princpios da causalidade,
intitulado "Da qudrupla raiz do princpio de razo suficiente".
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Ao ler o ttulo, Johanna perguntou:

- Raiz qudrupla? Isso  para o boticrio preparar remdios? E Arthur respondeu:

- Este estudo continuar sendo lido quando no existir mais um s exemplar dos seus livros.

- Sim - disse Johanna -, pois  evidente que os seus escritos jamais sairo da prateleira das livrarias.

Arthur era inflexvel com os ttulos de seus trabalhos, no se preocupando com o fato de serem hermticos. Em vez do ttulo "Da qudrupla raiz do princpio de razo
suficiente", seria mais simples dizer "Uma teoria da explicao". Mesmo assim, at hoje, duzentos anos depois, a obra continua em catlogo nas editoras. Poucas dissertaes
conseguem tal proeza.

Arthur continuou tendo discusses acaloradas com a me por causa de dinheiro e dos relacionamentos dela, at que Johanna perdeu a pacincia. Deixou claro que jamais
romperia sua amizade com Mller nem com ningum por causa do filho. Mandou que ele se mudasse, convidou Mller para ocupar os aposentos vagos e escreveu para o filho
essa carta fatdica.

A porta que voc fechou com tanto estrondo ontem, aps seu comportamento inconveniente com sua me, foi fechada para sempre. vou para o campo e s volto quando souber
que voc saiu daqui. (...) Voc ignora o que seja um corao de me; quanto mais ele ama, mais sofre com cada golpe dado pela mo que um dia amou. (...) voc se
distanciou de mim: sua desconfiana, as crticas que fez sobre minha vida, meus amigos, seu comportamento incoerente comigo, sua raiva das mulheres, seu descaso
em querer me agradar, sua cobia, tudo isso, e muito mais, faz com que voc seja uma pessoa prejudicial para mim. (...) Se eu tivesse morrido e voc tivesse de lidar
com seu pai, ousaria se comportar como se fosse professor dele? Ou controlar a vida dele, os amigos? Ser que sou inferior a seu pai? Ser que ele fez mais por voc
do que eu? Gostou mais de voc do que eu? (...) Minha obrigao em relao a voc acabou. Deixe seu endereo, mas no me escreva, no vou mais ler nem responder
nenhuma carta sua. (...) Portanto,  o fim. (...) Voc me magoou demais. Viva e seja o mais feliz que puder.
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Foi mesmo o fim do relacionamento. Johanna viveu mais vinte e cinco anos, porm nunca mais me e filho se encontraram. J idoso, ao lembrar dos pais, Schopenhauer
escreveu:

A maioria dos homens sente atrao por um rosto bonito. (...) e a natureza faz com que as mulheres exibam todo o seu brilho (...) causem uma "sensao" (...) mas
a mesma natureza esconde os muitos demnios imbudos nas mulheres, tais como os infinitos gastos que fazem, os cuidados com os filhos, a teimosia, a obstinao,
o fato de ficarem velhas e feias em poucos anos, a desiluso, o adultrio, as vontades, os caprichos, os ataques histricos, o diabo a quatro. Por isso, considero
o casamento como uma dvida que o homem contrai na juventude e paga na velhice.
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*** 17

As grandes dores fazem com que as menores mal sejam sentidas e, na falta das grandes, at o menor desgosto nos atormenta.

17

No incio da sesso seguinte, todos os olhos convergiam para Bonnie. com voz insegura e suave, ela disse: - No foi muito boa idia me colocar na agenda de hoje
porque passei a semana inteira pensando no que dizer, ensaiando sem parar, embora saiba que ns aqui falamos de improviso. Julius sempre disse que o grupo tem que
ser espontneo para funcionar. Certo? - perguntou, olhando para ele.

Julius concordou. - Esquea o que ensaiou. Experimente fechar os olhos, pensar no texto que preparou, rasg-lo em pedaos e jog-lo na cesta de lixo. Certo?

De olhos fechados, Bonnie concordou.

- Agora, fale no sentimento de no ter um lar e no ser bonita. Fale da relao entre voc, Rebecca e Pam.

Bonnie, ainda concordando com a cabea, abriu os olhos devagar e comeou: - Tenho certeza de que todos vocs lembram de mim. Eu era aquela colega gordinha da escola.
Bochechuda, muito sem jeito, cabelos crespos demais. Pssima em ginstica e a que recebia menos cartes de Dia dos Namorados, chorava  toa, jamais tive amigas,
voltava sempre sozinha para casa, nunca recebi um convite para festa de formatura, to tmida que jamais levantava a mo na classe, embora
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fosse muito inteligente e soubesse todas as respostas. A Rebecca, aqui do grupo, era meu ismero.

- O seu o qu ? - perguntou Tony, largado na cadeira, sentado quase na horizontal.

- ismero  como uma imagem no espelho - explicou Bonnie.

- Ismero  a molcula com as mesmas espcies e o mesmo nmero de tomos que outra, mas que difere dessa outra na estrutura - disse Philip.

- Obrigada, Philip. Acho que foi pretensioso usar essa palavra, mas Tony, quero dizer que admiro a maneira peculiar que voc tem de assinalar quando no entende
alguma coisa. H uns dois meses, na sesso em que voc falou de sua vergonha pela pouca instruo e por ser operrio me deu abertura para falar dos meus problemas.
Agora, voltando aos meus tempos de escola, Rebecca era o meu inverso total. Eu adoraria ter uma Rebecca como amiga, faria qualquer coisa para ser uma Rebecca. 
isso. Passei as ltimas semanas cheia de lembranas da minha infncia horrvel.

- Aquela menina gordinha entrou na escola faz tempo - disse Julius. - O que fez com que ela voltasse  escola agora?

 - Bom, a que est. No quero que Rebecca se zangue comigo...

-  melhor falar direto para ela, Bonnie - interveio Julius.

- Certo - disse Bonnie, virando-se para Rebecca. - Preciso dizer-lhe uma coisa, mas no quero que se zangue comigo.

- Estou ouvindo - disse Rebecca, atenta.

- Quando a vejo lidar com os homens aqui no grupo (como ficam interessados, como voc os envolve), sinto-me totalmente intil. Todos aqueles velhos sentimentos ruins
voltam: gorducha, sem graa, impopular, perdedora.

- Nietzsche uma vez disse que, quando acordamos desanimados no meio da noite, os inimigos que derrotamos h muito tempo voltam para nos assustar - lembrou Philip.

Bonnie abriu um grande sorriso para Philip. - Que ddiva, Philip, que timo presente voc est me dando. No sei por que, mas melhoro s de pensar nessa idia de
inimigos que venci h muito tempo. Dar um nome faz com que as coisas fiquem mais (...)

 - Espera a, Bonnie. Fale sobre eu envolver os homens aqui, explique isso, por favor - pediu Rebecca.
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As pupilas de Bonnie se dilataram, ela evitou o olhar de Rebecca. - No  sobre voc. No tem nada de errado com voc,  s comigo,  a minha reao ao comportamento
feminino perfeitamente normal.

- Que comportamento? Do que voc est falando?

Bonnie respirou fundo e disse: - Ficar se enfeitando. Eu acho que voc fica seduzindo. Na sesso passada, no sei quantas vezes soltou os cabelos, balanou a cabea
e passou os dedos neles. No lembro de voc ter feito isso tantas vezes. Deve ser porque Philip entrou para
o grupo.

- Do que voc est falando? - perguntou Rebecca.

- vou citar o velho sbio So Julius. Ele diz que uma pergunta no  uma pergunta se voc sabe a resposta - interrompeu Tony.

- Por que voc no deixa Bonnie falar, Tony? - perguntou Rebecca, com olhar glido.

Tony no se perturbou e disse: -  bvio. Philip entrou no grupo e voc mudou, passou a ser uma, ah, como  a palavra? Voc se preparou para atac-lo. E isso, Bonnie?

Bonnie concordou.

Rebecca pegou um leno de papel na bolsa e tocou de leve nos olhos, com cuidado para no estragar o rimel. - Isso  uma porra de uma agresso.

-  exatamente o que no quero - implorou Bonnie. - Insisto que no  sobre voc, Rebecca. No est fazendo nada de errado.

- Isso no melhora nada. Fazer uma acusao desagradvel en passant a meu respeito e depois dizer que no sou eu, no melhora nada.

- O que  en passant? - perguntou Tony.

- Quer dizer de passagem - interveio Philip. -  uma expresso muito usada no xadrez, quando um peo pula duas casas e passa por um peo inimigo.

- Philip, voc adora aparecer, sabia? - perguntou Tony.

- Voc perguntou, eu respondi - disse Philip, sem se perturbar com a acusao. - A menos que sua pergunta no seja uma pergunta.

 - Argh, no me convenceu. - Tony olhou o resto do grupo e disse: - Vai ver, estou ficando mais idiota, pois tenho me achado mais por fora. Ser que  imaginao
minha, ou estamos falando mais difcil?
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Vai ver que a entrada de Philip tambm afetou outras pessoas, no s a Rebecca.

Julius interveio usando a ttica de terapeuta de grupo mais comum e mais eficiente:
passou o enfoque do contedo para o processo, isto , saiu do que foi dito para
o relacionamento dos envolvidos.
 - Hoje est acontecendo muita coisa. Talvez possamos voltar atrs um minuto e tentar entender. Primeiro, pergunto a todos: o que
est acontecendo entre Bonnie e Rebecca?

- Pergunta difcil - disse Stuart, sempre o primeiro a responder a Julius. Usando sua voz de mdico, disse: - No sei se Bonnie quer falar de uma coisa ou da outra.

- O que quer dizer? - perguntou Bonnie.

- Quer dizer o seguinte: vai falar de homens e da competio que voc tem com as mulheres, ou vai falar da Rebecca?

- Eu compreendo os dois motivos - disse Gill. - O motivo para as ms lembranas de Bonnie e tambm para a irritao de Rebecca, isto , ela pode no ter percebido
que estava ajeitando o cabelo, e, sinceramente, no acho que isso seja to importante.

- Voc  diplomata, Gill - observou Stuart. - Como sempre, tenta agradar a todos, principalmente as mulheres. Mas se ficar muito preocupado em entender o ponto de
vista feminino, nunca vai falar o que acha. Foi o que Philip disse a voc na semana passada.

- Lastimo esses comentrios discriminatrios, Stuart - disse Rebecca. - Francamente, sendo mdico voc deveria pensar melhor. Essa histria dzponto de vista feminino
 ridcula.

Bonnie fez sinal para falar. - Vamos parar um pouco, no consigo continuar nisso.  um assunto importante, mas surrealista. Como podemos ficar falando nas coisas
de sempre quando Julius avisou na semana passada que est morrendo? Erro meu: no devia ter entrado nesse assunto hoje, sobre Rebecca e eu ( corriqueiro demais).
Fica tudo comum, se for comparado.

Silncio. Todos olharam para baixo. Bonnie quebrou o silncio.

- Quero voltar atrs. Eu devia ter comeado a sesso falando num pesadelo que tive depois da ltima sesso. Acho que tem a ver com voc, Julius.

- Conte - pediu Julius.

 - Era noite, eu estava numa estao de trem escura (...)
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Julius interrompeu: -Tente usar o verbo no presente, Bonnie.

- Eu j devia saber disso. Certo:  noite, estou numa escura estao de trem. Tento pegar um trem que comea a sair da estao. Ando mais rpido. Vejo o vago-restaurante
passar cheio de pessoas bem vestidas, comendo e tomando vinho. No sei em que vago embarcar. O trem aumenta a velocidade e,  medida que os vages passam, ficam
mais feios, h janelas fechadas com tbuas. O ltimo vago, de carga,  s esqueleto, caindo aos pedaos, se afasta e o trem apita to alto que acordo s quatro
da manh. Meu corao bate forte. Fico suando e no consigo mais dormir.

- Voc ainda v esse trem? - perguntou Julius.

- com toda clareza. O trem se afasta, o sonho continua assustador. Estranho.

- Sabe o que acho? - perguntou Tony. - O trem  o grupo que vai acabar por causa da doena de Julius.

- Isso mesmo - concordou Stuart. - O trem  o grupo, leva voc a algum lugar e alimenta voc pelo caminho, os passageiros no vago-restaurante.

- , mas por que voc no consegue embarcar? Voc correu? - perguntou Rebecca.

- No corri, parece que eu sabia que no podia embarcar.

- Estranho.  como se quisesse e, ao mesmo tempo, no quisesse embarcar - disse Rebecca.

- No me esforcei muito.

- Talvez tivesse medo de embarcar? - perguntou Gill.

- J contei para vocs que estou apaixonado? - perguntou Julius.

Uma agitao percorreu o grupo. Silncio total. Julius olhou com jeito brincalho para os rostos intrigados e preocupados.

 - Isso mesmo, apaixonado por esse grupo, principalmente quando funciona como hoje. Muito boa a forma de vocs interpretarem esse sonho. Vocs so timos. vou dizer
o que pensei: acho, Bonnie, que esse trem  um smbolo para mim tambm. Ele traz medo e o escuro. E, como disse Stuart, alimenta. Tento fazer isso. Mas voc tem
medo dele, como deve ter de mim ou, melhor, do que est acontecendo cpmigo. E o ltimo vago, de carga, parecendo um esqueleto, no ser um smbolo, uma previso,
da minha deteriorao?
    130

Bonnie pegou lenos de papel na caixa que ficava no meio da sala, enxugou os olhos e gaguejou: - Eu, hum, eu, eu no sei o que responder, tudo isso  estranho. Julius,
voc me confunde, me impressiona seu jeito to prosaico de falar na morte.

- Todos ns estamos morrendo, Bonnie. S que eu sei meu prazo melhor do que vocs - disse Julius.

-  isso que eu quero dizer, Julius. Sempre gostei muito da sua irreverncia, mas agora, nessa situao, ela parece evitar um pouco as coisas. Lembro naquela poca
em que Tony cumpria pena de priso nos fins de semana e ns no estvamos falando nisso. Voc ento disse que se o grupo ignora uma coisa importante, no vai falar
em nada de importante.

- Quero dizer duas coisas - interveio Rebecca. - Primeira, Bonnie: ns estvamos falando sobre algo importante, vrias coisas importantes. E segunda: meu Deus, o
que vocs querem que Julius faa? Ele est falando no assunto.

- Na verdade, at ficou irritado porque a gente soube da doena por Philip e no por ele - disse Tony.

- Concordo - disse Stuart. - Ento, Bonnie, o que voc quer que ele faa? Est enfrentando a situao, disse que tem uma rede de apoio para ajudar.

Julius interveio, o assunto j tinha ido longe demais. - Olha, agradeo todo o apoio de vocs, mas, quando  forte assim, comeo a me preocupar. Talvez eu esteja
relaxando; sabem quando foi que o jogador Lou Gehrig resolveu se retirar do esporte? Quando o time todo o cumprimentou por uma jogada normal que ele fez. Talvez
vocs estejam me achando frgil demais para falar por mim mesmo.

- Ento, qual  a concluso? - perguntou Stuart.

- Primeiro, quero dizer a voc, Bonnie, que  muito corajosa por falar num assunto que queima quem toca nele. Alm disso, voc est absolutamente certa, incentivei
um pouco, alis, muito, a no falarmos na minha doena aqui.

 - vou contar umas coisas. Tenho dormido mal e pensado muito em tudo, inclusive no que fazer com meus pacientes individuais e com o grupo. No tenho nenhuma experincia
nisso, claro. Ningum tem prtica em morrer, j que s acontece uma vez. No h livros escritos contando como se morreu, tudo  de improviso.
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- Preciso resolver o que fao com o tempo que me resta. E quais so as opes? Interromper a terapia de todos os pacientes e do grupo? No estou preparado para isso,
tenho pelo menos um ano de sade e o trabalho  muito importante para mim. Tambm recebo muito dele. Se parasse com tudo, iria me considerar um pria. Acompanhei
muitos pacientes com doenas fatais que me disseram que o pior era o isolamento causado pela doena.

- E o isolamento  duplo: primeiro, a prpria pessoa se isola porque no quer trazer os outros para o desespero dela. Posso dizer que essa  uma de minhas preocupaes
aqui. Segundo, porque os outros evitam o doente por no saberem o que falar, ou no quererem nada com a morte.

- Portanto, me afastar de vocs no  bom para mim nem para vocs. Vi muitos pacientes terminais fazerem mudanas, ficarem mais sensatos, mais maduros e terem muito
que ensinar aos outros. Acho que isso comea a ocorrer comigo e tenho certeza de que terei muito a oferecer a vocs nos prximos meses. Mas se vamos trabalhar juntos,
vocs tero que enfrentar muita inquietao. Tero no s de encarar minha morte chegando, mas de pensar na morte de vocs tambm. Pronto, terminei de falar. Talvez
vocs tenham que pensar nisso e ver o que querem fazer.

- No preciso pensar, j est resolvido - disse Bonnie. - Adoro esse grupo: voc, Julius, e todas as pessoas que fazem parte dele, quero ficar aqui o mximo possvel.

Depois que os outros concordaram com Bonnie, Julius disse: - Agradeo o voto de confiana. Mas a primeira regra da terapia de grupo  admitir a enorme presso do
grupo, que dificulta ir contra ele em pblico. Seria preciso uma determinao sobre-humana para um de vocs dizer hoje: desculpe Julius, mas no agento, vou procurar
um terapeuta com sade para cuidar de mim.

- Portanto, no vamos nos comprometer, vamos s tocar no assunto, avaliar nosso trabalho e ver como cada um se sente nas prximas semanas. Um grande perigo, citado
por Bonnie hoje,  deixar os problemas de vocs parecer insignificantes. Temos que ver o melhor jeito de eu manter vocs tratando de seus problemas.

 - Acho que voc faz isso, se nos mantm informados sobre sua sade - disse Stuart.
    132

- Certo, obrigado, ouvir isso ajuda. Voltemos a vocs. Longo silncio.

 - Bom, talvez eu no tenha conseguido liberar vocs. vou tentar uma coisa. Stuart ou algum  capaz de dizer em que ponto estamos, quais so os assuntos em pauta
hoje?

Stuart era uma espcie de historiador informal do grupo: tinha uma memria to boa que Julius podia sempre pedir-lhe ajuda para lembrar fatos passados ou atuais.
Julius tentava no abusar de Stuart, que estava no grupo para aprender como se relacionar com os outros, no para ser um arquivo. Maravilhoso com seus pequenos pacientes
na pediatria, Stuart era um fracasso social sempre que saa desse papel. At no grupo ele costumava vir com apetrechos do trabalho no bolso da camisa: esptulas
para abaixar a lngua, caneta com luzinha, pirulitos, amostras de remdios. H um ano ele era uma fora estvel no grupo e tinha feito grandes progressos no "projeto
de humanizao", como ele dizia. Mas sua sensibilidade em relao aos outros ainda estava to mal desenvolvida que relatava os fatos do grupo sem qualquer malcia.

Stuart se recostou na cadeira, fechou os olhos e disse: - bom, vejamos, comeamos a sesso com Bonnie falando na infncia. - Bonnie costumava criticar Stuart e ele
deu uma olhada procurando aprovao dela antes de continuar.

- No, no  bem assim, Stuart. Os fatos esto corretos, mas o tom est errado. Voc falou como se fosse uma coisa frvola, como se eu quisesse contar uma histria
engraada. Tenho muitas lembranas dolorosas da infncia que esto aparecendo e me assustando. Entendeu a diferena?

- No sei se entendi. No disse que voc queria falar porque era divertido.  o tipo da coisa que minha mulher reclama de mim, esse mal-entendido. Mas continuando:
a seguir, Rebecca ficou ofendida e irritada com Bonnie, que achou que ela estava se exibindo e querendo impressionar Philip.

Stuart no se importou quando Rebecca deu um tapa na testa e resmungou "Droga" e continuou: - Tony ento reclamou que estamos usando palavras mais complicadas para
impressionar Philip. E que Philip gosta de aparecer. Philip deu uma cortada em Tony e eu comentei que Gill tinha tanta vontade de agradar as mulheres que perdia
a noo de si mesmo.
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- Vejamos o que mais - disse Stuart, olhando a sala.  - Bom, h Philip e no o que ele disse, mas o que deixou de dizer. No falamos muito nele, como se fosse um
tabu. Vamos pensar nisso, no falamos nem no fato de no falarmos nele. E, claro, Julius. Mas j trabalhamos o tema. Exceto que Bonnie estava particularmente preocupada
e protetora com ele, como costume. Na verdade, a parte da sesso sobre Julius comeou com o sonho de Bonnie.

- Muito bom, Stuart - disse Rebecca. - Um resumo bem completo, faltou s dizer uma coisa.

- O qu ?

- Falar em voc, que voltou a ser a mquina fotogrfica do grupo e com isso no entra na foto.

O grupo tinha cobrado Stuart muitas vezes por sua participao impessoal. Meses antes, ele contou um pesadelo em que a filha pisava em areia movedia e ele no conseguiu
salv-la porque foi pegar a mquina na mochila para fotografar. Foi ento que Rebecca apelidou-o de fotgrafo do grupo.

- Est certo, Rebecca. vou largar a mquina e concordar com Bonnie: voc  uma mulher bonita. Mas isso no  novidade para voc, j sabia.  claro que voc est
se exibindo para Philip quando solta e prende os cabelos.  bvio. O que acho disso? Tive um pouco de cime, alis, muito cime, voc nunca se exibiu para mim. Nem
ningum.

- Essas coisas do a impresso que estou num presdio de segurana mxima - replicou Rebecca. - Detesto quando os homens tentam me controlar, como se vigiassem todos
os meus movimentos. - Rebecca pronunciou bem cada palavra, mostrando uma agressividade e uma fragilidade que estavam latentes h muito tempo.

Julius lembrou da primeira impresso que teve de Rebecca. Dez anos antes, muito antes de entrar no grupo, ela teve sesses individuais durante um ano. Era uma mulher
delicada, com um jeito gracioso de Audrey Hepburn, esguia e bonita, de olhos grandes. E quem ia esquecer o primeiro comentrio dela na terapia? - Depois que fiz
trinta anos, notei que entro nos restaurantes e ningum pra de comer para me olhar. Estou arrasada.

- Julius seguiu duas orientaes no trabalho individual e de grupo com ela. Primeiro, a recomendao de Freud para o analista ser compreensivo com uma mulher
bonita e no se reprimir ou castig-la apenas porque  bonita.
    134

A segunda orientao foi um ensaio que Julius leu quando era estudante, intitulado "A linda mulher vazia", que dizia que a mulher muito
bonita costuma ser to festejada e gratificada pela beleza que deixa de se esforar. Sua segurana e sucesso so apenas superficiais e, quando a beleza acaba,
ela sente que tem pouco a dar: no aprimorou a arte de ser uma pessoa interessante nem a outra arte, de se interessar pelos outros. Stuart interrompeu os pensamentos
de Julius dizendo:

- Se fao uma observao, me chamam de mquina fotogrfica; se digo o que sinto, me chamam de controlador. Fico sem sada - reclamou Stuart.

- No entendi voc, Rebecca - disse Tony. - Por que no gostou do que Stuart disse? Ele s repetiu o que voc falou. Quantas vezes voc contou que sabe seduzir,
que  uma coisa natural em voc? Lembro de dizer como era bom na faculdade e no seu escritrio de advocacia, pois voc manipulava os homens com a sua sexualidade.

- Voc faz com que eu me sinta uma puta - Rebecca virou-se de repente para Philip. - No me acha uma puta, depois do que ele disse?

Philip, sem deixar de olhar para seu ponto preferido em algum lugar do teto, respondeu logo: - Schopenhauer disse que as mulheres muito atraentes, assim como os
homens muito inteligentes, esto destinados a viver isolados. E que os outros ficam cegos de inveja e de raiva da pessoa superior. Por isso, esses dois tipos nunca
tm amigos ntimos do mesmo sexo.

- Nem sempre - disse Bonnie. - Lembrei de Pam, que est ausente; ela tambm  linda e tem muitas amigas ntimas.

- Philip, voc est querendo dizer que, para ser popular, a pessoa tem que ser burra ou feia? - perguntou Tony.

- Exatamente - concordou Philip. - E a pessoa sensata no vai passar a vida querendo ser popular. Engano. A popularidade no mostra o que  verdadeiro ou bom, pelo
contrrio, nivela por baixo. Melhor buscar dentro de si mesmo os valores e metas.

- E quais so as suas metas e valores? - perguntou Tony.

Se Philip percebeu a agressividade da pergunta, no demonstrou e respondeu, sincero:
 - Como Schopenhauer, quero desejar o menos possvel e saber o mais possvel.
    135

Tony concordou, sem saber o que dizer.

Rebecca interrompeu: - Philip, o que voc ou Schopenhauer disseram sobre amigos foi muito certo em relao a mim; na verdade eu tive poucas amigas ntimas. Mas o
que dizer de duas pessoas com interesses e capacidades parecidos? No acha que  possvel serem amigos ?

Antes que Philip pudesse responder, Julius lembrou: - Nosso tempo est acabando. Nos ltimos quinze minutos da sesso, quero checar como vocs esto se sentindo.
Como estamos?

- No estamos atingindo o alvo, tem alguma coisa esquisita - disse Gill.

- Eu estou gostando - disse Rebecca.

- No, est um papo muito vago - disse Tony.

- Concordo - disse Stuart.

 - Bom, eu no acho vago - disse Bonnie. - Estou prestes a explodir, gritar, ou (...) - Bonnie de repente levantou-se, pegou a bolsa e a jaqueta e saiu da sala.
Gill
levantou-se e saiu para busc-la. Num estranho silncio, o grupo ficou ouvindo os passos se afastando. Pouco depois, Gill voltou e disse: - Ela est bem, pediu desculpas,
mas tinha de sair para relaxar. Volta na semana que vem.

- O que est havendo? - perguntou Rebecca, abrindo a bolsa para pegar os culos e as chaves do carro. - Detesto quando ela faz isso.  irritante.

- Algum sabe o que est havendo? - perguntou Julius.

- Acho que  TPM - disse Rebecca.

Tony viu Philip fazer cara de quem no entendeu e explicou: - TPM  tenso pr-menstrual. - Philip fez sinal de entender e Tony, por sua vez, fez sinal de positivo
com as duas mos e disse: - Oba, ensinei uma coisa a voc.

- Por hoje, ficamos por aqui - disse Julius. - Mas tenho a impresso de que sei o que h com Bonnie. Pensem no resumo que Stuart fez da sesso e o modo como Bonnie
comeou falando na menina gorducha que no era popular na escola, incapaz de competir com as outras, principalmente as bonitas. Ser que isso no foi recriado hoje
aqui ? Ela iniciou a sesso e logo depois o grupo trocou-a por Rebecca. Em outras palavras, o tema que ela queria abordar pode ter sido mostrado aqui ao vivo, com
todos ns participando da encenao.
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*** 18

Nada mais consegue assust-lo ou emocion-lo. Ele cortou todos os milhares de fios da vontade que nos ligam ao mundo e nos puxam para a frente e para trs (cheios
de ansiedade, carncia, raiva e medo),

num sofrimento constante. Sorri e olha calmamente

para trs, para a iluso do mundo, indiferente como um jogador de xadrez no final de uma partida.

18

PAM NA NDIA (2)

Poucos dias depois, s trs da manh, Pam estava acordada na cama, olhando o escuro. Por interferncia da aluna Marjorie, ela teve o privilgio de ficar num quarto
quase individual, uma pequena alcova com banheiro, ao lado do dormitrio das mulheres. Mas a alcova no tinha abafador de rudos e ela ouvia a respirao das outras
cento e cinqenta alunas da meditao Vipassana. Aquele ressonar fez com que se lembrasse de seu quarto no sto da casa dos pais em Baltimore, quando ficava acordada
ouvindo o vento de maro chiar na janela.

Pam conseguia agentar toda a rigidez do ashram (acordar s quatro da manh; fazer uma nica refeio vegetariana por dia; meditar horas a fio; manter silncio;
viver em instalaes espartanas), mas a falta de sono estava acabando com ela. No conseguia se lembrar do mecanismo de dormir. Como fazia antes? No, a pergunta
est errada, pensou, assim complicava, pois dormir  uma dessas coisas que no se pode controlar, vem por acaso. De repente, lembrou de uma coisa antiga, o porquinho
Freddie, grande detetive numa srie de livros infantis, em quem ela no pensava h vinte e cinco anos. Um dia,
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o detetive Freddie foi chamado para ajudar uma centopia que no conseguia mais andar porque suas centenas de ps estavam fora de compasso. Freddie resolveu o problema
mandando a centopia andar sem olhar nem pensar nos ps. A soluo estava em tirar a ateno do problema e deixar que a sabedoria do corpo resolvesse. Era a mesma
coisa com o sono.

Pam tentou usar a tcnica que aprendeu na palestra, esvaziando a mente de todos os pensamentos. O guru Goenka era gorducho, de pele azeitonada, pedante, excessivamente
srio e arrogante. Comeou a palestra dizendo que ia ensinar a meditao Vipassana, mas primeiro precisava mostrar ao aluno como acalmar a mente. (Pam agentou o
uso exclusivo do sujeito da frase no masculino; com certeza a onda feminista ainda no tinha chegado s praias indianas.)

Nos primeiros trs dias, Goenka ensinou a anapana-sati (conscientizao do respirar). E os dias demoravam a passar noashram. Alm da palestra seguida de perguntas
e respostas, a nica atividade diria, das quatro da manh s nove e meia da noite, era meditar sentada. Para conscientizar a respirao, Goenka mandou os alunos
aprenderem a inspirar e expirar.

- Ouam. Ouam o som da respirao - disse ele. - Tomem conscincia da durao e da temperatura que ela tem. Reparem na diferena entre o frio da inspirao e o
calor da expirao. Fiquem como um sentinela na porta. Prestem ateno nas narinas, no ponto exato onde o ar entra e sai.

- Em pouco tempo, a respirao fica cada vez mais suave at que parece sumir completamente, mas quando voc se concentra mais, consegue distinguir sua forma delicada
e sutil. Se seguirem bem todas as minhas orientaes - disse Goenka, apontando para o alto -, se forem dedicados, a prtica do anapana-sati vai acalmar a mente de
vocs. E vo se libertar de todos os obstculos da viglia: a ansiedade, a raiva, a dvida, o desejo sexual e a preguia. Vo ser pessoas atentas, tranqilas e alegres.

A tranqilidade era a meta de Pam, o motivo de sua peregrinao a Igatpuri. Nas ltimas semanas, sua mente era um campo de batalha onde lutava para afastar lembranas
e fantasias barulhentas, obsessivas e invasivas sobre o ex-marido Earl e o ex-amante, John. Sete anos antes, ela procurou o ginecologista Earl quando engravidou
de um parceiro eventual
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e resolveu fazer um aborto; preferiu no avisar o parceiro, no queria qualquer envolvimento maior com ele. O ginecologista Earl foi incrivelmente
gentil e cuidadoso. Fez o aborto e deu um acompanhamento, telefonou para a casa dela duas vezes para saber como estava. Pam concluiu que no passava de exagero o
hbito de as pessoas dizerem que faltam mdicos cuidadosos e humanos. Dias aps, recebeu um terceiro telefonema convidando-a para almoar, ocasio em que Earl passou
com percia de mdico a namorado. No quarto telefonema ela aceitou, animada, viajar com ele para uma conveno mdica em Nova Orleans.

O namoro progrediu com incrvel rapidez. Nenhum homem jamais a entendeu to bem, foi to solidrio, conheceu cada detalhe e cada pedacinho dela, proporcionou maior
prazer sexual. Embora ele tivesse muitas qualidades maravilhosas (era competente, bonito e sabia impressionar), ela lhe deu (percebeu depois) uma dimenso herica,
enorme. Ficou surpresa por ter sido a escolhida, promovida  primeira na fila de mulheres que batiam no consultrio dele em busca de seu dom curativo, apaixonou-se
perdidamente e aceitou se casar com ele semanas depois.

No comeo, o casamento foi perfeito. Mas na metade do segundo ano, apareceu a realidade de ter um marido vinte e cinco anos mais velho: ele precisava descansar mais;
o corpo mostrava a idade que tinha; os cabelos brancos apareciam, derrotando a tintura de frmula grega. Um problema no punho acabou com as partidas de tnis que
os dois jogavam aos domingos, e uma toro no joelho acabou tambm com o esqui na neve. Earl colocou  venda o chal de montanha estilo Tahoe sem consult-la. Sheila,
grande amiga de Pam e colega de faculdade, tinha avisado para ela no se casar com um homem mais velho e, a essa altura, recomendou tambm que Pam mantivesse a identidade
e no se apressasse em envelhecer. Pam se sentia acelerando o tempo. O envelhecimento de Earl irritava a juventude dela. Todas as noites, ele chegava em casa com
disposio s para os trs martinis habituais e assistir tev.

O pior era que ele no lia nada, embora um dia tivesse falado com fluncia e segurana sobre literatura. Como ela gostou de saber que Earl gostava deMiddlemarch
e Daniel Deronda. E que choque ver, pouco depois, que ele tinha confundido forma com contedo: no s
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as opinies sobre literatura eram decoradas, mas tinha poucos livros e no se interessava por novos. Isso foi o mais duro de encarar: como foi gostar de um homem
que no lia? Ela, cujos melhores e maiores amigos mergulhavam nas pginas de George Eliot, Woolf, Murdoch, Gaskell e Byatt?

Foi a essa altura que entrou em cena o ruivo John, professorassistente no departamento dela em Berkeley, carregado de livros, pescoo longo e bonito, pomo de Ado
proeminente. Era de se esperar que os professores de ingls lessem muito, mas Pam conheceu vrios que mal se aventuravam fora dos autores do seu sculo de especializao,
desconhecendo totalmente qualquer nome novo. Mas John lia tudo. Trs anos antes, Pam havia apoiado a entrada dele para o corpo docente com base nos dois livros incrveis
que ele publicara: Xadrez, a esttica da brutalidade na fico contempornea e No, senhor!: a herona andrgina na literatura inglesa do final do sculo XIX.

A amizade deles aumentou com as visitas a todos os lugares e programas romnticos docampus: reunies do Departamento e almoos do Clube de Professores, palestras
mensais no Auditrio Norris pelo poeta ou romancista residente. A amizade se enraizou e floresceu em atividades acadmicas, como dar aulas em dupla sobre grandes
pensadores ocidentais do sculo XIX, ou para um dar palestra no curso do outro. A ligao definitiva foi na guerra das discusses do conselho docente sobre carga
horria e salrios e nas grandes discusses do comit de promoes. Em pouco tempo, confiavam tanto na opinio recproca sobre romancistas e poetas que no precisavam
de outras; o correio eletrnico vivia abarrotado de citaes filosficas. Desprezavam textos que fossem bonitinhos ou pretensamente inteligentes; queriam apenas
o mximo: beleza e sabedoria atravs dos sculos. Os dois detestavam Fitzgerald e Hemingway, adoravam Dickinson e Emerson.  medida que aumentava a pilha de livros
que tinham lido, a relao ficava mais harmoniosa. Emocionavam-se com os mesmos pensamentos dos mesmos escritores. Juntos, tinham epifanias. Em resumo, os dois professores
de ingls estavam apaixonados.

Voc larga o seu casamento e eu largo o meu. Quem disse essa frase primeiro? Nenhum dos dois lembrava, mas, a certa altura do segundo ano de ensino em dupla, chegaram
a esse compromisso de alto risco amoroso. Pam estava pronta, mas John tinha duas filhas pr-adolescentes e,
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naturalmente, pediu mais tempo. Pam teve pacincia. Graas aos cus, John, o homem dela, era um bom sujeito e pediu tempo para lutar contra temas morais, como o
sentido das juras de casamento. Lutava tambm com a culpa de abandonar as filhas e como fazer para largar uma mulher cujo nico defeito era o embotamento, que, devido
s obrigaes domsticas, fez com que ela passasse de grande amante a me sem graa. Vrias vezes, John garantiu a Pam que estava digerindo os fatos, que tinha conseguido
identificar e reconhecer o problema, s precisava de mais tempo para resolver, ver o momento certo de agir.

Mas os meses se passavam e o momento certo no chegava. Pam desconfiava que John, como tantos maridos e mulheres insatisfeitos, tentava fugir da culpa e do peso
de atos contrrios ao moral e irreversveis, fazendo com que a mulher decidisse. Ele recuou, perdeu todo o interesse sexual pela mulher e a criticava, s vezes alto,
s vezes em silncio. Era o velho golpe do "no posso largar dela, mas rezo para que ela me largue". S que no estava funcionando: aquela mulher no caa nesse
golpe.

Finalmente, Pam agiu. A deciso foi apressada por dois telefonemas comeando por "Querida, acho melhor voc saber que (...)". Duas pacientes de Earl, com a desculpa
de fazerem um favor, contaram das investidas do mdico. Quando uma terceira paciente fez uma intimao judicial acusando-o de comportamento antitico, Pam agradeceu
sua boa estrela por no ter filhos e ligou para o advogado.

Ser que isso foraria John a tomar uma deciso? Ela teria terminado o casamento mesmo se no houvesse outro homem na histria, mas, numa incrvel negao, convenceu-se
de que largou o marido por causa do amante e continuou a apresentar essa verso. John remanchava; ainda no estava pronto. At que um dia resolveu. Foi em junho,
no ltimo dia de aula, logo aps um fantstico encontro de amor no lugar de sempre, o colcho de espuma azul meio desenrolado embaixo da mesa, no piso de madeira
dura do escritrio. (Os sofs foram proibidos nos escritrios dos professores de ingls devido s inmeras reclamaes, no departamento, de professores que atacavam
alunas.) Depois de fechar o zper da cala, John olhou para ela, srio. - Pam, eu amo voc. E porque amo, decidi ser firme. No estou sendo justo e resolvi tirar
um pouco da presso sobre voc, principalmente, mas sobre mim tambm. Temos de passar um tempo sem nos vermos.
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Pam ficou atordoada. Mal ouviu o que cie disse. Nos dias que se seguiram, as palavras dele pareciam um comprimido que engolira, grande demais para digerir e pesado
demais para vomitar. Uma hora ela o odiava; outra, o amava e desejava; mais outra e queria que ele morresse. Via uma cena aps outra: John e a famlia mortos num
acidente de carro. A mulher dele morta num desastre de avio e John na porta do apartamento dela, s vezes com as filhas, outras vezes sozinho. Uma hora, ela o abraava,
os dois choravam, emocionados. Outras vezes, ainda, ela fingia que tinha um homem no seu apartamento e batia a porta na cara de John.

Pam aproveitou muito os dois anos de anlise individual e depois a terapia de grupo, mas essa crise o tratamento no conseguiu resolver: vencer o enorme poder do
pensamento obsessivo. Julius tentou corajosamente. Foi infatigvel e usou todas as ferramentas de sua caixa. Primeiro, disse para ela anotar quanto tempo desperdiava
com aquela obsesso. Duzentos a trezentos minutos por dia. Incrvel! E parecia totalmente fora do seu controle, a obsesso tinha um poder diablico. Julius tentou
ajud-la a recuperar o controle da mente com uma diminuio sistemtica das horas de fantasias. Tambm no adiantou e ento sugeriu algo paradoxal: que ela escolhesse
uma hora todas as manhs s para fazer grandes fantasias sobre John. Pam obedeceu, mas a obsesso no diminua e continuou invadindo os pensamentos como antes. Depois,
sugeriu vrias tcnicas de interrupo de pensamentos. Pam passou dias berrando "no" para si mesma ou puxando elsticos no pulso.

Julius tambm tentou afastar a obsesso buscando seu sentido subliminar. - Esses pensamentos a protegem de pensar em outra coisa - explicou. - O que esto escondendo?
Se a obsesso no existisse, no que voc pensaria? - No adiantou.

Os outros membros do grupo ajudaram. Contaram sobre suas fases obsessivas; ofereceram-se para atender telefonemas de Pam sempre que ela estivesse obcecada; sugeriram
que se ocupasse, ligasse para os amigos, tivesse uma atividade social diria, arrumasse um namorado e, merda, parasse com aquilo! Tony fez com que ela risse ao se
candidatar para ao posto de Earl. Mas nada funcionou. Contra o enorme poder da obsesso, as armas da terapia foram to eficazes quanto um revlver de ar comprimido
contra um rinoceronte no ataque.
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Houve ento um encontro casual com Marjorie, a aluna de graduao de olhar sonhador, praticante da meditao Vipassana, que foi consultar Pam sobre mudana no tema
da dissertao. Marjorie no estava mais interessada na influncia dos conceitos de amor de Plato na obra de Djuna Barnes. Achava muito melhor o protagonista Larry,
do romance de Somerset Maugham, O fio da navalha, e propunha o tema Origens do pensamento religioso oriental em Maugham e Hesse. Nas conversas das duas, Pam ficou
impressionada com uma das frases preferidas de Marjorie (e de Maugham), a calma da mente. A frase parecia to incitante, to atraente. Quanto mais pensava, mais
Pam sentia que precisava acalmar a mente. E como nenhuma terapia individual nem de grupo parecia capaz de oferecer isso, resolveu seguir o conselho de Marjorie.
Comprou uma passagem rumo  ndia e ao guru Goenka, o tranqilizador de mentes.

A rotina no ashram deu um pouco de calma. Ela pensava menos em John, mas passou a achar a insnia pior do que a obsesso. Ficava deitada ouvindo os sons da noite:
o ritmo compassado da respirao das alunas dormindo e o libreto de roncos, resmungos e bufos. E a cada quinze minutos Pam levava um susto com um guarda-noturno
apitando alto, l fora.

Mas por que no conseguia dormir ? Devia ser por causa das doze horas de meditao dirias. Seno, por qu? As outras cento e cinqenta alunas pareciam descansar
tranqilas nos braos de Morfeu. Se ela pudesse perguntar essas coisas a Vijay! Uma vez, quando procurava disfaradamente por ele no salo de meditao, o assistente
Manil (que percorria as fileiras de alunos para baixo e para cima) tocou nela com a vara de bambu e disse: - Olhe apenas para o seu interior. - E quando ela viu
Vijay no fundo da ala masculina, ele parecia em transe, ereto na posio de ltus, imvel como um Buda. Deve ter percebido que ela estava no salo; das trezentas
pessoas, era a nica sentada numa cadeira. Ficou aflita com o problema, mas as dores nas costas, depois de sentar no cho por vrios dias, fizeram com que pedisse
uma cadeira a Manil.

Manil no gostou. Era um indiano alto e esguio que se esforava para parecer tranqilo. Sem tirar os olhos do horizonte, ele reagiu: - Suas costas? O que fez nas
vidas passadas para ter isso?
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Que desaponto! A resposta de Manil desmentia as veementes afirmaes de Goenka de que seu mtodo no era ligado a nenhuma religio. Aos poucos, ela estava notando
a enorme distncia entre as afirmaes no-religiosas do budismo rarefeito e as crenas supersticiosas das massas. Nem os assistentes noashram conseguiam resistir
ao apelo pelo mgico, o mistrio e a autoridade.

Uma vez, ela notou a presena de Vijay no almoo das onze horas e conseguiu um lugar ao lado dele na mesa. Ouviu-o respirar fundo, como se sentisse o cheiro dela,
mas no olhou nem falou com ela. Na verdade, ningum falava com ningum; a regra de silncio absoluto era cumprida.

Na terceira manh, um fato estranho animou o dia. Durante a meditao, algum peidou alto e alguns alunos riram. O riso era contagioso e logo vrios estavam num
acesso de riso. Goenka no gostou e retirou-se do salo imediatamente, com a esposa a reboque. Em seguida, um dos assistentes informou solenemente que o mestre se
sentiu desrespeitado e no continuaria sem que todos os que o ofenderam sassem do ashram. Alguns alunos se levantaram e saram, mas a meditao continuou perturbada
pelos rostos dos expulsos nas janelas, piando como corujas.

No houve comentrios posteriores, mas Pam desconfiou que os alunos foram expulsos no final da noite, j que na manh seguinte a quantidade de budas sentados no
salo era bem menor.

S era permitido falar ao meio-dia, quando os alunos podiam fazer perguntas objetivas aos assistentes do mestre. Na quarta manh, ao meio-dia, Pam perguntou como
resolver sua insnia.

- No se preocupe - respondeu Manil, olhando ao longe. - O corpo tem o sono que precisa.

- Ento, pode me dizer por que o guarda-noturno apita bem na minha janela a noite inteira? - perguntou ela.

- Esquea isso. Concentre-se apenas noanapana-sati. Preste ateno na sua respirao e esses fatos triviais no vo mais incomodar.

Pam estava to aborrecida com a meditao que no sabia se agentaria dez dias no ashram. Alm de meditar sentada, a outra atividade era ouvir as prelees montonas
de Goenka,  noite. Vestido numa brilhante tnica branca, ladeado por toda a equipe, ele se esforava em vo para demonstrar eloqncia, mas surgia sempre um
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toque de autoritarismo. A preleo consistia em longas frases repetidas, exaltando as muitas virtudes da meditao Vipassana que, praticada de forma adequada,
purificava a mente, levava  iluminao, a uma vida de calma e equilbrio,  erradicao de doenas psicossomticas e  eliminao das trs causas da infelicidade:
desejar, odiar e ignorar. Praticar sempre a Vipassana era como ser jardineiro da prpria mente, arrancando dela as ervas daninhas. Mais que isso, destacava Goenka,
a Vipassana podia ser feita em qualquer hora e lugar e tinha uma vantagem: enquanto outras pessoas perdiam tempo na fila do nibus, o praticante podia arrancar algumas
ervas daninhas da mente.

A meditao era cheia de obrigaes que,  primeira vista, pareciam justas e razoveis. S que eram tantas! No roubar, no matar nenhum ser animal ou vegetal, no
mentir, no ter relaes sexuais, no tomar bebidas alcolicas, no ter diverses sensuais, no escrever, no fazer anotaes, no usar caneta ou lpis, no ler,
no ouvir msica ou rdio, no falar ao telefone, no usar roupas de cama luxuosas, no usar enfeites no corpo, no usar roupas com decotes, curtas ou sem mangas,
no comer aps o meio-dia (exceto os alunos iniciantes, que recebiam um ch e uma fruta s cinco da tarde). Por fim, os alunos eram proibidos de questionar a orientao
ou as instrues do mestre, tinham que ter disciplina e meditar exatamente como pedido. Goenka disse que s com obedincia os alunos encontrariam a iluminao.

Pam ponderou um instante. Afinal, o mestre dedicou a vida a ensinar Vipassana. Claro que ele tinha uma ligao com a cultura do pas. Quem no tinha? E a ndia no
esteve sempre sob o peso dos rituais religiosos e de rgidas classes sociais? Alm do mais, ela adorava a linda voz de Goenka. Todas as noites, ficava encantada
com o profundo e sonoro cntico entoado na antiga lngua Pali, dos estudos budistas sagrados. Da mesma forma que se encantava com as msicas religiosas crists,
principalmente os cantos litrgicos bizantinos e com os solistas nas sinagogas, e uma vez, no interior da Turquia, ficava hipnotizada com o canto do muezim chamando
os muulmanos para a orao na mesquita, cinco vezes ao dia.

Embora fosse uma aluna aplicada, achava difcil prestar ateno na respirao durante quinze minutos sem entrar num devaneio sobre John. Mas aos poucos, foi mudando.
Os primeiros cenrios disparatados tinham se transformado numa nica cena: atravs de uma
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notcia de tev, rdio ou jornal, ela ficava sabendo que a famlia de John tinha morrido num desastre areo. Pensava ento na cena, sem parar. J no agentava
mais aquilo. Mas continuava pensando.

 medida que o tdio e a inquietao aumentaram, ela passou a se interessar muito por pequenas atividades domsticas. Quando se inscreveu no escritrio do ashram
(e soube, surpresa, que o retiro de dez dias era grtis), notou pequenos pacotes de detergente na lojinha local. No terceiro dia, comprou um pacote e passou um bom
tempo lavando e relavando suas roupas, dependurando-as num varal atrs do dormitrio (o primeiro varal que via desde a infncia) e, nos intervalos, conferindo se
estavam secas. Quais os sutis e as calcinhas que secavam mais rpido? Quantas horas de secagem  noite correspondiam  secagem durante o dia? Idem em relao a
secar na sombra ou no sol. Era melhor torcer a roupa ou no?

No quarto dia, ocorreu o grande evento: Goenka comeou a ensinar a Vipassana. A tcnica era simples e direta. Os alunos tinham que pensar no couro cabeludo at sentirem
alguma coisa, fosse um comicho, um formigamento, uma ardncia, at uma leve brisa na cabea. Assim que notasse isso, o aluno deveria apenas observar, nada mais.
Pensar naquela coceirinha. Parecia com o qu? Aonde vai? Quanto tempo dura? Quando ela some (como sempre ocorre), o aluno deve seguir para outra parte do corpo,
o rosto, e sentir algo parecido com uma coceira no nariz ou um tremor na plpebra. Esses estmulos aumentam, diminuem e desaparecem, e o aluno passa para o pescoo,
os ombros, at que percorre todas as partes do corpo e chega  sola dos ps, subindo ento de volta at o couro cabeludo.

As prelees de Goenka  noite davam os princpios racionais da
tcnica. O conceito-chave era anitya, impermanncia. Se a pessoa percebe a impermanncia de cada estmulo fsico, est prestes a extrapolar
o conceito de anttya para os eventos de sua vida e seus dissabores: tudo
passa e a pessoa vai se sentir equilibrada se ficar como observadora e apenas assistir a vida passar.

Em poucos dias, Pam achou o processo mais fcil, pois aprendeu a tcnica e a durao das sensaes fsicas. No stimo dia, achou incrvel que a tcnica se automatizasse
e ela comeou a varrer a mente, exatamente como Goenka previu. Era como se algum despejasse um jarro de mel em sua cabea, o qual ia escorrendo lenta e deliciosamente
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at a sola dos ps. Sentia um arrepio, quase uma sensao ertica, um zunido de abelhas em volta, enquanto o mel escorria. As horas passavam rpido. Logo ela no
precisou mais se sentar na cadeira e se misturou aos outros trezentos alunos sentados em posio de ltus, aos ps de Goenka.

Os outros dois dias de varredura da mente foram iguais e passaram rpido. Na nona noite, ela ficou acordada (dormiu to mal quanto antes), mas no se preocupou muito,
pois uma assistente birmanesa (tinha desistido de Manil) disse que era muito comum os alunos terem insnia na Vipassana. Talvez o prolongado estado de meditao
tornasse o sono menos necessrio. A assistente tambm esclareceu o mistrio dos apitos do guarda-noturno. No sul da ndia, os guardas costumam apitar quando fazem
a ronda.  um aviso para os ladres, da mesma forma que a luzinha vermelha no painel dos carros avisa os ladres que o carro tem alarme contra roubo.

Os pensamentos obsessivos so mais notados quando somem, e Pam se surpreendeu ao ver que h dois dias no pensava em John. Tinha sumido. Todas as interminveis espirais
das fantasias foram substitudas pelo zunido agradvel de varrer os pensamentos da mente. Era estranho perceber que ela agora tinha sua prpria fbrica de prazer
e que podia estimular as endorfinas que produziam bem-estar. Entendeu ento por que as pessoas se prendiam  meditao, por que faziam longos retiros que duravam
s vezes meses e anos.

Mas, j que ela havia finalmente limpado a mente, por que no estava animada? Pelo contrrio, desceu uma sombra sobre aquela vitria. Algo toldava seus pensamentos.
Enquanto pensava nesse enigma, adormeceu e acordou pouco depois pensando num sonho estranho: uma estrela de perninhas, cartola e bengala sapateava no palco de sua
cabea. Uma estrela bailarina! Sabia exatamente o sentido do sonho. De todos os aforismos literrios que ela e John apreciavam, um dos preferidos era a frase de
Nietzsche emZaratustra: " preciso ter o caos dentro de si para dar origem a uma estrela bailarina".

Claro. Entendeu a ambivalncia que sentia em relao  meditao. Goenka cumpriu o que disse. Deu exatamente o que prometeu: calma, tranqilidade ou, como costumava
dizer, contrapeso. Mas a que preo? Se Shakespeare tivesse praticado a meditao Vipassana,
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teria escrito O rei Lear ou Hamlet? Alguma obra-prima da cultura ocidental teria sido escrita?
Lembrou dos versos de Chapman:

Nenhuma pena pode escrever nada de eterno, se no for mergulhada na tinta das trevas.

Mergulhada na tinta das trevas: essa era a tarefa do grande escritor, mergulhar no sentimento das trevas, aproveitar a fora da escurido para criar. Seno, como
os sublimes autores malditos (Kafka, Dostoievski, Virginia Woolf, Hardy, Camus, Plath, Pe) teriam iluminado a tragdia da condio humana? No foi por sarem da
vida, nem ficarem assistindo parados a vida passar.

Embora Goenka dissesse que seus ensinamentos no tinham nome, o budismo dele aparecia. Na preleo noturna com toques de promoo, Goenka no se conteve e salientou
que Vipassana era o mtodo de meditao usado por Buda, que ele, Goenka, estava agora relanando no mundo. Pam no tinha nada contra. Embora soubesse pouco do budismo,
tinha lido um texto bsico no avio a caminho da ndia e se impressionado com o poder e a
verdade dos quatro grandes ensinamentos de Buda:

1.  A vida  sofrimento.

2.   O sofrimento  causado por apegos (a coisas, idias, pessoas, e  prpria vida).

3. H um remdio para o sofrimento: a cessao do desejo, do apego, do eu.

4. H um caminho para uma vida sem sofrimento: os oito passos da revelao.

Pam pensou de novo. Olhou em volta, para os assistentes em transe, as pessoas tranqilizadas, os ascetas em suas cavernas na colina, satisfeitos com uma vida dedicada
a varrer a mente com a meditao. Pensou se as quatro verdades seriam to verdadeiras assim. Ser que o Buda entendeu direito? Ser que o remdio no era pior do
que a doena? Na madrugada do dia seguinte, ficou ainda mais em dvida ao ver o grupinho de mulheres da seita jainista a caminho do banho. Os jainistas levaram a
extremos a ordem de no matar: andavam devagar e
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cuidadosos como caranguejos, pois tinham de afastar o cascalho para no pisar num inseto, e mal conseguiam respirar com as mscaras de gaze que usavam para no inalar
qualquer minsculo inseto.

Para todo canto onde olhava, Pam via renncia, sacrifcio, limitao e resignao. O que foi feito da vida? Da alegria, do entusiasmo e da paixo, do "aproveite
cada dia"?

Ser que a vida era uma tal angstia que deveria ser sacrificada em nome da calma? Talvez as quatro grandes verdades fossem ligadas  cultura indiana. Talvez fossem
verdades adequadas para 2.500 anos antes, num lugar oprimido pela pobreza, a superpopulao, a fome, a doena, a opresso das castas e a falta de qualquer esperana
num futuro melhor. Mas seriam verdades para ela agora? Ser que Marx no estava certo? Ser que todas as religies fincadas na libertao ou numa vida melhor depois
da morte no visavam os pobres, os sofridos, os escravizados?

Aps dias de silncio absoluto, Pam comeou a falar muito consigo mesma e a se perguntar se no estaria sendo ingrata. Sejamos justos. A meditao Vipassana no
tinha cumprido a funo de acalmar a mente e acabar com seus pensamentos obsessivos? No tinha conseguido fazer o que ela, Julius e o grupo no conseguiram, apesar
de todos os esforos? bom, talvez sim, talvez no. Talvez a comparao no fosse justa. Afinal, Julius tinha feito oito sesses de grupo (doze horas) enquanto a
Vipassana exigia centenas de horas (dez dias inteiros, mais as horas e o esforo de viajar meio mundo). O que teria acontecido se Julius e o grupo tivessem usado
esse mesmo nmero de horas?

A descrena cada vez maior de Pam atrapalhava a meditao. A varreo acabou. Aonde foi parar aquele delicioso e melfluo zunido de contentamento? A cada dia, a
meditao regredia e a Vipassana no conseguia passar do couro cabeludo. Aquelas coceinnhas, antes to fugazes, continuaram e ficaram mais fortes, passaram a comicho,
depois a uma queimao que meditar algum conseguia afastar.

Nem o primeiro anapana-sati foi feito. Desmoronou o dique da calma construdo pela meditao e veio um trambolho de pensamentos desconexos sobre o marido, John,
vingana e desastres areos. Bem, que venham. Viu Earl como ele era: uma criana grande, os lbios grossos querendo sugar qualquer bico de peito ao alcance. E John,
pobre, fraco, pusilnime John, ainda no admitia que no h sim sem no.
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E Vijay tambm, que preferiu sacrificar a vida, a novidade, a aventura, a amizade no altar do grande deus Calma. Vamos usar a palavra certa para essa gente
toda, pensou Pam. So covardes. Covardes morais. Nenhum deles a merecia. Vamos puxar a descarga neles. Pensou numa imagem forte: todos eles (John, Earl, Vijay) dentro
de uma enorme privada, mos levantadas, implorando, os gritos de socorro mal sendo ouvidos em meio  gua da descarga! Essa era uma imagem que merecia uma boa meditao.
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*** 19

A flor respondeu: - Bobo! Acha que abro minhas ptalas para que vejam? No fao isso para os outros,  para mim mesma, porque gosto. Minha alegria consiste em ser
e desabrochar.

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Bonnie iniciou a sesso seguinte dizendo: - Peo desculpas a todos por sair da sala na semana passada. No devia ter feito aquilo, mas, no sei, perdi o controle.

- Foi o diabo que fez - disse Tony, rindo irnico.

- Engraado, engraado, Tony. Sei o que voc quer que eu diga: Fiz porque estava puta. Gostou?

Tony sorriu e fez sinal positivo com a mo.

com a voz suave que ele sempre tinha quando falava com uma das mulheres do grupo, Gill disse para Bonnie: - Na semana passada, depois que voc saiu, Julius disse
que talvez voc se irritou por ser ignorada aqui, pois o grupo repetiu o que voc disse que acontecia na sua infncia.

- Muito certo. S que eu no fiquei irritada.Magoada seria uma palavra melhor.

- Eu sei o que  ficar puta, e voc ficou puta comigo - disse Rebecca.

Bonnie virou-se, irritada, para Rebecca. - Na semana passada, voc disse que Philip explicou por que voc no tem amigas. Mas eu no acredito. No  porque as mulheres
invejam a sua beleza ou, pelo menos,
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no  por isso que ns no nos aproximamos. O motivo  que voc no se interessa pelas mulheres ou, pelo menos, no est interessada em mim. Sempre que diz
alguma coisa para mim no grupo  para a discusso voltar para voc.

- Mostrei como voc lida (ou, melhor, no lida) com a raiva e sou acusada de egosta. Voc no quer saber como age? No  para isso que estamos no grupo? - atacou
Rebecca.

- Quero que voc fale a meu respeito, ou de mim e mais algum. Mas sempre fala de voc, ou de voc e eu, e  to sedutora que as coisas sempre voltam para voc,
no para mim. No posso competir com voc. A culpa no  s sua, os outros participam, por isso preciso perguntar uma coisa a todos.

Bonnie olhou rapidamente cada umas das pessoas e perguntou: - Por que vocs nunca se interessam por mim?

Os homens olharam para baixo. Sem esperar resposta, Bonnie continuou: - Outra coisa, Rebecca, o que falei sobre amigas no  novidade para voc. Lembro bem de voc
e Pam discutindo a mesma coisa.

Bonnie virou-se para Julius. - Por falar em Pam, tem alguma notcia dela, quando volta? Estou com saudades.

- Que rpido! - respondeu Julius. - Bonnie, voc  a rainha de mudar de assunto sem dar um espao no meio. Por enquanto, vou deixar assim mesmo e falar de Pam, principalmente
porque ia contar que ela mandou um e-mail de Bombaim. Terminou a meditao e deve estar aqui na prxima sesso.

Virando-se para Philip, Julius perguntou: - Lembra que falei em Pam, uma integrante do grupo, no?

Philip respondeu com um leve aceno de cabea.

- E voc, Philip,  o rei do sinal com a cabea - disse Tony. - Incrvel como  o centro das discusses sem jamais olhar para ningum e sem falar muito. Veja o que
est acontecendo  sua volta. Bonnie e Rebecca brigam por sua causa. O que acha? O que sente em relao ao grupo?

Philip no respondeu logo e Tony, que parecia sem graa, olhou o grupo e perguntou: - Que merda est havendo? Estou com a impresso de que desrespeitei alguma lei
aqui, como se peidasse na igreja. Perguntei para Philip a mesma coisa que todo mundo pergunta para todo mundo.
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Philip quebrou o curto silncio. - Certo,  que preciso de tempo para pensar. Me parece que Bonnie e Rebecca tm aflies parecidas. Bonnie detesta no ser
popular, enquanto Rebecca detesta ter deixado de ser popular. As duas ficam presas ao que os outros pensam delas. Em outras palavras, acham que a felicidade est
nas mos e na cabea dos outros. A soluo para as duas  a mesma: quanto mais se tem dentro de si, menos se quer dos outros.

No silncio que se seguiu, era quase possvel ouvir as cabeas mastigando e tentando digerir as palavras de Philip.

- Parece que ningum vai responder a Philip, por isso gostaria de falar num erro que cometi alguns minutos atrs - disse Julius. Bonnie, eu no devia ter deixado
voc mudar de assunto perguntando sobre Pam. No quero repetir o que houve na semana passada, quando suas necessidades no foram atendidas. H alguns minutos voc
perguntou porque o grupo no se interessa por voc e achei que deu um passo corajoso ao perguntar a cada um. Mas veja o que aconteceu ento: voc mudou o assunto
para a volta de Pam e em dois minutos sua pergunta sumiu.

- Tambm notei isso. D a impresso, Bonnie, que voc d um jeito de a gente ignorar voc - disse Stuart.

- Boa informao - disse Bonnie, concordando. - Muito bem, vai ver que fao mesmo isso. vou pensar no assunto.

Julius insistiu. - Gostei de voc concordar, Bonnie, mas continuo achando que fez a mesma coisa agora, como se dissesse agora chega de falar em mim. Eu devia ter
um sino aqui e toc-lo toda vez que no deixa que falem em voc.

- Ento, o que fao? - perguntou Bonnie.

- Por que voc no pode perguntar se no se interessam por voc? - perguntou Julius.

- Porque acho que no sou importante.

- Mas os outros podem?

- Ah, sim.

- Ento os outros so mais importantes que voc? Bonnie concordou com a cabea e Julius continuou:

 - Ento, Bonnie, tente o seguinte: olhe para cada pessoa aqui e responda quem  mais importante do que voc? E por qu. - Julius conseguia ouvir a prpria satisfao.
Estava nadando em guas que conhecia.
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Pela primeira vez desde que Philip tinhaa entrado no grupo, sabia exatamente o que fazia. Agiu como o terapeuta de grupo deveria: levou um dos temas
principais da paciente para o aqui e agora, onde poderia ser explorado imediatamente. Era sempre mais produtivo focar no aqui e agora do que nas reconstrues de
um fato passado ou atual, mas fora do grupo.

Virando-se para olhar cada pessoa, Bonnie disse: - Todos aqui so mais importantes do que eu, bem mais. - Ficou ruborizada, respirando rpido.  medida que recebia
ateno dos outros, era bvio que queria ficar invisvel.

- Seja mais direta, Bonnie - pediu Julius. - Quem  mais importante e por qu?

Bonnie olhou em volta. - Todo mundo. Voc, Julius, veja como ajudou a todos. Rebecca  linda, advogada de sucesso, com filhos maravilhosos. Gill  chefo de um grande
hospital, alm de ser um cara bonito. Stuart, bom,  um mdico ocupado, cuida das crianas, cuida dos pais das crianas, tem sucesso em tudo. Tony... - Bonnie parou
por um instante.

- E ento? Quero saber. - Tony estava vestido como sempre, de jeans, camiseta preta e tnis respingado de tinta, recostado na cadeira.

- Primeiro, Tony, voc  sincero, no tem pose, no faz jogadas,  totalmente honesto. E fala mal da sua profisso, mas sei que no  um carpinteiro qualquer, deve
ser um artista no que faz, vejo pela BMW que pilota por a. E tambm  lindo, adoro voc de camiseta justa. Que tal o risco que estou assumindo? - Bonnie olhou em
volta. - Quem mais? Philip, tem inteligncia para jogar fora, sabe tudo,  professor, vai ser terapeuta, suas palavras encantam a todos. E Pam?  uma pessoa incrvel,
professora universitria, cabea aberta, chama a ateno, j viajou por todo canto, conhece todo mundo, leu tudo, enfrenta qualquer um.

- Alguma reao  explicao de Bonnie para ser menos importante do que os outros? - Julius percorreu o grupo com os olhos.

- Para mim, a resposta dela no faz sentido - disse Gill.

- Pode dizer isso a ela? - perguntou Julius.

 - Desculpe, no quero ofender, mas Bonnie, sua resposta parece regressiva.
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- Regressiva? - Bonnie fez uma careta de surpresa.

- Bom esse grupo pressupe que somos seres humanos tentando se relacionar com os outros e comparamos nossos papis, nossos diplomas, nosso dinheiro e nossas BMW
- disse Gill.

- Certo - disse Julius.

- Certo - concordou Tony, acrescentando: - estou com Gill, mas, s para registrar, essa BMW  de segunda mo e mesmo assim, por causa dela, estou sem dinheiro pelos
prximos trs anos.

Gill continuou:

- E Bonnie, quando voc falou nas pessoas, ateve-se exatamente s coisas externas (profisses, dinheiro, filhos lindos). Nada disso tem a ver com o motivo para voc
ser a pessoa menos importante nesta sala. Acho voc muito importante.  uma pessoa-chave, est ligada a todos ns,  afetuosa, generosa, chegou a oferecer para eu
dormir na sua casa h duas semanas, quando eu no queria ir para a minha. Voc mantm o grupo unido, funciona muito aqui.

Bonnie insistiu. - Sou um fracasso, passei a vida inteira com vergonha dos meus pais alcolatras, sempre mentindo sobre eles. Convidar voc para ir  minha casa,
Gill, foi um grande acontecimento para mim; eu jamais poderia convidar colegas de escola, com medo de que meu pai aparecesse bbado. O pior  que meu ex-marido tambm
era bbado, minha filha  viciada em herona.

- Voc continua fugindo do assunto, Bonnie - observou Julius.

- Fala no seu passado, na sua filha, seu ex-marido, seus pais, mas voc, aonde est?
- Eu sou tudo isso, uma soma, o que mais posso ser? Sou uma bibliotecria entediada, catalogo livros; eu no entendi a sua pergunta. Estou confusa, no sei quem
sou e onde estou. - Bonnie comeou a chorar, pegou um leno de papel, assoou alto o nariz, fechou os olhos e ficou fazendo crculos no ar com as mos. Entre soluos,
resmungou: - Para mim, chega, hoje no agento mais.

Julius mudou de tom e dirigiu-se a todo o grupo: - Vamos avaliar o que aconteceu nos ltimos minutos. Algum tem algo a dizer?

- Conseguindo fazer com que o grupo passasse para o aqui e agora, deu o passo seguinte.
Para ele, a terapia tinha duas fases: primeira, a interao (em geral, emocional),
e segunda, entender essa interao. A terapia devia ter uma seqncia alternada de evocao de emoes
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e depois compreenso. Por isso, ele tentou passar o grupo para a segunda fase, dizendo: - Vamos recapitular e dar uma olhada imparcial no que houve.

Stuart estava prestes a descrever a seqncia de fatos quando Rebecca se adiantou: - Acho que o importante foi Bonnie dar os motivos para se sentir sem importncia
e achar que todos ns amos concordar. Foi ento que ficou confusa, chorou e disse que no agentava mais. J fez isso antes.

Tony ponderou: - , concordo. Bonnie, voc fica emotiva quando recebe muita ateno. Fica constrangida de estar sob holofotes?

Ainda chorando, Bonnie respondeu: - Eu devia estar agradecida, mas olha a confuso que fiz. Os outros saberiam usar melhor esse tempo.

- Outro dia, conversei com um colega a respeito de uma paciente dele - contou Julius. - Ele disse que a paciente costuma usar as agresses contra ela para se aoitar.
Posso estar enganado, Bonnie, mas me lembrei desse colega quando voc usou o que foi dito e se castigou.

- Vocs esto impacientes comigo. Acho que ainda no sei usar

o grupo.

 - Bom, sabe o que vou dizer, Bonnie? Quem estava impaciente? Olhe para o grupo. - O grupo tinha certeza de que Julius ia perguntar isso. Sempre que ouvia uma afirmao
assim, aproveitava e pedia para a pessoa dar nomes.

 - Bom, acho que Rebecca queria que eu parasse de falar.

- O queee? Eu...

- Espera um instante, Rebecca. - Julius estava sendo muito direto naquele dia, o que no era comum. - Bonnie, no que voc se baseou para tirar essa concluso?

- Sobre Rebecca? Bem, ela ficou calada. No disse nada.

- No consigo acertar. Estava me esforando para ficar quieta e assim no ser acusada de tirar a ateno de voc. No  capaz de receber um presente?

Bonnie ia responder, porm Julius pediu para ela continuar dizendo quem estava impaciente.

 - Bem, no posso garantir, mas a gente nota quando as pessoas no esto gostando. Eu notei. Philip no olhava para mim, embora ele nunca olhe para ningum. Sei
que o grupo estava esperando ouvir
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alguma coisa dele. O que ele disse sobre popularidade foi muito mais interessante para o grupo do que a minha reclamao.

- Eu no estava me aborrecendo com o que voc dizia - declarou Tony. - Nem vi ningum que estivesse. E o que Philip disse no foi mais interessante,  to centrado
nele mesmo que os comentrios no me interessam muito. Nem lembro.

- Eu lembro - disse Stuart. - Tony, depois que voc comentou que ele est sempre no centro das coisas, apesar de falar to pouco, ele disse que Bonnie e Rebecca
tm um problema parecido, do importncia demais  opinio dos outros: Rebecca infla e Bonnie murcha. Foi mais ou menos o que ele disse.

- Voc est de novo fotografando os fatos - disse Tony, fingindo usar uma mquina.

- Certo. No me deixe sair da linha. Eu sei, preciso menos observaes e mais sentimentos. bom, concordo que Philip fica meio no centro, embora no fale muito. E
parece que  contra a lei discordar dele em qualquer coisa.

- Essa  uma observao e uma opinio, Stuart. Pode falar nos sentimentos? - perguntou Julius.

- Acho que invejo um pouco o interesse de Rebecca por Philip. Estranhei ningum perguntar a Philip como se sentia em relao a isso. Bem, tudo isso no chega a ser
um sentimento, no?

- Quase, trata-se de um parente em primeiro grau do sentimento. Continue.

- Me sinto ameaado por Philip. Ele  inteligente demais. Tambm me sinto ignorado por ele. No gosto de ser ignorado.

- Muito bem, Stuart, agora est chegando perto - disse Julius. - Algum quer perguntar alguma coisa a Philip? - Julius se esforou para manter um tom suave e delicado.
A funo dele era ajudar o grupo a incluir e no a ameaar e excluir Philip, insistindo para se comportar de um jeito que ele ainda no conseguia. Foi por isso que
Julius chamou Stuart e no Tony, que era mais agressivo.

- Mas  difcil fazer perguntas para Philip.

 - Philip est aqui na sala, Stuart. - Essa era outra regra fundamental para Julius: no deixar que uma pessoa se referisse a outra sem falar diretamente com ela.
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- Bem,  esse o problema.  difcil falar com ele. - Stuart virou-se para Philip: - Quer dizer, Philip,  difcil falar com voc porque voc no olha para mim. Como
agora. Por qu?

- Prefiro no mostrar minhas intenes - respondeu Philip, continuando a olhar para o teto.

Se fosse necessrio, Julius estava pronto a entrar na discusso, mas Stuart no se irritou com a resposta.

- No entendi.

- Se voc me pergunta uma coisa, vou procurar dentro de mim, sem me distrair com nada e responder o melhor possvel.

- Mas se voc no me olha, d a impresso de que no estamos nos falando.

- Minhas palavras devem lhe mostrar que no  assim.

- Voc tem algum problema em andar e mascar chicletes ao mesmo tempo? - interrompeu Tony.

- Como ? - confuso, Philip virou a cabea, mas sem olhar para Tony.

- Perguntei por que voc no pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo, olhar para ele e responder.

- Prefiro procurar na minha cabea. Se olho para o outro, me distraio da procura da resposta que o outro quer ouvir.

Fez-se um silncio, enquanto Tony e os outros pensavam na resposta de Philip. Stuart ento perguntou outra coisa: - bom, Philip, o que achou daquela discusso toda
de Rebecca estar se exibindo para voc? - Os olhos de Rebecca fuzilavam e ela disse:

- Isso realmente comea a me aborrecer, Stuart.  como se a fantasia de Bonnie tivesse virado lei.

Stuart no quis sair do assunto. - Certo, certo. Esquea essa pergunta, Philip. Ento, o que achou de toda aquela discusso sobre voc na sesso passada?

- A discusso foi muito interessante e prestei toda a ateno - Philip olhou para Stuart e continuou: - Mas no tenho nada de emocional a dizer, se  o que quer
saber.

- Nada? No  possvel - discordou Stuart.

 - Antes de entrar no grupo, li o livro de Julius sobre terapia de grupo e estava bem preparado para as situaes que enfrentaria aqui. Sabia que certas coisas
iam acontecer: que ficariam curiosos em relao a mim,
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que alguns gostariam de mim e outros no, que minha entrada iria balanar a hierarquia de poder, que as mulheres poderiam me ver com bons olhos e os homens
no, que os membros mais centrais poderiam se incomodar com minha aparncia, enquanto os menos influentes poderiam querer me proteger. O fato de prever tudo isso
fez com que eu tivesse uma viso desapaixonada dos fatos.

Como Tony antes, Stuart ficou pasmo com a resposta de Philip e calou-se enquanto digeria as palavras dele.

Julius disse: - Estou num dilema - e esperou um instante. - Por um lado, acho importante acompanhar essa discusso com Philip, mas tambm estou preocupado com Rebecca.
Onde est voc, Rebecca? Parece distrada e sei que gosta de participar.

- Hoje estou um pouco ofendida e excluda, ignorada. Por Bonnie, por Stuart.

- Continue.

- Esto falando muita coisa ruim de mim, acham que sou centrada em mim mesma, no quero ter amigas, quero me exibir para Philip. Isso di.

- Sei como  - disse Julius. - Tenho essa mesma reao automtica s crticas. Mas vou contar o que aprendi. O verdadeiro segredo  considerar uma opinio como um
presente, mas, primeiro, ver se est certa. Confiro em mim e vejo se combina com minha prpria opinio. Ser que um pouco do que foi dito  verdade, mesmo que bem
pouco, cinco por cento? Penso se algum j me deu esse toque antes, no passado. E nas pessoas com quem posso conferir. Penso se a pessoa est atingindo um dos meus
pontos cegos, algo que ela v e eu no. Voc consegue fazer isso?

- No  fcil, Julius. Sinto uma coisa dura bem aqui - Rebecca colocou a mo no trax.

- Deixe essa dureza falar. O que ela diz?

- Est dizendo: "com que cara eu fico?"  vergonha.  ser descoberta. Esse negcio de as pessoas perceberem que brinco com os cabelos faz com que eu me encolha e
tenha vontade de dizer: "Isso no  da sua conta, porra, o cabelo  meu, fao o que quiser."

com sua voz mais professoral, Julius disse:
 - Anos atrs, um terapeuta chamado Fritz Perls criou a escola chamada terapiagestltica. Hoje no se fala muito nela,
mas dava muita importncia ao corpo, e
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Perls dizia: "Olha o que a sua mo esquerda est fazendo agora" ou
"Noto que voc coa muito a barba".  Pedia para os pacientes exagerarem
algum movimento: "Cerre mais os punhos da sua mo esquerda" ou "Coce a barba com mais fora e mais rpido e pense no que lembra".

- Sempre achei muito interessante o enfoque de Perls porque nosso inconsciente se mostra muito nos gestos que fazemos sem perceber. Mas nunca usei muito a terapia
gestltica. Por qu? Exatamente pelo que est acontecendo agora, Rebecca. Costumamos ficar na defensiva quando algum percebe que fizemos algo sem perceber. Por
isso, sei como voc est desconfortvel; mesmo assim, pergunto: consegue ver alguma coisa boa nessa opinio?

- Em outras palavras, voc est dizendo: "Seja madura". vou tentar. - Rebecca se empertigou na cadeira, respirou fundo e comeou: - Primeiro,  verdade que gosto
de ateno e que comecei na terapia porque estava preocupada com o envelhecimento e os homens deixarem de olhar para mim. Assim, pode ser que eu tenha me exibido
para Philip, mas no foi consciente. - Voltou-se para o grupo: - Portanto, concordo que gosto de ser admirada, amada e adorada, gosto do amor.

- Plato observou que oamorestem quem ama e no em quem  amado - disse Philip.

- O amor est em quem ama e no em quem  amado. Grande frase, Philip - disse Rebecca, sorrindo de leve. - Olha,  isso que gosto em voc, desses comentrios. Abrem
meus olhos. Acho voc interessante, alm de atraente.

Rebecca virou-se para o grupo.
 - Isso quer dizer que quero ter um caso com ele? N-n-n-no ! O ltimo caso que tive acabou com meu casamento e no quero comprar
aborrecimento.

- Ento, Philip, o que acha do que Rebecca acabou de dizer?

 - Eu disse antes que minha meta na vida  desejar o menos possvel e saber o mais possvel. Amor, paixo, seduo so sentimentos fortes, servem para perpetuarmos
a espcie e, como Rebecca mostrou, podem agir de forma inconsciente. Mas no final das contas, todos eles servem para atrapalhar a razo e interferir nos meus interesses
culturais, por isso no quero nada com eles.
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- Toda vez que pergunto uma coisa, voc d uma resposta difcil de discutir. E nunca responde a pergunta - reclamou Tony.

- Acho que ele respondeu - disse Rebecca. - Deixou claro que no quer qualquer envolvimento emocional, prefere continuar livre e solto. Acho que Julius disse a mesma
coisa, por isso existe um tabu contra envolvimento afetivo no grupo.

- Que tabu? Nunca soube dessa proibio aqui - disse Tony, dirigindo-se a Julius.

- Eu no disse isso. A nica regra que vocs ouviram de mim sobre relacionamentos fora da sesso  no haver segredo e, se houver algum encontro, as pessoas devem
contar no grupo. Se no, se fizerem segredo, isso quase sempre atrapalha o grupo e sabota a terapia de cada um. Essa  a nica regra sobre encontros fora daqui.
Mas, Rebecca, no vamos perder o fio do que havia entre voc e Bonnie. Veja o que sente em relao a ela.

- Bonnie levantou um problema grave.  verdade que eu no me relaciono com mulheres? No . Tenho minha irm, de quem sou muito prxima, e duas amigas advogadas
no escritrio, mas, Bonnie, voc est certa, sem dvida me interesso pelos homens.

- Na faculdade, lembro que tive poucos namorados e me sentia rejeitada se uma amiga cancelava na ltima hora um programa comigo porque tinha um encontro com um cara
- disse Bonnie.

- , eu certamente faria isso - disse Rebecca. - Voc tem razo: antes, eu queria rapazes e programas. Na poca, fazia sentido, mas hoje no faz mais.

Tony continuou prestando ateno em Philip e dirigiu-se a ele novamente. - De certa forma, Philip, voc  parecido com Rebecca. Tambm chama a ateno, mas com frases
curtas e de grande efeito.

- Acho que voc quer dizer - disse Philip, de olhos fechados, muito concentrado - que minhas observaes no so o que parecem, so do meu interesse para chamar
a ateno e a admirao de Rebecca e dos outros. Entendi certo?

Julius ficou nervoso. Por mais que fizesse, a ateno continuava a voltar para Philip. Pelo menos trs desejos conflitantes buscavam a ateno do terapeuta: primeiro,
proteger Philip de muita discusso; segundo, evitar que a impessoalidade de Philip atrapalhasse a fala pessoal; e terceiro, incentivar Tony a chutar o traseiro de
Philip. Julius acabou resolvendo ficar  margem,
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pois o grupo estava controlando a situao. Na verdade, tinha acabado de acontecer uma coisa importante: pela primeira vez, Philip
respondia diretamente, at pessoalmente, a algum.

Tony concordou. -  mais ou menos o que eu disse, Philip, porm mais do que buscar a ateno ou a admirao. Experimente a palavra seduo.

- , boa correo. Est implcita em chamar a ateno e assim voc d a entender que meu motivo  parecido com o de Rebeca, ou seja, quero seduzi-la. Bem,  uma
tese razovel e substancial. Vejamos como test-la.

Silncio. Ningum reagiu, mas Philip no parecia estar esperando uma resposta. Aps um instante de olhos fechados, ele disse: - Talvez seja melhor fazer o que o
Dr. Hertzfeld sugeriu.

- Pode me chamar de Julius.

- Ah, sim. Ento, para seguir a conduta de Julius, preciso antes checar se a tese de Tony combina com a minha. - Philip fez uma pausa, balanou a cabea. - No vejo
qualquer sinal disso. H anos deixei de me incomodar com a opinio alheia. Acredito piamente que o homem mais feliz  o que busca apenas a solido. Refiro-me aos
divinos Schopenhauer, Nietzsche e Kant. Eles acreditavam, como eu, que o homem com riqueza interior s quer do exterior a ddiva do lazer despreocupado para desfrutar
de sua riqueza, isto , de seu intelecto.

- Resumindo, ento, concluo que minhas observaes aqui no pretendem seduzir nem me valorizar aos olhos dos outros. Se h resqucios desse desejo, garanto que no
so conscientes. Lastimo apenas s ter me tornado mestre de grandes pensamentos, mas de no t-los criado.

Nas vrias dcadas em que orientava grupos de terapia, Julius tinha presenciado muitos silncios, mas o que se seguiu  resposta de Philip foi diferente de todos.
No era o silncio aps uma grande emoo, nem o da dependncia, do constrangimento ou do pasmo. No, aquele silncio foi como se o grupo tivesse esbarrado numa
nova espcie, uma nova forma de vida, talvez uma salamandra de seis olhos e asas emplumadas, e, com muito cuidado e prudncia, o grupo estivesse lentamente se aproximando
dela.
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Rebecca foi a primeira a falar. - Estar satisfeito, precisar to pouco dos outros, jamais querer a companhia de algum parece bem solitrio, Philip.

- Pelo contrrio. No passado, quando eu queria a companhia de outros, pedia o que eles no iam dar, ou melhor, no podiam. A sim, vi o que era solido. Vi muito
bem. No precisar de ningum  nunca estar s. Eu busco a abenoada solido - disse Philip.

- Mesmo assim, voc est aqui e pode ter certeza de que este grupo  arquiinimigo da solido. Por que se expor a isso? - perguntou Stuart.

- Todo pensador precisa se sustentar. Alguns tm a sorte de ter um salrio da universidade, como Kant ou Hegel; ou renda prpria, como Schopenhauer; ou um trabalho
durante o dia, como Spinoza, que sobrevivia de fixar lentes em armaes de culos. Escolhi trabalhar com orientao filosfica e preciso dessa experincia no grupo
para ter o diploma.

- Isso quer dizer que voc est aqui, mas sua meta  ajudar outros a jamais precisarem disso - concluiu Stuart.

Philip calou-se e concordou com a cabea.

- Deixa ver se entendi - disse Tony. - Se Rebecca se interessa por voc, faz uma seduo, d seu belo sorriso, voc diz que no causa qualquer efeito? Nada?

- Eu no disse isso. Concordo com Schopenhauer que escreveu que a beleza  uma carta de recomendao de quem a possui. Acho timo ver uma pessoa muito bonita. Mas
acho tambm que a opinio que o outro tem de mim no altera, ou no deve alterar, a opinio que tenho de mim mesmo.

- Soa mecnico e desumano - retrucou Tony.

- Desumano mesmo era quando eu deixava que minha autoestima flutuasse como uma cortia de acordo com o que os outros achavam de mim.

Julius olhou atento os lbios de Philip. Que maravilha. Como refletiam exatamente a serenidade dele, quo imperturbveis, quo firmes ao formular cada palavra na
mesma e perfeita redondeza de alcance e tom. E era fcil simpatizar com a vontade cada vez maior de Tony irritar Philip. Sabendo que a agressividade dele podia
aumentar rpido,
    163

Julius resolveu que era hora de levar a discusso para um tema mais calmo. E no de confrontar Philip, que estava apenas na quarta sesso.

- Philip, quando voc falou com Bonnie, disse que sua inteno era ajud-la. Deu conselhos tambm para Gill e Rebecca. Pode falar mais um pouco sobre por que fez
isso? Tenho a impresso de que seu desejo de aconselhar tem algo que vai alm de um trabalho. Afinal, aqui no h retorno financeiro pela ajuda.

- Tenho sempre em mente que somos todos condenados a sofrimentos dos quais no podemos escapar. Nenhum de ns escolheria viver, se soubesse o que tinha pela frente.
Nesse sentido, somos, como diz Schopenhauer, companheiros de sofrimento e precisamos da tolerncia e amor dos nossos companheiros na vida.

- Outra vez, Schopenhauer! Philip, ouo muito falar nele, seja ele quem for, e quase no ouo falar em voc - disse Tony calmamente, como se imitasse o tom medido
de Philip, mas sua respirao era curta e rpida. Tony gostava de brigar e, quando iniciou a terapia, era rara a semana em que no se envolvesse numa briga de bar,
de trnsito, de trabalho ou na quadra de basquete. Ele no era grande, mas era destemido, exceto numa situao: num embate de idias com um sujeito educado e articulado,
exatamente como Philip.

Philip no deu sinal de que iria responder a Tony. Julius quebrou o silncio. - Tony, voc parece imerso em pensamentos. O que passa na sua cabea?

- Estava pensando no que Bonnie disse antes, de sentir falta de Pam. Tambm senti falta dela hoje.

Julius no estranhou a resposta. Tony tinha se acostumado  proteo e apoio de Pam. Os dois formaram um estranho relacionamento, da professora de ingls com o homem
simples e que usava tatuagem. Numa aproximao por vias tortas, Julius ponderou: - Tony, acho que no deve ser fcil para voc dizer: "Schopenhauer, seja l quem
for ele".

- Bem, estamos aqui para falar a verdade - disse Tony.

- Muito bem, Tony, eu tambm no sei quem  Schopenhauer - disse Gill.

 - S sei que  um filsofo famoso. Alemo, pessimista. Do sculo XIX? - perguntou Stuart.
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- Sim, morreu em 1860, em Frankfurt - respondeu Philip. - Quanto ao pessimismo, prefiro chamar de realismo. E, Tony, deve ser verdade que falo demais em Schopenhauer,
mas tenho motivos. - Tony parecia surpreso por Philip falar diretamente com ele. Apesar de no olhar para Tony, Philip no olhava mais para o teto, mas pela janela,
como se estivesse intrigado com alguma coisa no jardim.

Philip continuou. - Primeiro, conhecer Schopenhauer  me conhecer. Somos inseparveis, mentes gmeas. Segundo, ele foi meu terapeuta e me ajudou demais. Eu o internalizei
(claro que estou me referindo s idias dele) como muitos de vocs fizeram com o Dr. Hertzfeld, quer dizer, com Julius. - Philip sorriu de leve quando olhou para
Julius, o primeiro momento em que no foi srio no grupo. - Por ltimo, tenho a esperana de que um pouco do que sinto por Schopenhauer sirva para vocs como serviu
para mim.

Julius olhou o relgio e quebrou o silncio que se seguiu  observao de Philip. - Foi uma sesso rica, do tipo que eu detesto ter de terminar, mas est na hora.

 - Rica? O que foi que eu perdi? - resmungou Tony, levantando-se e caminhando para a porta.
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*** 20

A alegria e despreocupao da nossa juventude deve-se, em parte, ao fato de estarmos subindo a montanha da vida e no vermos a morte que nos aguarda do outro lado.

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PRENNCIOS DE PESSIMISMO

No incio de sua didtica, os terapeutas aprendem a se focar na responsabilidade dos pacientes em relao aos dilemas da vida. Terapeutas maduros no aceitam relatos
de pacientes afirmando que receberam maustratos, pois acreditam que, de certa forma, as pessoas so co-autoras do ambiente onde vivem e que as relaes so sempre
recprocas. Mas o que dizer do relacionamento do jovem Arthur Schopenhauer com os pais? Sem dvida, esse relacionamento foi determinado primeiro pelos pais, que
formaram Arthur, e eram, afinal de contas, adultos.

Mas a contribuio dada por Arthur no pode ser desprezada: havia algo original, inseparvel e obstinado no temperamento dele que, desde criana, provocava reaes
em Johanna e em outras pessoas. Arthur no costumava suscitar reaes carinhosas, generosas e alegres. Quase todo mundo reagia de forma crtica e defensiva.

Talvez isso tenha sido conseqncia da conturbada gravidez que Johanna teve. Ou talvez a carga gentica tenha tido papel principal no desenvolvimento dele. A estirpe
Schopenhauer tinha vrios casos de distrbios psicolgicos. O pai de Arthur sofreu anos de depresso crnica,
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ansiedade, obstinao, distanciamento, e no conseguia desfrutar a vida. At se suicidar. O av materno era violento, instvel e acabou sendo internado. Dos trs
irmos do pai, um nasceu com grave retardo mental, e outro, segundo um bigrafo, morreu aos trinta e quatro anos, "meio louco devido a excessos, num canto, com
pessoas doentes".

Arthur formou cedo sua personalidade e continuou o mesmo pelo resto da vida. As cartas dos pais para o filho adolescente contm trechos que mostram uma preocupao
crescente com a falta de interesses sociais. A me, por exemplo, escreveu: "(...) embora eu no d qualquer importncia  etiqueta rgida, tambm no aprecio uma
pessoa dura, incapaz de se divertir. (...) voc tem uma certa tendncia a isso". E o pai escreveu: "Gostaria que voc tivesse aprendido a agradar as pessoas".

Os dirios de viagem do jovem Arthur mostram o adulto que iria ser. Adolescente, tinha uma capacidade precoce de se distanciar e ver as coisas por uma perspectiva
csmica. Ao descrever o retrato a leo de um almirante holands, diz: "Ao lado do quadro esto os smbolos de sua vida: a espada, a capa, o colar de honra que ele
usou e, finalmente, a bala de revlver que fez tudo isso perder a utilidade para ele".

Como filsofo maduro, Schopenhauer se orgulhava da capacidade de ter uma viso objetiva ou, como ele diz, "de ver o mundo pela outra ponta do telescpio". O prazer
de ver o mundo do alto ) faz parte de seus primeiros comentrios sobre alpinismo. Aos dezesseis anos, escreveu: "A vista do cume de uma montanha ajuda muito a ampliar
os conceitos. (...) tudo o que  pequeno some, s fica o que  grande".

Nisso, h muitos prenncios do Schopenhauer adulto. Ele continuaria desenvolvendo a perspectiva csmica que, como filsofo maduro, permitiu que visse o mundo de
longe, tanto fsica quanto conceitual e temporalmente. Desde cedo, aceitou a viso sub species aeternitatis de Spinoza, isto , ver o mundo e os fatos sob a perspectiva
da eternidade. Concluiu que se pode compreender melhor a condio humana no sendo parte dela, mas estando  parte.

Quando adolescente, pressentiu o enorme isolamento em que viveria mais tarde.

A filosofia  uma estrada isolada numa grande montanha (...) e quanto mais subimos, mais isolados ficamos. Quem a percorre no deve temer, mas deixar tudo para trs
e abrir caminho, confiante, na neve do inverno.
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(...) ele logo v o mundo l embaixo, suas praias e pntanos somem de vista, seus pontos desiguais se aplainam, seus sons estridentes no alcanam
mais os ouvidos. E sua redondeza surge para o caminhante, que recebe sempre o ar frio e puro da montanha e desfruta do sol quando tudo l embaixo est mergulhado
na escurido da noite.

H mais do que um impulso para as alturas a motivar o jovem Arthur, h impulsos de baixo. Sua personalidade tem mais duas caractersticas: uma grande averso aos
outros e um enorme pessimismo. Se, por um lado, Arthur sentia atrao pelas alturas, as paisagens distantes e a perspectiva csmica, era bastante evidente que rejeitava
a proximidade com os outros. Um dia, aps descer do alto de uma montanha onde viu o amanhecer claro como cristal e voltar ao mundo dos humanos num chal ao p da
montanha, anotou: "Entramos num aposento onde havia criados bbados. (...) e foi insuportvel: o calor animalesco deles exalava uma quentura ardente".

Seus dirios de viagem so cheios de desprezo e ironia. Sobre uma cerimnia religiosa protestante, escreveu: "O canto estridente da multido doeu nos meus ouvidos
e ri muito de um sujeito que berrava de boca escancarada". Da cerimnia numa sinagoga: "Dois meninos ao meu lado me fizeram sair do srio com seus trinados de boca
aberta e cabea jogada para trs; pareciam estar gritando comigo". Um grupo de nobres ingleses parecia "rsticas prostitutas disfaradas". O rei da Inglaterra "
um velho bonito, mas a rainha  insuportavelmente feia". O imperador e a imperatriz da ustria "usavam trajes excessivamente modestos. Ele  magrrimo, com uma cara
to idiota que d a impresso de ser alfaiate e no imperador." Um colega de escola, notando a inclinao misantropa de Arthur, escreveu para ele na Inglaterra:
"Lastimo que sua estada tenha feito voc odiar o pas inteiro".

Esse jovem irnico e irreverente iria se tornar o homem amargo e mal-humorado que costumava se referir aos humanos como "bpedes" e iria concordar com a frase de
Thomas de Kempis: "Sempre que me misturo aos homens, fico menos humano".

Ser que esses traos impediram que Arthur fosse o "olho atento do mundo?". O jovem Arthur previu o problema e escreveu um recado para si mesmo quando velho: "Repare
se seus julgamentos objetivos no so, no fundo, subjetivos". Como veremos, apesar da inteno e disciplina, ele nem sempre seguiu seu bom conselho de jovem.
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*** 21

Feliz  o homem que consegue evitar a maioria de seus semelhantes.

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No incio da sesso seguinte, exatamente quando Bonnie perguntava a Julius se Pam tinha voltado da viagem, a porta se escancarou e Pam entrou de braos abertos,
gritando: - Tarn, tarn, tarn, tam! - Todos, com exceo de Philip, se levantaram e a receberam. Do seu jeito carinhoso, ela percorreu a roda, olhou para cada um,
abraou, beijou Rebecca e Bonnie, mexeu nos cabelos de Tony, e, quando chegou em Julius, segurou as mos dele por um longo tempo e disse, baixo: - Obrigada por ter
sido to franco ao telefone. Estou arrasada, muito triste e muito preocupada com voc. - Julius olhou para Pam. O rosto sorridente e familiar transmitia coragem
e uma energia radiante. - Seja bem-vinda, Pam. Que bom ver voc, sentimos sua falta. Senti sua falta - disse Julius.

Pam ento viu Philip e tudo nela mudou. Desapareceram o sorriso e as rugas de alegria em volta dos olhos. Achando que ela estava surpresa com um estranho no grupo,
Julius apressou-se a apresentar: - Pam, esse  nosso novo colega de grupo, Philip Slate.

- Ah, Slate? - reagiu Pam e comeou a trocar o sobrenome, sem olhar para ele: - No  Philip Sleaze? Ou Philip Slimeball? -
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Olhando para a porta, disse: - Julius, no sei se consigo ficar na mesma sala que este filho da puta!

Surpreso, o grupo olhou da agitada Pam para o totalmente calado Philip. Julius interveio. - Conte para ns, Pam. Sente-se, por favor.

Tony colocou mais uma cadeira no grupo, enquanto Pam dizia: - No me ponha ao lado dele. - O lugar vazio era ao lado de Philip. Rebecca levantou-se e indicou seu
lugar para Pam.

Aps um pequeno silncio, Tony perguntou: - O que est acontecendo, Pam?

- Nossa, eu no acredito, ser uma piada de mau gosto?  a ltima coisa que eu queria. No esperava ver esse sujeito nunca mais.

- O que est acontecendo? E voc, Philip? Diga alguma coisa, o que est havendo? - repetiu Stuart.

Philip continuou calado e balanou de leve a cabea. Mas o rosto, ruborizado, dizia muita coisa. Afinal, ele tinha um sistema nervoso funcionando, pensou Julius.

- Fale, Pam, voc est entre amigos - forou Tony.

- De todos os homens que conheci, esse foi o pior. E voltar para meu grupo de terapia e encontr-lo sentado aqui, no d para acreditar. Tenho vontade de berrar,
mas no vou, pelo menos enquanto ele estiver aqui. - Quieta, Pam olhou para baixo, balanando lentamente a cabea.

- Julius, estou ficando nervosa, no gostei. Vamos, o que est havendo? - repetiu Rebecca.

- Obviamente, houve alguma coisa entre Pam e Philip antes e, garanto, isso  totalmente novo para mim.

Aps um breve silncio, Pam olhou para Julius e disse: - Pensei tanto nesse grupo. Estava ansiosa para voltar e contar da viagem. Mas Julius, desculpe, acho que
no consigo. No quero ficar aqui.

Levantou-se e foi para a porta. Tony levantou-se tambm e segurou a mo dela.

 - Pam, por favor. Voc no pode simplesmente ir embora. Voc fez tanta coisa por mim. Pronto, sento ao seu lado. Quer que eu ponha ele para fora? - Pam sorriu
de leve e deixou que Tony a levasse de volta para seu lugar. Gill mudou de cadeira para dar lugar a Tony.
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-Como Tony, eu tambm quero ajudar - disse Julius. -Todos ns queremos. Mas voc tem que permitir, Pam. Obviamente, houve algo antes, uma m histria entre voc
e Philip. Conte, seno no podemos fazer nada.

Pam concordou aos poucos, fechou os olhos e abriu a boca, mas no saiu nenhuma palavra. Levantou-se e foi at a janela, encostou a cabea na vidraa e fez um gesto
para Tony (que tinha se aproximado dela) se afastar. Virou-se, respirou fundo duas vezes e comeou a falar com voz neutra: - H uns quinze anos atrs, minha amiga
Molly e eu queramos morar um tempo em Nova York. Molly era minha vizinha desde pequena e minha melhor amiga. Tnhamos terminado o primeiro ano de faculdade em Amherst
e nos matriculamos em dois cursos de vero da Columbia. Um deles, sobre filsofos pr-socrticos, e adivinhem quem era o AP?

- AP? - perguntou Tony.

- Assistente de professor - explicou Philip, calmo e imediatamente, falando pela primeira vez na sesso. - O AP  um aluno que ajuda o professor coordenando pequenos
grupos de discusso, lendo os trabalhos e avaliando as provas.

Pam pareceu surpresa com o comentrio inesperado de Philip.

Tony respondeu a pergunta que ela no fez. - Philip  o explicador oficial aqui. O que se pergunta, ele responde. Desculpe, j que voc comeou a falar, eu devia
calar a boca. Continue. Pode sentar conosco na roda?

Pam concordou, voltou para seu lugar, fechou os olhos de novo e continuou: - Ento, quinze anos atrs, eu estava no curso de vero da Columbia, com Molly e esse
homem, esse sujeito sentado a era nosso AP. Minha amiga Molly estava numa fase ruim, tinha terminado um namoro longo e, assim que o curso comeou, esse arremedo
de homem (fez sinal indicando Philip) comeou a dar em cima dela. Olha que ns tnhamos s dezoito anos e ele era o professor, quer dizer, um professor dava as duas
palestras da semana, mas esse a era o assistente que cuidava do curso, inclusive das notas. Ele era esperto e Molly estava frgil. Ela se apaixonou, passou uma
semana em completa felicidade. At que numa tarde de sbado, ele me ligou e pediu para encontrlo por causa de uma prova que fiz. Ele foi gentil e srio e eu era
bastante idiota para ser manipulada, acabei nua no sof do escritrio dele. Era uma virgem de dezoito anos.
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E ele fez sexo com vontade. Dois dias depois aconteceu a mesma coisa, e depois o porco me largou, nem me olhava, parecia no me conhecer,
e pior de tudo, no explicou por que sumiu. Fiquei com medo de perguntar, pois ele tinha poder, dava as notas das provas. Foi assim minha estria no maravilhoso
mundo do sexo. Fiquei arrasada, com dio, com vergonha e, pior de tudo, muito culpada por trair Molly. E eu, que me achava uma mulher atraente, mergulhei de cabea
na negao.

- Ah, Pam, no  de estranhar que voc tenha levado um susto agora - disse Bonnie, balanando a cabea.

- Esperem, esperem, ainda no ouviram o pior desse monstro

- disse Pam, transtornada. Julius olhou em volta na sala. Estavam todos inclinados para frente, olhos fixos em Pam, menos Philip, claro, que, de olhos fechados,
parecia em transe.

- Ele e Molly continuaram juntos mais umas semanas, at que ele a largou dizendo apenas que no estava mais achando graa nela e ia procurar outra. S isso. Desumano.
Acreditam que um professor possa dizer isso para uma jovem aluna? Ele no disse mais nada, nem ajudou a tirar as coisas dela que estavam no apartamento. A despedida
dele foi dar a ela a lista das treze mulheres com quem tinha transado naquele ms, muitas da nossa classe. Meu nome era o primeiro da lista.

- Ele no deu a lista a ela. Molly achou a lista mexendo na casa dele - disse Philip, ainda de olhos fechados.

- Que tipo de sujeito depravado seria capaz de fazer uma lista dessas? -devolveu Pam.

De novo com voz neutra, Philip respondeu: - A constituio do macho faz com que ele espalhe seu smen. No foi o primeiro nem o ltimo a fazer uma avaliao dos
campos onde semeou e plantou.

Pam virou a palma das mos para o grupo, balanou a cabea e resmungou: - Vocs esto vendo - como se quisesse mostrar o bizarro daquele estilo de vida. Sem dar
ateno a Philip, ela continuou:

 - Foi um sofrimento. Molly sofreu demais e demorou muito a voltar a confiar num homem. Nunca mais confiou em mim. Nossa amizade acabou. Ela jamais perdoou minha
traio. Foi uma enorme perda para mim e acho que para ela tambm. Tentamos nos reencontrar, at hoje trocamos e-mails de vez em quando, contando as coisas mais
importantes, mas ela jamais quis comentar aquele vero.
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Aps um longo silncio, talvez o maior que o grupo j teve, Julius falou: - Pam, que coisa horrvel ser largada assim, aos dezoito anos. O fato de voc nunca ter
comentado isso comigo na terapia individual nem com o grupo mostra como o trauma foi grande. E perder assim uma amiga da vida inteira! Horrvel mesmo. Mas quero
dizer outra coisa. Foi bom voc ter ficado hoje. bom voc ter falado nisso. Sei que voc no vai gostar que eu diga, mas talvez seja bom para voc o fato de Philip
estar aqui. Talvez possamos trabalhar isso, possa haver uma cura. Para os dois.

- Tem razo, Julius, detestei voc dizer isso, e mais, detesto ter que olhar para esse inseto outra vez. E ele est aqui, no meu querido grupo. Estou muito mal.

Julius olhou em volta. Muita coisa chamava a ateno dele. At que ponto Philip iria agentar? Ele tambm devia ter um ponto de saturao. Quando iria sair da sala
e nunca mais voltar? Ao pensar na sada de Philip, pensou tambm nas conseqncias para Philip, mas, principalmente, para Pam. Ela era bem mais importante para Julius,
uma tima pessoa e queria ajud-la a encontrar um futuro melhor. Seria bom para ela se Philip fosse embora do grupo? Talvez ela sentisse uma espcie de vingana,
mas que vitria de Pirro! Se eu conseguisse achar um jeito, pensou Julius, de ajudar Pam a perdoar Philip, seria bom para ela e talvez para ele tambm.

Julius quase se encolheu ao pensar na palavra perdoar. De todos os recentes movimentos na rea da terapia, o buchicho em torno de "perdoar" era o que mais o incomodava.
Como todo terapeuta experiente, ele sempre teve pacientes que no conseguiam largar as coisas, que alimentavam rancores, que no encontravam paz. Nesses casos, Julius
sempre usou muitos mtodos para ajud-los a perdoar, isto , a largar a raiva e o ressentimento. Na verdade, todo terapeuta experiente tinha um arsenal de "tcnicas
de largar" para usar na terapia. Mas a indstria simplista e esperta do perdo tinha crescido, promovido e comercializado esse aspecto da terapia e apresentado como
se fosse algo totalmente novo. A enganao havia ganho respeitabilidade por se misturar ao atual clima social e poltico mundial de perdo para afrontas como genocdio,
escravido e explorao. At o Papa tinha pedido perdo para os cruzados que saquearam Constantinopla no sculo XIII.
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E como ele, Julius, se sentiria como terapeuta do grupo, se Philip sasse? Julius tinha decidido no abandonar Philip, mas era difcil ter qualquer tipo
de compaixo por ele. Quarenta anos antes, quando era um jovem estudante, assistiu uma palestra em que Erich Fromm citou a frase de Terncio, escrita cerca de dois
mil anos antes: "Sou humano e nada do que  humano me  estranho". Fromm defendia que o bom terapeuta mergulhasse em suas prprias trevas e se identificasse com
todas as fantasias e impulsos do paciente. Julius tentou. Quer dizer que Philip tinha feito uma lista das mulheres que levou para a cama? Mas ele, Julius, no fez
isso quando era bem jovem? Claro que fez. Muitos homens com quem Julius comentou tambm fizeram.

Julius lembrou a si mesmo que era responsvel por Philip e pelos futuros clientes dele. Ele o convidara para ser paciente e aluno. Quisesse ou no, Philip um dia
teria muitos clientes e desistir dele agora era uma m terapia, m lio e mau exemplo. Alm de profundamente contra o moral.

Pensando nisso, Julius pensou tambm no que dizer. Imaginou algo que comeava com sua conhecida frase: "Estou numa dvida, por um lado h isso e por outro, aquilo".
Mas o momento era muito pesado para usar qualquer ttica de reserva. Finalmente, disse: - Philip, ao responder a Pam, voc se referiu a si mesmo na terceira pessoa.
No disse "eu", mas "ele". Voc disse: "Ele no deu a lista para ela". Fiquei pensando: "Ser que voc est dando a entender que hoje  uma pessoa diferente da que
era naquela poca?".

Philip abriu os olhos e encarou Julius. Um raro cruzar de olhares. Ser que havia gratido naquele olhar? Philip respondeu:

- H muito se sabe que as clulas do corpo envelhecem, morrem e so substitudas a intervalos regulares. At alguns anos atrs, achava-se que s as clulas do crebro
se mantinham por toda a vida e, claro, nas mulheres, os vulos tambm. Mas as pesquisas mostram que as clulas nervosas tambm morrem e novos neurnios surgem sem
parar, inclusive as clulas que formam o crtex cerebral, minha mente. Acho que se pode dizer muito bem que no tenho uma s clula hoje que existisse no homem com
meu nome, h quinze anos.

 - Portanto, Meritssimo Juiz, no era eu aquele homem - zombou Tony. - Sinceramente, no tenho culpa. Quem fez aquilo foi outro homem, outras clulas mentais,
no eu.
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- Bem, isso no  justo, Tony. Ns queremos dar apoio a Pam, mas no precisamos acabar com o Philip. O que quer que ele faa? - perguntou Rebecca.

- Porra, para quem no sabe, que tal apenas se desculpar? - Tony virou-se para Philip. - Ser muito difcil? Ser que sua lngua cairia se falasse isso?

- Tenho algo a dizer para vocs dois - disse Stuart. - Primeiro para voc, Philip. Acompanho as pesquisas sobre o crebro, e as informaes que voc deu sobre regenerao
das clulas esto ultrapassadas. Pesquisas recentes mostram que as clulas-tronco da medula ssea, transplantadas para outra pessoa, podem se transformar em neurnios
em determinadas reas do crebro, por exemplo, no hipocampo, e nas clulas de Purkinje do cerebelo. Mas no h comprovao da formao de novos neurnios no crtex
cerebral.

- Agradeo a correo. Gostaria que me indicasse uma literatura sobre o tema, por favor. Pode mandar por e-mail? - perguntou Philip, que tirou um carto de visitas
da carteira e entregou a Stuart, que guardou o carto sem olhar.

- Tony - continuou Stuart -, sabe que no sou contra voc. Gosto da sua objetividade e irreverncia, mas concordo com Rebecca: voc est sendo muito duro e um pouco
fora do real. Quando entrei nesse grupo, nos fins de semana voc cumpria pena por ataque sexual, tirando lixo das rodovias expressas.

- No, a pena foi por agresso fsica. O ataque sexual era besteira e Lizzy retirou a queixa. A queixa de agresso tambm era falsa, mas como explicar?

- Mas eu nunca ouvi, nem ningum ouviu, voc dizer que lastimava essa condenao. Na verdade, vi o contrrio, voc receber muito apoio. Porra, mais do que apoio,
todas as mulheres, inclusive voc - Stuart mostrou Pam - ficaram tocadas pelo seu, como dizer, desrespeito  lei! Lembro de Pam e Bonnie levando sanduches quando
estava recolhendo lixo na Highway 101. Lembro de Gill e eu falando que no conseguamos competir com o seu..., como dizer?

- Seu estilo selvagem - disse Gill.

 - Isso mesmo. Estilo selvagem. Homem da selva. Homem primitivo. Isso  timo - ironizou Tony.
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- Ento, que tal dar um refresco para Philip? Homem da selva serve para voc, mas no para ele. Vamos ouvir o que tem a dizer. Acho horrvel o que Pam sofreu, mas
vamos devagar, sem correr para linchar. Quinze anos  muito tempo.

 - Bom, no estou h quinze anos atrs, estou no dia de hoje - disse Tony. E, virando-se para Philip: - Na semana passada, voc, Philip, merda,  difcil falar quando
a pessoa no olha. Fico puto! Voc disse que no fazia diferena se Rebecca estava interessada em voc (ela estava, hum, flertando, no lembro a bendita palavra).

- Se exibindo! - disse Bonnie.

Rebecca segurou a cabea com as mos. - No acredito, no posso acreditar que ainda vamos falar nisso. No h uma prescrio para o terrvel crime de soltar os cabelos?
Quanto tempo isso vai durar?

- O tempo que durar - respondeu Tony e virou-se para Philip.

- E a pergunta que fiz, Philip? Voc se faz de monge, de algum que est acima de tudo, puro demais para se interessar por mulheres, mesmo as muito atraentes.

Philip virou-se para Julius e perguntou: - V por que eu no queria entrar no grupo?

- Voc sabia que isso ia acontecer?

-  uma equao comprovada: quanto menos me relacionar com as pessoas, mais feliz fico. Quando tentei viver no mundo, estava sempre inquieto. Meu nico caminho para
a paz  ficar fora do mundo, no querer nada, no esperar nada, fazer conquistas contemplativas e superiores.

- Certo, Philip - disse Julius -, mas se voc est num grupo, vai orientar grupos ou ajudar pacientes em seus relacionamentos, precisa se relacionar com eles.

Julius percebeu que Pam balanava a cabea lentamente, surpresa.

- O que  isso? Que loucura. O Philip est no grupo? Rebecca est flertando com ele? Philip orienta grupos, tem pacientes? O que h?

- Muito bem, vamos contar tudo a Pam - disse Julius.

- Stuart,  a sua deixa para entrar - completou Bonnie.

- vou tentar - respondeu Stuart.  - Bom, nos dois meses em que voc esteve fora, Pam...

Julius interrompeu. - Desta vez, deixa que ns continuemos, Stuart. No  justo voc ficar sempre com o trabalho de lembrar tudo.
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- Certo. Mas isso para mim no  trabalho, gosto de dar um panorama. - Vendo que Julius ia interromper, ele acrescentou logo:

- Est bem, vou dizer s uma coisa. Quando voc viajou, Pam, fiquei muito triste. Achei que fracassamos com voc, que no conseguimos, no tivemos condies de ajudar
na sua crise. No gostei de voc ir para outro lugar,  ndia, em busca de ajuda. Prximo a falar.

Bonnie disse logo: - A maior notcia foi Julius contar que est doente. J sabe de tudo, Pam?

- J - ela concordou, sria. - Julius contou quando telefonei no fim de semana para avisar que tinha chegado.

- Na verdade, tenho que acrescentar que Julius no nos contou, desculpe, Bonnie - disse Gill. - Fomos tomar um caf com Philip depois da primeira sesso dele aqui
eele nos contou, pois tinha sabido por Julius, numa sesso individual. Julius ficou bem irritado por Philip se adiantar. Prximo a falar.

- Philip est aqui h cinco sesses, treinando para ser terapeuta

- disse Rebecca. - E, se entendi direito, Julius foi analista dele anos atrs.

Tony acrescentou: - Falamos sobre a, hum, situao de Julius e...

- Voc est querendo dizer cncer.  uma palavra chocante, eu sei - disse Julius -, mas  melhor enfrent-la e falar.

- Sobre o cncer de Julius. Voc  um bicho forte, Julius, tenho que admitir. - Tony prosseguiu. - Ento, falamos no cncer de Julius e como ficou difcil falar
em outras coisas que, comparadas com o cncer, eram pequenas.

Todos tinham falado, menos Philip, que disse ento: - Julius, pode contar para o grupo por que eu o procurei.

- Eu ajudo, Philip, mas seria melhor voc contar quando puder. Philip concordou com a cabea.

Quando ficou claro que Philip no iria continuar, Stuart disse:

- Certo, minha vez de novo, querem uma segunda rodada?

Ao ver que todas as cabeas concordavam, Stuart continuou:

- Numa sesso, Bonnie reclamou um pouco por Rebecca querer chamar a ateno de Philip - Stuart parou, olhou para Rebecca e acrescentou: - Supostamente, ela queria
chamar a ateno dele. Bonnie falou nos problemas que tinha com o corpo, a impresso de que no  atraente.
    177

- Falei tambm na minha falta de jeito, na incapacidade de competir com mulheres como Rebecca e voc, Pam - acrescentou Bonnie.

Rebecca disse: - Enquanto voc no estava, Philip fez vrios comentrios muito enriquecedores.

- Mas nada sobre ele mesmo - disse Tony.

- Ultima coisa: Gill teve uma briga sria com a mulher, chegou a pensar em sair de casa - disse Stuart.

- No acredite muito em mim, perdi a coragem. A deciso de sair de casa durou umas quatro horas - disse Gill.

- Eis um bom resumo do que aconteceu - disse Julius, olhando para o relgio. - Antes de sairmos, quero perguntar a Pam como ela est, sente-se mais dentro do barco?

- Ainda est parecendo irreal. Tento entrar, mas acho bom a sesso terminar. Por hoje, no d para agentar mais - disse Pam, juntando seus pertences.

- Tenho que dizer que estou assustada - anunciou Bonnie. - Vocs sabem que adoro esse grupo, mas sinto que ele est prestes a explodir. Ser que vamos voltar na
prxima semana? Voc, Pam? Voc, Philip? Vocs, rapazes, voltam?

- Uma pergunta direta - respondeu Philip logo. - vou responder da mesma forma. Julius me convidou para integrar o grupo por seis meses e concordei. E se comprometeu
a me dar crdito de superviso. vou pagar as sesses e cumprir o combinado, no saio antes.

- E voc, Pam? - perguntou Bonnie.

Pam ficou parada. -  s o que agento por hoje.

As pessoas saram, Julius ouviu que iam tomar caf, - Como iria ser? - pensou ele. - Ser que iam convidar Philip? Ele sempre disse ao grupo que encontros fora da
sesso poderiam criar divises, a menos que ningum fosse excludo. Notou ento que Philip e Pam estavam se encaminhando para a porta ao mesmo tempo, no ia dar
passagem. Essa situao vai ser interessante, pensou Julius. Philip de repente percebeu e, como a porta era muito pequena para os dois, parou e, gentilmente, disse:
- Por favor - e cedeu o lugar para Pam. Ela passou como se Philip fosse invisvel.
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*** 22

O sexo se intromete com seu lixo e interfere nas negociaes dos estadistas e nas pesquisas dos eruditos. Destri os relacionamentos mais preciosos e tira os escrpulos
dos que antes eram honestos e direitos.

22

MULHERES, PAIXO E SEXO

Depois da me, a mulher mais presente na vida de Arthur foi uma costureira reclamona chamada Caroline Marquet. Quase todas as biografias de Schopenhauer assinalam
o encontro dos dois em 1823, numa escada mal iluminada do prdio em Berlim onde moravam. Ele tinha trinta e cinco anos e ela, quarenta e cinco.

Caroline estava conversando com trs amigas em seu apartamento. Irritado com a tagarelice barulhenta das mulheres, o vizinho Arthur escancarou a porta de seu apartamento
e acusou-as de invadir a privacidade dele, j que aquela ante-sala era, tecnicamente, parte do apartamento dele. Mandou, rspido, que sassem dali. Caroline se recusou
e Arthur empurrou-a, chutando e gritando, escada abaixo. Ela subiu de novo a escada, desafiadora, e ele a expulsou outra vez, com mais fora.

Caroline processou-o, acusando-o de empurr-la na escada, causando ferimentos graves que resultaram em tremores e paralisia parcial. Arthur ficou muito assustado
com o processo, pois sabia que no ia ganhar dinheiro com suas atividades intelectuais e guardava
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cuidadosamente a herana do pai. Quando seu dinheiro corria perigo, ele ficava, como disse seu editor, "um cachorro preso".

Certo de que Caroline Marquet era uma enganadora oportunista, empenhou-se em lutar contra a acusao usando todos os recursos cabveis. O amargo processo levou seis
anos, e Arthur foi condenado a pagar sessenta talers por ano at Caroline se restabelecer. (Na poca, uma criada ou cozinheira recebia vinte talers por ano, mais
casa e comida.) Arthur achava que Caroline era esperta o suficiente para sofrer de tremores enquanto recebesse o dinheiro. E assim foi, ele continuou a pagar at
ela morrer, vinte e seis anos depois. Quando recebeu a cpia do atestado de bito, rabiscou no papel, em latim: "Obit anus, abit onus" (a velha morre, o peso acaba).

Outras mulheres na vida de Arthur? Ele jamais se casou, mas estava longe de ser casto: na primeira metade da vida, teve intensa atividade sexual, talvez at exagerada.
Anthime, o amigo de infncia que conheceu no Havre, esteve em Hamburgo durante o aprendizado comercial de Arthur e os dois passavam as noites  procura de aventuras
amorosas, sempre com mulheres de classes inferiores (criadas, atrizes, coristas de teatro). Se no tinham sucesso, terminavam se consolando nos braos de uma
"puta prestimosa".

Arthur no tinha tato, seduo nem alegria; era um conquistador incompetente e precisou de muitos conselhos de Anthime. As inmeras vezes em que foi rejeitado fizeram
com que ligasse o desejo sexual  humilhao. Detestava sentir desejo e em anos posteriores comentou muito a degradao que era mergulhar na vida animalesca.
No  que ele no desejasse as mulheres, e foi claro: "Eu gostava muito delas, se elas tivessem apenas me aceitado".

Sua histria de amor mais triste ocorreu aos quarenta e trs anos, quando tentou cortejar Flora Weiss, uma linda jovem de dezessete. Uma tarde, numa festa num barco,
aproximou-se de Flora com um cacho de uvas, anunciou que sentia atrao por ela e que ia pedi-la em casamento aos pais. O pai de Flora ficou pasmo com a
proposta e disse: - Ela no passa de uma criana - e deixou a deciso por conta da filha. A histria terminou quando Flora mostrou a todos os envolvidos que no
tinha qualquer interesse no candidato.

Dcadas mais tarde, a sobrinha de Flora Weiss perguntou  tia sobre o encontro com o famoso filsofo e anotou a resposta em seu dirio:
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- Ah, me deixa em paz com esse velho Schopenhauer. - Por insistncia da sobrinha, Flora contou das uvas que ganhou dele e disse: - Mas eu no queria
as uvas. Fiquei irritada porque o velho Schopenhauer tinha tocado nelas e joguei-as na gua.

No h qualquer prova de que Arthur tenha tido um caso com uma mulher que respeitasse. Certa vez, a irm Adele recebeu uma carta em que ele anunciava "dois casos
de amor sem amor" e respondeu, numa das poucas vezes em que fizeram comentrios pessoais: "Espero que voc no perca a capacidade de estimar uma mulher quando lidar
com as vulgares e simples do meu sexo. E que o cu faa com que um dia encontre uma pela qual consiga sentir algo mais profundo do que essas paixes".

Aos trinta e trs anos, Arthur iniciou um relacionamento intermitente, que durou uma dcada, com uma jovem corista de Berlim chamada Caroline Richter-Medon,
que costumava ter casos com vrios homens ao mesmo tempo. Arthur no se opunha a isso e escreveu: " contra a natureza da mulher limitar-se a um s homem no
curto perodo de seu florescer. Esperam que ela guarde para um homem o que ele no pode usar e que vrios outros desejam." Arthur era contra a monogamia tambm para
os homens: "Numa certa fase da vida, os homens tm demais, e no fim, muito pouco. (...) passam a metade da vida lidando com putas e a outra metade sendo cornos".

Quando Arthur mudou-se de Berlim para Frankfurt, convidou Caroline para ir, mas ela no quis deixar o filho natural, que ele insistia no ser dele. Aps uma curta
troca de cartas, a relao terminou para sempre. Quase trinta anos depois, quando fez seu testamento aos sessenta e um anos, Arthur incluiu uma clusula deixando
cinco mil talers para Caroline Richter-Medon.

Embora desprezasse as mulheres e zombasse do casamento, ele no sabia se devia se casar. Preveniu-se, pensando: "Todos os grandes poetas foram infelizes no casamento
e nenhum grande filsofo se casou: Demcrito, Descartes, Plato, Spinoza, Leibniz e Kant. A nica exceo foi Scrates, mas pagou por isso, pois sua esposa era
a
briguenta Xntipa. (...) a maioria dos homens  atrada pela aparncia das mulheres, que esconde os defeitos. Eles se casam quando jovens e pagam caro quando envelhecem,
pois suas mulheres ficam histricas e teimosas."
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com a idade, ficou desanimado com a idia do casamento at desistir completamente aos quarenta anos. Casar-se em idade avanada, disse ele, era como percorrer
a p trs quartos de estrada, depois comprar uma passagem muito cara pelo trajeto completo

Todos os temas principais da vida passam pela ousada anlise filosfica de Schopenhauer, inclusive o desejo sexual, assunto que os filsofos anteriores evitaram.

Ele iniciou a discusso com uma afirmao surpreendente sobre a fora e onipresena desse desejo.

Depois do amor a vida, o sexo  a maior e mais ativa fora e ocupa quase todas as vontades e pensamentos da poro mais jovem da humanidade. Ele  a meta final de
praticamente todos os esforos humanos. Exerce uma influncia desfavorvel nos assuntos mais importantes,
interrompe a toda hora as ocupaes mais srias e s vezes inquieta por algum tempo as maiores mentes humanas (...) o sexo  realmente o alvo invisvel
de toda ao e conduta e surge em toda parte, apesar dos panos que so jogados em cima
dele. Motivo de guerra e objeto da paz, ( ) fonte inesgotvel da razo, chave
de to das as insinuaes e sentido de todas as pistas misteriosas, de todas as ofertas silenciosas e olhares roubados,  nele que pensam os jovens e, com freqncia,
os velhos tambm, no que pensam os impudicos todas as horas e a fantasia recorrente e constante dos pudicos, mesmo contra a vontade
deles.

Meta final de praticamente todos os esforos humanos? O alvo invisvel de toda ao e conduta? Motivo de guerra e objeto da paz? Por que tanto exagero? Quantas vezes
Schopenhauer conclui a partir de sua prpria preocupao com o sexo? Ou ser que o exagero  s um disfarce para chamar a ateno do leitor para o que vai dizer?

Se considerarmos tudo isso, somos levados a perguntar por que tanto barulho e confuso? Por que tanta pressa, tanto tumulto, angstia e empenho? Trata-se apenas
de cada Joo encontrar sua Maria. Por que tal ninharia  to importante e costuma trazer distrbio e confuso na vida do homem ?
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A resposta de Arthur para a pergunta que ele mesmo fez antecipa em um sculo e meio muito do que iria tratar a psicologia evolucionria e a psicanlise. Ele afirma
que no somos guiados pela nossa necessidade, mas pela necessidade da nossa espcie. "Embora os dois envolvidos ignorem, o verdadeiro fim de toda histria de amor
 gerar uma criana", continua ele. "Portanto, o que realmente dirige o homem  um instinto dirigido para o que  melhor para a espcie, embora o homem pense que
procura apenas a intensificao do prprio prazer".

Schopenhauer discute em detalhe os princpios que regem a escolha do parceiro sexual ("todos amam o que lhes falta") e enfatiza sempre que a escolha  feita pela
fora da espcie. "O homem  possudo pelo esprito da espcie, fica dominado por ele e no se pertence mais, (...) pois busca no o seu interesse, mas o de uma
terceira pessoa que ainda no foi concebida."

Ele insiste que a fora do sexo  irresistvel. "Pois est sob influncia de um impulso similar ao dos insetos, que o leva a atingir suas metas de qualquer maneira,
apesar de todos os argumentos dados pela razo. (...) Ele no consegue desistir." E a razo tem pouco a ver com isso. com freqncia, o homem deseja algum
que a voz da razo manda evitar, mas ela nada pode contra a paixo sexual.
Schopenhauer cita o teatrlogo romano Terncio: "O que no  concedido pela razo no deve ser dominado com a razo".

Muito j se comentou que as trs maiores revolues do pensamento ameaaram a noo do homem como centro de tudo. Primeiro, Coprnico demonstrou que a Terra no
era o centro de todos os corpos celestes. Depois, Darwin mostrou que no somos o centro na cadeia da vida e, como todas as demais criaturas, evolumos a partir de
outras formas de vida. Finalmente, Freud descobriu que no mandamos em nossa prpria casa, pois grande parte do nosso comportamento  governado por foras inconscientes.
Sem dvida, o co-revolucionrio que Freud no reconheceu foi Arthur Schopenhauer. Muito antes de Freud nascer, Schopenhauer afirmou que somos dominados por grandes
foras biolgicas e nos iludimos achando que escolhemos conscientemente o que fazemos.
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*** 23

Se no conto meu segredo, ele  meu prisioneiro. Se o deixo escapar, sou prisioneiro dele. A rvore do silncio d os frutos da paz.

23

A preocupao de Bonnie em relao ao nmero de pessoas presentes na sesso seguinte foi infundada: no s todos compareceram como chegaram antes da hora, com
exceo de Philip, que, apressado, sentou-se s quatro e meia em ponto.

 comum haver um pequeno silncio no comeo da sesso. A pessoa aprende logo a no ser a primeira a falar, porque receberia muito tempo e ateno. Mas Philip, ousado
como sempre, no esperou. Sem olhar para ningum, comeou com sua voz neutra e sem expresso.

- O relato feito pela integrante do grupo que voltou na semana passada...

- Que se chama Pam - acrescentou Tony.

Philip concordou, sem olhar. - Pam no revelou tudo sobre a minha lista, que era mais que uma simples seqncia de nomes de mulheres com as quais fiz sexo naquele
ms. A lista tinha tambm os telefones...

Pam interrompeu. - Ah, os telefones! bom, desculpe, agora est tudo certo!

Sem se alterar, Philip prosseguiu: - E um resumo das preferncias sexuais de cada mulher.
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- Preferncias sexuais? - perguntou Tony.

- Isso mesmo, o que cada uma preferia. Por exemplo: sexo anal, sexo oral, jogos preliminares, massagem nas costas, massagem com leos, apanhar, ser chupada nos
seios, algemada, amarrada na cabeceira da cama.

Julius piscou. Deus do cu! At onde Philip vai, ser que contar as preferncias de Pam? L vinha um grande problema.

Antes que ele conseguisse intervir, Pam gritou: - Voc  realmente nojento. Asqueroso. - Pam inclinou-se para frente como se fosse levantar e sair.

Bonnie segurou o brao dela e disse para Philip: - Dessa vez, concordo com Pam. Voc ficou louco, Philip? Para que contar essas coisas ?

- , no estou entendendo - acrescentou Gill. - Olha, voc est sob ataque cerrado. No sei o que vai ser de voc, cara. Eu no seria capaz de enfrentar isso. Mas
o que voc faz? Joga um balde de gasolina no fogo e diz "me queimem mais um pouco". No quero ofender, Philip, mas, porra, como pode fazer isso?

- , tambm acho - disse Stuart. - No seu lugar, eu iria me colocar numa luz mais favorvel e no dar mais munio para o inimigo me atacar.

Julius tentou acalmar a situao. - Philip, o que voc sentiu nos ltimos minutos?

- Bem, eu tinha uma coisa importante a dizer sobre essa lista e disse, com tanta naturalidade que estou satisfeito com o desenrolar dos fatos.

Julius insistiu e, com voz mais calma, repetiu: - Vrias pessoas reagiram: o que voc sentiu, Philip?

- No vou por a, Julius. Isso me complica.  melhor eu fazer o que acho.

Julius tirou outra ferramenta de sua caixa: a antiga, mas segura, estratgia do verbo na voz condicional: - Philip, experimente fazer uma suposio, como os filsofos
fazem todos os dias. Compreendo sua vontade de manter o equilbrio, mas, por favor, se voc fosse sentir alguma coisa depois do que disseram hoje aqui, o que seria?

Philip pensou, sorriu de leve e concordou com a cabea, talvez como prmio pela ingenuidade da estratgia de Julius.
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- Uma suposio? Muito bem. Se eu fosse sentir alguma coisa, seria susto pela agressividade de Pam. Sei que ela quer me magoar fundo.

Pam ia dizer alguma coisa, mas Julius fez sinal para se calar e deixar Philip continuar.

- Bonnie ento perguntou por que eu estava contando tanta vantagem, e Gill e Stuart perguntaram por que eu queria me imolar.

- Imo o qu? - perguntou Tony.

Pam abriu a boca para responder, mas na mesma hora Philip explicou: -Imolar  sacrificar-se no fogo.

- Certo, voc descreveu bem o que houve, o que Bonnie, Gill e Stuart disseram. Agora, continue o experimento: se fosse sentir alguma coisa com o comentrio deles.

- Certo, eu sa do assunto. Voc deve estar achando que o meu inconsciente est emergindo.

Julius concordou com a cabea: - Continue, Philip.

- Eu me sentiria totalmente incompreendido. Diria a Pam que no estava querendo consertar o que fiz. Para Bonnie, que contar vantagem era a ltima coisa que eu pretendia.
E, para Gill e Stuart, agradeceria o aviso, mas no quero me imolar.

- Certo, agora sabemos o que voc no queria. Ento diga o que queria, no entendi - pediu Bonnie.

- Estava apenas esclarecendo, seguindo os ditames da razo. Nada mais, nada menos.

O grupo entrou naquele estado comum aps uma interao com Philip. Ele era to racional, to acima das pequenas rixas do cotidiano. Todos olharam para baixo,
confusos, desorientados. Tony balanou a cabea.

- Compreendo tudo o que voc colocou, exceto a frase final "nada mais, nada menos", que no consigo aceitar - disse Julius. - Por que escolher esse prisma da verdade
agora, hoje, nessa altura do seu relacionamento conosco? Voc estava ansioso para falar. No conseguia esperar, senti que queria pr para fora. Apesar das bvias
conseqncias negativas mostradas pelo grupo, voc hoje se adiantou logo. Vamos tentar ver por qu. Qual a vantagem disso?

 -  simples, sei exatamente por que falei - respondeu Philip. Silncio. Todos aguardavam.
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- Isso j est me enchendo o saco - disse Tony. - Philip, voc est fazendo suspense, como sempre. Ser que temos de implorar pela prxima frase?

- Desculpe, o que voc disse ? - perguntou Philip, com cara de quem no entendeu.

- Voc est nos deixando esperar para saber por que disse aquilo. A espera  proposital? - perguntou Bonnie.

- Talvez voc ache que no queremos saber, no temos curiosidade pelo que vai dizer? - sugeriu Rebecca.

- No  nada disso - respondeu Philip. - No tem nada a ver com vocs.  que meu interesse diminuiu e me voltei para dentro.

- Isso parece importante - disse Julius. - Acho que h um motivo, ligado  sua interao no grupo. Se acha mesmo que seu comportamento  instvel como a chuva
que cai e pronto, ento est assumindo uma posio indefesa. H um motivo para voc de vez em quando nos evitar e se voltar para dentro, acho que  por uma ansiedade.
Ento, sua perda de interesse tem a ver com a forma como iniciou a sesso. Percebe?

Philip ficou calado, pensando no que Julius disse.

Julius tinha uma forma de agir quando tratava com outro terapeuta. - Mais uma coisa, Philip, se voc pretende um dia ter pacientes ou orientar um grupo, vai
ser um problema grave perder o interesse no tema e se voltar para dentro.

Funcionou. Philip imediatamente respondeu: - Quis contar o que fiz para me proteger. Pam sabia da lista de mulheres e eu estava preocupado porque ela podia jogar
aquela bomba a qualquer momento. Era menos ruim se eu contasse. - Philip estava indeciso, respirou fundo e continuou: - Tenho mais a dizer: ainda no respondi a
acusao de Bonnie de que estava contando vantagem. Fiz a lista porque minha vida sexual foi muito intensa naquele ano. Meu relacionamento de trs semanas com
Molly, amiga de Pam, no era o normal. Eu preferia encontrar uma mulher uma vez e nunca mais, s procurava de novo quando tinha uma grande necessidade sexual e no
conseguia outra mulher. Nesse caso, precisava das notas para fazer a mulher pensar que eu lembrava dela. Se soubesse a verdade, isto , que era apenas mais uma entre
muitas, eu podia ficar mal. No havia qualquer fanfarronice na lista. Era para meu uso particular. Molly tinha a chave do meu apartamento,
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invadiu minha privacidade, arrombou uma gaveta da escrivaninha e pegou a lista.

- Voc est dizendo que fez sexo com tantas mulheres que precisava anotar para no mistur-las? Bem, voc calcula umas quantas?

- perguntou Tony.

Julius resmungou para si mesmo. As coisas j estavam to complicadas sem a pergunta em tom invejoso de Tony. A tenso entre Pam e Philip tambm j estava insuportvel.
Era preciso diminuir a tenso, mas Julius no sabia como. De repente, Rebecca deu uma ajuda inesperada e mudou o rumo da sesso.

- Desculpem interromper, mas preciso de um tempo hoje. Passei a semana toda pensando em contar algo que jamais contei a ningum, nem mesmo a voc, Julius. Acho que
 o meu maior segredo.

- Rebecca parou e olhou o grupo. Todos olhavam para ela. - Posso falar?

Julius virou-se para Pam e Philip. - O que acham? Estamos deixando vocs muito irritados?

- Comigo no tem problema, preciso de um tempo - disse Pam.

- E voc, Philip?

Philip concordou com a cabea.

- Concordo plenamente, mas primeiro quero que diga por que resolveu contar isso hoje - disse Julius.

- No, melhor eu falar enquanto estou com coragem.  o seguinte: uns quinze anos atrs, duas semanas antes do meu casamento, a empresa onde eu trabalhava me
mandou apresentar um novo produto numa feira de informtica em Las Vegas. Eu j tinha entregue o pedido de demisso e aquele seria meu ltimo compromisso; na poca,
eu achava que o ltimo at na minha vida profissional. J estava grvida de dois meses, Jack e eu planejamos uma lua-de-mel de um ms, e depois eu cuidaria da casa
e do beb. Foi bem antes da faculdade de Direito, eu no imaginava que voltaria a trabalhar.

 - Bom, chegando em Las Vegas, fiquei meio estranha. Uma noite, me vi sentada no bar do Caesar Palace. Pedi um drinque e logo estava de conversa com um
homem muito bem-vestido. Ele perguntou se eu estava de servio e, sem conhecer a expresso, respondi que sim. Antes que eu pudesse falar no meu trabalho, ele
perguntou quanto eu cobrava.
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Engoli em seco, olhei para ele (era bonito) e respondi: - Cento e cinqenta dlares. - Ele concordou, subimos para o apartamento dele. Na noite seguinte
mudei para o hotel Tropicana e fiz a mesma coisa. Mesmo preo. Na ltima noite, fui de graa.

Rebecca respirou fundo e expirou alto. -  isso. Jamais contei para ningum. Pensei em contar para Jack, mas desisti. Para qu? S ia aborrec-lo conseguir um pequeno
e precioso perdo para mim e... Tony, seu filho da puta, isso no tem graa!

Tony estava com a carteira de dinheiro na mo, contando as notas. Parou e, com um sorriso humilde, disse: - Eu s queria aliviar o clima fazendo piada.

- No quero aliviar nada. Isso para mim  coisa sria - disse Rebecca, com um de seus maravilhosos sorrisos. -  isso, confisses.

- Virou-se para Stuart, que muitas vezes chamou-a de boneca de porcelana. - Ento, o que acha? Talvez eu no seja a linda boneca que pareo.

Stuart respondeu:
 - Eu no estava pensando nisso. Sabe o que pensei, enquanto voc falava? Lembrei de um
filme que aluguei noites atrs, The Green Mile. Tinha uma
cena inesquecvel de um condenado fazendo a ltima refeio. Acho que em Las Vegas voc se deu a ltima liberdade antes do casamento.

Julius concordou e disse: - Tambm acho. Parece uma coisa que conversamos h muito tempo, Rebecca. - E explicou para o grupo:

- Anos atrs, Rebecca e eu trabalhamos cerca de um ano na terapia sobre sua deciso de se casar. - Virando-se para Rebecca, disse: - Lembro que falamos semanas no
seu medo de perder a liberdade, de ter menos oportunidades. Concordo com Stuart, foi isso que aconteceu em Las Vegas.

- Lembro de uma sesso, Julius, em que voc citou um romance onde algum procura um sbio e ele diz que as escolhas excluem, ou seja, que para todo sim existe
um no.

Pam interrompeu:
 - Sei qual  o livro,  Grendel, de John Gardner. O demnio Grendel procura o sbio.

- H vrias conexes aqui - disse Julius. - Pam me indicou esse romance quando j estava em terapia individual h alguns meses. Ento, Rebecca, se meu comentrio
ajudou voc, tem que agradecer a ela.
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Rebecca deu um grande sorriso agradecido para Pam. - Voc. indiretamente, me tratou. Colei um papel com essa frase no meu espelho: Escolhas excluem. Por isso
aceitei me casar com Jack, alm de saber que ele era o homem certo para mim. - Acrescentou, para Julius: - Lembro que voc disse que para envelhecer bem era
preciso aceitar que as oportunidades diminuem.

- Muito antes de Gardner, Heiddeger - interrompeu Philip, explicando para Tony: - importante filsofo alemo da primeira metade do sculo passado...

- Um grande nazista, tambm - interrompeu Pam.

Philip no deu ouvidos e continuou. - Heidegger falou de enfrentar o limite da possibilidade. Na verdade, ele ligava esse limite ao medo da morte. Para ele, "a morte
 a impossibilidade de qualquer possibilidade."

- Morte como impossibilidade de qualquer possibilidade - Julius repetiu. - Grande frase, acho que vou colar no meu espelho. Obrigado, Philip. H tanta coisa para
vermos, inclusive seus sentimentos, Pam. Mas antes quero comentar mais uma coisa sobre voc, Rebecca. Esse fato em Las Vegas deve ter sido durante a terapia individual
e voc jamais o mencionou. Mostra como deve t-la envergonhado.

Rebecca concordou. - , resolvi colocar uma p de cal na histria. - Depois de uma pausa e de pensar se falava, acrescentou: - Tem mais, Julius. Eu fiquei com
vergonha e alm disso foi uma situao arriscada, fiquei mais envergonhada quando fantasiei a situao, foi um grande barato, no um barato de sexo, no apenas um
barato de sexo, mas de ficar fora da lei, de agir de forma inconsciente. - Virando-se para Tony, acrescentou: - Por isso sempre tive uma certa atrao por voc,
por ter sido preso, por suas brigas de bar, seu desrespeito s leis. Mas agora voc exagerou, conferir o dinheiro foi agressivo.

Antes que Tony pudesse responder, Stuart se adiantou: - Voc  muito corajosa, Rebecca. Admiro. E me liberou para contar algo que no falei nem para Julius, nem
para meu terapeuta anterior, nem para ningum. - Ficou indeciso, olhou para cada pessoa: - Antes, vou conferir o fator segurana. Esse assunto  de alto risco.
Confio em todos aqui, exceto em voc, Philip, porque ainda no o conheo direito. Certamente Julius falou com voc sobre discrio, no?
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Silncio.

- Philip, seu silncio me irrita. Eu fiz uma pergunta - disse Stuart, que ficou de frente para Philip. - Por que no responde?

Philip levantou os olhos. - No sabia que era preciso responder.

- Eu disse que certamente Julius falou na discrio e levantei a voz no final da frase. Isso mostra que  uma pergunta, no? E falar em confiana no indicava que
eu queria uma resposta sua?

- Compreendo - disse Philip. - Julius falou na discrio e me comprometi a respeitar todas as regras do grupo, inclusive essa.

- Certo - disse Stuart. - Sabe, Philip, estou mudando de idia, achava voc arrogante, mas comeo a achar que  s um bicho-domato que no gosta de sair de casa,
nem gosta de gente. Pode responder ou no, como quiser.

- Boa, Stuart! - disse Tony, rindo. - Est aparecendo, cara. Gostei.

Stuart concordou. - Minha crtica no foi negativa, Philip, mas vou contar uma coisa e preciso ter certeza da discrio de todos. Ento, vamos l. - Respirou fundo.
- Cerca de treze ou catorze anos atrs, quando terminava a residncia e ia comear na clnica, fui a uma conveno de pediatras na Jamaica. Esses eventos so para
os profissionais se atualizarem com as ltimas pesquisas, mas todo mundo sabe que muitos vo por outros motivos tambm: procurar uma oportunidade de emprego,
ou um cargo acadmico, ou apenas descansar e no fazer nada. Eu fui por todos esses motivos, e, para piorar, meu avio para Miami atrasou e perdi o vo para a Califrnia.
Tive de dormir no hotel do aeroporto e fiquei bem irritado.

O grupo estava totalmente atento ao que Stuart dizia; era um novo prisma dele que estavam conhecendo.

- Hospedei-me no hotel umas onze e meia da noite, tomei o elevador para o stimo andar (engraado como os detalhes esto ntidos), entrei num comprido e silencioso
corredor para o quarto. Nisso, uma porta se abriu e uma mulher de roupo, desarrumada e descabelada, saiu. Era atraente, com um lindo corpo, uns dez ou quinze
anos mais velha que eu. Segurou no meu brao (ela cheirava a bebida) e perguntou se eu tinha visto algum no corredor.

 - Ningum, por qu? - perguntei. - Ela ento me contou uma histria comprida e confusa de um entregador que tinha acabado de roubar seis mil dlares dela.
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Sugeri que ligasse para a portaria do hotel ou para a polcia, mas, estranhamente, ela no parecia com vontade de fazer nada.
Depois, fez sinal para eu entrar no quarto, falamos e tentei acalm-la por ter sido roubada (obviamente, a histria era uma fantasia dela). Uma coisa leva a outra
e acabamos na cama. Perguntei vrias vezes se ela queria que eu ficasse, se queria fazer sexo. Ela queria, ns queramos, e duas horas depois ela estava dormindo.
Fui para o meu quarto, dormi algumas horas e peguei um vo cedo. Antes de embarcar, liguei sem dar meu nome para o hotel e disse que havia uma hspede no quarto
setecentos e doze que podia precisar de atendimento mdico.

Aps alguns minutos de silncio, Stuart disse: -  isso a.

-  itsso a? - perguntou Tony. - Uma mulher bonita convida voc para o quarto dela e voc d o que ela pede? Cara, essa eu no perdia.

- No, no  isso! - disse Stuart. - O problema  que sou mdico, encontro uma mulher mal, talvez com uma leve ou enorme alucinao alcolica, vou e transo
com ela.  um desrespeito ao Juramento de Hipocrates, um erro grave do qual jamais me perdoei. No consigo esquecer aquela noite, est marcada a fogo na minha
cabea.

- Voc  muito duro consigo mesmo, Stuart - disse Bonnie. - A mulher sozinha, bbada, sai no corredor, v um homem atraente, mais jovem, convida-o para a cama. Ela
conseguiu o que queria, talvez o que precisava. Vai ver que voc fez muito bem a ela. Ela deve achar que foi uma noite tima.

Os outros (Gill, Rebecca, Pam) queriam falar, mas Stuart adiantou-se: - Agradeo o que vocs disseram, muitas vezes eu disse coisas parecidas para mim mesmo, mas
sinceramente no estou pedindo apoio. Eu s queria falar nisso, tirar esse ato srdido que ocorreu h anos e traz-lo das trevas para a luz, s isso.

Bonnie reagiu. - Muito bom, fez bem em nos contar, Stuart, mas isso mostra uma coisa que j comentamos antes: a sua relutncia em aceitar nossa ajuda. Voc 
timo para dar, mas no tanto para receber.

- Podem ser reflexos de mdico. No fiz medicina para ser paciente e sim para atender pacientes - retrucou Stuart.

 - Voc nunca tem um dia de folga? - perguntou Tony. - Pensei que estivesse de folga naquela noite no hotel de Miami.
    192

Meia-noite com uma mulher de porre, com vontade de transar, ora,

cara, vai nessa.

Stuart balanou a cabea. - Um tempo atrs ouvi uma fita do Dalai Lama conversando com mestres budistas. Um deles perguntou sobre cansao e se eles no deviam
ter uma folga de vez em quando. A resposta do Dalai foi excelente: - Folga? O Buda diz: "Desculpem, hoje estou de folga!". - Jesus se aproxima de um doente e diz:
"Desculpe, estou de folga hoje!". - O Dalai est sempre rindo, achou essa idia muito engraada e no parou de rir.

- Discordo. Acho que voc est usando sua profisso como desculpa para evitar a vida - disse Tony.

- O que fiz naquele hotel foi errado. Ningum me convence do contrrio.

Julius disse: - Foi h catorze anos e voc no esquece. Que conseqncia teve o fato?

- Alm de eu me depreciar e ter nojo de mim? - perguntou Stuart.

Julius concordou.

- Tenho sido um timo mdico, nunca mais, nem por um instante, violei a tica da profisso.

- Stuart, decreto que voc pagou sua dvida. Caso encerrado - disse Julius.

- Assim seja - disseram vrias pessoas.

Stuart sorriu e se benzeu. - Isso me faz lembrar a missa de domingo na infncia. Tenho a impresso de que acabei de ser absolvido no confessionrio.

 - vou contar uma coisa - disse Julius. - Anos atrs, em Xangai, estive numa catedral deserta. Sou ateu, mas gosto de conhecer lugares religiosos. Bem, dei uma
volta na catedral, sentei no confessionrio vazio e fiquei invejando o padre-confessor. Que poder ele tinha! Tentei dizer: "Voc est perdoado meu filho, voc est
perdoada, minha filha". Imaginei a enorme segurana dele por se considerar o elo do perdo que vinha direto do homem l de cima. E como as minhas tcnicas pareciam
insignificantes em comparao com as dele. Mas depois que sa da catedral, conclui que pelo menos eu vivia de acordo com as normas da razo, e no tratava
meus pacientes como crianas, transformando mitologia em realidade.
    193

Aps um curto silencio, Pam disse: - Sabe de uma coisa, Julius? Alguma coisa mudou.  Voc est diferente de quando eu fui
viajar. Conta histrias da sua vida e opina sobre religies, o que sempre evitou. Acho que  efeito da sua doena, mas, mesmo assim, gostei. Acho muito bom voc
estar mais pessoal.

Julius concordou. - Obrigado. O silncio que houve aqui me deu a desagradvel impresso de que ofendi a religio de algum.

- A minha no, Julius, se est preocupado comigo - disse Stuart.

- Essas pesquisas que dizem que noventa por cento dos norteamericanos acreditam em Deus me deixam estupefato. Larguei a Igreja na adolescncia e, se no tivesse
largado nessa poca, largaria quando soube dos padres catlicos pedfilos.

- Tambm no me ofendeu - disse Philip. - Voc e Schopenhauer tm algo em comum quanto  religio. Ele achava que os lderes religiosos exploram a eterna necessidade
que o homem tem do sobrenatural e tratam as pessoas como crianas, deixando-as numa eterna iluso, e no contam que escondem a verdade em alegorias.

O comentrio de Philip interessava a Julius, mas, notando que faltavam poucos minutos para o fim da sesso, ele foi direto: - Hoje, aconteceu muita coisa aqui. Muita
gente se exps. O que sentiram? Alguns estiveram muito calados. Pam, Philip, o que tm a dizer?

Philip respondeu logo: - Na minha opinio, o que foi mostrado hoje aqui, o que causou tanto tormento intil para mim e para outros, vem do supremo e universal poder
do sexo, que meu outro terapeuta, Schopenhauer, mfe ensinou que  totalmente intrnseco a ns ou, como se diz hoje, faz parte da nossa constituio.

- Conheo bem a opinio dele sobre o assunto, j que o cito sempre nas palestras. Eis algumas: "O sexo  o mais forte e mais ativo de todos os motivos. (...) a
meta
final de quase todos os esforos humanos. (...) Interrompe a toda hora as ocupaes mais srias e s vezes desorienta (...) as mentes mais brilhantes. O sexo se
intromete com seu lixo e interfere (...) nas pesquisas dos eruditos."

- Philip, isso  importante, mas, antes de terminarmos a sesso de hoje, tente falar dosseus sentimentos, em vez dos de Schopenhauer

- interrompeu Julius.

- Vou tentar, mas s mais uma frase: "Todos os dias, o sexo destri as relaes mais valiosas. Na verdade, tira todo o escrpulo dos que antes eram honrados
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e corretos". - Philip parou - Era o que eu tinha a dizer, pronto.

- No ouvi nada sobre seus sentimentos, Philip - disse Tony, satisfeito com a chance de enfrent-lo.

Philip concordou. - Mostra como ns, pobres mortais sofredores, somos to vtimas do corpo que ficamos cheios de culpa por coisas que so naturais, como ficaram
Stuart e Rebecca. E que temos a obrigao de nos livrarmos da escravido do sexo.

Aps alguns instantes do habitual silncio aps uma opinio de Philip, Stuart virou-se para Pam e perguntou: - Eu queria muito saber o que voc acha do que falei.
Pensei em voc ao contar aquela histria. Acho que a coloquei numa situao difcil porque, de certa forma, no pode me perdoar sem perdoar Philip tambm.

- Tenho o mesmo respeito de sempre por voc, Stuart. E lembre que esse assunto me toca; fui usada por um mdico, meu ex-marido, que foi tambm meu ginecologista.

- Exatamente. Mas pode me perdoar sem perdoar tambm Philip e Earl? - insistiu Stuart.

- So assuntos diferentes, Stuart. Voc tem moral, tenho mais certeza ainda depois que ouvi seu arrependimento hoje. E o que aconteceu no hotel em Miami no me assusta.
Voc nunca leuMedo de voar?

Stuart negou, e Pam prosseguiu: - D uma olhada nesse livro. A autora, Erica Jong, diria que voc deu uma simples "trepada sem zper", foi uma transa natural para
as duas partes, voc foi gentil, ningum se magoou, voc se preocupou em ver se ela ficou bem. Mas depois usou o fato como um termmetro moral. E Philip? O que dizer
de um sujeito que tem como modelo Heidegger e Schopenhauer? De todos os filsofos que j existiram, eles foram os maiores e mais desprezveis fracassos como seres
humanos. Philip fez algo imperdovel, destruidor, sem remorso.

Bonnie interrompeu. - Calma, Pam, voc notou uma coisa? Quando Julius tentou interromper Philip, ele insistiu em mais uma frase, definindo o sexo como algo que tira
os escrpulos das pessoas e destri relacionamentos. Ser que no foi uma espcie de remorso? E no foi dito para voc?

 - Philip tem alguma coisa a dizer? Vamos deixar ele dizer e no Schopenhauer.
    195

- vou me intrometer no assunto - disse Rebecca. - Sa da ltima sesso com pena de voc e de todos ns, inclusive de Philip, que, vamos ser sinceros, foi sacaneado
aqui. Em casa, pensei na frase de Cristo sobre aquele que nunca pecou que atire a primeira pedra, que tem muito a ver com o que falei hoje.

- Vamos terminar a sesso, mas, Philip, era exatamente isso o que eu queria quando pedi para manifestar seus sentimentos - disse Julius.

Philip balanou a cabea, intrigado.

- Voc percebeu que hoje ganhou um presente de Rebecca e Stuart?

Philip continuou balanando a cabea - No entendi.

- Pois esse fica sendo o seu dever de casa, Philip: pensar nos presentes que recebeu hoje.
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*** 24

A primeira regra para no ser um brinquedo nas mos de qualquer velhaco, nem ridicularizado por qualquer imbecil,  manter-se reservado e distante.

24

Aps a sesso, Philip andou horas, passou pelo Palcio de Belas Artes, aquela colunata decadente erguida para a Exposio Internacional de 1915, contornou o lago
duas vezes, viu os cisnes vigiando o territrio deles, depois caminhou pela marina e o Chrissy Field, na baa de San Francisco, at chegar  ponte Golden Gate. O
que Julius pediu para ele? Lembrava da recomendao de pensar no presente que Stuart e Rebecca deram, mas, antes mesmo de conseguir se concentrar, j havia esquecido
qual era a tarefa. Afastou vrias vezes os pensamentos da cabea e tentou se fixar em imagens calmantes e arquetpicas: o rastro que os cisnes deixavam nas guas
do lago, as ondas do Pacfico dando piruetas embaixo da ponte Golden Gate. Mas continuava estranhamente distrado.

Passou pelo presdio, antiga base militar no alto da baa, e pela Clement Street, com seus vinte quarteires de restaurantes asiticos colados uns aos outros.
Escolheu um modesto restaurante vietnamita s de sopas, e quando trouxeram seu caldo de carne com macarro, ficou alguns minutos sentindo a fumaa de erva-cidreira
que vinha da sopa e olhando a montanha de macarro de arroz. Comeu poucas colheradas e pediu para embalarem o resto para o seu cachorro.
    197

Philip no dava muita importncia  comida e tinha padronizado seus hbitos alimentares: caf da manh com torrada, gelia e caf, almoo ao meio-dia na lanchonete
dos alunos da faculdade e uma pequena refeio barata  noite, sopa ou salada. Preferia fazer todas elas sozinho. Ficava satisfeito, s vezes chegava a sorrir, quando
lembrava do hbito de Schopenhauer: pagar mais um lugar na mesa do clube onde almoava, para garantir que ningum se sentaria com ele.

Foi para sua casa de um quarto, to pouco mobiliada quanto o escritrio, e que ficava nos fundos de um palacete em Pacific Heights, no muito distante do endereo
de Julius. A proprietria viva morava sozinha no casaro e alugava barato os cmodos para Philip. Ela precisava daquela renda extra e gostava de viver s, mas queria
algum perto que no incomodasse. Philip era a pessoa perfeita e os dois viviam h anos numa proximidade isolada.

Philip costumava se animar com a calorosa recepo de ganidos, latidos, rabo abanando e saltos acrobticos de Rugby, o cachorro, mas naquela noite, no. Tambm
no se acalmou com a caminhada com o cachorro no fim do dia, nem com qualquer outra ocupao de rotina. Acendeu o cachimbo, ouviu a Quarta Sinfonia de
Beethoven, leu distrado Schopenhauer e Epcteto. Deu ateno, por alguns instantes, a um trecho de Epcteto.

Se voc se interessa muito por filosofia, prepare-se para ser motivo do riso e escrnio de todos. Se persistir em seu interesse, saiba que essas mesmas pessoas depois
iro admirar voc. (...) E que, se por acaso der ateno a fatos externos, para agradar a quem quer que seja, fique certo de que arruinar seu estilo de vida.

Mas Philip continuou inquieto como no ficava h algum tempo, inquietude que, anos antes, fazia com que sasse como um animal no cio. Entrou na pequena cozinha,
tirou da mesa a loua do caf, ligou o computador e dedicou-se ao seu nico vcio: entrar no clube de xadrez da Internet e jogar cinco minutos no ataque, em silncio
e annimo, por trs horas. Em geral, vencia. Quando perdia, costumava ser por descuido, mas no se irritava por muito tempo, teclava logo em "acessar jogo" e seus
olhos brilhavam com alegria pueril ao iniciar outra partida.
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*** 25

Quando eu tinha trinta anos, estava cansado e aborrecido por ter de considerar iguais a mim pessoas que nada tinham a ver comigo. Como um gato que, quando pequeno,
brinca com bolinhas de papel porque acha que so vivas e parecem com ele, assim me sinto em relao aos bpedes.

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PORCOS-ESPINHOS,

GNIOS E O GUIA DO MISANTROPO

NAS RELAES HUMANAS

A fbula do porco-espinho  um dos textos mais conhecidos de Schopenhauer e mostra sua fria viso dos relacionamentos humanos.

Num dia frio de inverno, alguns porcos-espinhos se juntaram para se aquecerem com o calor de seus corpos. Mas logo viram que estavam se espetando e se afastaram.
Ficaram com frio de novo e se juntaram, ficando entre dois males at descobrirem a distncia adequada. Assim  na sociedade, onde o vazio e a monotonia fazem
com que os homens se aproximem, mas seus muitos defeitos, desagradveis e repelentes, fazem com que se afastem.

Em outras palavras, devemos tolerar a proximidade dos outros s quando necessria  sobrevivncia, evitando-a sempre que possvel. A maioria dos terapeutas hoje
no teria dvida em recomendar tratamento para essa postura to radical. A terapia trata relaes interpessoais complicadas,
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no s a fuga do convvio social, mas os desajustes em todas as suas gamas e nuances: o autismo, a fobia social, a personalidade esquizide e anti-social,
o narcisismo, a incapacidade de amar, de se valorizar, a autodepreciao.

Ser que Schopenhauer concordaria que seus sentimentos em relao aos outros eram desajustados? Dificilmente. Seu comportamento estava to entranhado, to profundamente
arraigado, que jamais o considerou uma deficincia. Pelo contrrio, julgava que sua averso s pessoas e seu isolamento eram uma qualidade. Note, por exemplo, a
moral de sua fbula do porco-espinho: "Quem tem muito calor interno prefere se manter afastado da sociedade para no dar nem receber problemas e aborrecimentos".

Schopenhauer acreditava que o homem de fora e valor no precisa dos outros; ele se basta. Essa teoria, ligada  certeza absoluta do prprio gnio, serviu de racionalizao
para que ele evitasse, a vida inteira, aproximar-se dos outros. Costumava dizer que o fato de pertencer  "mais alta classe do gnero humano" obrigava-o a no desperdiar
seus dons em nenhum relacionamento social, mas manter-se a servio da humanidade. Escreveu:
"Minha inteligncia no pertence a mim, mas ao mundo".

Muito do que escreveu sobre sua fantstica inteligncia  to exagerado que ele poderia ser considerado convencido, caso no fosse realmente brilhante. Quando decidiu
ser erudito, seus notveis dons intelectuais ficaram evidentes para todos os prximos: os tutores, por exemplo, que o prepararam para a universidade, ficaram perplexos
com seu desenvolvimento precoce.

O nico homem do sculo XIX a quem Schopenhauer se comparava intelectualmente era Goethe, que acabou respeitando a capacidade dele. Goethe havia ignorado o jovem
Arthur quando freqentava os sales literrios da me e se preparava para a universidade. Mais tarde, Johanna pediu ao poeta uma carta de recomendao para o filho
se matricular na universidade e Goethe manteve a reserva no bilhete que escreveu para um velho amigo, professor de grego: "O jovem Schopenhauer parece ter mudado
algumas vezes de estudos e interesses. Voc poder avaliar o quanto ele conseguiu em cada disciplina se, a despeito de sua amizade por mim, lhe conceder uma hora
de seu tempo."
    200

Anos depois, ao ler a dissertao de doutorado de Arthur, ento com 26 anos, Goethe ficou to impressionado que, quando o rapaz voltou a Weimar, mandou vrias
vezes seu criado busc-lo para longas discusses. Queria ouvir a opinio de algum sobre sua teoria das cores, trabalho que lhe custou muito esforo. Embora Schopenhauer
no conhecesse nada do tema, Goethe achava que valeria a pena discutir, por sua rara inteligncia. Recebeu mais do que pediu.

A princpio, Schopenhauer ficou muito honrado, gostou do elogio e escreveu para seu professor em Berlim: "Seu amigo, nosso grande Goethe,  bom, calmo e simptico:
que seu nome seja louvado para sempre". Semanas depois, porm, os dois discordaram. Arthur disse que Goethe fez observaes curiosas sobre a viso, mas errou em
vrios pontos importantes e no conseguiu criar uma teoria ampla da cor. Arthur interrompeu seus escritos e desenvolveu sua prpria teoria, divergindo de Goethe
em partes importantes, e publicou-a em
1816. A ousadia de Schopenhauer dilapidou a relao com Goethe, que comentou o fim da amizade em seu dirio: "Concordamos em vrios pontos, mas a separao era
inevitvel, como dois amigos que percorrem juntos um bom pedao e se despedem porque um vai para o norte e outro para o sul, e logo se perdem de vista".

Schopenhauer ficou magoado e irritado com o afastamento, mas lembrou que Goethe respeitava sua inteligncia e continuou a respeitar o nome e citar as obras dele
pelo resto da vida.

O filsofo tinha muito a dizer da diferena entre o homem de gnio e o de talento. Alm de comentar que o homem de talento atinge um alvo que os outros no conseguem,
enquanto o gnio atinge um alvo que os outros no conseguem ver, disse que o homem de talento  moldado conforme as necessidades da poca e capaz de atender tais
necessidades, mas a gerao seguinte de leitores j no conhece sua obra. (Estaria se referindo aos livros da me?) "O homem de gnio brilha no seu tempo como um
cometa entre os planetas. (...) no pode seguir lado a lado da cultura, mas bem  frente dela."

Assim, uma das afirmaes na fbula do porco-espinho  que o homem de verdadeiro valor, sobretudo o gnio, no precisa do calor dos outros. H uma afirmao mais
sombria: que nossos semelhantes so desagradveis, repulsivos e, portanto, devem ser evitados. Essa postura misantropa est em todos os escritos de Schopenhauer,
que so cheios de escrnio e ironia.
201

Vejamos o incio de seu criterioso ensaio Da doutrina da indestrutibilidade pela morte de nossa verdadeira natureza: "Numa discusso,
se um dos muitos que querem saber tudo, mas no aprendem nada, pergunta da continuao da vida aps a morte, a resposta mais adequada e, principalmente, mais correta
: 'Depois da morte, voc vai ser como era antes de nascer'".

O ensaio segue com uma fascinante e incisiva anlise da impossibilidade de dois tipos de nada e oferece concluses para todos que algum dia pensaram na morte.
Mas por que comear o ensaio com uma agresso gratuita, a "um dos muitos que querem saber tudo, mas no aprendem nada?". Por que manchar pensamentos sublimes
com crticas mesquinhas? Esse contraste dissonante existe em toda a obra de Schopenhauer. Que desapontamento encontrar um pensador to importante, mas to agressivo;
com tanta viso e, ao mesmo tempo, to cego.

Em seus escritos, Schopenhauer lamenta qualquer hora desperdiada no convvio ou em conversa com outros. Diz: " melhor no dizer nada do que ter um dilogo
estril e burro em conversas com os bpedes".

Lamenta tambm ter procurado a vida inteira "um verdadeiro ser humano, mas encontrado apenas miserveis canalhas, de inteligncia limitada, mau corao e esprito
mesquinho". (Exceto Goethe, a quem sempre poupou de tais ataques.)

Numa nota autobiogrfica, afirma: "Quase todo contato com os homens  uma contaminao, uma violao. Chegamos a um mundo habitado por uma classe de criaturas
lastimveis  qual no pertencemos. Devemos estimar e honrar os poucos que so melhores, nascemos para instruir o resto, no para nos associarmos a eles."

Ao ler seus escritos, podemos fazer um manifesto da misantropia com regras de conduta pelas quais deveramos nos pautar. Imagine como Schopenhauer, apoiando
esse manifesto, se sentiria num grupo de terapia hoje!

- No conte a um amigo o que seu inimigo no pode saber.

- Considere todos os assuntos pessoais como secretos, e mantenha-se distante at de amigos prximos. (...) Se os fatos mudarem, saber de algo, por mais inofensivo,
a seu respeito ser desvantagem para voc.
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Metade da sabedoria consiste em no gostar nem odiar. Ficar calado e no acreditar em nada  a outra metade. A segurana  me da desconfiana (provrbio francs,
que ele endossava).

Esquecer os defeitos de um homem  como jogar fora dinheiro que se custou a ganhar. Devemos nos proteger da familiaridade e da amizade idiotas.

A nica forma de um homem se manter superior aos demais  mostrar que no depende deles. Desconsiderar  ganhar considerao.

Se temos algum em alta considerao, devemos esconder tal fato como se fosse um crime.

Melhor deixar que os homens sejam como so do que acreditar no que no so.

Jamais devemos demonstrar raiva e dio a no ser nas aes. (...) os animais de sangue frio so os mais venenosos. Sendo simptico e gentil, pode-se fazer com
que as pessoas fiquem dceis e maleveis: a gentileza nos humanos tem o mesmo efeito do calor na cera.
    203

*** 26

Poucas coisas deixam as pessoas to satisfeitas quanto ouvir algum problema ou constatar alguma fraqueza em voc.

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Na sesso seguinte, Gill jogou-se na cadeira, testando com o corpanzil a capacidade de suportar seu peso. Esperou todos se acomodarem e comeou. - Se ningum
tem nada a dizer, quero continuar o exerccio de "revelar" segredos.

- Gostaria de dar um pequeno aviso - disse Julius. - Acho que isso no deve ser uma obrigao. As pessoas funcionam melhor no grupo quando no escondem nada, mas
 importante ter o prprio ritmo e no se sentir obrigado a fazer revelaes.

- Entendi, mas no estou me forando. Eu quero falar nisso e tambm no quero deixar Rebecca e Stuart sozinhos nessa histria, certo? - disse Gill.

Depois de conferir que todos concordaram, continuou: - Meu segredo remonta aos treze anos de idade. Eu era virgem, mal tinha chegado  puberdade, era cheio de cravos
e espinhas e tinha uma tia chamada Valerie, irm caula do meu pai, de vinte e tantos ou trinta e poucos anos, que s vezes se hospedava na nossa casa e estava sempre
mudando de empregos. A gente se dava muito bem, brincvamos muito quando meus pais saam de casa, lutvamos, fazamos ccegas, jogvamos baralho. Uma vez, eu a enganei
no pquer tira-roupa e a situao ficou bem ertica,
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no estvamos mais fazendo ccegas, era uma outra coisa. Eu no tinha experincia sexual, estava com os hormnios a toda e no entendi
a situao, mas quando ela disse para "enfiar", eu respondi "pois no, madame" e segui as instrues. Depois, passamos uns meses fazendo aquilo sempre que podamos,
at que um dia meus pais chegaram cedo e nos pegaram com a mo na massa, deitados, no ato, como se diz ... em flagrante?

Gill olhou para Philip que abriu a boca para responder, mas Pam falou antes: - "Flagrante delito."

- Puxa, que rpido, esqueci que temos aqui dois professores - murmurou Gill, e continuou: - Bem, foi um rolo na famlia. Meu pai no criou muito caso, mas minha
me ficou furiosa, tia Vai no se hospedou mais l em casa e mame ainda ficou brava com papai por continuar amigo da minha tia.

Gill parou, olhou em volta e acrescentou: - Entendo por que minha me ficou zangada, embora a culpa fosse tanto minha quanto da tia Vai.

- Culpa sua, com treze anos? Alto l! - disse Bonnie. Stuart, Tony e Rebecca concordaram.

Antes que Gill pudesse responder, Pam disse: - Gill, talvez eu no diga o que voc espera, mas estou para falar isso desde antes de viajar. Impossvel no ser agressiva,
por isso no vou tentar, vou em frente. O fato  que sua histria no me emociona em nada e, em geral, voc no me toca. Mesmo dizendo que vai fazer uma revelao
como Rebecca e Stuart fizeram, no d a sensao de algo pessoal.

- Sei que voc confia no grupo - continuou Pam. - Alm disso, trabalha muito,  muita responsabilidade cuidar dos outros e, quando algum sai dessa sala,  voc
quem costuma ir atrs. Parece estar fazendo uma revelao, mas  engano, continua escondido. Isso mesmo, voc se esconde o tempo todo. Sua histria com a tia mostra
bem o que quero dizer: parece pessoal, mas no .  um truque porque no  uma histria sua, mas da sua tia, e  claro que todo mundo vai se apressar em dizer: "Mas
voc era uma criana, tinha treze anos, foi vtima". O que podiam dizer? E suas histrias do casamento so sempre sobre Rose, nunca sobre voc. Causam sempre a mesma
reao em ns: "Por que voc agenta essa situao de merda?".
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- Na ndia, quando eu ficava com o saco na lua de tanto meditar, pensava muito no grupo. No imaginam como pensei em cada um de vocs. Menos em voc, Gill.
Lastimo dizer, mas no pensei em voc. Quando voc fala, nunca sei com quem est falando, talvez com as paredes, com o cho, mas nunca senti que falava
comigo.

Silncio. As pessoas pareciam no saber o que dizer. Tony ento assobiou e disse: - Bem-vinda de volta ao grupo, Pam.

- No vale a pena estar aqui, se no for sincera - disse Pam.

- O que est sentindo, Gill? - perguntou Julius.

- Ah, como se levasse um chute na barriga e cuspisse alguns pedaos de pancreas. Isso  pessoal, Pam? Espera a, no responde a sua pergunta. No quis ofender, sei
que voc est querendo ajudar e, no fundo, tem razo.

- Fale mais sobre isso Gill, sobre ela ter razo - pediu Julius.

- Ela tem razo. Eu podia dizer mais, podia dizer umas coisas para as pessoas aqui.

- Para quem, por exemplo? - perguntou Bonnie.

- Bem, para voc. Gosto muito de voc.

- Bom saber disso, Gill, mas continua meio impessoal.

- Gostei de voc me telefonar umas semanas atrs e no acho que voc seja to sem graa; no entre na Banda da Beleza de Rebecca. Sempre tive uma queda, vai ver
que desde a tia Vai, por mulheres mais velhas. E vou ser sincero, fiz umas boas fantasias quando voc me convidou para ficar na sua casa quando eu no queria
voltar para Rose.

- Por isso no aceitou o convite? - perguntou Tony.

- No, foi por outro motivo.

Quando ficou evidente que Gill no ia entrar em detalhes, Tony perguntou: - Pode falar sobre o outro motivo?

Gill parou um instante, a careca brilhando de suor, tomou coragem e disse:
 - Olha, vou falar no que sinto por cada um do grupo. - Comeou por Stuart, que estava
sentado ao lado de Bonnie. - Admiro muito voc, Stuart. Se eu tivesse filhos, gostaria que voc fosse o pediatra deles. E o que contou na semana passada no altera
nada do que sinto.

 - Quanto a voc, Rebecca, para ser sincero, voc me intimida, parece perfeita demais, bonita demais, arrumada demais. Aquela histria em Las Vegas
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que voc contou no muda nada, continua sendo a mesma mulher, com toneladas de segurana. Talvez por eu agora estar nervoso, no
lembro por que voc comeou a terapia. Stuart comparou voc a uma boneca de porcelana, est certo, talvez voc seja um pouco frgil demais, vai ver que tem umas
arestas, no sei.

- Voc, Pam,  firme, dura, a pessoa mais inteligente que j vi, at Philip entrar aqui, porque ele ainda  mais. No quero brigar com nenhum dos dois, mas Pam,
voc tem que resolver seu problema com os homens. Eles no foram legais com voc, mas, repito, voc tem raiva da gente, dos homens. De todos os homens. Difcil
separar o joio do trigo.

- Philip, voc est no alto como se estivesse num outro astral ou num outro mundo. Mas fico pensando se alguma vez teve um amigo, no consigo imaginar voc saindo
de casa, tomando uma cerveja, comentando um jogo do Giants. No consigo ver voc se divertindo ou gostando de algum. E vou dizer, duvido muito que no se sinta
s.

Gill continuou: - Tony, acho voc fascinante, trabalha com as mos, cria coisas realmente, no fica lidando com nmeros como eu. Gostaria que no tivesse
tanta vergonha do seu trabalho. Bem, falei de todos.

- No, no falou - disse Rebecca, olhando para Julius.

- Ah, faltou Julius? Ele  do grupo, mas no est no grupo.

- O que quer dizer do grupo? - perguntou Rebecca.

- Ah, no sei,  s uma frase bonitinha que ouvi e estava querendo usar. Julius est a para mim e para todos, bem acima de ns. O jeito como ele...

- Ele? - perguntou Julius, fingindo que procurava algum no grupo. - Onde est ele?

- Certo, eu queria dizer voc, Julius, o jeito como voc est lidando com a sua doena  incrvel, nunca vou esquecer.

Gill parou. A ateno de todos estava concentrada nele, que fez "Uuuufa" como se no agentasse mais. Encostou-se na cadeira, cansado, e passou um leno no rosto
e na cabea.

Rebecca, Stuart, Tony e Bonnie disseram coisas do gneromuito bem, voc assumiu o risco de se revelar. Pam e Philip ficaram calados.

- Ento, Gill? Gostou? - perguntou Julius.

Gill concordou. - Acho que dei mais um passo. Espero no ter ofendido ningum.
    207

- E voc, Pam? Gostou?

- Eu j usei meu tempo hoje como a puta do grupo.

- Gill, vou lhe pedir uma coisa - disse Julius. - Imagine uma escala de revelaes. Num extremo, que vamos chamar de um, fica a revelao incua, que se faz num
coquetel. No outro, que vamos chamar de dez, est a revelao maior, que voc imagina ser a mais arriscada, entendeu?

Gill concordou.

- Ento, considerando tudo o que voc disse agora, que nota se daria?

Ainda concordando, Gill respondeu rpido: - Quatro, talvez cinco.

Querendo evitar a racionalizao ou qualquer outra defesa do arsenal de resistncia de Gill, Julius perguntou: - Como voc aumentaria um ou dois pontos na escala?

- Para isso, eu contaria ao grupo que sou alcolatra e que bebo todas as noites at ficar inconsciente - respondeu Gill, sem hesitar.

O grupo ficou perplexo, inclusive Julius. Antes de entrar no grupo, Gill fez dois anos de terapia individual com Julius e jamais contou que tinha problema de
bebida. Como era possvel? Julius tinha total confiana em seus pacientes. Era uma dessas almas otimistas que se desequilibrava com a duplicidade, ficava indeciso,
precisava de tempo para formular uma nova idia sobre Gill. Enquanto considerava em silncio a prpria ingenuidade e a fragilidade do real, o grupo passou de incrdulo
para agitado.

- Voc est brincando!

- No acredito. Como conseguiu vir aqui toda semana e no dizer isso?

- Voc nunca tomou nem uma cerveja comigo, como pode?

- Porra! Fico pensando em todas as pistas erradas que voc nos deu, pensando no tempo que perdemos aqui.

- O que voc pretende? Era tudo mentira, quer dizer, aquela histria dos problemas de Rose, a sacanagem dela em no querer transar com voc, no querer ter filho
e voc no falava no verdadeiro problema, a bebida.

Depois que Julius se recomps, viu o que devia fazer. Um princpio bsico que ele ensinava aos alunos de terapia de grupo era:
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"Ningum jamais deve ser censurado por se revelar. Pelo contrrio, o risco assumido pela pessoa deve ser sempre apoiado e reforado".

Pensando nisso, disse ao grupo: - Entendo a frustrao de vocs por Gill nunca ter nos contado isso. Mas vamos lembrar uma coisa importante: hoje Gill fez essa revelao,
confiou em ns. - Enquanto Julius falava, olhava de esguelha para Philip, desejando que aprendesse alguma coisa sobre terapia com aquela situao. Depois, perguntou
a Gill: - Eu estava aqui pensando: por que voc s conseguiu falar hoje?

Gill, muito constrangido para olhar algum, concentrou-se em Julius e respondeu apenas: - Acho que foi por causa das duas ltimas sesses, pelas revelaes de Pam
e Philip, depois Rebecca e Stuart, tenho certeza que foi por isso que eu...

- H quanto tempo voc  alcolatra? - interrompeu Rebecca.

- A bebida pega, sem que voc perceba. Ento no sei h quanto tempo. Sempre gostei de beber, mas acho que perdi o controle h uns cinco anos.

- Que tipo de alcolatra voc ? - perguntou Tony.

- Meus venenos preferidos so usque, vinho e vodca com licor de caf. Mas aceito tambm vodca, gim. Topo tudo.

- Perguntei quando e quanto voc bebe - disse Tony.

Gill no ficou na defensiva e parecia preparado para responder a qualquer coisa: - Bebo mais no fim da noite, comeo com usque quando chego em casa, ou antes
de ir para casa, se Rose estiver me patrulhando na bebida. Depois, passo para um bom vinho pelo resto da noite, pelo menos uma garrafa, s vezes duas, at desmaiar
na frente da tev.

- E o que Rose faz? - perguntou Pam.

- Bom, costumvamos beber timos vinhos, tnhamos uma adega com duas mil garrafas, freqentvamos leiles. Mas hoje ela no me anima a beber (raramente toma
uma taa no jantar e no entra em nada ligado  bebida, exceto as grandes degustaes de vinho que participa).

Julius tentou de novo ir contra a corrente e trazer o grupo de volta ao aqui e agora. - Tento imaginar como voc deve ter se sentido ao vir aqui toda semana e no
falar nisso.

 - No foi fcil - admitiu Gill, balanando a cabea.
    209

Julius sempre ensinou seus alunos na faculdade a diferena entre revelao vertical e horizontal. Como era de esperar, o grupo ali estava pressionando pela revelao
vertical (detalhes do passado, inclusive o tipo de bebida que tomava e h quanto tempo), enquanto a revelao horizontal, ou seja, a revelao sobre a revelao,
era sempre muito mais produtiva.

Aquela sesso estava tima para ilustrar as aulas, pensou Julius, e tentou guardar a seqncia dela para citar em futuras palestras e artigos. Ento, num baque,
lembrou que ele no tinha futuro. Embora a venenosa mancha negra tivesse sido extirpada do ombro, ele sabia que em algum lugar do corpo continuavam a existir colnias
mortais do melanoma, com clulas vorazes que precisavam de mais vida que as fatigadas clulas dele. Estavam l, pulsando, engolindo oxignio e nutrientes, crescendo
e ganhando fora. E seus pensamentos sombrios tambm estavam l, se infiltrando sob a camada da conscincia. Felizmente, ele tinha um mtodo de acalmar o pavor:
entrar na vida com o maior mpeto que pudesse. A vida intensamente vivida naquele grupo era um timo remdio para ele. Pressionou Gill:

- Fale mais sobre o que passou por sua cabea em todos esses meses de sesso.

- Como assim? - perguntou Gill.

- Bem, voc disse que no foi fcil. Fale mais sobre as sesses e por que no foi fcil.

- Eu vinha para c bbado, mas no conseguia desabafar; alguma coisa sempre me impedia.

- Procure pensar no que impedia. - Raramente Julius intervinha tanto no grupo, mas estava convencido de que saberia encaminhar a discusso para um rumo mais proveitoso,
que o grupo no saberia tomar sozinho.

- Gosto do grupo - disse Gill. - So as pessoas mais importantes da minha vida. Nunca fiz parte de nenhum tipo de grupo antes. Tinha medo de perder o lugar, perder
a credibilidade, exatamente como est acontecendo agora. As pessoas detestam os bbados, o grupo agora vai querer me expulsar, vo dizer para eu procurar os Alcolicos
Annimos. Vo me julgar e no me ajudar.

Era exatamente essa deixa que Julius estava esperando. Agiu rpido.
    210

- Gill, olhe em volta e me diga: quem so os juizes aqui?

- Todo mundo.

- Todos? Duvido. Tente diferenar. Olhe o grupo: quem so os principais juizes?

Gill ficou olhando para Julius.  - Bom, Tony pode cair em cima de mim com vontade, mas no nessa rea, pois ele tambm gosta de beber.  isso que voc quer
que eu faa?

Julius concordou, incentivando-o a prosseguir.

- Bonnie? - Gill continuou falando diretamente para Julius.

- No, s  juza dela mesma e, de vez em quando, de Rebecca. Ela  sempre simptica comigo. Stuart, bem,  um dos juizes; ele tende a achar que est com razo
e s vezes  careta. Rebecca, sem dvida, me d muitas ordens: faa como eu, seja seguro, seja firme, vista-se direito, se lave, se arrume. Por isso, quando Rebecca
e Stuart se mostraram to vulnerveis nos depoimentos, me senti liberado, consegui me abrir. Quanto a Pam,  a juza. "Juza do supremo tribunal", sem dvida. Sei
que me acha fraco, ruim para Rose e tudo o mais que voc quiser; comigo est tudo errado. No tenho muita esperana de agrad-la, alis, no tenho a menor esperana.
- Ele parou e disse, olhando o grupo: - Acho que  s. Ah, sim, tem o Philip

- falou direto para ele, ao contrrio do que fez com os outros. - Bem, acho que voc no me julga, mas isso no chega a ser um elogio.  que no se envolveria
comigo ou se aproximaria de mim a ponto de me julgar.

Julius estava satisfeito. Tinha desativado em Gill o lamento de traio e o sofrimento pelo castigo. Era questo de tempo: mais cedo ou mais tarde, os detalhes do
alcoolismo seriam comentados, mas no naquele momento, nem daquela maneira.

Alm disso, o fato de enfocar a revelao horizontal tinha rendido um bnus: os dez minutos de falao de Gill trouxeram uma fartura de informaes que renderia
algumas sesses.

Dirigindo-se ao grupo, Julius perguntou: - Alguma reao?

As pessoas ficaram indecisas, o que Julius imaginou no ser por falta, mas por excesso do que dizer. A agenda do grupo vergava com o prprio peso: devia ter
comentrios sobre a confisso de Gill, o alcoolismo e a sbita dureza dele no final. Julius esperou, ansioso. Boas novas  vista.
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Notou que Philip olhava para ele e, por um segundo, os olhares se cruzaram, o que no era comum. Talvez, pensou Julius, Philip demonstrasse aprovao pela delicadeza
com que dirigiu a sesso. Ou avaliasse a reao de Gill. Resolveu perguntar e fez sinal para Philip. Nenhuma resposta. Disse, ento:
 - Philip, o que sente em relao ao que houve at agora na sesso?

- Estava pensando se voc vai participar.

- Participar? Eu estava refletindo se no estou ativo demais, dirigindo demais. - Julius ficou pasmo.

- Eu quis dizer participar na revelao de segredos - disse Philip.

Ser que algum dia, pensou Julius, Philip vai dizer algo vagamente previsvel? - Philip, no fujo da sua pergunta, mas h coisas mais prementes a tratar. - Virou-se
para Gill: - Estou preocupado em saber como voc est agora.

- Estou mal, pesado. Quero saber se voc vai me deixar ficar no grupo sendo alcolatra - disse Gill, com a testa brilhando de suor.

- Agora  que voc mais precisa de ns. Mas me pergunto se trazer o fato para c hoje indica que quer fazer alguma coisa. Talvez queira entrar num programa de recuperao.

- . Depois dessa sesso, no posso continuar fazendo a mesma coisa. Acho que vou ligar para voc e marcar uma sesso individual, pode ser?

- Claro, quantas voc precisar. - Julius tinha por orientao atender o pedido de sesses individuais com a condio de o grupo saber depois do que foi tratado.

Voltou-se para Philip. - com relao  sua pergunta. Existe um velho truque de terapia que d uma sada para perguntas embaraosas fazendo outra pergunta: "Estou
aqui pensando: por que voc perguntou isso?". Bem, pergunto, mas no vou fugir da sua pergunta. E fao uma proposta: antes de responder, quero que examine os
motivos da pergunta. Combinado?

Philip ficou indeciso, depois respondeu. - Muito bem. O motivo  simples. Quero entender a sua forma de orientao e, se possvel, assimilar alguma coisa que possa
melhorar meu trabalho como orientador. Trabalho de forma muito diferente da sua. No ofereo um relacionamento emocional, no estou no consultrio para amar o meu
cliente.
    212

Sou um guia intelectual. Ofereo ferramentas para pensar de forma mais clara e viver conforme a razo. Agora, talvez com atraso, comeo a entender
o que voc quer, um encontro no estilo do eu-tu de Buber.

- Buber? Quem ? - perguntou Tony. - Detesto parecer idiota, mas vou quebrar a cara se ficar sentado aqui sem saber o que est acontecendo.

- Certo, Tony - disse Rebecca. - Toda vez que voc pergunta uma coisa,  por mim tambm. No sei quem  Buber.

Outros concordaram. Stuart disse - J ouvi esse nome, tem algo a ver com eu-tu, mas s.

Pam se adiantou: - Buber  um filsofo judeu alemo que morreu h uns cinqenta anos, cuja obra trata do verdadeiro encontro entre dois seres, o relacionamento
eu-tu,
total e afetuoso, em oposio ao encontro eu-sso, que no valoriza o outro, usa-o mais do que interage com ele. Pensei bastante nisso aqui (o que Philip fez
comigo anos atrs foi me usar como isso).

- Obrigado, Pam, entendi - disse Tony, e virando-se para Philip: - Pronto, estamos todos na mesma pgina?

Philip olhou intrigado para Tony.

- No sabe o que a minha pergunta quer dizer? vou lhe arrumar um dicionrio de conversa do sculo XX. Voc nunca assiste tev?

- No tenho televiso - disse Philip, com voz calma e no-defensiva. - Mas se quer saber se concordo com o que Pam disse sobre Buber, sim, concordo, eu no
conseguiria definir to bem.

Julius estava encantado: Philip pronunciou o nome de Tony e de Pam? Elogiou Pam? Seriam fatos evanescentes ou marcariam uma mudana importante? Como ele gostava
de estar vivo, pensou Julius, vivo naquele grupo.

- Ainda est na sua vez, Philip. Eu interrompi o que voc estava dizendo - disse Tony.

Philip continuou: - Pois eu estava dizendo a Julius, quer dizer, estava dizendo a voc - virou-se para Julius e perguntou: - Certo?

- Certo, Philip, acho que voc vai aprender rpido - disse Julius.

Philip falou usando o tom medido de um matemtico: - Primeira proposio: voc deseja ter um encontro eu-tu com cada cliente.
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Segunda proposio: eu-tu consiste numa relao completa e recproca e, por definio, no pode ser unilateral.
Terceira: nas ltimas sesses aqui, as pessoas
revelaram muita coisa sobre elas mesmas. Minha pergunta bastante pertinente : voc no deve retribuir?

Aps um instante de silncio, Philip acrescentou: - Essa  a dvida. Eu queria apenas ver como um orientador de grupo como voc lida com o pedido de um paciente
para que haja igualdade.

- Portanto,  um teste para conferir minha coerncia?

- Sim, no um teste para voc, mas para o seu mtodo.

- Certo. Agradeo a explicao de que quer saber para compreender. Agora s mais uma pergunta e respondo: por que quis saber isso agora? Por que essa exata pergunta
nessa exata hora?

- Foi a primeira oportunidade que tive. O primeiro breve intervalo.

- No creio. Acho que h mais motivos. Repito: por que agora? - perguntou Julius.

Philip balanou a cabea, confuso. - Pode no ser o que voc perguntou, mas pensei numa observao de Schopenhauer de que poucas coisas deixam as pessoas to satisfeitas
quanto ouvir a desgraa alheia. Schopenhauer cita um poema de Lucrcio (poeta romano do sculo I a.C., informou Philip para Tony) em que algum se diverte na praia
olhando pessoas lutando numa tempestade do mar. " uma alegria para ns ver males que no nos atingem", diz ele. Essa no  uma das grandes foras que atuam num
grupo de terapia?

- Interessante, Philip, mas totalmente fora do tema. Vamos focar na pergunta: por que agora?

Philip ainda parecia confuso.

- Vou ajudar, Philip. Insisto, pois isso vai ilustrar bem as diferenas no nosso estilo de trabalhar. Suponho que a resposta para o por que agora esteja muito
ligada  nossa relao pessoal. vou dar um exemplo: pode resumir o que sentiu nas duas ltimas sesses?

Silncio. Philip parecia perplexo.

Tony disse: - Para mim,  bem bvio, professor.

Philip olhou para Tony levantando as sobrancelhas: - bvio?

- Bem, se voc quer mastigado, eis: voc entra nesse grupo e faz uma srie de sonoras declaraes. Tira algumas coisas da sua sacola de filosofia e todos ns aprovamos.
Algumas pessoas acham voc muito inteligente,
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como Rebecca e Bonnie, por exemplo. Eu tambm. Voc tem todas as respostas. Voc tambm  orientador e parece que est competindo com Julius. Estamos
na mesma pgina?

Tony fez uma cara interrogativa para Philip, que balanou a cabea de leve, concordando e indicando para continuar.

- E a volta a nossa Pam e o que ela faz? Desmascara voc! Mostra que voc tem um passado bem complicado. Complicado  bea. Afinal de contas, voc no  o Sr. Barra
Limpa. Na verdade, voc fodeu com a Pam. E caiu do pedestal. Voc tem que estar irritado com isso. Ento, o que faz? Vem aqui hoje e diz para Julius: qual
 o seu segredo? Voc quer derrub-lo do pedestal dele, ficar no mesmo nvel seu. Mesma pgina?

Philip concordou de leve.

-  assim que vejo a situao. Porra, podia ser diferente? Philip olhou bem para Tony e respondeu. - Suas observaes
so boas. - Virou-se para Julius: - Talvez eu deva me desculpar com voc; Schopenhauer sempre preveniu para no deixarmos que nossa experincia subjetiva influencie
nossa observao objetiva.

- E que tal pedir desculpas a Pam? - perguntou Bonnie.

- , acho que para ela tambm - disse, olhando rpido para Pam, que desviou o olhar.

Quando ficou claro que Pam no tinha a inteno de responder, Julius disse: - vou deixar Pam falar na hora que ela quiser, Philip, mas quanto a mim, no  preciso
se desculpar. O motivo para voc estar aqui  exatamente entender o que diz e por que diz. Quanto s observaes de Tony, acho que atingiram o alvo.

- Philip, quero perguntar uma coisa - disse Bonnie. -  uma pergunta que Julius me fez muitas vezes: como se sentiu ao sair das duas ltimas sesses?

- No estava bem. Fiquei confuso, at agitado.

- Foi o que imaginei. Percebi. Pensou alguma coisa sobre o comentrio final de Julius na semana passada, de ter ganho um presente de Stuart e Rebecca?

- No pensei. Tentei, mas fiquei tenso. s vezes, acho que a discusso e o barulho daqui so destrutivos e me afastam do que eu realmente valorizo. Todo esse enfoque
no passado e nos nossos desejos de mudana no futuro s nos faz esquecer o detalhe fundamental
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de que a vida  apenas o presente, que est sempre sumindo. De que adianta toda essa agitao, sabendo como tudo vai terminar?

- Entendo o que Tony disse de voc nunca se divertir.  bem desanimador - disse Bonnie.

- Eu chamo isso de ser realista.

 - Bom, volte ao pedao sobre a vida ser apenas o presente - insistiu Bonnie. - Pergunto apenas sobre o tempo presente e sua resposta no presente por ter recebido
um presente. Tambm tenho uma pergunta sobre nossas reunies aps as sesses. Voc foi embora rpido nas duas ltimas. Achou que no tinha sido convidado? No, vou
dizer de outra forma: o que acha agora de um caf depois dessa sesso?

- No, no estou acostumado com muita conversa, preciso me recuperar. No final dessa sesso, no quero fazer mais nada.

Julius olhou o relgio. - Temos de interromper, passamos da hora. Philip, no vou esquecer nossa combinao. Voc cumpriu a sua parte, vou cumprir a minha
na prxima sesso.
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*** 27

Deveramos limitar nossos desejos, controlar nossas vontades e dominar nossa raiva, sabendo que s conseguimos o mnimo do que vale a pena ter.

27

Depois da sesso, o grupo passou uma meia hora na lanchonete de sempre, na Union Street. Como Philip no estava, no se falou nele. Nem continuaram a discutir os
temas abordados naquela tarde. Mas ouviram com interesse o animado relato de Pam sobre sua viagem  ndia. Bonnie e Rebecca ficaram curiosas em relao a Vijay,
o maravilhoso e misterioso passageiro com cheiro de canela, e recomendaram que Pam respondesse as mensagens que ele enviava sempre pelo correio eletrnico. Gill
estava otimista, agradeceu o apoio de todos e disse que ia marcar consulta com Julius, encarar a abstinncia a srio e entrar para os Alcolicos Annimos. Agradeceu
a Pam pelo que disse sobre ele.

- V em frente, Pam, a durona no amor - disse Tony.

Depois da lanchonete, Pam voltou para seu condomnio, que ficava nas colinas de Berkeley, logo aps a Universidade. Ela costumava se cumprimentar pelo bom senso
de manter o apartamento mesmo depois de se casar com Earl. Talvez, inconscientemente, soubesse que podia precisar dele outra vez. Ela adorava o piso claro dos
aposentos, os tapetes tibetanos espalhados por todo canto e a luz clida entrando na sala no final da tarde. Sentou-se na varanda, bebendo
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uma taa de espumante e assistindo ao sol mergulhar no horizonte de San Francisco.

Pensou no grupo. Pensou em Tony e seu hbito de puxar a orelha das pessoas e, com preciso cirrgica, mostrar a Philip como ele no tinha noo das coisas que
fazia. Aquilo foi muito bom. Gostaria de ter gravado em vdeo aquela seqncia. Tony era uma pedra bruta que, aos poucos, ia mostrando seu brilho. E o comentrio
sobre ela ser durona no amor? Ser que ele ou algum percebeu como a palavradurona pesava mais do que amor na resposta dela para Gill? Descarregar a raiva em Gill
foi timo, s no foi perfeito por ter sido til a ele. Ele a chamou de "juza do supremo". bom, pelo menos ele teve a coragem de falar, mas depois tentou desdizer
cumprimentando-a, pegajoso.

Lembrou da primeira vez que viu Gill e como ficou fisicamente atrada por ele, com aqueles msculos saltando da camiseta e da jaqueta. E como logo se desapontou
com os covardes esforos para agradar a todos e as infinitas reclamaes sobre Rose (a frgida, enrgica Rose, que pesava apenas cinqenta quilos), que, agora
sabia-se, teve o bom senso de no engravidar de um alcolatra.

Em poucas sesses no grupo, Gill logo assumiu seu lugar na longa fila de perdedores que Pam conhecia, a comear pelo pai, que desperdiou o diploma de Direito porque
no agentava a vida competitiva que um advogado precisava ter, preferiu um cargo seguro, ensinando secretrias a escrever cartas comerciais, e depois no teve foras
para resistir  pneumonia que o matou antes de conseguir a aposentadoria. O prximo na fila era Aaron, o namorado bobo da adolescncia, de cara cheia de espinhas,
que deixou Swarthmore para morar na casa dos pais e freqentar a Universidade de Maryland, a mais prxima. Logo depois, vinha Vladimir, que queria casar com
ela apesar de jamais ter sido contratado. Ele seria sempre professor-substituto de redao. E Earl, seu futuro ex-mando, falso desde os cabelos pintados com
tinta de frmula grega at o tambm falso conhecimento de autores clssicos, e cujas pacientes eram uma chance de conquistas fceis (inclusive ela mesma). Mais John,
o amante covarde demais para ficar com ela e largar um casamento que j tinha acabado. E o ltimo na fila, seria Vijay? Bonnie e Rebecca podiam ficar com
ele! No conseguia se entusiasmar muito por um sujeito que precisava de
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um dia inteiro de meditao para se recuperar do estresse de pedir o caf da manh.

Pensar em todos aqueles homens foi mero acaso. A pessoa que atraa mesmo a ateno dela era Philip, aquele arrogante clone de Schopenhauer, o pateta sentado l no
grupo falando absurdos, fingindo ser uma pessoa humana.

Aps jantar, Pam foi at a estante e olhou onde ficavam os livros de Schopenhauer. Durante algum tempo, ela foi especialista em filosofia e pensou em ter como tema
de dissertao a influncia de Schopenhauer na obra de Becket e Gide. Tinha adorado o texto dele, era o filsofo de mais estilo, depois de Nietzsche. E admirava
a inteligncia dele, a amplido de seus temas e a coragem de opor-se a qualquer crena sobrenatural. Mas, quanto mais soube sobre a pessoa dele, mais o rejeitou.
Pegou um velho exemplar de ensaios completos e leu alto trechos marcados no texto intitulado "Nossa relao com os outros":

- A nica forma de ser superior ao lidar com os homens  mostrar que no depende deles.

- Desconsiderar  ganhar considerao.

- Se voc for educado e simptico, as pessoas ficam dceis e obedientes. Assim, a polidez faz com a natureza humana o mesmo que o calor faz com a cera.

Foi nesse momento que ela percebeu por que detestava Schopenhauer. E o que dizer de Philip ser orientador? E tendo Schopenhauer por modelo? E Julius ensinando a
Philip? No dava para acreditar em tudo aquilo.

Releu o ltimo aforismo: "A polidez faz com a natureza humana o mesmo que o calor faz com a cera". Ah, ento Philip acha que pode me usar como cera, anular
o que me fez apenas fazendo um cumprimento gratuito por meu comentrio sobre Buber ou cedendo a vez para eu passar por uma porta. Ora, foda-se!

Mais tarde, tentou se acalmar mergulhando na banheira e ouvindo uma fita de Goenka que costumava fazer efeito com seu canto de ritmo hipntico, interrupes
e comeos repentinos, mudanas de cadncia e timbre. Tentou at alguns minutos de meditao Vipassana, mas no conseguiu a mesma calma. Saiu da banheira e se olhou
no espelho.
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Encolheu a barriga, empinou o ombro, examinou-se de perfil, abaixou os plos pbicos, cruzou as pernas com pose. Estava tima para trinta e trs
anos.

Lembrou cenas de Philip quinze anos antes. Sentado  mesa, entregando, casual, o horrio dos cursos para os alunos que entravam na sala e dando um grande sorriso
para ela. Na poca, ele era um homem interessante, bonito, inteligente, em outras palavras, imune a disperses. Que diabo tinha acontecido com aquele homem?
E com aquele jeito de fazer sexo, aquele teso, fazendo o que queria, arrancando minhas calcinhas, me sufocando com aquele corpo. Fala srio, Pam, voc adorou.
Um intelectual com vasto conhecimento da histria do pensamento ocidental, alm de timo professor, talvez o melhor que ela teve. Da ter pensado em se especializar
em filosofia. Mas ele jamais saberia disso.

Quando parou de pensar em tudo aquilo e em coisas desagradveis, passou para uma realidade mais dura e mais triste: o fato de Julius estar morrendo. Aquele era um
homem para se amar. Estava morrendo, mas trabalhava como sempre. Como ele consegue? Como se mantm ligado? Como continua cuidando das pessoas? E Philip, aquele puto,
desafiando Julius a fazer revelaes. E a pacincia de Julius com ele, o esforo de ensinar Philip. Ser que Julius no percebe que o outro  um jarro vazio?

Fantasiou cuidar de Julius quando ele estivesse mais fraco, levar comida para ele, lavar o corpo dele com uma toalha morna, passar talco, mudar a roupa de cama,
entrar de mansinho na cama dele e abra-lo durante a noite. Tinha uma coisa surreal no grupo agora, todos aqueles pequenos dramas tendo ao fundo o horizonte negro
da morte de Julius. Que injusto que fosse ele a morrer. Sentiu muita raiva, mas para quem direcion-la?

Desligou a lmpada de leitura da cama, esperou que o comprimido para dormir fizesse efeito e lembrou da nica vantagem que tinha aquele novo tumulto em sua vida.
A mania de pensar em John, que sumiu durante a meditao e voltou assim que ela chegou da ndia, agora tinha sumido de novo, talvez para sempre.
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*** 28

No h rosa sem espinhos. Mas h muitos espinhos
sem rosa.

28

O PESSIMISMO COMO ESTILO DE VIDA

A maior obra de Schopenhauer, O mundo como vontade e representao, que escreveu aos vinte e poucos anos, foi publicado em 1818 e teve um volume complementar em
1844.  um livro de incrvel amplitude e profundidade, com observaes argutas sobre lgica, tica, epistemologia, critrio, cincia, matemtica, beleza, arte,
poesia, msica, necessidade do sobrenatural, relacionamento do homem com os outros e consigo mesmo. A condio humana  apresentada em todos os seus aspectos
mais sombrios: a morte, a solido, a falta de sentido da vida e o sofrimento inerente a ela. Muitos eruditos afirmam que a obra de Schopenhauer tem mais boas idias
do que a de qualquer outro filsofo, exceto Plato.

Schopenhauer mostrou desejo e esperana de ser sempre lembrado por essa grande obra. No fim da vida, publicou seu outro trabalho importante, dois volumes de ensaios
filosficos e aforismos, intituladosParerga eparalipomena, palavras gregas que significam sobras e obras complementares.
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Os escritos de Schopenhauer tm muita ligao com a psicanlise, embora ela ainda no existisse na poca. Sua maior obra comea com uma crtica e um adendo
a Kant, que havia revolucionado a filosofia com a concluso de que ns fazemos parte, em vez de percebermos a realidade. Kant afirmou que todos os nossos sentidos
so filtrados pelo sistema nervoso, que nos fornece um retrato do que chamamos realidade. Na verdade, essa realidade no passa de uma quimera, uma fico que surge
dos conceitos e catalogaes feitos pela mente. Conceitos so tambm a causa e o efeito, seqncia, quantidade, espao e tempo; so construes e no entidades,
isto , coisas ou fatos que possam existir l, na natureza.

Alm disso, no podemos ver uma verso do que est l, no temos como saber o que est realmente l, ou seja, o que existe antes do nosso processo perceptivo e conceitual.
Essa primeira entidade, que em alemo Kant chama de ding an sich (a coisa em si), est e precisa estar para sempre desconhecida por ns.

Embora Schopenhauer concorde que no podemos conhecer a coisa em si, acredita que podemos chegar mais perto dela do que acha Kant.  que Kant menosprezou uma grande
fonte de informao do mundo perceptvel (o mundo fenomenal): nosso prprio corpo! O corpo  um objeto material. Existe no tempo e no espao. E ns temos um enorme
e rico conhecimento do corpo que no vem atravs da percepo e da conceituao, mas de dentro, dos sentimentos.

Adquirimos um conhecimento atravs do corpo que no podemos conceituar e comunicar porque a maior parte de nossa vida interior  desconhecida para ns. A vida interior
 reprimida e no pode ser conscientizada porque conhecer nossa natureza mais profunda (nossa crueldade, medo, inveja, desejo sexual, agressividade, egosmo) seria
um peso maior do que poderamos agentar.

O tema parece conhecido? Lembra aquela velha teoria freudiana do inconsciente, do processo primitivo, do id, represso, auto-iluso? No  essa a base da psicanlise?
Lembre-se de que o principal livro de Schopenhauer foi publicado quarenta anos antes do nascimento de Freud. Em meados do sculo XIX, quando Freud (e Nietzsche)
ainda estavam no primrio, Schopenhauer era o filsofo alemo mais lido.

Como compreendemos essas foras inconscientes? Como fazemos com que elas se comuniquem entre si? Embora no possam ser conceituadas,
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podem ser sentidas e, segundo Schopenhauer, propagadas diretamente, sem palavras, atravs das artes. Por isso ele deu mais ateno s artes (principalmente
 msica) do que qualquer outro filsofo.

E o sexo? Ele no tinha dvidas da importncia do sexo no comportamento. Nesse ponto, tambm, Schopenhauer foi um ousado pioneiro, pois nenhum filsofo antes
teve a idia (ou a coragem) de escrever sobre a importncia fundamental do sexo para nossa vida interior.

E a religio? Schopenhauer foi o primeiro grande filsofo a construir seu pensamento com base no atesmo. Ele negava o sobrenatural com clareza e veemncia,
afirmando que vivemos apenas no tempo e no espao e que todo o imaterial  falso e intil. Filsofos como Hobbes, Hume e at Kant demonstraram tendncias agnsticas,
mas no ousaram afirmar sua descrena. No mnimo, porque viviam do salrio das empresas pblicas e universidades aonde trabalhavam e, portanto, eram proibidos de
expressar qualquer sentimento anti-religioso. Schopenhauer jamais foi nem precisou ser empregado de nada nem de ningum, tendo assim liberdade para escrever o que
quisesse. Exatamente pelo mesmo motivo, um sculo e meio depois, Spinoza recusou convites para assumir altos cargos em universidades, continuando a trabalhar como
polidor de lentes.

Qual a concluso de Schopenhauer sobre o conhecimento do corpo? Foi que ns e toda a natureza temos uma fora primal incansvel, insacivel que ele chamou de vontade.
Escreveu: "Para todo lugar que olhamos, vemos um esforo que representa o cerne de tudo. E em que consiste o sofrimento?  a luta para vencer o obstculo que fica
entre a vontade e a meta. O que  felicidade?  atingir a meta."

Ns queremos, queremos e queremos. Para cada desejo consciente h dez aguardando no inconsciente. A vontade no cessa de nos dirigir, pois assim que um desejo 
alcanado, h outro e mais outro pela vida afora.

s vezes, Schopenhauer lembra os mitos gregos de Ixio na roda, ou o de Tntalo, para explicar o dilema da existncia humana. Ixio foi o rei que traiu Jpiter,
sendo por isso condenado a ficar preso para sempre numa roda de fogo que girava no ar. Tntalo ousou desafiar Jpiter e, por seu orgulho, foi obrigado a sofrer tentaes,
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mas jamais se satisfazer. Schopenhauer acreditava que a vida  uma roda de carncia seguida de saciedade. Ficamos satisfeitos quando saciados? Por pouco tempo. Quase
em seguida somos invadidos pelo tdio e obrigados a agir para escapar do horror do tdio.

        Trabalho, preocupao, cansao, problemas  o que enfrentamos quase a vida inteira. Mas se todos os desejos fossem satisfeitos de imediato, com o que
as pessoas se ocupariam e como passariam o tempo? Suponhamos que a raa humana fosse transferida para Utopia, lugar onde tudo cresce sem precisar ser plantado e
os pombos voam assados ao ponto, onde todo homem encontra sua amada na hora e no tem dificuldade em continuar com ela: as pessoas ento morreriam de tdio,
se enforcariam, se estrangulariam ou se matariam e assim sofreriam mais do que j sofrem por natureza.

Por que o tdio  ruim? Por que lutamos para afast-lo? Porque  um estado do qual no conseguimos nos livrar e que vem logo mostrar verdades subjacentes e desagradveis
sobre a vida: a nossa insignificncia, a falta de sentido da vida, nossa inexorvel caminhada rumo  velhice e  morte.

Portanto, o que  a vida seno um ciclo infinito de querer, satisfazer, entediar-se e depois querer de novo? Essa seqncia vale para todas as formas de vida? 
pior para os humanos, diz Schopenhauer, pois  medida que a inteligncia aumenta, cresce tambm a intensidade do sofrimento.

Existe algum feliz?  possvel ser feliz algum dia? Schopenhauer acredita que no.

Em primeiro lugar, o homem nunca  feliz, porm passa a vida lutando por algo, pensando que vai faz-lo feliz, no consegue, e, quando consegue, se desaponta: 
um nufrago e chega ao porto sem mastros nem cordames. Portanto, no se trata de ser feliz ou infeliz, pois a vida no  seno o momento presente, que est sempre
sumindo e, finalmente, se acaba.

A vida, que consiste numa descida trgica e inevitvel, no s  brutal, mas inteiramente excntrica.
    224

        Somos como cordeiros brincando no campo, enquanto o aougueiro nos olha e escolhe um, depois outro, pois quando jovens no sabemos que desgraa nos reserva
o destino. Doena, perseguio, empobrecimento, mutilao, perda da viso, loucura e morte.

Ser que as concluses pessimistas de Schopenhauer sobre a condio humana so to insuportveis que ele acabou mergulhando na depresso? Ou foi o contrrio: era
to infeliz que acabou concluindo que a vida  um fato triste que nem deveria ter ocorrido? Ciente desse enigma, ele nos lembrou (e a si mesmo) que a emoo tem
o poder de toldar e falsificar o conhecimento: o mundo assume um aspecto sorridente quando temos motivo para nos alegrar e um ar sombrio quando pesa sobre ns a
tristeza.
    225

*** 29

No escrevi para a multido. (...) Minha obra  para os que pensam e que, no decorrer do tempo, vo ser a exceo. Sentiro o que eu senti como um marinheiro nufrago
numa ilha deserta, para quem a pegada de um ex-companheiro de sofrimento d mais consolo do que todas as cacatuas e micos nas rvores.

29

Gostaria de continuar do ponto em que paramos - dissr Julius, iniciando a sesso seguinte. Falando firme, como se fosse um texto preparado, continuou: - A maioria
dos terapeutas que conheo  muito aberta com os amigos ntimos. Eu tambm sou. Mas no  fcil para mim fazer uma revelao to nua e crua como alguns
de vocs fizeram nas ltimas semanas. Mas h um fato que s contei uma vez na vida, h anos, para um amigo muito prximo.

Sentada ao lado de Julius, Pam segurou no brao dele e pediu: Espera, espera, Julius. No precisa fazer isso. Voc foi forado a
falar e, depois que Tony mostrou
os motivos de merda para Philip pedir isso, at ele se desculpou. No quero que voc se meta nessa his tria de revelaes.

Outros concordaram, dizendo que Julius sempre demonstrava seus sentimentos no grupo e que Philip quis se exibir falando no con trato eu-tu. Gill acrescentou:

As coisas esto ficando confusas. Todos ns estamos aqui em busca de ajuda. Minha vida est uma merda, como vocs viram na semana passada. Mas, pelo que sei, Julius,
voc no est com problemas ntimos. Ento, para que fazer uma revelao?
    226

- Na semana passada - disse Rebecca, do seu jeito direto e conciso -, voc, Julius, disse que me revelei para presentear Philip. Tinha razo em parte, pois agora
vejo que eu tambm queria proteger Philip da raiva de Pam. Mas o que quero dizer , ora, o que  mesmo que eu quero dizer? Ah, que contar o que fiz em Las Vegas
foi bom, tirei um peso de cima de mim. Mas voc, Julius, est aqui para me ajudar e no vai ajudar em nada fazer uma revelao.

Julius ficou pasmo, era difcil aquele grupo concordar com tal unanimidade. Mas ele achava que sabia o motivo: - Sinto que esto muito preocupados com minha
doena, todos querendo cuidar de mim, fazer com que no me estresse. No ?

- Pode ser - disse Pam. - Mas acho que h mais: alguma coisa em mim no quer que voc conte um fato ruim do seu passado.

Quando Julius viu que os outros concordaram, disse, dirigindose a ningum em especial:
 - Que paradoxo. Desde que comecei a dar consultas, ouo os pacientes reclamarem
em coro que os terapeutas so muito distantes e no contam nada da vida pessoal. Eis-me aqui, pronto a fazer justamente isso e sou recebido por uma frente unida
que diz: "No queremos ouvir, no faa isso. O que h?"

Silncio.

- Vocs querem me considerar um sujeito sem mcula? - perguntou Julius.

Ningum respondeu. Ele ento continuou: - Parecemos confusos, ento eu hoje vou ser teimoso, falar e veremos o que acontece. Minha histria foi h dez anos, depois
que minha mulher faleceu. Casei com Mriam, minha namorada de adolescncia, quando estava na Faculdade de Medicina e dez anos depois ela morreu num acidente
de carro no Mxico. Fiquei arrasado. Para ser sincero, acho que no me recuperei daquele horror. Mas me surpreendi ao ver que minha tristeza teve uma virada estranha:
um enorme impulso sexual. Na poca, eu no sabia que o aumento da sexualidade  uma reao comum ao se enfrentar uma morte. Desde ento, vi muitas pessoas atingidas
por algum grande sofrimento ficarem cheias de energia sexual. Falei com homens que tinham coronrias pssimas e eles me contaram que passavam a mo nas assistentes
da ambulncia quando eram levados para o pronto-socorro. Na minha tristeza, fiquei obcecado por sexo, precisava de sexo, muito sexo, e quando as amigas, minhas e
de Mriam, casadas ou no,
227

procuraram me confortar, me aproveitei de algumas, inclusive de uma parente de Mriam.

O grupo ficou parado. Todos estavam constrangidos, evitavam si olhar, alguns escutavam o chilreio de um pssaro num galho de bordo l fora. De vez em quando, por
muitos anos, Julius teve vontade de ter um assistente no grupo. Essa foi uma das vezes.

Finalmente, Tony se obrigou a dizer alguma coisa:
 - E o que foi feito dessas amigas?

- Elas foram sumindo, evaporaram. Vi algumas por acaso, nesses anos todos, mas nunca tocamos no assunto. A situao era de mui to embarao. E vergonha.

- Lastimo, Julius - disse Pam. - Lastimo tambm pela morte de sua mulher; eu no sabia, tambm no sabia dessas, dessas relaes.

- No sei o que dizer para voc, Julius.  bem estranho - disse Bonnie.

- Fale mais sobre a estranheza, Bonnie - pediu Julius, sentindo o peso de ser seu prprio terapeuta no grupo.

 - Bom, isso  bem novo.  a primeira vez que voc se mostra assim no grupo.

- Continue. E quais so os sentimentos?

- Me sinto muito tensa. Acho que  por ser uma situao to ambgua. Se um de ns traz um tema sofrido para o grupo, sabemos o que fazer. Quer dizer, vamos trabalhar
o caso, embora possamos no saber exatamente como. Mas com voc, no sei.

- No est claro por que voc est nos contando - disse Tony, inclinando-se para a frente, os olhos apertados sob as sobrancelhas espessas. - vou perguntar
uma coisa que aprendi com voc na semana passada: por que agora? Foi porque prometeu para Philip? A maioria das pessoas aqui disse que voc no precisava falar,
que aquela troca no tinha sentido. Ou voc quer uma ajuda em relao ao sentimento que ficou desse fato? Quer dizer, no est claro quais so seus motivos para
contar isso. Se quer saber, no vejo problema no que voc fez. vou ser direto: sinto a mesma coisa que em relao a Stuart, Gill e Rebecca. No vejo problema.
Eu faria a mesma coisa. Voc est sozinho, sem sexo, algumas mulheres oferecem consolo, voc aceita e todo mundo fica legal. Provavelmente, elas tambm gostaram.
Quer dizer, costumamos falar nas mulheres como se elas s fossem usadas ou exploradas.
    228

Eu fico irritado, muito irritado, com essa histria de homens implorando por um pouco de sexo enquanto as mulheres, sentadas em seus tronos de
rainha, resolvem se aceitam ou no nos concederem esse favor. Como se elas tambm no gostassem de sexo.

Tony virou-se para Pam ao ouvir o som que ela fez dando um tapa na prpria testa e cobrindo o rosto com as mos. Notou que Rebecca tambm estava com as mos
na cabea. - Certo, certo, eu vou retirar essa parte sobre as mulheres e deixar s a pergunta:por que agora?

- Boa pergunta essa, Tony. Obrigado por me fazer falar. Minutos atrs, eu estava desejando ter um terapeuta assistente para me ajudar e voc aparece. Voc  bom
nisso. Podia ser um bom terapeuta. Vejamos. Por que agora? Perguntei isso tantas vezes, mas pode ser a primeira vez que respondo. Primeiro, acho que todos tm
razo ao dizer que no falei s por causa do trato feito com Philip. Mas foi por isso tambm, pois ele tem certa razo sobre o relacionamento eu-tu. Para usar
uma expresso dele, a idia tem seu mrito. - Julius sorriu para Philip, que no retribuiu.

Julius continuou: - Quero dizer que a falta de reciprocidade na relao teraputica  um problema, uma questo difcil. Ento, reconhecer esse problema faz parte
do motivo para aceitar o pedido de Philip.

Julius queria uma reao. Tinha a impresso de estar falando muito. Virou-se para Philip: - O que voc sente com o que eu disse at agora?

Philip sacudiu a cabea, surpreso com a pergunta. Pensou um pouco e disse: - As pessoas aqui costumam achar que sou um dos que quiseram revelar muitas coisas.
No  verdade. Algum no grupo contou uma experincia que teve comigo, ento falei apenas por uma questo de exatido histrica.

- Pode me dizer o que isso tem a ver com o resto? - perguntou

Tony.

- Exatamente, fale sobre exatido, Philip - pediu Stuart. - Antes, quero registrar que voc no fez qualquer revelao. E, principalmente, que sua resposta est
longe do assunto. No tem nada a ver com a pergunta que Julius fez sobre seus sentimentos.

Philip pareceu no se ofender. - Certo. Voltando  pergunta de Julius, acho que no entendi o que ele queria saber porque no senti nada.
    229

No havia nada no que ele disse para causar uma reao emocional.

- Pelo menos, essa resposta  pertinente - disse Stuart. - A anterior fugia do assunto.

- Estou cheia dessa sua brincadeira de pseudodemncia! - disse Pam, irritada, para Philip, dando um tapa na perna. - E fico puta de voc no dizer meu nome! Referir-se
a mim como "algum no grupo"  ofensivo e imbecil.

- Voc diz pseudodemncia porque eu finjo ignorar as coisas? - perguntou Philip, sem olhar para Pam.

- Aleluia, finalmente vocs se falam - disse Bonnie, levantando as mos para o alto. - Os dois se enxergam, chegam a se falar.

Pam no fez caso da observao e continuou se dirigindo a Philip.

- Pseudodemncia  elogio, comparado com o que eu poderia dizer. Voc acha que nada do que Julius disse causa uma reao emocional. Como algum pode no reagir
a Julius? - perguntou ela, com os olhos brilhando de raiva.

- Pode dar um exemplo? Voc deve saber de um sentimento que eu poderia ter - disse Philip.

- Sei. Por exemplo: gratido por Julius levar a srio voc e sua pergunta impensada e insensvel. Pode ser tambm respeito por ele cumprir a promessa do eu-tu com
voc. Ou, quem sabe, tristeza pelo que ele sofreu com a viuvez. Ou interesse e at identificao pelo descontrole sexual dele. Ou admirao por ele aceitar trabalhar
com voc, com todos ns, apesar de estar com cncer. Isso, s para comear. - Pam falou mais alto: - Como pode no ter sentimentos ? - Desviou o olhar
de Philip, cortando o contato visual.

Philip no respondeu. Ficou esttico como um Buda, inclinado para frente, olhando o cho.

No profundo silncio que se seguiu ao rompante, Julius pensou qual seria a melhor forma de continuar a sesso. Em geral, o melhor era esperar; uma de suas frases
preferidas era "malhe em ferro frio".

Ele costumava considerar a terapia como uma seqncia de ativao emocional seguida de integrao, e pensou na fartura de demonstraes emocionais daquela sesso.
Talvez at, sentimentos demais. Era hora de passar  compreenso e integrao. Preferiu uma via torta,
    230

virou-se para Bonnie e perguntou: - Pode falar no seu comentrio "aleluia"?

 - Est lendo meus pensamentos de novo, Julius? Como consegue? Eu estava me arrependendo de ter dito aquilo. Acho que saiu errado, com um tom de zombaria.
No?
 - perguntou ela, olhando para Pam e Philip.

- Na hora, no achei, mas agora vejo que tinha um toque de zombaria - disse Pam.

- Desculpe. Mas esse caldeiro quente, voc e Philip trocando tiros, todas essas jogadas duplas, deu um alvio os dois se falarem diretamente. E voc, Philip, no
gostou do meu comentrio? - perguntou Bonnie.

- Desculpe, no registrei. S notei o brilho nos olhos dela - disse Philip, ainda olhando para baixo.

- Dela quem? - perguntou Tony.

- Olhos de Pam - respondeu Philip, e, virando-se para Pam, acrescentou: - Nos seus olhos, Pam.

- Certo, cara, agora estamos indo - disse Tony.

- Voc ficou assustado, Philip? No  fcil receber um olhar daqueles, no? - perguntou Gill.

- No fiquei. Eu estava preocupado em evitar que o olhar, as palavras e a opinio dela me atingissem. Quer dizer, suas palavras, Pam,sua opinio.

- Parece que voc e eu temos algo em comum, Philip: problemas com Pam - disse Gill.

Philip olhou para Gill e concordou, talvez um cumprimento de gratido, pensou Julius. Quando ficou claro que Philip no ia dizer mais nada, Julius percorreu o grupo
com o olhar para buscar mais participantes. Nunca perdia a oportunidade de ampliar a rede de interao: com a f de um apstolo, ele achava que quanto mais
pessoas envolvidas, mais eficiente ficava o grupo. Queria incluir Pam, sua exploso com Philip ainda ecoava na sala. Para isso, ele se dirigiu a Gill: - Voc
diz que no  fcil ser alvo dos comentrios de Pam, e na semana passada se referiu a ela como sendo Juza do Supremo. Pode falar mais sobre isso?

 - Ah,  bobagem minha, no sei direito, no sei avaliar bem isso, mas...
    231

Julius interrompeu: - Pare! Vamos congelar a ao nesse ponto. Nesse momento. - Virou-se para Pam: - Olhe o que Gill acaba de dizer. Est relacionado com voc
no ouvir ou no conseguir ouvir o que ele diz?

- Totalmente - disse Pam. - O que ele disse foi o mais puro Gill. Olha, Gill, o que voc acabou de dizer foi: "No prestem ateno no que eu vou falar. No 
importante, eu no sou importante,  bobagem minha. No quero agredir. No me escutem". Voc no s se rebaixa, mas  chato. Muito chato. Porra, Gill! Tem algo a
dizer? Pois abra a boca e fale!

- Ento, Gill - pediu Julius -, se voc fosse falar sem meias palavras, o que diria? - Ah, pensou, nada como aquele velho e bom verbo no condicional.

- Eu diria a ela, a voc, Pam, que voc  a juza que me d medo aqui. Voc me julga. Fico sem jeito, ou melhor, fico apavorado na sua frente.

- Isso  sincero, Gill. Agora estou ouvindo - disse Pam.

- Ento, Pam, dois homens aqui (Philip e Gill) dizem ter medo de voc. Tem alguma reao a isso? - perguntou Julius.

- Tenho uma grande reao: isso  problema deles.

- Tem alguma chance de ser problema seu tambm? Talvez outros homens na sua vida tenham sentido isso - disse Rebecca.

- vou pensar no assunto.

- Algum tem algo a dizer sobre essa ltima discusso? - perguntou Julius.

- Acho que Pam est fugindo um pouco - disse Stuart.

- Concordo. Acho que voc no vai pensar muito no assunto, Pam - disse Bonnie.

- , tem toda razo. Ainda estou irritada por Rebecca dizer que ela queria proteger Philip da minha raiva.

-  um dilema, no, Pam? - perguntou Julius. - Como voc acabou de dizer a Gill, voc no merece uma droga de um comentrio. Mas quando merece, ai, como di.

-  verdade, ento talvez eu no seja to dura quanto pareo. E olhe, Rebecca, doeu o que voc disse.

 - Desculpe. No tive a inteno. Apoiar Philip no  a mesma coisa que atacar voc - disse Rebecca.
    232

Julius aguardou, pensando para onde encaminhar o grupo. Havia vrias possibilidades. A raiva e a mania de julgar de Pam estavam na mesa. E os outros homens, Tony
e Stuart, onde estavam? A competio entre Pam e Rebecca tambm estava na mesa. Ou ser que o grupo deveria tratar da histria que Bonnie no terminou e da ironia
dela? Ou falar na exploso de Pam com Philip? Ele sabia que era melhor ter pacincia, seria um erro apressar. Em poucas sesses, o grupo teve um bom progresso
em direo  calma. Talvez j tivessem feito bastante por aquele dia. Era difcil avaliar. Philip falou pouco. Mas ento, para surpresa de Julius, o grupo tomou
um caminho totalmente inesperado.

- Julius, gostou da reao das pessoas  sua revelao? - perguntou Tony.

- Bom, no fomos muito longe. Deixa eu lembrar: voc me disse o que achava e Pam tambm, depois ela e Philip discutiram por ele no sentir nada com o que
revelei. Tony, acabei no respondendo  sua pergunta de por que agora. Voltarei a ela. - Julius tentou organizar as idias, consciente de que sua revelao, como
a de qualquer terapeuta, tinha sempre duas implicaes: primeira, o que ele ganhava com aquilo e, segunda, o modelo que dava para o grupo.

- No desisti de contar. Quase todo mundo aqui tentou me impedir, mas teimei, tinha decidido contar. Isso no  comum em mim e no sei se entendi bem, mas h algo
importante. Tony, voc perguntou se ao contar eu estaria pedindo ajuda ou, talvez, perdo. No, no estava. H muito tempo eu me perdoei, depois de passar anos trabalhando
o fato com meus amigos e com um psicanalista. S garanto uma coisa: antes, quer dizer, antes do melanoma, eu jamais, nem em mil anos, contaria o que contei
hoje aqui.

- Antes do melanoma - continuou Julius. - Essa  a chave. Todos ns temos uma sentena de morte. Sei que vocs me pagam bem para em troca ouvirem uma frase to animadora,
mas o fato de ter a sentena confirmada, selada e at datada, sem dvida chamou minha ateno. O melanoma est me dando uma estranha liberao que tem muito a ver
com eu contar hoje aqui. Talvez por isso eu tenha pensado num terapeuta assistente, algum objetivo, que garanta que eu continue a agir no melhor interesse de
vocs.

Julius parou. Depois, acrescentou: - Notei que ningum reagiu quando comentei que estavam cuidando de mim hoje.
    233

Aps mais alguns segundos de silncio, Julius acrescentou:
- E ainda no esto reagindo. Viram? Por isso eu preciso de um assistente. Sempre achei que, se deixamos
de falar uma coisa importante, tambm no vamos falar em nada que seja importante. Minha funo  afastar os obstculos; a ltima coisa que quero  ser o obstculo.
 difcil eu sair de dentro de mim, mas sinto que vocs esto me evitando ou, dizendo de outra forma, esto evitando minha doena mortal.

Bonnie disse: - Quero discutir o que est acontecendo com voc, mas no quero mago-lo.

Outras pessoas concordaram.

- Bem, vocs agora puseram o dedo na ferida. Ouam bem o que vou dizer: o nico jeito de me magoarem  se afastarem de mim. Sei que  difcil falar com um
doente mortal. As pessoas ficam cuidadosas, no sabem direito o que dizer.

- Esse  exatamente o meu caso - disse Tony. - No sei o que dizer. Mas vou tentar ficar do seu lado.

- Percebo isso, Tony.

- As pessoas tm medo dos doentes, pois no querem encarar a morte que existe dentro de cada um de ns, no ? - perguntou Philip.

Julius concordou. - Interessante, Philip. Vamos discutir. - Se no fosse Philip quem
disse aquilo, Julius perguntaria se era o que ele sentia realmente. Mas, naquela
altura, queria apenas apoiar a adequao do que Philip disse. Olhou o grupo, esperando uma resposta.

- Talvez - disse Bonnie - Philip esteja certo porque tive dois pesadelos recentes, uma coisa quer me matar e depois o pesadelo que j contei, em que tento pegar
o trem todo arrebentado.

- Sei que, no fundo, estou com mais medo do que o normal - disse Stuart. - Um dos meus parceiros de tnis  dermatologista e esse ms pedi duas vezes para ele
olhar um arranho na minha pele. Penso sempre em melanoma.

 - Julius - disse Pam -, penso em voc desde que me contou do melanoma. Est certo dizerem que sou dura com os homens, mas voc  a grande exceo:  o homem
mais querido da minha vida. E sou mesmo protetora com voc. Senti isso na mesma hora em que Philip mandou voc se revelar. Achei, e ainda acho, que foi duro
e insensvel da parte dele. Quanto a estar mais consciente da minha prpria morte, bom, poder ser, mas no percebo. S digo que estou sempre

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querendo dizer coisas confortadoras para voc. Na noite passada, li uma coisa interessante, um trecho das memrias de Nabokov, Fala, memria, em que ele define a
vida como uma centelha de luz entre duas trevas, a de antes do nascimento e a de depois da morte. E que estranho nos preocuparmos tanto com a morte e to pouco
com o nascimento. Eu achei muito confortador e imediatamente copiei para lhe dar.

- Obrigado pelo presente, Pam.  um belo pensamento. E  confortador, embora eu no saiba direito por qu. Sinto-me mais  vontade com aquela primeira idia,
de antes do nascimento, parece mais agradvel; talvez eu a encha de promessa, do que est por vir.

- Esse pensamento tambm foi confortador para Schopenhauer, de quem, sem dvida, Nabokov tirou a frase - informou Philip. - Schopenhauer disse que depois da morte
seremos o que ramos antes de nascer e tentou provar que s pode haver um nada.

Julius nunca tinha chance de responder. Pam olhou fixo para Philip e vociferou: - Isso mostra porque  uma piada de mau gosto voc querer ser orientador psicolgico.
Estamos falando em sentimentos ternos, e o que interessa a voc, a nica coisa que interessa,  identificar o verdadeiro autor da frase. Voc acha que Schopenhauer
um dia disse algo vagamente parecido com Nabokov. Grande coisa!

Philip fechou os olhos e disse, decorado: - "De repente, o homem, surpreso, se v existindo aps centenas e centenas de anos de no-existncia. Ele passa um perodo
vivendo, depois vem outro perodo igualmente longo em que vai deixar de existir". Sei de memria grande parte da obra de Schopenhauer; esse  o terceiro pargrafo
do ensaio Observaes adicionais  doutrina do vazio da existncia. Voc acha isso muito vago?

- Crianas, crianas, parem com isso - disse Bonnie, com voz estridente.

- Deixa, Bonnie, eu gosto dessa briga - disse Tony.

- Algum mais tem algo a declarar? - perguntou Julius.

- No quero entrar nesse fogo cruzado.  artilharia pesada - disse Gill.

-  - concordou Stuart. - Eles no perdem oportunidade de atacar. Philip foi comentar de algum que usou a frase de Schopenhauer e Pam aproveitou para chamar Philip
de piada de mau gosto.

 - No disse que ele  uma piada de mau gosto. Eu disse...
    235

- Deixa disso, Pam,  ninharia. Voc sabe o que eu quis dizer - insistiu Stuart. - De todo jeito, essa histria de Nabokov foi fora do contexto. Voc critica o heri
dele, depois elogia quem copia a frase de Schopenhauer. Qual  o problema de Philip provar que estava certo?  crime mostrar que foi Schopenhauer quem disse?

- Quero falar uma coisa - disse Tony. - Como sempre, no sei quem so esses caras, pelo menos no o Nabo, Nobo?

- Nabokov - corrigiu Pam, com a voz suave que reservava para Tony. - Um grande escritor russo. Voc deve ter ouvido falar no romance Lolita.

- Ah, sei. bom, esse tipo de conversa faz um crculo vicioso, me sinto idiota por no saber quem , fico quieto e a me sinto mais idiota ainda. vou parar
com isso e falar. - Virou-se para Julius: - Ento, respondendo  sua pergunta sobre sentimentos, esse  um: sentir-se idiota. Outro sentimento  que, quando
Philip perguntou voc acha isso muito vago, vi os dentes dele, so bem afiados, afiados  bea. E a respeito de Pam - Tony virou-se para ela -,  olha, Pam, voc
 minha queridinha, mas vou avisar uma coisa: quero ser sempre seu amigo.

- Certo - disse Pam.

- E esqueci o mais importante; essa discusso toda nos fez sair do assunto. Estvamos falando se estaramos protegendo ou evitando voc, Julius. Depois, com
Pam e Philip, mudamos de assunto. Ser que no estamos evitando voc outra vez?

- Olha, no sinto isso agora. Quando trabalhamos de uma forma to ntima, to prxima quanto agora, nunca ficamos num tema s. A corrente do pensamento entra por
novos canais. Alis - disse Julius, virando-se para Philip -, usei de propsito a palavra ntima. Acho que sua raiva, que aparece aqui pela primeira vez,  um sinal
de proximidade. Voc se importa com Pam a ponto de se irritar com ela.

Julius sabia que Philip no iria responder espontaneamente, por isso provocou-o: - O que diz, Philip?

Balanando a cabea, Philip respondeu: - No sei como explicar a sua hiptese. Mas quero dizer outra coisa. Confesso que, como Pam, eu tambm fiquei procurando coisas
confortadoras ou, pelo menos, importantes para dizer a voc. Sigo o hbito de Schopenhauer de terminar cada dia lendo alguma coisa de Epcteto ou dos

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Upanishads. - Philip olhou na direo de Tony. - Epcteto foi um filsofo romano do sculo II e os Upanishads so um antigo texto sagrado hindusta. Uma noite dessas,
li um trecho de Epcteto que achei interessante e tirei algumas cpias. Fiz uma traduo livre do latim. - Philip pegou as cpias na pasta, deu uma para cada pessoa
e disse, de cor:

Numa viagem, quando o navio ancora num porto, voc sai para pisar n'agua e colher razes e conchas na praia. Mas precisa estar sempre atento ao navio, pois o capito
pode chamar para embarque e voc precisa juntar suas coisas, no pode ser como a ovelha que amarram e jogam no poro.

O mesmo acontece na vida. E se voc tem esposa e filhos, em vez de conchas e razes, precisa reuni-los. Quando o capito chamar, corra para o navio, esquea tudo
e no olhe para trs. Se j  idoso, fique perto do navio, assim estar pronto para o embarque.

Philip terminou de falar e soltou os braos como se dissesse: -  isso.

O grupo lia, atento, o texto. Estavam espantados. Stuart quebrou o silncio: - Quero entender, Philip, mas no consigo. O que isso adianta para Julius? Ou para ns?

Julius mostrou o relgio: - Lastimo dizer que passamos da hora. Mas me permitam ser professoral e mostrar uma coisa. Costumo ver um texto ou uma ao sob dois aspectos:
o do contedo e o dobenefcio. Benefcio aqui significa o que o texto nos ensina a respeito do relacionamento dos envolvidos. Como voc, Stuart, eu tambm no entendi
imediatamente o contedo da mensagem de Philip: tenho de estud-la e talvez o contedo possa ser tema de outra sesso. Mas vi um benefcio: voc, Philip, como Pam,
pensou em mim, quis me dar uma coisa e chegou a decorar o texto e fazer cpias. Qual o sentido disso? Mostra o carinho de vocs por mim. E o que sinto? Fico emocionado,
agradeo e espero que um dia consigam demonstrar seu afeto com suas prprias palavras.
    237

*** 30

A vida pode ser comparada a um bordado que no comeo da vida vemos pelo lado direito e, no final, pelo avesso. O avesso no  to bonito, mas  mais esclarecedor,
pois deixa ver como so dados os pontos.

30

O grupo saiu da sala e Julius ficou olhando as pessoas descerem a escada para a rua. Em vez de cada um ir para seu carro, eles continuaram juntos, sem dvida iam
para a lanchonete. Ah, como ele gostaria de pegar a jaqueta e descer correndo a escada atrs deles. Mas ficava para outro dia, outra vida, outras pernas, pensou,
indo para o escritrio colocar no computador suas notas da sesso. Sbito, mudou de idia, voltou para a sala do grupo, acendeu seu cachimbo e ficou desfrutando
o cheiro forte do tabaco turco. com a nica inteno de aproveitar mais um pouco o calor daquela sesso.

Aquela sesso, como as trs ou quatro ltimas, tinha sido empolgante. Lembrou dos grupos de pacientes com cncer que ele tinha orientado h anos. Era freqente
as pessoas falarem numa fase de ouro, passado o pnico de constatar que iam morrer. Alguns disseram que o cncer os tinha deixado mais sensatos, mais realizados,
enquanto outros mudaram suas prioridades na vida, ficaram mais fortes, aprenderam a recusar atividades que h muito tempo no apreciavam mais e fazer coisas que
realmente importavam, como amar a famlia e os amigos, observar a beleza de coisas em volta, sentir a mudana das estaes. Mas muitos pacientes lastimaram que
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s tivessem aprendido a viver depois de seus corpos terem sido corrodos pelo cncer.

As mudanas foram to grandes (um paciente chegou a dizer que o cncer cura a neurose) que, por duas vezes, Julius fez uma maldade com seus alunos na faculdade.
Descreveu apenas as mudanas psicolgicas de determinados pacientes e pediu que os alunos dissessem o tipo de tratamento que estavam recebendo. Todos ficaram surpresos
ao saber que nenhuma terapia ou remdio tinha mudado tanto aqueles pacientes, apenas o fato de enfrentarem a morte. Ele devia muito queles pacientes. Serviam muito
de modelo naquele momento. Pena ele no poder lhes dizer. Viva bem, lembrou a si mesmo, e tenha certeza de que vo sair boas coisas de voc, mesmo que no perceba.

E como estou encarando o meu cncer?, ele se perguntou. Sei um bocado sobre a fase de pnico da qual, felizmente, estou saindo, embora ainda tenha aquelas crises
s trs da manh, em que o pnico me agarra com um medo desconhecido e no adianta racionalizar nem argumentar, s tomar um Valium, ver a luz do dia surgindo
ou mergulhar numa banheira de gua morna.

Mas ser que mudei ou fiquei mais sensato?, pensou ele. Tive minha poca de ouro? Talvez eu esteja sentindo melhor as coisas como elas so, talvez isso seja crescimento.
Acho (alis, tenho certeza) que me tornei um terapeuta melhor, de ouvido mais apurado. Sim, sem dvida, sou outro terapeuta. Antes do melanoma, eu jamais diria que
estou apaixonado pelo grupo. Jamais sonharia em contar detalhes to ntimos da minha vida (a morte de Mriam e o meu oportunismo sexual). E a vontade irresistvel
de fazer a revelao ao grupo hoje, isso sim  de estranhar, pensou, balanando a cabea, surpreso. Tenho uma vontade de ir contra a corrente, contra o que sei,
contra o que eu mesmo ensino.

Uma coisa  certa: o grupo no queria ouvir o que eu tinha a dizer. Que resistncia! No queriam saber de nada dos meus problemas ou dvidas. Mas, depois que falei,
houve um fato interessante. Tony foi timo! Falou como se fosse um terapeuta experiente, perguntando se eu estava satisfeito com a reao do grupo, tentando
equacionar meu comportamento, insistindo no "por que agora". timo. Cheguei a imagin-lo orientando o grupo depois que eu me for
    239

(seria uma coisa incrvel!), um terapeuta que largou a escola e que passou um tempo na cadeia. E outros (Gill, Stuart, Pam) se aproximaram, cuidaram de mim e mantiveram
o grupo interessado.
Jung estava se referindo a outra coisa quando disse que s quem foi ferido pode realmente curar. Mas, talvez, incentivar a capacidade
teraputica dos pacientes seja um motivo bastante bom para os terapeutas mostrarem suas feridas.

Julius andou da sala do grupo para o escritrio, sem parar de pensar na sesso. E Gill, como ele se destacou hoje! Chamar Pam de Juza do Supremo foi timo, alm
de adequado. Preciso ajudar Pam a assimilar esse comentrio. No caso, a viso de Gill foi mais incisiva do que a minha. Fiquei tanto tempo gostando muito de Pam
que deixei passar a patologia dela. Talvez por isso no tenha conseguido ajud-la na obsesso por John.

Julius ligou o computador e abriu o arquivo "Enredos para contos", que continha o maior projeto no-realizado de sua vida: ser escritor. Ele escrevia bem, tinha
lanado dois livros e escrito centenas de artigos nas publicaes especializadas, mas queria escrever fico e, durante dcadas, juntou enredos para contos, tirados
da imaginao ou do cotidiano. Tinha comeado a desenvolver vrios, mas nunca teve tempo nem coragem para termin-los e oferecer para alguma editora.

Percorreu a lista de enredos, clicou em "Vtimas enfrentam o inimigo" e leu duas idias. A primeira tinha por cenrio um cruzeiro pelo litoral da Turquia. Um psiquiatra
entra no cassino do navio e v no salo enfumaado um ex-paciente, vigarista que ficou lhe devendo sete mil e quinhentos dlares. O segundo confronto era de uma
advogada designada para a defesa gratuita de um acusado de estupro. Na primeira entrevista na priso, ela desconfia que aquele  o mesmo homem que a violentou h
dez anos.

Abriu mais um arquivo: "Num grupo de terapia, uma mulher encontra o homem que, anos antes, foi seu professor e se aproveitou sexualmente dela". Nada mal. Dava para
desenvolver bem o tema em literatura, pensou Julius, embora soubesse que jamais o escreveria. Havia problemas ticos, precisava da autorizao de Pam e Philip. Precisava
tambm dar o espao de dez anos entre o fato e o livro, tempo do qual no dispunha. Mas dava para uma boa terapia, pensou Julius.
    240

Tinha certeza de que alguma coisa positiva podia sair dali, se ele conseguisse manter os dois no grupo e agentasse a dor de abrir velhas feridas.

Pegou a traduo de Philip, do texto do navio de passageiros. Releu vrias vezes, tentando entender o sentido ou a importncia. Mas continuou balanando a cabea.
Philip deu aquilo como um consolo. Mas qual era o consolo?
    241

*** 31

Mesmo sem motivo, sinto sempre uma ansiedade que me faz ver e procurar perigo onde no existe. Isso aumenta infinitamente qualquer aflio e faz com que
a ligao com os outros seja muito difcil.

31

COMO VIVEU ARTHUR

Aps fazer o doutorado, Arthur morou em Berlim, depois algum tempo em Dresden, em Munique e Mannheim, at que, fugindo de uma epidemia de clera, foi para Frankfurt,
onde passou os ltimos trinta anos de vida, s saindo de l para fazer excurses e caminhadas de um dia. Ele nunca teve um emprego, morou sempre em cmodos alugados,
nunca teve casa, lareira, mulher e filhos, nem amigos ntimos. No tinha um crculo social, conhecidos prximos, nem senso de comunidade; na verdade, costumava ser
motivo de ridculo na cidade. At os ltimos anos de vida, ele jamais ocupou cargo pblico, nem ganhou dinheiro com seus escritos. Como tinha to poucos relacionamentos,
sua parca correspondncia trata principalmente de assuntos comerciais.

Apesar da falta de amigos, sabemos mais de sua vida do que da maioria dos filsofos, pois ele foi incrivelmente pessoal em seus escritos filosficos. Nos primeiros
pargrafos de sua obra mais importante, O mundo como vontade e representao, ele usa uma rara nota ntima num tratado filosfico. Sua prosa clara mostra logo que
ele quer falar diretamente com o leitor.
    242

Primeiro, ensina como ser lido e pede que a leitura seja feita duas vezes e com muita pacincia. A seguir, recomenda que o
leitor conhea antes seu primeiro livro, Da qudrupla raiz do princpio de razo suficiente, que serve de introduo para esse, e garante que o leitor ficar muito
grato pelo aviso. E que aproveitar ainda mais se conhecer bem a magnfica obra de Kant e do divino Plato. Mas que ele, Schopenhauer, encontrou erros graves em
Kant, discutidos num apndice (que tambm deve ser lido antes do livro) e observa que quem conhecer os Upanishads estar mais preparado ainda para entender o livro
dele. Por fim, observa (muito corretamente) que o leitor deve estar ficando cada vez mais irritado e impaciente com seus pedidos arrogantes, insolentes e demorados.
 estranho que o filsofo que foi o mais pessoal na escrita tenha sido to impessoal na vida.

Alm das referncias em sua obra, Schopenhauer mostra muito de si mesmo num texto autobiogrfico com ttulo em grego, ?Eai, que significa a meu respeito,
manuscrito envolto em mistrio e controvrsia cuja estranha histria  a seguinte:

J idoso, Schopenhauer teve um pequeno crculo de entusiastas, os apstolos, aos quais suportava, mas no respeitava nem gostava. Essas pessoas ouviram-no falar
com freqncia de A meu respeito, dirio autobiogrfico onde anotou fatos sobre si mesmo nos ltimos trinta anos. Mas, quando ele morreu, ningum encontrou
o dirio. Depois de muito procurar, os seguidores perguntaram ao testamenteiro Wilhelm Gwinner sobre o documento perdido e foram informados que o filsofo mandou
queim-lo assim que morresse.

Pouco tempo depois, Gwinner lanou a primeira biografia de Schopenhauer, onde os apstolos reconheceram trechos do dirio em citaes literais ou em parfrases.
Teria Gwinner copiado o manuscrito antes de queim-lo? Ou teria apenas roubado para usar na biografia? A controvrsia durou dcadas at que outro conhecedor da obra
do filsofo reconstituiu o manuscrito juntando trechos da biografia e de outros escritos de Schopenhauer. Publicou ento quarenta e sete pginas com o ttulo
em grego ?Eai (A meu respeito) no fim dos quatro volumes que em alemo se intitularam Nachschlass (Remanescentes dos manuscritos). Trata-se de uma estranha
leitura, porque cada pargrafo do texto tem a descrio de sua complicada origem, em geral, mais longa que o prprio texto.
    243

Por que Schopenhauer nunca teve um emprego? A histria da estratgia suicida para obter um cargo na universidade  outro caso ardiloso que est em todas as biografias
dele. Em 1820, aos trinta e dois anos, ele recebeu o primeiro convite para assumir um cargo temporrio (em alemo, Privatdozent) e muito mal remunerado para dar
aulas de filosofia na Universidade de Berlim. Ento, o que ele fez? Imediatamente, marcou seu curso (intitulado A essncia do mundo) na mesma hora do curso dado
por Georg Wilhelm Hegel, chefe do departamento e mais famoso filsofo da poca.

Duzentos alunos atentos se acotovelavam no curso de Hegel, enquanto apenas cinco ouviram Schopenhauer se definir como um vingador que veio liberar a filosofia ps-kantiana
dos paradoxos vazios e da linguagem obscura e deturpada da filosofia contempornea. No era segredo que o alvo de Schopenhauer era Hegel e seu antecessor Fichte
(aquele filsofo que cuidou de gansos e percorreu a Europa inteira para encontrar Kant). Obviamente, isso no fez com que Hegel e os demais docentes estimassem
o jovem Schopenhauer. No semestre seguinte, quando nenhum aluno apareceu no curso de Schopenhauer, terminou sua curta e temerria carreira acadmica e ele nunca
mais deu aulas.

Nos trinta anos em que morou em Frankfurt, at morrer em
1860, sua vida teve uma agenda rgida, quase to definida quanto a rotina diria de Kant. Comeava escrevendo durante trs horas, depois tocava flauta uma hora,
s vezes duas. Mesmo no meio do inverno, raro era o dia em que no nadava no frio rio Main. Almoava sempre no mesmo clube, o Englisher Hof, de fraque com plastrom
branco, traje que era alta moda na juventude dele, mas estava completamente ultrapassado em Frankfurt, no meio do sculo XIX. Quem quisesse ver o estranho e
irritado filsofo, bastava ir ao Hof no almoo.

H inmeras histrias sobre ele no Hof: de seu apetite voraz, costumando comer por dois e, se algum notava isso, ele respondia que tambm pensava por dois; de pagar
dois almoos para garantir que ningum sentasse na mesma mesa; de seu jeito agressivo, mas da conversa interessante; de suas constantes exploses de raiva; da lista
de pessoas com as quais se recusava a falar; da mania de discutir assuntos imprprios e chocantes como, por exemplo, elogiar a nova descoberta
    244

cientfica que impedia que ele adquirisse uma infeco venrea bastando, aps o coito, mergulhar o pnis em gua com p alvejante.

Embora apreciasse a conversa sria, ele raramente encontrava companheiros de refeio que merecessem desperdiar seu tempo. Houve poca em que colocava um objeto
de ouro na mesa ao se sentar e o tirava ao ir embora. Uma vez, um dos oficiais militares que costumavam almoar na mesma e comprida mesa perguntou por que fazia
aquilo. Schopenhauer respondeu que doaria o objeto de ouro aos pobres no dia em que ouvisse os oficiais falarem de outra coisa que no fosse seus cavalos, cachorros
e mulheres. Costumava levar seu poodle Atman, a quem tratava de Sir, e se o cachorro se comportasse mal, chamava-o de Humano.

Contam-se muitas histrias de seu humor afiado. Num jantar, um jovem perguntou algo ao filsofo e teve como resposta apenas "No sei". O jovem ento comentou: -
Ora, pensei que o senhor, um grande sbio, soubesse tudo. - Schopenhauer disse ento: - No, o conhecimento  limitado, s a estupidez  ilimitada. - Qualquer pergunta
sobre mulheres ou casamento teria, certamente, uma resposta azeda. Uma vez, teve de agentar a companhia de uma mulher muito falante, que contou em detalhes como
sofria no casamento. O filsofo ouviu paciente e quando a mulher perguntou se ele a entendia, respondeu: - No, mas entendo seu marido.

Em outra conversa, perguntaram se ele pretendia se casar.

- No, pois s me traria aborrecimentos.

- Aborrecimentos por qu?

- Porque teria cime por minha mulher me trair.

- Como tem tanta certeza?

- Porque eu ia merecer.

- Por qu?

- Por ter me casado.

Tambm tinha palavras incisivas para os mdicos que, segundo ele, usam duas letras diferentes: uma quase ilegvel, nas receitas, e outra, clara e bonita, nas contas.

Um escritor que esteve num almoo com Schopenhauer, ento com cinqenta e cinco anos, em 1846, descreveu-o assim:
    245

Boa constituio fsica (...) sempre bem vestido, mas em estilo antiquado (...) altura mediana, cabelos curtos, grisalhos (...) distrado e de inteligncia brilhante,
olhos garos (...) introvertido, e, quando fala,  quase barroco, o que colabora para ser diariamente motivo de pilhrias dos companheiros de almoo. Assim, esse
senhor spero, sempre comicamente mal-humorado, mas no fundo indefeso e de boa ndole, se tornou objeto de piada de homens insignificantes que sempre riam dele,
embora sem ms intenes.

Depois do almoo, Schopenhauer costumava dar uma longa caminhada, sempre falando alto, sozinho ou conversando com o cachorro, o que fazia as crianas zombarem
dele. Passava as tardes lendo, sem jamais receber visitas. No h prova de nenhuma ligao romntica nos anos em que viveu em Frankfurt e, em 1831, aos quarenta
e trs anos, escreveu em A meu respeito: "S como celibatrio pode-se assumir o risco de viver sem trabalho e com pouca renda".

Depois da briga de me e filho, quando ele tinha vinte e nove anos, os dois s se viram vinte anos depois, em 1813, trocando algumas cartas de negcios at 1835,
quando ela faleceu. Uma vez, quando ele esteve doente, a me fez um raro comentrio pessoal: "Dois meses no quarto sem ver uma s pessoa, meu filho, isso no  bom
e me deixa triste. Ningum pode, nem deve, se isolar assim".

Ele e Adele trocaram cartas ocasionais e a irm tentou vrias vezes se aproximar, garantindo que no ia pedir nada. Mas Arthur sempre recuava. Adele, que tambm
nunca se casou, vivia muito angus tiada. Quando Arthur disse-lhe para mudar de Berlim para escapar da clera, ela respondeu que gostaria de ter a doena e assim
acabar com seu desespero. Arthur se afastou ainda mais, no querendo parti cipar da vida e da depresso dela. Depois que ele saiu da casa da me, viu a irm
apenas uma vez, em 1840, num encontro curto e desagradvel. Adele morreu nove anos depois.

O dinheiro foi uma preocupao constante na vida de Schopenhauer. A me deixou seus poucos bens para Adele, que morreu sem nada. Ele tentou, em vo, trabalhar
como tradutor, e at o fim da vida seus livros jamais venderam, nem foram comentados na imprensa.
    246

Em resumo, Arthur viveu sem qualquer dos confortos e compensaes para manter um equilbrio, at para sobreviver. Como ele conseguiu? Que preo pagou? Esses,
como veremos, foram os segredos que ele revelou em A meu respeito.
    247

*** 32

Os escritos e idias deixados em livro por homens como eu so meu maior prazer na vida. Sem livros, teria me desesperado h muito tempo.

32

Ao entrar na sala na semana seguinte, Julius encontrou uma cena estranha. Sentadas  vontade, as pessoas liam, atentas, a parbola trazida por Philip. Stuart tinha
colocado o texto numa prancheta e sublinhava trechos. Tony tinha esquecido de trazer sua folha e lia por cima do ombro de Pam.

Rebecca, com a voz meio ansiosa, iniciou a sesso.
- Li com a devida ateno. - Mostrou o papel, dobrou e enfiou na bolsa. - Gastei muito tempo,
Philip, tempo demais, e agora gostaria que voc mostrasse a importncia disso para mim, para o grupo e para Julius.

- Acho que seria mais rico se a classe antes discutisse o texto respondeu Philip.

- Classe? Isso parece mesmo um trabalho de classe.  assim que voc d orientao, Philip? - perguntou Rebecca, fechando a bolsa com raiva. - Como um professor
na sala de aula? No foi para isso que vim aqui, vim me tratar e no fazer curso para adultos.

Philip no deu ateno  agresso de Rebecca. - Na melhor das  hipteses, no h muita distino entre educao e terapia. Os gregos (Scrates, Plato, Aristteles,
os esticos e epicuristas) acreditavam que a educao e a razo so ferramentas para combater o sofrimento humano.
    248

A maioria dos orientadores filosficos considera a educao como base da terapia. Quase todos acatam o lema de Leibnitz,
Caritas sapientis, que significa
"sabedoria e afeto". Philip virou-se para Tony: - Leibnitz foi um filsofo alemo do sculo XVII.

- Estou achando isso chato e arrogante - disse Pam. - com a desculpa de ajudar Julius, voc - ela aumentou a voz uma oitava e chamou - Philip, estou falando
com voc. - Philip, que olhava tranqilamente para cima, endireitou-se e virou-se para ela. - Primeiro, voc distribui esse trabalho de calouro e agora tenta
controlar o grupo dando modestamente a sua interpretao do texto.

- L vem voc querendo derrubar o Philip - disse Gill. - Pelo amor de Deus, Pam, ele  orientador profissional. No precisa ser um grande cientista para ver que
tenta ajudar o grupo com a experincia que tem. Por que cismar com tudo o que ele faz?

Pam abriu a boca para falar, mas fechou, parecendo sem palavras. Olhou fixo para Gill, que acrescentou: - Voc estava pedindo uma crtica dura, Pam. Conseguiu. No,
no estou bbado, se  o que est pensando. Hoje faz duas semanas que no bebo, tenho tido duas consultas semanais com Julius, ele insistiu, me apertou e me
fez ir a um encontro dirio dos AA, sete dias por semana, catorze reunies em catorze dias. No comentei na semana passada porque no tinha certeza se conseguiria
continuar.

Todos, exceto Philip, reagiram com cumprimentos efusivos. Bonnie disse a Gill que estava orgulhosa dele. At Pam conseguiu dar um "muito bem". Tony comentou:
- Talvez eu deva ir junto com voc. - Quando bebo, acabo me machucando - e mostrou o rosto ferido.

- Philip, e voc? Tem algo a dizer para Gill? - perguntou Julius.

Philip negou com a cabea.
 - Ele j recebeu um grande apoio dos outros. Est sem beber, fala no assunto, est se fortalecendo. s vezes, mais apoio  menos.

 - Gosto do lema de Leibnitz que voc  mencionou, Caritas sapientis, sabedoria e afeto - disse Julius. - Mas recomendo que no esquea
a parte do afeto. Se Gill merece apoio, porque voc  sempre o ltimo da fila a dar? Alm disso, voc tem uma informao exclusiva, quem mais pode dizer o
que sentiu quando ele defendeu voc e enfrentou Pam por sua causa?
    249

- Tem razo - disse Philip. - Estou confuso, gostei de receber o apoio de Gill, ao mesmo tempo estou me cuidando para no gostar. Se voc deixa que outros lutem
no seu lugar, os msculos acabam se atrofiando.

- Bom, vou confessar um pouco mais da minha ignorncia - disse Tony, mostrando o texto. - Eu realmente no entendi essa histria do navio, Philip. Na semana
passada, voc disse que trouxe para Julius algo que seria um conforto. Mas esse navio com passageiros, quer dizer, para ser franco, no sei que porra  essa.

- No precisa se desculpar por no saber uma coisa, Tony - disse Bonnie. - Eu j falei que voc costuma falar por mim tambm, no entendi nada desse navio e dessa
histria de pegar conchas na praia.

- Eu tambm no - disse Stuart.

- Deixa eu ajudar - disse Pam. - Afinal, eu vivo de interpretar textos literrios. A primeira coisa a fazer  partir do concreto, isto , o navio, as conchas, as
ovelhas etc. para o abstrato. Ou seja, pergunte a voc mesmo: o que esse navio, essa viagem e esse porto representam ?

- Acho que o navio  a morte, ou a viagem rumo  morte - disse Stuart, olhando para sua prancheta.

- Certo, ento o que conclui a partir da? - perguntou Pam.

- Acho que o principal  no dar muita ateno aos detalhes da praia, seno voc perde o navio - respondeu Stuart.

- Ento, se voc fica muito ligado s coisas da praia, mesmo se for a mulher e os filhos, o navio pode sair sem voc, ou seja, voc perde sua morte. Grande coisa,
perder a morte  alguma catstrofe? - dis se Tony.

- Isso mesmo, tem razo, Tony - concordou Rebecca. - Tambem achei que o navio representa a morte, mas depois do que voc disse, vejo que no fazia sentido.

- Tambm no entendo, mas no diz que voc vai perder a morte, diz que voc vai para a morte como as ovelhas - disse Gill.

- Seja como for, isso ainda no me parece teraputico - disse Rebecca. Virando-se para Julius, perguntou: - J que o texto era
para voc, encontrou algum consolo nele?

 - Repito o que disse para voc na semana passada, Philip. Vi que queria me dar alguma coisa para amenizar meu
sofrimento. E
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tambm que perdeu a coragem e no conseguiu fazer isso diretamente. Preferiu uma aproximao menos pessoal. Isso serve, acho, para voc refletir depois sobre como
demonstrar seu afeto de forma mais pessoal.

- Quanto ao contedo - continuou Julius - tambm estou

confuso, mas acho que, como o navio pode partir a qualquer momento,
ou seja, como a morte no tem hora para chegar, deveramos evitar
nos apegar demais s coisas terrenas. Talvez o texto nos avise que um
apego muito grande pode fazer a morte ainda mais dolorosa.  essa a
mensagem de consolo que voc tenta me dar, Philip?

Pam interrompeu antes de Philip responder: - Acho que encaixa melhor se voc pensar que o navio e a viagem no representam a morte, mas o que podemos chamar de a
vida autntica. Em outras palavras, vivemos de forma mais autntica se pensamos no simples fato de existir, no milagre da vida. Se focamos em ser, no vamos nos
prender tanto s digresses da vida, isto , aos objetos materiais da ilha, no vamos perder de vista a existncia em si.

Breve silncio. Cabeas viraram na direo de Philip.

- Exatamente - disse ele, com um toque de entusiasmo na voz. - Tambm vejo o texto assim. A idia  cuidar para no nos perdermos na agitao da vida. Heidegger
chamava isso ser absorvido pelacotidianice da vida. Sei que voc, Pam, detesta Heidegger, mas no  por ele ter tido opinies polticas equivocadas que vamos nos
privar da ddiva de suas concluses filosficas. Ento, para parafraselo, cair na cotidianice faz com que fiquemos presos como as ovelhas.

Philip continuou: -Como Pam, acho que essa parbola nos previne contra o apego e sugere que nos liguemos ao milagre de ser. No devemos nos preocupar em como as
coisas so, mas nos maravilharmos por elas serem, por existirem.

- Agora entendo o que voc quis dizer - disse Bonnie. Mas

 frio, abstrato. Que conforto traz isso? Para Julius e para qualquer pessoa?

 - Para mim, h consolo na idia de que minha morte d sentido  minha vida. - Philip continuou, com um entusiasmo que no era comum nele: - H um consolo
na idia de no deixar que minha essncia seja devorada por trivialidades, por sucessos ou fracassos insignificantes, pelo que eu possuo, por preocupaes em
ser popular,
    251

quem gosta de mim, quem no gosta. Para mim, h consolo no fato de ser livre para apreciar o milagre de ser.

- Sua voz est cheia de energia - notou Stuart -, mas acho tambm que isso  duro e frio.  um consolo glido, me arrepia.

O grupo estava intrigado. Sentia que Philip oferecia uma coisa de valor, mas, como sempre, as pessoas estavam confusas com o jeito estranho dele.

Aps um pequeno silncio, Tony perguntou a Julius: - Esse texto teve algum efeito em voc? Ofereceu alguma coisa, ajudou de alguma forma?

- No funciona para mim, Tony. Mas, como j disse, vocs esto tentando me dar algo que vale para vocs - disse, virando-se para Philip. - Percebo tambm que  a
segunda vez que me d uma coisa que no posso usar, o que deve ser frustrante para voc.

Philip concordou em silncio.

- Segunda vez? No me lembro da primeira, foi quando eu estava viajando? - perguntou Pam.

Vrias pessoas balanaram a cabea, negando. Ningum lembrava da primeira vez e Pam perguntou a Julius: - H alguma lacuna a ser preenchida?

- Philip e eu temos uma velha histria - disse Julius. - Grande parte do embarao de hoje acabaria se soubessem dessa histria, mas compete a voc contar, Philip.
Quando quiser.

- Acho que tudo deve ser discutido. Dou carta branca a voc - disse Philip.

- No, no sou eu quem deve falar. Para parafrasear voc, o exerccio seria mais rico se voc mesmo contasse. Acho que  sua obrigao e responsabilidade.

Philip esticou a cabea, fechou os olhos e, no tom e no jeito de quem recita um texto decorado, comeou: - Uns vinte e cinco anos atrs, marquei uma consulta com
Julius devido ao que hoje se chama vcio em sexo. Eu atacava as mulheres, era insacivel, quase s pensa v em sexo. Estava totalmente envolvido em conquistar mais
uma, sempre mais uma, porque depois que eu transava, perdia o interesse na mulher. Era como se o centro da minha vida fosse o instante de ejacular numa mulher. Depois
disso, sentia uma breve trgua da compulso e logo (s vezes, horas depois) precisava atacar outra vez.
    252

Cheguei a ter duas ou trs mulheres no mesmo dia. Estava desesperado. Queria tirar aquilo da minha cabea, pensar em outras coisas, me ocupar de alguns grandes pensadores
do passado. Eu era formado em qumica, mas queria ter uma cultura ampla. Busquei ajuda, a melhor e mais cara que havia, e fiz anlise semanal com Julius, s
vezes duas vezes por semana, durante trs anos, sem melhora.

Philip parou. O grupo estava agitado. Julius perguntou: Como
est, Philip? Quer falar mais ou basta por hoje?

- Estou timo - respondeu ele.

- De olhos fechados fica difcil, no sei se voc faz isso por medo de ver desaprovao na cara dos outros - disse Bonnie.

- No, fico assim para olhar para dentro e juntar meus pensamentos. E j disse que s a minha aprovao me interessa.

O grupo teve de novo aquela estranha sensao de Philip ser inatingvel. Tony tentou afastar essa impresso dando um assobio e acrescentando: - Gostei do seu toque,
Bonnie.

Ainda de olhos fechados, Philip continuou: - Pouco depois de desistir da terapia com Julius, recebi um bom dinheiro de uma aplice que meu pai fez para mim.
com isso, pude largar a qumica e me dedicar  leitura de toda a filosofia ocidental. Em parte, devido ao meu antigo interesse pelo tema, mas principalmente
por acreditar que a sabedoria dos maiores pensadores era a cura para o meu problema. Gostava de filosofia e logo vi que tinha encontrado minha verdadeira vocao.
Candidatei-me e fui aprovado para o doutorado em filosofia na Columbia. Foi nessa poca que Pam teve a infelicidade de me conhecer.

Ainda de olhos fechados, Philip parou e respirou fundo. Todos olhavam para ele e, de vez em quando, de esguelha para Pam, que, por sua vez, olhava para o cho.

- com o tempo, escolhi me concentrar na trindade dos verdadeiros grandes filsofos, Plato, Kant e Schopenhauer. Mas, no final, s ele me ajudou. O que dizia
era ouro puro e, alm disso, eu tinha uma grande afinidade pessoal. Como um ser racional que sou, rejeito a idia de reencarnao da forma como  considerada, mas,
se eu tivesse vivido antes, teria sido Arthur Schopenhauer. S de saber que
ele existiu j diminuiu a dor do meu isolamento.

 - Depois de ler e reler a obra dele por vrios anos, vi que tinha vencido meus problemas sexuais. Quando terminei o doutorado,
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o dinheiro que herdei de meu pai tinha acabado e precisei trabalhar. Ensinei em alguns lugares pelo pas e, anos atrs, voltei para San Francisco a convite da Coastal
University. Acabei me desinteressando pelas aulas porque nunca tive alunos  altura do tema ou de mim. At que, h uns trs anos, conclu que, como eu tinha sido
curado pela filosofia, poderia us-la para curar outras pessoas. Matriculei-me e fiz um curso de orientao, depois comecei um rpido treinamento clnico. At este
momento.

- Se Julius foi intil para voc, por que o procurou de novo? - perguntou Pam.

- Eu no o procurei, foi ele que me ligou.

Pam resmungou. - Quer dizer que Julius saiu do nada e telefonou para voc?

- No, no, Pam - disse Bonnie. - Isso  verdade: Julius contou quando voc estava viajando. No repito porque no entendi direito.

- Certo, ento eu continuo - disse Julius. - Tentarei lembrar. Depois que meu mdico deu a m notcia, passei alguns dias atordoado e procurei uma forma de aceitar
um cncer incurvel. Uma tarde, fiquei muito desanimado ao pensar no sentido da minha vida. Fiquei pensando que ia sumir no nada e ficar l para sempre. E que diferena
fiz para algum ou para qualquer coisa?

- No lembro de todos os elos de meus pensamentos mrbidos, mas sabia que tinha de arrumar algum sentido de vida, ou ia ficar mui to mal. Pensei em como tinha vivido
e que eu tinha uma sada, que era sair de dentro de mim, ajudar os outros a viver e a se completar. com mais clareza que nunca, percebi a centralidade de meu
trabalho de terapeuta e pensei horas nas pessoas s quais tinha ajudado. Todos os meus pacientes, antigos e novos, desfilaram pela minha cabea.

- Eu sabia que tinha ajudado muitos, mas ser que tive um impacto duradouro na vida deles? Era a pergunta que me perseguia. Acho que contei para o grupo, antes de
Pam voltar, que eu precisava saber essa resposta e resolvi procurar alguns antigos pacientes e
saber se fiz alguma diferena na vida deles. Sei que isso parece
maluquice.

 - Ento, mexendo nas pastas dos pacientes bem antigos, pensei tambm nos que no consegui ajudar. Que fim teriam levado, pen sei. Ser que eu poderia ter feito
mais por eles? Ento, tive a esperana
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de que alguns de meus fracassos tivessem tido um amadurecimento tardio, talvez tivessem obtido depois algum benefcio de nosso trabalho conjunto. Achei a pasta de
Philip e lembro que na hora pensei: "Se quero um fracasso, essa foi uma pessoa que realmente no ajudei, no cheguei nem a arranhar os problemas dele". Da, tive
uma enorme vontade de falar com ele e saber como estava, se eu tinha sido til a ele, afinal.

- Foi assim que voc ligou para ele, mas como veio parar no grupo? - perguntou Pam.

- Voc quer falar a partir desse ponto, Philip? - perguntou Julius.

- Acho que seria um exerccio mais rico se voc continuasse - disse Philip, sem qualquer sinal de sorriso.

Julius contou rapidamente os fatos que se seguiram: Philip disse que a terapia no teve qualquer valor e que seu verdadeiro analista tinha sido Schopenhauer, depois
o convite por e-mail para a palestra, o pedido de Philip para uma superviso...

- No entendi, Philip - interrompeu Tony. - Se voc no conseguiu nada na terapia com Julius, porra, por que quis a superviso dele?

- Julius perguntou isso vrias vezes - disse Philip. - A resposta  que, apesar de ele no ter me ajudado, reconheo que tem uma tcnica excelente. Talvez eu tenha
sido um paciente rebelde, resistente, ou talvez meu problema no cedesse com o, digamos, mtodo que ele usou.

- Certo, entendi. Mas interrompi voc, Julius - disse Tony.

- Estou terminando. Aceitei ser o supervisor com uma condio: que ele passasse seis meses no meu grupo de terapia.

- Voc no explicou por que fez essa exigncia - disse Rebecca.

- Notei a forma como ele se relacionou comigo e com os alunos e disse que seu jeito impessoal e frio impediria que fosse um bom terapeuta. No foi isso,
Philip?

- Sua frase exata foi: "Como voc pode ser terapeuta, se no sabe que merda existe entre voc e os outros?".

-  Muito bem - disse Pam.

-  bem o Julius - disse Bonnie.

 -  bem o Julius quando algum est incomodando - disse Stuart. - Voc estava incomodando, Philip?
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- No tive a inteno - respondeu Philip.

- Ainda no entendi tudo, Julius - disse Rebecca. - Sei por que chamou Philip e por que sugeriu que fizesse terapia de grupo. Mas por que o colocou no seu grupo
e concordou em fazer a superviso dele? Voc j tinha um prato cheio, por que assumir mais esse encargo?

- Hoje vocs esto duros. Essa  a grande pergunta e no sei como respond-la, mas tem algo a ver com redeno e acertar as coisas.

- Grande parte da conversa foi para me deixar a par dos fatos e agradeo - disse Pam. - S mais uma pergunta: voc disse que Philip lhe deu consolo duas vezes, ou
tentou dar. Ainda no sei qual foi a primeira vez.

- , comeamos a falar e no acabamos - disse Julius. - Assisti a uma palestra de Philip e aos poucos entendi que ela havia sido preparada especialmente para me
ajudar. Ele discutiu bastante um trecho de um romance onde um homem  morte encontrava muito consolo num trecho de Schopenhauer.

- Qual  o romance? - perguntou Pam.

- Os Buddenbrooks - respondeu Julius.

- E por que no foi til? - perguntou Bonnie.

- Por vrios motivos. Primeiro, a forma de Philip me oferecer esse consolo foi muito indireta, parecida com o texto de Epcteto.

- Julius, no quero ser chato, mas no  melhor falar direto com Philip? Adivinha quem me ensinou isso? - perguntou Tony.

 - Obrigado, Tony, voc tem toda razo. - Julius virou-se de frente para Philip. - Sua forma de me oferecer ajuda com uma palestra foi distante, to indireta
e to pblica. E muito inesperada porque tnhamos acabado de conversar por uma hora e voc parecia totalmente indiferente ao que estava acontecendo comigo. Essa
foi uma coisa. A outra foi o contedo do texto. No sou capaz de repetir, no tenho sua memria fotogrfica, mas o texto era sobre um ptriarca morrendo e tendo
uma revelao que acabava com a distncia entre ele e os outros. Assim, ele ficou consolado pela unidade da vida e
pela idia de que, aps a morte, voltaria
 fora vital de onde veio e assim manteria a ligao com tudo o que est vivo.  mais ou menos isso? - perguntou Julius para Philip, que concordou.
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- Bem, Philip, como j tentei dizer antes, essa idia no me deu qualquer consolo. Se minha conscincia acaba, ento pouco importa que minha energia vital ou as
molculas do meu corpo ou o meu DNA continue existindo no espao infinito. E se vai haver uma ligao, ento eu prefiro que seja em pessoa, na carne. - Olhou para
cada uma das pessoas do grupo e, por fim, para Pam - Ento, esse foi o primeiro consolo que Philip me ofereceu; o segundo foi a parbola que vocs receberam.

Aps um pequeno silncio, Julius acrescentou: - Hoje falei muito. O que vocs esto achando?

- Acho interessante - disse Rebecca.

- Eu tambm - disse Bonnie.

- So altas conversas, mas estou gostando - disse Tony.

- Sinto uma tenso aqui - observou Stuart.

- Tenso onde? - perguntou Tony.

- Entre Pam e Philip, claro.

- E muita entre Julius e Philip - acrescentou Gill, outra vez defendendo Philip. - Voc se sente ouvido, Philip? Acha que o que diz recebe a considerao que merece?

- Eu acho que, que, bem... - Philip estava indeciso, o que no era comum, mas logo recuperou a fluncia de sempre. - No  precipitado anular to depressa...

- Voc est falando com quem? - perguntou Tony.

- Certo - respondeu Philip. - Julius, no  precipitado anular to depressa um texto que ofereceu consolo para grande parte da humanidade durante sculos? Epcteto,
assim como Schopenhauer, achava que o apego excessivo aos bens materiais, s pessoas, ou at a si mesmo  a maior causa de sofrimento. E o sofrimento no pode ser
reduzido se evitarmos o apego? Alis, essa  a base do ensinamento de Buda.

- Boa pergunta, Philip, vou pensar bem nisso. Voc diz que est me dando uma coisa boa que eu rejeito, o que faz voc se sentir desvalorizado. Certo?

- No falei em desvalorizao.

 - No disse alto. Estou deduzindo, seria uma reao bastante humana. Desconfio que, se voc olhar dentro de voc, vai encontrar esse sentimento.
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- Pam, voc revirou os olhos como quem no est gostando - disse Rebecca. - Essa conversa sobre apego faz lembrar a meditao na ndia? Julius e Philip, vocs no
estavam depois da sesso, quando Pam contou Ao ashram.

-  mesmo - disse Pam. - Eu no agentava mais me desapegar de tudo, inclusive da idia doida de que podemos separar nosso apego do nosso eu. Acabei achando que
era tudo uma grande negao da vida. E aquele texto que Philip deu, qual  a mensagem? Quer dizer, que tipo de viagem, que tipo de vida voc leva se est to preocupado
com a partida do navio que no pode aproveitar o que h em volta, nem desfrutar das outras pessoas? Acho que voc, Philip, tem como soluo para os seus problemas
renunciar  vida - disse ela, virando-se para Philip. - Voc no vive, no ouve os outros e, quando fala, no parece que estou ouvindo algum vivo, respirando.

Gill pulou em defesa de Philip: - Pam, voc fala em ouvir, mas no sei se ouve muito os outros. Ouviu que anos atrs Philip esteve muito mal? Que venceu problemas
e compulses? Que no melhorou com trs anos inteiros de terapia com Julius? Que fez o que voc fez no ms passado e que qualquer um de ns faria, isto ,
procurou outro tipo de tratamento? E que finalmente recebeu ajuda de um enfoque diferente, que no  uma falsa soluo da moda da Nova Era? E que agora est tentando
oferecer a Julius algo parecido com o que o ajudou?

O grupo ficou calado com a exploso de Gill. Alguns instantes depois, Tony disse: - Gill, voc hoje est demais! Pegando no p da Pam. No gostei, cara. Mas
gosto do jeito que voc tem falado aqui; espero que isso melhore sua vida com Rose.

- Philip - disse Rebecca -, desculpe eu ter sido to agressiva. Estou mudando de idia sobre esse texto do... do Epreto.

- Epcteto - corrigiu Philip com uma voz mais suave.

- Epcteto, obrigada - e continuou: - Fiquei pensando, essa histria de apego ajuda a entender umas coisas minhas. Acho que estou com excesso de apego, no a
bens, mas  aparncia. Meu rosto bonito sempre facilitou as coisas para mim, tive muito apoio, fui rainha da formatura, rainha da volta para casa, ganhei concursos
de beleza e agora que a beleza est acabando...

- Acabando? - disse Bonnie.  - Pode passar as sobras para mim.
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- Troco voc por mim a qualquer hora, com todas as minhas jias e filhos, se tivesse - disse Pam.

- Obrigada. Muito obrigada. Mas tudo  muito relativo. Sou apegada  minha aparncia, eu sou a minha cara e agora que ela est ficando menos, eu tambm estou menos.
Est sendo muito difcil dispensar as vantagens que a beleza me proporcionava.

- Uma das idias de Schopenhauer que me ajudou - disse Philip

- foi que a relativa felicidade tem trs origens: o que se , o que se tem e o que se  para os outros. Ele sugere que nos fixemos apenas no primeiro item, no
em
ter e no que os outros pensam de ns, porque no podemos controlar essas coisas, elas podem e sero tiradas de ns, da mesma forma que o envelhecimento vai levando
a beleza. Na verdade, diz ele, possuir tem um outro lado, pois o que possumos acaba nos possuindo.

- Interessante, Philip - cumprimentou Rebecca. - As trs coisas (o que somos, o que temos e o que somos para os outros) tm a ver comigo. Passei a maior parte da
minha vida presa a essa terceira parte, o que os outros pensam de mim. Confesso outro segredo: meu perfume mgico. Nunca disse a ningum, mas sempre sonhei em fabricar
um perfume chamado Rebecca, feito com a minha essncia que no evapora; quem sentisse esse perfume pensaria na minha beleza.

- Rebecca, voc est tendo coragem de falar. Gostei - disse Pam.

- Eu tambm - disse Stuart. - vou contar uma coisa indita: gosto de olhar para voc, mas percebo agora que a sua beleza  um obstculo para ver ou conhecer voc,
da mesma forma que talvez haja um obstculo quando a mulher  feia ou infeliz.

- Puxa, isso  chocante. Obrigada, Stuart.

- Rebecca, saiba que tambm estou emocionado por nos confiar o sonho do perfume - disse Julius. - Mostra o crculo vicioso que voc criou. Confunde a sua beleza
com a sua essncia. O que acontece ento, como notou Stuart,  que as pessoas no relacionam voc com a sua essncia, mas com a sua beleza.

- Esse crculo vicioso me deixa sem saber se existe alguma coisa dentro. Ainda estou impressionada com a sua frase outro dia, Julius, "a bela mulher vazia sou
exatamente eu".

- S que o crculo vicioso pode estar se rompendo - disse Gill.

 - Nas ltimas semanas, aprendi mais sobre voc, quer dizer, mais profundamente, do que no ano passado inteiro.
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- Eu tambm e, falando srio, peo desculpas por contar dinheiro quando voc falou naquela histria em Las Vegas. Fui idiota - disse Tony.

- Desculpas recebidas e aceitas - disse Rebecca.

- Hoje voc teve bastante retorno, Rebecca - disse Julius. - Como se sente?

- tima,  bom isso. As pessoas esto me tratando de outro jeito.

- No somos ns,  voc - disse Tony. - Se manda coisa boa, recebe coisa boa.

- Manda coisa boa, recebe coisa boa. Gostei, Tony - disse Rebecca. - Olha, voc est ficando bom nesse negcio de terapia, talvez eu comece a juntar dinheiro.
Quanto voc cobra?

Tony abriu um largo sorriso. - J que estou na berlinda, vou dizer o que acho, Julius, de voc aceitar Philip outra vez. Talvez, quando voc o conheceu, anos
atrs, estivesse mais prximo daquela situao que nos contou na semana passada, de muito desejo de sexo com vrias mulheres.

Julius concordou: - Continue.

- Olha o que pensei: se voc estava numa situao parecida com a de Philip, no igual, mas do mesmo tipo, ser que no atrapalhou a terapia com ele?

Julius se aprumou na cadeira. Philip tambm. - Voc me faz ver isso, Tony. Comeo a entender por que os terapeutas no gostam de fazer revelaes pessoais, quer
dizer, as coisas no somem, o que voc conta volta para assustar voc outra vez e mais outra.

- Desculpe, Julius, eu no queria colocar holofotes em voc.

- No, no tem problema. Falei srio, no  reclamao, talvez esteja apenas me esquivando. Sua observao  muito boa, talvez boa demais, certa demais, estou resistindo
um pouco. - Julius parou e pensou um instante.  - Bom, acho o seguinte: lembro que, naquela poca, fiquei surpreso e aborrecido por no ter ajudado Philip. Eu
devia ajud-lo. Quando comeamos a terapia, achava que iria ajudlo bastante. Achava que eu tinha uma boa pista para ajud-lo. E tinha certeza de que minha experincia
pessoal iria facilitar.

- Talvez por isso voc convidou Philip para o grupo, para tentar de novo, ter outra oportunidade, no? - perguntou Tony.

 - Tirou as palavras da minha boca - disse Julius. - Ia dizer isso, talvez seja o motivo para meses atrs, quando pensava
em quem
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ajudei e quem no ajudei, eu ficar to fixado em Philip. Na verdade, quando pensei nele, perdi o interesse em procurar outros pacientes.

- Olha a hora. Detesto ter de terminar a sesso, mas precisamos parar. Foi uma boa sesso, tenho muita coisa para pensar. Tony, voc me abriu algumas portas. Agradeo.

- Ento hoje no preciso pagar? - perguntou Tony.

- Bem-aventurado o que d - disse Julius. - Mas, quem sabe? Continue assim que esse dia chegar.

Aps sair da sala, o grupo ficou conversando na escada da casa e se dispersou. S Tony e Pam foram  lanchonete.

Pam estava fixada em Philip. No adiantou ele dizer que foi uma infelicidade terem se encontrado. Alm disso, detestou ser cumprimentada pela interpretao da parbola
e detestou mais ainda ter merecido. Achava que o grupo estava se aproximando de Philip e se afastando dela e de Julius.

Tony estava orgulhoso e se elegeu o MSG (o melhor sujeito do grupo). Talvez no fosse ao bar naquela noite e ficasse em casa lendo um dos livros que Pam emprestou.

Gill olhou Pam e Tony descendo a rua juntos. Gill (e Philip, claro) foram os nicos que ela no abraou no final da sesso. Ser que tinha sido muito agressivo com
ela? Lembrou da degustao de vinho da noite seguinte, um dos grandes eventos promovidos por Rose. Os amigos dela sempre se reuniam nessa poca do ano para degustar
os melhores vinhos da safra. Como resolver aquela situao? Dava um gole e cuspia? No seria fcil. Ou, simplesmente, contava a verdade? Pensou em seu padrinho nos
AA; sabia exatamente como seria a conversa com ele:

PADRINHO: O que  mais importante para voc? No v  degustao, v a uma reunio.

GILL: Mas os amigos dela s se renem para degustar vinhos. PADRINHO: ? Sugira outro motivo para se reunirem. GILL: No adianta. Eles no vo aceitar.

PADRINHO: Ento, arrume outros amigos. GILL: Rose no vai gostar. PADRINHO: E da?
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Rebecca pensou: Manda coisa boa, recebe coisa boa. Manda boa, recebe boa. Tenho de lembrar disso. Sorriu ao lembrar de Tony contando dinheiro quando ela disse que
quis virar prostituta. No fundo, tinha gostado da brincadeira. Ser que foi m-f aceitar o pedido de desculpas?

Como sempre, Bonnie detestava que a sesso terminasse. Ela se sentia viva naqueles noventa minutos. Fora dali, a vida era to morna. Por qu? Por que a maioria das
bibliotecrias tinha que ter vida chata? Pensou no que Philip disse sobre o que somos, o que temos e o que representamos para os outros. Curioso!

Stuart gostou da sesso. Estava entrando de cabea no grupo. Pensou no que disse para Rebecca, da aparncia dela ser um obstculo para conhec-la e que nos ltimos
tempos tinha encontrado mais profundidade nela. Aquilo foi bom. Foi bom mesmo. E dizer a Philip que sentiu um arrepio com aquele consolo glido que ele
deu. Isso foi mais do que tirar uma foto. E tambm o fato de indicar a tenso que havia entre Pam e Philip. No, no, isso foi s foto.

A caminho de casa, Philip se esforou para no pensar na sesso, mas as coisas tinham sido muito fortes, era impossvel no pensar nelas. No agentou e comeou
a lembrar de tudo. O velho Epcteto tinha agradado o pessoal. Sempre agrada. Depois, pensou em mos estendidas e rostos virados para ele. Gill tinha virado seu defensor,
mas no era para levar a srio. No  que Gill fosse a favor dele, era contra Pam, tentava aprender a se defender dela, de Rose e de todas as mulheres. Rebecca tinha
gostado do que ele disse. Pensou um instante naquele rosto bonito. E pensou em Tony, as tatuagens, o rosto machucado. Jamais conheceu uma pessoa assim, um verdadeiro
primitivo, mas que comea a entender o mundo alm do dia-a-dia. E Julius, ser que estava perdendo a perspiccia? Como podia defender o apego enquanto admitia seus
problemas de investir demais em Philip como paciente?

Philip se sentiu inquieto, mal na prpria pele. Corria perigo de desmontar. Por que foi dizer a Pam que tinha sido falta de sorte conhec-lo? Por isso ela falou
tanto nele na sesso e exigiu que olhasse para ela? Seu antigo e depreciado eu pairava acima dele como um fantasma. Sentiu a presena dele, sedenta de vida. Philip
acalmou-se e seguiu pensando para casa.
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*** 33

Eruditos e filsofos europeus: vocs acham que um saco de vento como Fitche  igual a Kant, o maior pensador de todos os tempos, e um charlato descarado e imprestvel
como Hegel  um grande pensador. Portanto, no foi para vocs que escrevi.

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SOFRIMENTO, RAIVA, PERSEVERANA

Se Arthur Schopenhauer fosse vivo hoje, seria candidato a uma psicoterapia? Claro! Ele tinha muitos sintomas. Em A meu respeito, lamenta que a natureza tivesse
lhe dado um temperamento ansioso e uma "desconfiana, sensibilidade, impetuosidade e orgulho incompatveis com a serenidade de um filsofo". Descreve bem seus
sintomas.

Herdei de meu pai a ansiedade que abomino e combato com todas as foras. (...) quando jovem, me torturava com doenas imaginrias. (...) na poca em que
estudava em Berlim, achei que estava tuberculoso. (...) tinha pavor de ser obrigado a fazer o servio militar. (...) sa de Npoles por medo de varola e de Berlim
por medo da clera. (...) em Verona, fiquei obcecado com a idia de ter cheirado rap envenenado. (...) em Manheim, senti um medo enorme, sem qualquer motivo
concreto. (...) durante anos, tive medo de cometer um crime. (...) se ouvia um rudo  noite, pulava da cama e pegava a espada e as pistolas, que estavam sempre
carregadas. (...) sinto uma ansiedade
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que me faz ver perigos onde no h e isso aumenta qualquer aborrecimento e faz com que eu tenha enorme dificuldade em me comunicar com as pessoas.

Para amenizar sua desconfiana e seu medo crnicos, Arthur dispunha de um arsenal de precaues e rituais: escondia moedas de ouro e aplices dentro de cartas antigas
e outros lugares secretos para usar em alguma emergncia; disfarava seus escritos pessoais com ttulos enganosos para confundir os bisbilhoteiros; era extremamente
arrumado e limpo; exigia ser atendido sempre pelo mesmo caixa no banco; no deixava que ningum tocasse em sua esttua de Buda.

Tinha uma sexualidade muito intensa e, mesmo quando jovem, lastimava ser dominado por sentimentos animalescos. Aos trinta e seis anos, uma misteriosa doena o obrigou
a ficar sem sair de casa um ano inteiro. Em 1906, um mdico e historiador de medicina concluiu que ele teve sfilis, com base nos remdios que foram receitados
e no histrico de grande atividade sexual do paciente.

Arthur queria se livrar do sexo. Gostava dos momentos de serenidade, quando podia observar o mundo com calma, e abominava o anseio sexual que atormentava seu
corpo. Comparava o desejo  luz do dia, que esconde as estrelas.  medida que envelheceu, apreciou o declnio do desejo e a tranqilidade advinda.

Como seu maior prazer era trabalhar, teve sempre muito medo de perder a segurana financeira que lhe permitia viver s do intelecto. Mesmo depois de velho, abenoava
o pai que lhe permitiu levar aquela vida e despendia muito tempo e energia guardando o dinheiro e avaliando os investimentos. Por isso, assustava-se com qualquer
distrbio que ameaasse seus investimentos, e passou a ser ultraconservador em poltica. Ficou apavorado com a revolta de 1848, que atingiu a Alemanha e o resto
da Europa. Soldados entraram no prdio onde ele morava para atirar do alto no povo rebelado na rua; ele ento ofereceu seu binculo de teatro para garantir que os
tiros fossem mais certeiros. Vinte anos depois, ao fazer o testamento, deixou quase todos os bens para um fundo de ajuda aos soldados prussianos mutilados ou aleijados
ao conter essa revolta.

Suas preocupadas cartas de negcios costumavam ser agressivas e cheias de ameaas. O banqueiro que cuidava das finanas dos Schopenhauer
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(me e filhos) sofreu um revs financeiro e, para no falir, ofereceu a seus investidores s uma parte do que deveriam receber. Mas Schopenhauer
fez ameaas legais to duras que o banqueiro devolveu ao filsofo setenta por cento do que devia e pagou aos demais investidores (inclusive  me e  irm) menos
ainda do que havia prometido. As cartas agressivas que escrevia para seu editor acabaram causando um rompimento definitivo. O editor escreveu: "No lerei mais suas
cartas, sua enorme rudeza e grosseria fazem crer que seja um cocheiro e no um filsofo. (...) S espero que no se confirmem meus temores de que, imprimindo sua
obra, eu esteja imprimindo apenas rebotalhos".

A ira de Schopenhauer era famosa: contra os financistas que lidavam com os investimentos dele; contra os editores que no vendiam seus livros; os idiotas que
tentavam conversar com ele; os bpedes que se consideravam iguais a ele; os que tossiam durante os concertos; a imprensa que o ignorava. Mas sua maior raiva,
a ira furibunda cuja veemncia impressiona at hoje e fez dele um pria em sua comunidade intelectual, era contra os pensadores da poca, principalmente os dois
filsofos do sculo XX: Fichte e Hegel.

Num livro publicado vinte anos depois de Hegel ter morrido de clera na epidemia que atingiu Berlim, ele se refere ao filsofo como "um banal, oco, asqueroso, repulsivo
e ignorante charlato, que cometeu a afronta inigualvel de escrever um conjunto de absurdos loucos, que foi trombeteado por seus seguidores mercenrios no exterior
como sendo uma sabedoria eterna".

Pagou caro por esses rompantes destemperados contra outros filsofos. Em 1837, ele ganhou o primeiro lugar pelo ensaio A autonomia da vontade, num concurso patrocinado
pela Real Sociedade Norueguesa de Cincias. Schopenhauer demonstrou uma alegria infantil com o prmio (o primeiro que recebeu) e deixou o cnsul noruegus em
Frankfurt muito constrangido por exigir impacientemente que a medalha lhe fosse entregue logo. No ano seguinte, seu ensaio sobre a base da moralidade, num concurso
da Real Sociedade Dinamarquesa de Cincias, teve outro resultado. Embora o ensaio fosse excelente, alm de o nico inscrito, no foi premiado pelo jri devido s
observaes descabidas sobre Hegel. Os jurados observaram que "no podemos deixar sem resposta o fato de grandes filsofos da era moderna
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serem tratados de forma to imprpria, causando sria e compreensvel ofensa".

com o tempo, muitos concordaram com Schopenhauer que a prosa de Hegel no precisava ser to confusa. Na verdade, os textos dele so to difceis que circula
uma velha piada nos departamentos de filosofia das faculdades. L, a maior e mais terrvel dvida filosfica no  "Qual o sentido da vida?" ou "O que  conscincia?",
mas "Quem vai ensinar Hegel esse ano?". Mesmo assim, a veemncia de Schopenhauer vai muito alm de todos os outros crticos.

Quanto menos ateno sua obra dele recebia, mais irritado ficava, causando mais desateno e transformando-se em motivo de piada para muitos. Mas, apesar de sua
ansiedade e solido, Schopenhauer sobreviveu e continuou a demonstrar todos os sinais exteriores de prepotncia. Continuou sendo um intelectual produtivo at morrer.
Nunca perdeu a confiana em si mesmo. Comparava-se a um rebento de carvalho que parecia to simples e comum quanto as outras plantas. "Mas deixe-o em paz, ele no
morrer. Chegar o dia em que haver quem o valorize." Previu que seu talento teria grande influncia nos pensadores do futuro. Estava certo.
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*** 34

Visto da juventude, a vida  um longo futuro; a partir da velhice, parece um curto passado. Quando partimos num navio, as coisas na praia vo diminuindo e ficando
mais difceis de distinguir; o mesmo ocorre com todos os fatos e atividades de nosso passado.

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Julius foi ficando cada vez mais ansioso pela sesso semanal do grupo. Talvez suas experincias no grupo fossem mais dolorosas porque as semanas de seu ano "saudvel"
estavam acabando. No apenas os acontecimentos no grupo, mas tudo na vida dele, as pequenas e as grandes coisas, pareciam mais ternas e intensas. Claro, a quantidade
de semanas que ele viveria sempre foi a mesma, mas parecia grande e to esticada num futuro eterno que ele jamais enxergou o final.

Quando estamos perto do fim, sempre damos uma parada. Os leitores percorrem rpido as centenas de pginas de Os irmos Karamazov at chegarem s ltimas e ento
diminuem o ritmo, saboreando lentamente cada pargrafo, sugando o nctar de cada frase, cada palavra. O fato de no ter muitos dias pela frente fez com que Julius
valorizasse o tempo e contemplasse cada vez mais, pasmo, a milagrosa seqncia de fatos de cada dia.

Pouco antes, tinha lido o artigo de um entomologista que explorou o universo de vida dentro de quatro metros quadrados de gramado isolados por cordas. Depois de
cavar bastante, ele ficou surpreso com o dinmico e fervilhante mundo de predadores e presas, nematidcs, miripodes, insetos saltadores, besouros-encouraados e
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aranhas minsculas. Se tiramos a perspectiva e, alm disso, prestamos ateno e temos bastante conhecimento, entramos nacotidianice num perptuo estado de encantamento.

O mesmo ocorreu com ele no grupo. Diminuram seus temores do melanoma piorar, passou a ter menos ataques de pnico. Talvez seu maior consolo fosse porque levava
ao p da letra, quase como uma garantia, a avaliao do mdico de "um ano bom". Era mais provvel que sua vida fosse ativo-leve. Seguindo o mesmo caminho de
Zaratustra, ele tinha compartilhado seu amadurecimento, conseguido se aproximar dos outros e vivia de um jeito que gostaria de repetir pela eternidade.

Sempre gostou de imaginar o caminho que os grupos de terapia tomariam na semana seguinte. Naquele momento, com seu ltimo ano bom visivelmente no fim, todos
os sentimentos tinham se intensificado: sua curiosidade passou a ser uma expectativa pueril pela prxima sesso. Lembrava que, anos antes, quando dava aulas sobre
terapia de grupo, os alunos iniciantes reclamavam do tdio de observar pacientes falando durante noventa minutos nas sesses. Mais tarde, quando aprenderam a ouvir
o drama de cada paciente e a admirar a estranha e complexa interao entre eles, o tdio acabou e bem antes da hora os alunos j estavam  espera do prximo grupo.

O fato de saber que o grupo ia terminar fazia com que as pessoas tratassem seus assuntos mais importantes com ardor cada vez maior. Era conseqncia do prazo
marcado da terapia, da pioneiros como Otto Rank e Carl Rogers sempre darem a data de trmino j no incio do tratamento.

Stuart trabalhou mais naqueles meses do que nos trs anos anteriores da terapia. Talvez Philip o tivesse apressado, servindo de espelho para ele. Ele se via um pouco
na misantropia de Philip e percebeu que todo o grupo (menos eles dois) tinha prazer nas sesses e as considerava um refgio, um lugar de apoio e afeto. S os dois
participavam por obrigao: Philip, para ter a superviso, e Stuart, porque a mulher exigiu.

Numa sesso, Pam comentou que o grupo nunca foi um crculo completo porque Stuart estava sempre com a cadeira um pouco para trs, s vezes poucos centmetros;
em outras, muitos. Os demais concordaram, tinham percebido aquela assimetria, mas nunca a associaram  dificuldade de Stuart de se aproximar.
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Em outra sesso, Stuart reclamou como sempre, contando do apego que a mulher tinha com o pai dela, um mdico que passou de chefe de departamento de cirurgia
a reitor de faculdade de medicina e presidente de universidade. Stuart continuou falando, como tinha feito nas sesses anteriores, da impossibilidade de merecer
a admirao da mulher, pois ela sempre o comparava com o pai. Julius interrompeu para perguntar se ele notava que j havia contado aquilo vrias vezes.

Stuart respondeu: - Mas no devemos tratar coisas que continuam incomodando? Ou no? - Julius ento fez uma pergunta forte: - O que achou que sentiramos com
a repetio?

- Que iam achar um tdio, uma coisa chata.

- Pense nisso, Stuart. Qual  a vantagem de voc ser um tdio ou um chato? Depois, pense porque as pessoas no se interessam em ouvi-lo.

Durante a semana, Stuart refletiu bastante e depois relatou que estava surpreso de ver que tinha dado pouca importncia ao assunto. - Minha mulher acha que sou chato,
o adjetivo preferido dela para me definir  "ausente" e acho que o grupo est dizendo a mesma coisa. Sabem, acho que guardei a empfia no fundo do ba.

Pouco depois, Stuart falou num problema importante: sua raiva inexplicvel e crescente em relao ao filho de doze anos. Tony abriu uma caixa de Pandora ao perguntar:
- Como voc era quando tinha a idade de seu filho?

Stuart contou que foi pobre, o pai morreu quando tinha oito anos, a me trabalhava em dois lugares e jamais estava em casa quando ele chegava da escola. Assim, foi
uma criana largada, que fazia a prpria comida e usava as mesmas roupas velhas todo dia para ir  escola. Ele tinha conseguido quase no lembrar da infncia, mas
o filho fez com que voltassem coisas muito ruins, esquecidas h tempos.

- Culpar meu filho  loucura, mas sinto inveja e mgoa da vida privilegiada que ele tem - confessou Stuart. Tony ajudou a romper a raiva mostrando a situao por
outro ngulo: - Que tal ter orgulho da vida melhor que voc pode dar ao seu filho?

Quase todo o grupo tinha melhorado com a terapia. Julius j havia percebido h tempos que, quando os grupos atingem um amadurecimento, todos parecem melhorar
ao mesmo tempo. Bonnie lutava
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para aceitar um grande paradoxo: a raiva que tinha do ex-marido por t-la deixado e o alvio por se livrar de uma relao com um homem a quem desprezava.

Gill freqentava os A. .A. diariamente, foram setenta reunies em setenta dias, mas a abstinncia aumentou suas dificuldades conjugais, em vez de diminu-las. Isso
no era novidade para Julius, claro: sempre que um cnjuge melhora na terapia, altera o equilbrio do relacionamento que, para se manter, precisa que o outro tambm
mude. Gill e Rose tinham feito terapia conjugal, mas ele achava que ela no podia mudar. Mas no estava mais apavorado com a idia de o casamento acabar; entendeu
pela primeira vez uma das frases preferidas de Julius: "O nico jeito de salvar o casamento  conseguir (e ser capaz) de larg-lo".

Tony continuava numa velocidade incrvel, como se a fora que se exauria de Julius fosse canalizada direto para ele. Incentivado por Pam e reforado por todo o resto
do grupo, parou de reclamar de ser ignorante e tentou resolver, ou seja, tratou de estudar. Matriculou-se em trs cursos noturnos na faculdade prxima.

Por mais emocionantes e gratificantes que fossem essas amplas mudanas, a ateno de Julius continuava em Philip e Pam. No sabia por que o relacionamento dos dois
ficou to importante para ele, mas tinha certeza de que os motivos iam alm do pessoal. s vezes, quando pensava nos dois, lembrava da
frase do Talmude: "Salvar
uma pessoa  salvar o mundo todo". A importncia de salvar o relacionamento deles aumentou muito; alis, tornou-se sua razo de viver. Era como se salvasse a prpria
vida, salvando alguma coisa humana nos destroos daquele horrvel encontro de anos. Pensando na frase do Talmude, pensou em Carlos, um jovem que foi paciente dele
alguns anos antes. No, tinha sido h muitos anos, pelo menos dez, j que lembrava de comentar sobre ele com Mriam. Era um rapaz muito desagradvel, grosseiro,
egosta, sem graa, com mania de sexo, que procurou a terapia quando soube que estava com um linfoma mortal. Julius ajudou-o a mudar algumas coisas importantes,
sobretudo na rea dos relacionamentos, o que permitiu que ele desse um sentido a todo o seu passado. Horas antes de morrer, Carlos disse a Julius: - Obrigado por
salvar minha vida. - Julius pensou muitas vezes em Carlos, mas naquele momento a vida assumia um novo e grave sentido no s para Philip e Pam, mas para salvar a
vida dele prprio tambm.
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Philip parecia menos arrogante e mais prximo do grupo, chegava a olhar para quase todas as pessoas, menos para Pam. Os seis meses de terapia que haviam combinado
se passaram e Philip no falou em sair por ter cumprido o prazo. Julius tocou no assunto, e ele respondeu: - Para minha surpresa, a terapia de grupo  um fenmeno
bem mais complexo do que eu pensava. Preferia que voc supervisionasse meu trabalho com pacientes enquanto ainda estivesse no grupo, mas voc no quis devido
aos problemas do "duplo relacionamento". Prefiro continuar no grupo por um ano e depois pedir superviso.

- Aceito seu plano, mas tudo depende da minha sade, claro - disse Julius. - O grupo termina daqui a quatro meses e depois disso veremos. Minha garantia de sade
foi s por um ano.

Era comum ocorrer aquela impresso diferente que Philip teve ao participar de um grupo. As pessoas costumam entrar com uma finalidade definida, como, por exemplo,
dormir melhor, no ter mais pesadelos, perder uma fobia. Mas, em poucos meses de grupo, assumem novas e mais amplas metas, como, por exemplo, aprender a amar, a
recuperar o prazer de viver, a vencer a solido, a gostar de si mesmas.

De vez em quando, o grupo insistia para Philip contar melhor como Schopenhauer o ajudou tanto, j que a psicoterapia com Julius no conseguiu. Philip tinha dificuldade
de falar em Schopenhauer sem informar um pouco sobre filosofia, por isso sugeriu ao grupo dar uma palestra de meia hora sobre o filsofo. O grupo reclamou e Julius
ento props informar o mais importante de forma resumida e simples.

Na sesso seguinte, Philip fez uma breve exposio que, prometeu, mostraria logo como Schopenhauer o havia ajudado.

Ele segurava uma notas, mas falou sem consult-las. Olhando para o teto, comeou: - No  possvel falar em Schopenhauer sem comear por Kant, o filsofo que, junto
com Plato, respeitava os outros acima de tudo. Kant morreu em 1804, quando Schopenhauer tinha dezesseis anos, e revolucionou a filosofia com a concluso
de que  impossvel sentirmos a realidade em qualquer sentido verdadeiro porque todas as nossas percepes, nossas informaes sensoriais, so filtradas e processadas
pelo nosso mecanismo neuroanatmico. Todas as informaes so conceituadas por elaboraes arbitrrias como espao e tempo e...
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- Anda, Philip, vai contar como esse sujeito o ajudou? - perguntou Tony.

- Espere, j chego l. Falei s trs minutos, isso no  o jornal da tev. No posso explicar num segundo as concluses de um dos maiores pensadores do mundo.

- Muito bem, Philip, gostei da resposta - disse Rebecca. Tony sorriu e aceitou a crtica.

- A descoberta de Kant foi que, em vez de percebermos o mundo como ele , temos nossa verso pessoal do que . Propriedades como espao, tempo, quantidade, causalidade
esto em ns e no no mundo, ns as impomos  realidade. Mas, ento, qual  a realidade pura? O que est no mundo, aquela entidade pura, antes de ns a processarmos?
Kant disse que jamais saberemos.

- Mas como Schopenhauer ajudou voc? Lembra que ia contar? Estamos chegando l? - insistiu Tony.

- Daqui a noventa segundos. Em sua obra, Kant e outros filsofos deram ateno s formas em que processamos a realidade.

- Mas Schopenhauer (pronto, chegamos a ele!) fez outro caminho. Ele viu que Kant tinha omitido uma informao fundamental e imediata sobre ns mesmos: o corpo e
os sentimentos. Insistia que podemos nos conhecer a partir dentro. Temos um conhecimento direto e imediato, que no depende de nossas percepes. Assim, foi o primeiro
filsofo a olhar impulsos e sentimentos a partir de dentro, e pelo resto da vida escreveu muito sobre as preocupaes interiores: sexo, amor, morte, sonhos, sofrimento,
religio, suicdio, relaes com os outros, vaidade, auto-estima. Mais que qualquer outro filsofo, ele tratou daqueles impulsos sombrios que ficam l no fundo,
que no suportamos encarar e por isso precisamos reprimir.

- Parece meio freudiano - disse Bonnie.

 - Pelo contrrio,  mais certo dizer que Freud  Schopenhauer, tal a quantidade de psicanlise freudiana existente em Schopenhauer. Embora Freud quase no tenha
reconhecido essa influncia, no h dvida que conhecia bem os escritos do filsofo. Nas dcadas de 1860 e 1870, quando Freud estudava em Viena, todo mundo falava
em Schopenhauer. Na minha opinio, sem Schopenhauer no haveria Freud, como, alis, no existiria Nietzsche da forma como conhecemos. Alis, a influncia de Schopenhauer
sobre Freud, principalmente
    272

na teoria dos sonhos, no inconsciente e nos mecanismos de represso, foi tema da minha dissertao de doutorado.

- Schopenhauer - continuou Philip, olhando de esguelha para Tony e falando rpido para no ser interrompido - resolveu minha sexualidade. Fez com que eu visse
que o sexo est em tudo e que, em nvel mais profundo,  o centro de tudo o que fazemos, permeando todas as relaes humanas, influenciando at questes de estado.
Citei h uns meses o que ele disse sobre o tema.

- Para confirmar o que voc diz - atalhou Tony. - Li outro dia no jornal que a indstria da pornografia fatura mais do que a da msica e do cinema.
 incrvel.

 - Philip, j d para supor, mas ainda no ouvi voc dizer exatamente como Schopenhauer ajudou voc a se curar da compulso sexual
ou, hum, do seu vcio em sexo, posso usar essa palavra? - perguntou Rebecca.

- Tenho que pensar, no sei se vcio seria a palavra adequada -

respondeu Philip.

- Por qu? Para mim, do jeito que voc contou, parecia um vcio.

 - Bom, desdobrando a informao que Tony deu, voc sabe quantos homens acessam sites de pornografia na Internet?

- Voc acessa? - perguntou Rebecca.

- No, mas poderia, no passado, como fazem quase todos os homens.

- Confesso que acesso duas ou trs vezes por semana. Alis, no conheo homem que no faa isso - disse Tony.


- Nem eu - disse Gill. - Mais uma coisa para irritar minha mulher.

TTodos olharam para Stuart: - Sim, sim, confesso que tambm vejo muita pornografia na Internet.

-  isso. Ento todo mundo  viciado? - perguntou Philip.

  - Bom, entendi o que voc quer dizer - disse Rebecca. - No  s a pornografia, existe tambm a epidemia de processos judiciais por assdio sexual. J atuei
em vrios. Outro dia, li no jornal que o reitor de uma grande faculdade de Direito renunciou ao cargo por acusao de assdio. E, claro, h o caso Monica Lewinsky
e como a grande voz de Bill Clinton foi quase silenciada. Mas quantos perseguidores de Clinton fizeram a mesma coisa?
    273

- Todo mundo tem uma vida sexual sombria - disse Tony. - Quem no tem? Talvez os machos estejam apenas sendo machos. Olha, passei um tempo na cadeia, s por exagerar
um pouco, querendo que Lizzie me chupasse. Conheo muitos caras que fizeram pior e no sofreram nada, pensa no Schwarzenegger.

- Tony, voc est sendo agressivo com as mulheres presentes ou pelo menos com essa que vos fala - disse Rebecca. - Mas no quero sair do assunto. Philip,
continue, voc ainda no contou.

- Primeiro - prosseguiu Philip, sem titubear -, em vez de criticar esse comportamento perverso, h duzentos anos Schopenhauer entendeu a realidade que estava por
trs: a simples e enorme fora do sexo. O sexo  nosso maior impulso (o de viver e se reproduzir), no pode ser reprimido. No pode ser afastado com argumentos.
J falei como Schopenhauer observa que o sexo se infiltra em tudo. Vejam o escndalo dos padres catlicos pedflos, pensem em todas as reas de atuao humana,
todas as profisses, todas as culturas, todas as pocas. Perceber isso foi muito importante para mim, assim que conheci a obra de Schopenhauer: ele, uma das grandes
inteligncias do mundo fez com que, pela primeira vez na vida, eu me sentisse totalmente compreendido.

- Ento? - perguntou Pam, que esteve calada.

- Ento o qu? - devolveu Philip, sensivelmente nervoso, como sempre que Pam se dirigia a ele.

- O que mais? Foi s isso? Melhorou porque Schopenhauer lhe compreendeu?

Philip pareceu no entender a ironia de Pam e respondeu com calma e sinceridade. - Foi muito mais. Schopenhauer me fez ver que estamos condenados a girar sempre
na roda da vontade: desejamos uma coisa, conseguimos, desfrutamos um instante de satisfao que logo passa a tdio e seguimos para o prximo "eu quero". O desejo
no acaba, seria preciso pular da roda da vontade. Foi o que fez Schopenhauer e o que eu fiz.

- Pular da roda? O que quer dizer isso? - perguntou Pam.

 - Quer dizer anular completamente a vontade. Aceitar que nossa natureza mais ntima  uma luta implacvel, que esse sofrimento est em ns desde o comeo, e que
somos condenados por nossa prpria natureza. Quer dizer que precisamos primeiro entender o nada essencial
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desse mundo de iluso e depois procurar uma forma de negar a vontade. Como todos os grandes artistas, temos que procurar viver no mundo das idias platnicas. Algumas
pessoas fazem isso atravs da arte; outras, do ascetismo religioso. Schopenhauer fez evitando o mundo do desejo, comungando com os grandes pensadores e praticando
a contemplao esttica; tocava flauta uma ou duas horas por dia. Quer dizer que, alm de atores, precisamos ser platia. Precisamos admitir a fora vital que existe
na natureza e que se manifesta na vida de cada um e que acabar sendo recuperada quando a pessoa deixar de existir.

-  o modelo que sigo. Minha maior relao  com os grandes pensadores, que leio diariamente. Procuro no encher minha cabea com coisas corriqueiras e pratico
a contemplao jogando xadrez ou ouvindo msica, tambm diariamente. Ao contrrio de Schopenhauer, no tenho talento para tocar um instrumento.

Julius ficou encantado com o dilogo. Ser que Philip no percebia o rancor de Pam? Nem tinha medo da raiva dela? E o que dizer da soluo que ele encontrou
para seu vcio? Julius se encantou com aquilo e tambm achou graa. O comentrio de Philip de que, ao ler Schopenhauer, sentiu-se compreendido pela primeira
vez na vida, foi como um tapa na cara de Julius. "Ser que eu no sou nada?", pensou. Trabalhei trs anos com ele, tentei compreend-lo e ter empatia por ele.
Mas Julius no disse nada. Aos poucos, Philip mudava. s vezes,  melhor guardar as coisas e voltar a elas na hora certa, um dia.

Semanas depois, o grupo tocou nesses assuntos por ele, na sesso que comeou com Rebecca e Bonnie dizendo a Pam que ela havia mudado (para pior) desde que Philip
chegou. Bonnie reclamou que Pam tinha perdido a gentileza, o afeto e a generosidade, e, embora tivesse menos raiva dele que nas primeiras discusses, o dio continuava,
congelado de forma dura e implacvel.

- Acho que Philip mudou muito nos ltimos meses - constatou Rebecca. - Mas voc  to dura com ele quanto foi com seu exmarido e com seu ex-amante. Quer
odiar pelo resto da vida?

Outros observaram que Philip tinha sido gentil, respondeu a tudo que Pam quis saber, mesmo quando foi muito irnica.

 - Seja gentil, assim poder manipular os outros, como se aquece a cera para depois us-la - disse Pam.
    275

- O qu? - perguntou Stuart. Outras pessoas tambm pareceram no entender o que ela disse.

- Estou s citando o guru de Philip. Esse  um dos conselhos de Schopenhauer e  tambm o que acho da gentileza de Philip. Nunca falei isso aqui, mas pensei em me
especializar em Schopenhauer, desisti depois de estudar semanas a vida e a obra dele. Passei a desprezar tanto a pessoa que mudei de idia.

- Ento, voc identifica Philip com Schopenhauer? - perguntou Bonnie.

- Identificar? Philip  Schopenhauer, uma alma gmea, encarnao viva daquele maldito homem. Posso contar coisas da filosofia e da vida dele que gelar o sangue
de vocs. E acho que Philip manipula as pessoas, ao invs de relatar. Digo mais: me arrepia pensar nele doutrinando outras pessoas com o mesmo dio  vida que
tinha Schopenhauer.

- Voc no consegue ver Philip como  hoje? - perguntou Stuart. - No  a mesma pessoa que voc conheceu h quinze anos. O que houve entre vocs muda tudo, voc
no consegue esquecer nem perdoar.

- Voc chama de fato, como se fosse uma cutcula de unha?  mais que um fato. Quanto a perdoar, no acha que h coisas que no se perdoam?

- Se voc no consegue perdoar, no significa que as coisas no possam ser perdoadas - disse Philip numa voz emocionada, que no era comum nele. - Anos atrs, voc
e eu fizemos um contrato social de curta durao. Ns nos oferecemos excitao sexual e alvio. Cumpri minha parte. Garanti que voc ficasse sexualmente satisfeita
e no achei que tivesse outras obrigaes. A verdade  que obtive algo e voc tambm: alvio sexual. No devo nada a voc. Quando conversamos depois, avisei que
a noite tinha sido agradvel, mas eu no queria continuar o relacionamento. Podia ser mais claro?

 - No estou falando de clareza, estou falando de afeto, isto  amor,
caritas, preocupao com os outros.

- Voc quer que eu tenha a mesma viso que voc das coisas, que viva como voc.

- S queria que tivesse sofrido o que eu sofri.

 - Se  assim, tenho uma boa notcia para voc. Vai gostar de saber que depois do que houve entre ns, sua amiga Molly escreveu
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uma carta acusatria para todos os membros do departamento de filosofia, o diretor da universidade, o reitor e o conselho das outras faculdades. Apesar de eu ter
recebido o doutorado com distino e ter excelentes avaliaes dos alunos, inclusive de voc, nenhum membro do conselho quis me dar uma carta de apoio ou me
ajudar a conseguir um emprego. Assim, nunca mais tive um lugar digno como professor, e nos ltimos anos tenho feito palestras itinerantes numa srie de faculdades
de terceira classe.

Stuart, esforando-se para ser emptico, observou: - Voc deve achar que pagou um alto preo  sociedade.

Surpreso, Philip olhou para Stuart e concordou. - No to alto quanto o que paguei para mim mesmo.

Exausto, Philip desmontou na cadeira. Instantes depois, todos olharam Pam que, implacvel, se dirigiu ao grupo: - No pensem que estou falando de um nico fato que
ficou no passado. Refiro-me a algo que continua. Vocs no ficaram gelados agora mesmo, quando Philip classificou a participao dele em nossa relao amorosa como
uma obrigao num contrato social? E o que dizer do comentrio que, depois de fazer trs anos de anlise com Julius, ele s se sentiu compreendido ao ler
Schopenhauer? Vocs conhecem Julius, conseguem acreditar que em trs anos ele no entendeu Philip?

O grupo ficou calado. Vrios instantes depois, Pam dirigiu-se a Philip. - Quer saber por que se sentiu compreendido por Schopenhauer e no por Julius? Porque Schopenhauer
morreu h cento e quarenta anos e Julius est vivo. Voc no sabe se relacionar com os vivos.

No parecia que Philip fosse responder e Rebecca apressou-se: - Pam, voc est muito agressiva. Posso fazer alguma coisa para se acalmar?

- Philip no  o demnio, Pam - disse Bonnie. - Ele est arrasado. Voc no consegue ver? No sabe a diferena?

Pam balanou a cabea e disse: - Por hoje, no consigo ir mais adiante.

Aps um silncio concreto e incmodo, Tony, que ao contrrio do normal esteve calado, interveio: - Philip, no vim socorrer, mas estava pensando. Voc sentiu alguma
coisa quando Julius contou h alguns meses
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do desejo sexual que teve depois que a mulher dele morreu?

Philip pareceu grato pela mudana de assunto. - O que eu deveria sentir?

- No sei o que deveria, estou perguntando o que sentiu. Pensei o seguinte: quando fez anlise com ele, acha que Julius teria mais capacidade de entender voc
se tivesse contado que tambm sentiu uma presso sexual?

Philip concordou. - Boa pergunta. A resposta : sim, talvez. Podia ter ajudado. No tenho prova, mas os escritos de Schopenhauer mostram que ele tinha desejos sexuais
parecidos com os meus em intensidade e freqncia. Acho que por isso me senti to compreendido por ele.

- Mas omiti uma coisa ao falar na minha anlise com Julius e quero deixar claro agora. Quando contei que o tratamento no teve qualquer valor para mim, ele perguntou
a mesma coisa que algum aqui do grupo, h pouco tempo: por que fui querer um analista to intil para meu supervisor? A pergunta me fez lembrar de duas coisas da
anlise que funcionaram e foram teis.

- Quais? - perguntou Tony.

- Quando contei qual era a seqncia de minhas noites de sexo (flertar com uma mulher, lev-la para jantar, depois transar), perguntei a Julius se ele estava
chocado ou enojado. Ele respondeu apenas que parecia uma noite muito chata. Fiquei surpreso e percebi como tinha dourado a minha frmula com excitao.

- E qual foi a outra coisa? - perguntou Tony.

- Julius uma vez perguntou qual a frase que eu mandaria colocar no meu tmulo. No consegui dar nenhuma e ele ento sugeriu: "Ele gostava de foder". E acrescentou
que o mesmo epitfio podia servir para o meu cachorro.

Algumas pessoas do grupo assobiaram, surpresas, outras sorriram. Bonnie disse: - Foi mal, Julius.

- Ele no disse com maldade, queria me chocar, me acordar. E funcionou, foi importante para eu querer mudar de vida. Mas acho que eu queria esquecer essas coisas.
Claro que no gosto de admitir que ele foi til.

 - Sabe por qu? - perguntou Tony.
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- Estive pensando, talvez porque fico competindo com ele. Se ele ganhar, eu perco. Talvez porque no queira admitir que o estilo de orientao dele, to diferente
do meu, funciona. Talvez porque eu no queira me aproximar muito dele. Talvez Pam esteja certa, no consigo me relacionar com vivos - disse, fazendo sinal na
direo dela.

- Pelo menos, no consegue com facilidade. Mas est se aproximando - disse Julius.

E assim o grupo continuou por vrias semanas: ningum faltou s sesses, o trabalho foi muito produtivo e, afora as perguntas repetidas e ansiosas sobre a sade
de Julius e a permanente tenso entre Pam e Philip, o grupo estava seguro, prximo, otimista, at sereno. Ningum estava preparado para a bomba que iria atingi-los.
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*** 35

Quando nasce um homem como eu, s se pode desejar uma coisa: que consiga ser sempre ele mesmo e viver para seus dons intelectuais.

35

AUTO-ANALISE

Mais que qualquer coisa, a autobiografia A meu respeito  um impressionante resumo das estratgias que ajudaram Schopenhauer a no afundar psicologicamente. Embora
algumas estratgias, criadas em crises de ansiedade s trs da madrugada e deixadas de lado ao amanhecer, sejam fugazes e ineficientes, outras provaram ser duradouros
basties de apoio. Dentre essas, a mais forte era sua certeza de ser um gnio.

Desde jovem, percebi que os outros lutavam por bens exteriores, o que no me interessava, pois eu tinha dentro de mim um tesouro muito mais valioso do que todas
as posses materiais. O mais importante era aumentar esse tesouro, bastando desenvolver a mente e ser totalmente livre. (...) Contra a natureza e os direitos do homem,
tive de renunciar ao meu prprio bem-estar para me dedicar a servir  humanidade. Meu intelecto no pertencia a mim, mas ao mundo.
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O peso do talento, disse ele, fez com que ficasse mais ansioso e desajeitado do que j era por herana gentica. A sensibilidade dos gnios faz com que sofram
mais e sejam mais ansiosos. Schopenhauer se convence de que existe uma ligao direta entre ansiedade e inteligncia. Assim, os gnios tm obrigao de usar seu
dom pela humanidade, mas como devem se dedicar apenas a cumprir sua misso, so levados a se privar das muitas alegrias (mulher, filhos, amigos, casa, acmulo de
bens) disponveis para os outros humanos.

Ele se acalmava repetindo os mantras da constatao da sua genialidade: "Minha vida  herica e no deve ser medida pelos padres dos fariseus, dos comerciantes
e dos homens comuns. (...) No devo, portanto, ficar deprimido por no ter as coisas que fazem parte do curso normal da vida de um indivduo. (...) assim, no devo
me surpreender se minha vida parece incoerente e sem qualquer meta". A certeza de que era um gnio serviu tambm para ter um duradouro sentido de vida: ele se considerou
sempre um missionrio da verdade a servio da raa humana.

O demnio que mais o perseguiu foi a solido, e Schopenhauer se especializou em construir defesas contra ela. De todas, a mais valiosa era a certeza de ter, por
ser o senhor do prprio destino, escolhido a solido, em vez de ser escolhido por ela. "Quando mais jovem", dizia, "minha tendncia era ser socivel, mas depois,
aos poucos, adquiri um gosto pela solido, fui ficando pouco socivel e resolvi me dedicar inteiramente a mim pelo resto dessa vida fugaz." Dizia sempre para si
mesmo: "No estou no lugar que me  devido, nem entre meus iguais".

Portanto, as defesas contra o isolamento eram fortes e profundas: ele escolheu se isolar, os outros no mereciam sua companhia, sua misso exigia solido; a vida
dos gnios deve ser um "monodrama", a vida pessoal de um gnio deve servir a um propsito: facilitar a vida intelectual (portanto, "quanto menos vida pessoal, mais
segura e melhor ser a vida intelectual").

De vez em quando, Schopenhauer reclamava do peso do isolamento. "Sempre fui muito s e desejei, no fundo do meu corao, encontrar um ser humano, em vo. Continuei
na solido e posso, honesta e sinceramente, dicrzer que no foi por culpa minha, pois no afastei nem dispensei ningum que fosse um ser humano."
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Alm disso, ele dizia que no estava totalmente s, pois (e eis outra poderosa estratgia de auto-analise) tinha seu crculo de amigos ntimos: os grandes pensadores
da humanidade.

S um desses pensadores foi contemporneo: Goethe. A maioria dos demais era da Antigidade, principalmente os filsofos esticos, que citava sempre. Quase todas
as pginas de A meu respeito tm algum aforismo de um grande nome para confirmar o que ele achava. Exemplos tpicos:

A melhor ajuda para a mente  romper para sempre com os grilhes que iludem o corao.

- Ovdio

Quem quer silncio e calma deve evitar as mulheres, que so uma fonte permanente de problemas e discusso.

- Petrarca

Qualquer um pode ser completamente feliz, se depender apenas de si e tiver em si mesmo tudo o que chamar de seu.

- Ccero

A tcnica do "quem sou eu?"  usada por alguns especialistas em grupos de crescimento pessoal. Os integrantes escrevem sete respostas  pergunta, cada uma num carto,
e colocam por ordem de importncia. A seguir, a pessoa pega um carto com a resposta mais distante e pensa como ela seria se no fosse como  (ou
seja,desidentifica-se com a resposta). Faz o mesmo com cada carto at ficar s com suas qualidades essenciais.

Da mesma forma, Schopenhauer atribua e rejeitava diversas qualidades at chegar ao que ele considerava ser seu verdadeiro eu.

s vezes, se me sinto infeliz,  por achar que sou outra pessoa e lastimar a infelicidade e perturbao dessa pessoa. Por exemplo: considerei-me um assistente que
nunca chega a professor e que no tem ningum para ouvir suas palestras. Ou ser algum de quem os fariseus falam mal ou  motivo de boatos escandalosos. Ou ser o
amante cuja amada no ouve o que ele diz.
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Ou ser o doente que no pode sair de casa, ou outras pessoas afligidas por dramas parecidos. No fui nenhum desses; isso  o casaco
que usei por pouco tempo e depois troquei por outro.

Mas ento, quem sou eu? Sou o homem que escreveu O mundo como vontade e representao, que solucionou o grande problema da existncia que talvez torne obsoletas
todas as solues anteriores. (...) Sou esse homem, e o que poderia perturb-lo nos poucos anos que ainda lhe restam viver.

Outra estratgia consoladora era a certeza de que mais cedo ou mais tarde, provavelmente aps sua morte, teria sua obra conhecida e mudaria completamente o rumo
da indagao filosfica. Ele declarou isso cedo, mas a certeza de um sucesso tardio nunca se realizou. Nesse ponto, foi como Nietzsche e Kierkegaard, dois pensadores
independentes e desvalorizados, que tinham certeza de que alcanariam fama pstuma (e acertaram).

Ele desprezava qualquer consolo sobrenatural, adotava apenas aqueles que tinham por base uma viso naturalista do mundo. Dizia, por exemplo, que a dor vem do erro
de pensar que muitas necessidades da vida so acidentais e, portanto, evitveis.  melhor perceber a verdade: que a dor e o sofrimento so inevitveis, irreprimveis
e essenciais  vida - "a nica coisa que varia no sofrimento  a forma com que se manifestar, e nosso atual sofrimento preenche um espao (...) que, na falta
desse, seria ocupado por outro qualquer. Se essa reflexo se tornar uma certeza de vida, pode provocar um grau considervel de tranqilidade estica".

Ele nos incentivava a viver agora, em vez de viver na esperana de um futuro bom. Duas geraes mais tarde, receberia o apoio de Nietzsche, que considerava a
esperana nosso maior flagelo e culpava Plato, Scrates e o cristianismo por desviarem nossa ateno da nica vida que temos para nos ligarmos a uma ilusria vida
futura.
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*** 36

Quem so os verdadeiros mongamos? Todos ns vivemos por algum tempo na poligamia, e, uma grande maioria, para sempre.

Como todo homem precisa de muitas mulheres,  muito justo que ele sustente vrias. com isso, a mulher ficar restrita  sua condio verdadeira e natural de
dependente.

36

Pam iniciou a sesso seguinte. - Preciso contar uma coisa. Todos olharam para ela.

- Hoje  dia de confisso. Fala, Tony.

Tony se empertigou, olhou fixo para ela um bom tempo, depois recostou-se na cadeira, cruzou os braos e fechou os olhos. Se estivesse de chapu, teria dobrado
a aba para baixo.

Pam concluiu que Tony no pretendia comentar nada e continuou com sua voz clara e ousada, - Tony e eu estamos h algum tempo tendo relaes sexuais e acho difcil
no comentar isso aqui.

Aps um pequeno e pesado silncio, vieram as perguntas em srie: - Por qu? Como comeou? H quanto tempo? Como  isso? Aonde vai parar?

Rpida, calma, Pam respondeu: - H vrias semanas. No sei o que vai ser, no sei como comeou, foi por acaso, aconteceu um dia depois de uma sesso.

- Vai participar da discusso, Tony? - perguntou Rebecca, gentil.

Tony abriu os olhos devagar, - Isso  novidade para mim.

 - Novidade? Quer dizer que estou mentindo?
    284

- No, me refiro a hoje ser dia de confisso e  frase "fala, Tony". Isso  novidade.

- Voc parece no estar gostando - disse Stuart.

Tony virou-se para Pam. - Quer dizer, eu exagerei na sua casa na noite passada. Na intimidade, entende. Intimidade, quantas vezes ouvi dizerem aqui que as mulheres
so mais sensveis e querem mais do que a velha e simples intimidade sexual? Ento, por que no ter intimidade para comear essa confisso comigo?

- Desculpe - disse Pam, sem parecer aborrecida. - As coisas no estavam batendo direito para mim. Depois que voc saiu da minha casa, pensei no grupo quase a noite
inteira e vi que temos pouco tempo, s mais seis sesses. No  isso, Julius?

- , mais seis sesses.

- Fiquei chateada de pensar que estava traindo voc, Julius. E que tra o contrato com todos aqui. Tra a mim, tambm.

- Eu no sabia o que era, mas senti que tinha algo errado nas ltimas sesses - disse Bonnie. - Voc estava diferente, Pam. Lembro que Rebecca percebeu vrias vezes.
Voc quase no falou nos seus problemas, no sei como esto as coisas entre voc e John, nem se o seu ex-marido tem aparecido ou no. Voc quase s atacou Philip.

- Tony tambm estava diferente - acrescentou Gill. - Vejo agora que estava muito diferente. Ficou se escondendo, senti falta do velho Tony cheio de jogo de cintura.

- Pensei umas coisas - disse Julius. - Primeiro, algo que Pam tocou ao usar a palavra contrato. Sei que  uma repetio, mas  preciso repetir para quem estiver
num grupo no futuro (Julius olhou de relance para Philip) ou at orientando um. O nico contrato que temos  nos esforarmos para explorar nosso relacionamento com
todos aqui. O mal de uma relao fora do grupo  ameaar o trabalho na terapia. Por qu? Porque o casal que se relaciona vai valorizar mais o relacionamento do que
a terapia. Foi exatamente o que aconteceu aqui: no s Pam e Tony esconderam a relao (o que  compreensvel), mas por isso recuaram da terapia aqui.

- At o dia de hoje - disse Pam.

- Exato, at hoje, e aplaudo sua deciso de contar ao grupo. Vocs j sabem o que vou perguntar aos dois: por que agora? Vocs se conheceram aqui h uns dois
anos e meio. E s agora as coisas
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mudam. Por qu? O que aconteceu algumas semanas atrs para resolverem ter relaes sexuais?

Pam virou-se para Tony, sobrancelhas arqueadas, sugerindo que ele respondesse. Sugesto aceita. - Primeiro os cavalheiros? Minha vez de novo? Est certo, eu sei
exatamente o que mudou: Pam sinalizou "pode vir". Sempre tive uma queda por ela e se o sinal fosse h seis meses ou h dois anos, eu teria ido. Podem me chamar de
"senhor solto na rea".

- Olha, esse  o Tony que eu conheo e gosto. Bem-vindo de volta - disse Gill.

-  fcil ver por que voc estava diferente, Tony - disse Rebecca. - Conseguiu ficar com Pam e no quer que nada atrapalhe.  compreensvel. Ento, se esconde,
no querendo mostrar as partes que no so muito lindas.

- A parte selvagem, voc quer dizer? Talvez sim, talvez no, no  to simples assim - disse Tony.

- O que quer dizer com isso? - perguntou Rebecca.

- Significa que as partes no to lindas  a deixa para Pam. Mas no quero falar nisso.

- Por qu?

- Ora, Rebecca,  bvio. Por que voc est me colocando nos holofotes? Se eu continuar falando, posso acabar com minha histria com Pam.

- Tem certeza? - insistiu Rebecca.

- O que voc acha? Para mim, o fato de ela contar aqui mostra que est decidido, ela j resolveu. A coisa est quente.

Julius perguntou de novo a Pam por que comeou o caso com Tony. Ela ficou indecisa, o que no era comum. - No consigo ter uma perspectiva da situao, estou
muito perto dela. S sei que no foi nada premeditado, foi um impulso. Estvamos os dois tomando caf depois de uma sesso, os outros tinham ido embora. Como sempre,
ele perguntou se eu no gostaria de comer alguma coisa e sugeri que fosse ao meu apartamento e tomasse uma sopa feita em casa. Ele foi e as coisas ficaram fora de
controle. Por que foi naquele dia e no antes? No sei. J tnhamos sado juntos, conversamos sobre literatura, emprestei-lhe alguns livros, incentivei a voltar
a estudar, e ele me ensinou carpintaria
    286

e me ajudou a fazer uma mesinha de tev. Vocs sabem disso. Por que a relao passou a ter sexo agora? No sei.

- Voc gostaria de tentar saber? No  fcil falar de uma coisa to ntima na presena da pessoa - disse Julius.

- Hoje vim para c decidida a tratar desse assunto.

- Bem, ento o caminho : pense no grupo, quais os fatos importantes que estavam sendo tratados quando essa relao comeou?

- Depois que voltei da ndia, aconteceram dois fatos importantes. O primeiro, a sua doena. Uma vez li um artigo maluco dizendo que um casal se forma num grupo pelo
desejo inconsciente de que o filho seja um novo lder, mas no  isso. Julius, no sei o quanto a sua doena fez com que eu ficasse mais envolvida com Tony.
Talvez o medo de o grupo acabar me fez procurar uma ligao pessoal permanente. Talvez eu tenha pensado, inconscientemente, que isso possa manter o grupo por mais
um ano. Estou apenas tentando adivinhar.

- Os grupos so como as pessoas: no querem morrer - disse Julius. - Talvez o seu relacionamento com Tony tenha sido uma forma torta de manter o grupo. Todos
os grupos de terapia tentam continuar, manter encontros peridicos, mas raramente conseguem. Como eu j disse aqui muitas vezes, o grupo no  a vida,  um ensaio
geral para ela. Todos temos que achar um jeito de passar o que aprendemos aqui para nossa vida no mundo real. Fim da palestra.

- Mas Pam, voc falou em dois fatos importantes: um, a minha sade e o outro...

- Foi Philip. Penso muito nele, detesto a presena dele aqui. Voc disse que essa presena pode acabar sendo boa para mim e confio em voc, mas at agora foi uma
droga, exceto por uma coisa, talvez. Tenho tanta raiva dele que parei de me preocupar com Earl e John. E acho que no vou mais pensar neles.

- Ento, Philip  importante. Talvez a presena dele tenha um papel na sua relao com Tony? - insistiu Julius.

- Pode ser.

- Tem alguma pista?

Pam negou com a cabea. - No sei, acho que foi simples teso. H vrios meses no transo, o que  raro acontecer comigo. Acho que foi s isso.

 - Alguma reao aqui? -perguntou Julius, escaneando a sala.
    287

Stuart se apresentou, com sua mente arguta e organizada. - H mais do que conflito entre Pam e Philip, h muita competio. Talvez seja exagero meu, mas minha
tese  que o professor, o erudito, pegou Tony pela mo para educ-lo, e o que acontece? Pam se ausentou do grupo algumas semanas e ao voltar constata que Philip
invadiu a seara dela. Acho que ficou desorientada. - Stuart virou-se para Pam. - Todas as mgoas que voc tinha dele h quinze anos aumentaram.

- E a ligao com Tony? - perguntou Julius.

- Bem, pode ter sido uma forma de competir. Se bem me lembro, foi nessa poca que Pam e Philip tentaram confortar voc com presentes. Philip trouxe aquela histria
do navio fazendo escala numa ilha e lembro que Tony se envolveu bastante na discusso. - Virouse para Pam. - Talvez isso lhe parecesse uma ameaa, talvez no quisesse
perder a influncia sobre Tony.

- Obrigado, Stuart, ajudou muito - disse Pam. - Voc acha que, para competir com esse zumbi, tenho de trepar com todos os caras do grupo!  assim que julga
as mulheres?

- Isso exige resposta - disse Gill -, porque essa histria de zumbi est fora do contexto. Prefiro o desligamento de Philip do que ser rotulado de forma histrica!
Pam, voc  uma senhora irritada. Consegue parar de ser doida?

- Gill, voc est agressivo. O que h? - perguntou Julius.

- Acho que vejo muito da minha mulher nessa nova Pam irritada e decidi no engolir nada de nenhuma das duas.

- Tem mais: fico irritado de continuar invisvel para Pam - acrescentou Gill, virando-se para ela. - Estou sendo direto e sincero, disse o que acho de voc, disse
que considero voc "juza do supremo", mas nada adianta, continuo sem fazer diferena. Voc s enxerga Philip... e Tony. E acho que estou ajudando bastante; eis
mais uma ajuda: eu sei por que o seu ex-namorado John pulou fora da relao: no foi por ser covarde, mas por causa da sua raiva.

Pam, imersa em pensamentos, continuou calada.

- Muitas emoes fortes se manifestando. Vamos continuar tentando entend-las. Algum tem alguma contribuio? - perguntou Julius.

 - Admiro a honestidade de Pam hoje - disse Bonnie. - E entendo como deve estar magoada. Gostei tambm de Gill enfrent-la,
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uma incrvel mudana, Gill, parabns. Mas s vezes acho que devia deixar Philip se defender, no entendo por que ele fica quieto. - Virou-se para Philip: - Por que
no se defende?

Philip negou com a cabea e continuou calado.

- Se ele no fala, eu falo por ele - disse Pam. - Ele obedece a orientao de Schopenhauer. - Pegou um papel na bolsa e leu:

 Fale sem emoo.

 No seja espontneo.

 Mantenha-se independente de todos.

 Considere-se a nica pessoa na cidade com um relgio para saber as horas. Isso vai lhe ser til.

 Desconsiderar  ganhar considerao.

Philip aprovou com a cabea e disse: - Gostei do que leu. Parece um bom conselho para mim.

- O que est acontecendo? - perguntou Stuart.

- Estamos dando uma folheada na obra de Schopenhauer - disse Pam, mostrando as anotaes.

Aps um silncio, Rebecca rompeu o impasse. - Tony, onde voc est? O que h com voc?

- Hoje no estou conseguindo falar, parece que estou amarrado, uma pedra de gelo - disse ele, balanando a cabea.

Para surpresa de todos, Philip reagiu: - Acho que entendo esse seu amarrado, Tony. Como disse Julius, voc est entre duas exigncias conflitantes: espera-se que
participe do grupo e ao mesmo tempo tenta manter seu compromisso com Pam.

- Entendo, mas entender no basta, no me solta. Mesmo assim, obrigado. E eis uma observao minha para voc. O que disse h pouco, na primeira vez em que apoia
a opinio de Julius sem desafilo,  uma grande mudana, cara.

- Voc diz que entender no basta. O que  preciso, ento? - perguntou Philip.

Tony balanou a cabea. - Hoje no est fcil.

- Acho que posso ajudar - disse Julius, virando-se para Tony: - Voc e Pam esto se evitando, sem demonstrar o que sentem. Talvez
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voc esteja guardando para dizer depois. Sei que  estranho, mas podem comear a falar aqui? Tentem se falar, no para ns.

Tony respirou fundo e virou-se para Pam. - No me sinto bem com isso, fico inseguro. Estou chateado com o rumo que as coisas tomaram. No consigo entender
por que no me ligou antes e avisou que ia comentar nosso caso hoje.

- Desculpe, mas ns dois sabamos que uma hora isso ia acontecer. Tocamos no assunto.

-  s o que voc tem a dizer? E nosso encontro de hoje  noite? Ainda est valendo?

- Seria muito esquisito encontrar com voc. A regra aqui  falar de todos os relacionamentos e quero cumprir o contrato com o grupo. No posso continuar
com voc, talvez depois que o grupo terminar...

- Sua relao com contratos  a mais conveniente e flexvel - interrompeu Philip, dando sinais de agitao, o que no era comum nele. - Voc cumpre um contrato
quando lhe convm. Falei em honrar o contrato social que fiz com voc no passado, voc se irritou comigo. Mas no respeita as regras do grupo, faz jogadas secretas,
usa Tony

como quer.

- Quem  voc para falar em coontratos? - perguntou Pam, alto. - O que diz da relao entre professor e aluna?

Philip olhou para o relgio, levantou-se e anunciou: - Seis horas. Cumpri meu tempo obrigatrio. - Saiu da sala resmungando: - Por hoje basta de chafurdar na lama.

Foi a primeira vez que algum encerrou a sesso no lugar de Julius.
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*** 37

Quem ama sente uma enorme desiluso depois de finalmente chegar ao prazer. E, surpreso, v que aquilo que tanto desejou traz o mesmo que qualquer outra satisfao
sexual, e assim no encontrar muita vantagem em amar.

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O fato de se retirar da sala no ajudou a tirar a lama da cabea de Philip. Ele andou, ansioso, pela Fillmore Street. O que tinha acontecido com seu arsenal
de tcnicas de segurana? Tudo o que h tanto tempo lhe dava fora e calma estava revirado: a disciplina mental, a perspectiva csmica. Lutando para acalmar-se,
ordenou a si mesmo: no lute, no resista, fique calmo, apenas assista ao espetculo de seus pensamentos passando pela mente. Deixe que eles entrem e saiam.

Os pensamentos entravam, mas no estavam saindo. As imagens desfaziam as malas, dependuravam as roupas no armrio e se instalavam na cabea dele. O rosto de Pam
apareceu. Que surpresa, o rosto se transformou ao escorrerem as lgrimas pelo rosto dele: rejuvenesceu, estava na frente dele a Pam que conheceu h anos. Que estranho
ver a mulher jovem na de agora. Ele costumava fazer o inverso: imaginar o futuro no presente, os ossos marcando a pele lisa da juventude.

Que rosto bonito! E que nitidez incrvel! As centenas de mulheres cujos corpos ele tinha penetrado, e cujos rostos tinha esquecido h muito, ficavam misturadas num
rosto arquetpico; como era possvel o rosto de Pam continuar to ntido?
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Depois, ele se surpreendeu com lembranas da Pam jovem: a beleza, a alegre agitao quando amarrou os pulsos dela com o cinto, a cascata de orgasmos que
ela teve. A excitao sexual dele permaneceu como uma vaga memria do corpo, uma sensao muda e pesada de penetrar e encher-se de jbilo. Lembrou tambm de ficar
abraado com ela muito tempo. Foi por esse exato motivo que ele a considerou perigosa e resolveu na mesma hora no a encontrar mais. Ela era uma ameaa  liberdade
dele. Buscava um alvio sexual rpido, uma credencial para obter a abenoada paz e solido. Ele nunca desejava a carne. Desejava a liberdade, livrar-se da escravido
do desejo para entrar, embora por pouco tempo, no no-desejo dos verdadeiros filsofos. S aps o alvio do prazer ele podia ter pensamentos elevados e apreciar
seus amigos, os grandes pensadores cujos livros eram como cartas dirigidas a ele.

Surgiram mais fantasias; ele foi tomado pela excitao que, numa grande onda, arrastou-o para longe do mirante de observao dos filsofos. Ele queria, ele desejava.
Mais que tudo, queria segurar o rosto de Pam. Os pensamentos deixaram de ter uma ligao forte e ordenada. Imaginou um leo-marinho cercado por um harm de fmeas,
depois um macho uivando e se jogando contra uma cerca de ao que o separava de uma fmea no cio. Sentiu-se um brutamontes, um homem da caverna empunhando a clava,
rosnando, afastando os rivais. Queria possu-la, lamb-la, cheir-la. Pensou nos braos musculosos de Tony, no marinheiro Popeye engolindo seu espinafre e jogando
a lata vazia para trs. Viu Tony montando nela, ela com as pernas abertas, abraada nele. Aquela buceta era dele, s dele. Ela no tinha o direito de suj-la
oferecendo-a para Tony. Tudo o que fez com Tony maculava a lembrana que tinha dela, vulgarizava-a. Teve vontade de vomitar. Ele era um bpede.

Philip virou a esquina e andou pela marina, depois passou pelo Chrissy Field rumo  baa e  orla do Pacfico, onde se tranqilizou com o mar calmo e o cheiro
salgado da maresia. Sentiu um arrepio e fechou a jaqueta. O dia estava chegando ao fim, o vento frio do Pac fico passava pela ponte Golden Gate e batia nele como
a vida sempre passaria por ele sem calor nem alegria. O vento prenunciava os muitos dias de neve por vir, frio gelado, de acordar de manh sem qualquer esperana
de lar, amor, carinho, alegria. Sua manso de pensamentos no tinha calor.
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Que estranho ele nunca ter percebido. Continuou a andar, mas com a vaga impresso de que sua casa e sua vida foram construdas sob
alicerces falsos e frgeis.
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*** 38

Devemos encarar com tolerncia toda loucura, fracasso e vcio dos outros, sabendo que encaramos apenas nossas prprias loucuras, fracassos e vcios.

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Na sesso seguinte, Philip no comunicou ao grupo as alarmantes concluses a que tinha chegado, nem os motivos para ter se retirado de repente. Embora agora participasse
mais das discusses, era sempre por iniciativa prpria e as pessoas j tinham aprendido que era desperdcio de energia insistir para ele se abrir. Assim, deram ateno
a Julius e perguntaram se ele se sentiu usurpado por Philip terminar a sesso anterior.

 - Foi uma sensao agridoce - respondeu Julius. - A parte amarga est sendo compreendida. Todos os finais e renncias tm por smbolo perder a influncia e o papel.
Dormi mal depois daquela sesso. Tudo piora s trs da manh. Tive um ataque de tristeza por todos os finais que se aproximam: do grupo, da anlise com meus
pacientes individuais, do meu ltimo ano bom. Portanto, esse  o lado amargo. A parte doce  o orgulho que tenho de vocs. Inclusive de voc, Philip. Orgulho
da crescente autonomia de vocs. Os terapeutas so como pais. Um bom pai ou uma boa me d condies para que o filho ou filha tenha capacidade de sair de casa
e ser adulto, como o bom terapeuta quer que seus pacientes saiam no final do tratamento.
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- Quero explicar um provvel mal-entendido - avisou Philip. - Na semana passada, no tive a inteno de tomar o seu lugar. Fiz aquilo para me proteger, pois aquela
discusso me deixou muito agitado. Obriguei-me a ficar at o final da sesso e tive que sair.

- Compreendo, Philip, mas minha preocupao com os finais agora  to forte que sou capaz de ver sinais de fim e substituio at em situaes positivas. Vejo
tambm que sua explicao tem um afeto por mim. E agradeo.

Philip meneou de leve a cabea.

Julius prosseguiu: - A agitao que voc citou parece importante. Podemos falar nela? Temos s mais cinco sesses. Recomendo que vocs aproveitem esse grupo enquanto
h tempo.

Philip negou com a cabea, como se quisesse dizer que ainda no podia falar naquele assunto. Mas no ia ficar quieto para sempre e nas sesses seguintes foi
muito participante.

Pam inicou a sesso se dirigindo a Gill, ousada: - Hora de pedir desculpas! Fiquei pensando em voc e acho, ou melhor, tenho certeza de que preciso me desculpar.

- Explique melhor. - Gill estava atento e curioso.

- Meses atrs, agredi voc dizendo que nunca est presente,  to distrado e impessoal que eu no agentava ouvir o que diz. Lembra? Fui muito dura...

- Dura,  verdade, mas acertada - interrompeu Gill. - Foi bom, me fez parar de beber. Sabe que no tomei uma gota desde aquele dia?

- Obrigada, mas no  disso que estou falando,  do que aconteceu a partir daquele dia. Voc mudou: tem estado presente, tem estado mais aberto e mais firme comigo
do que qualquer outra pessoa aqui. Apesar disso, eu estava muito centrada em mim para reconhecer. Por isso peo desculpas.

Gill aceitou o pedido. - E o que falei para voc, serviu de alguma coisa?

  - Bom, fiquei balanada vrios dias por voc me chamar de "juza do supremo". Acertou no alvo, me fez pensar. Porm, o que mais me atingiu foi voc dizer que
John no quis largar o casamento dele para no enfrentar a minha raiva e no por ser covarde. Isso me pegou, me fez pensar.
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No consegui esquecer. Sabe do que mais? Vi que voc tinha toda razo e John estava certo de se afastar de mim. No foi por causa dos problemas dele
que eu o perdi, mas dos meus problemas; ele no me agentava mais. Dias atrs, telefonei para ele e disse isso.

- O que ele achou ?

- Depois que conseguiu se recuperar do susto, foi timo. Tivemos uma conversa boa e amistosa: contamos novidades, falamos nos cursos que damos, nos alunos que temos
em comum, na possibilidade de dar aulas em dupla. Foi bom. Ele disse que eu parecia diferente.

- tima notcia, Pam - comentou Julius. - Largar a raiva  um enorme progresso. Concordo que voc fica muito ligada nas suas raivas. Gostaria que dssemos uma olhada
nesse processo de deixar coisas de lado para termos uma referncia, entender como voc conseguiu.

- Foi sem querer. Acho que est ligado  sua frase "malhe com ferro frio". Meus sentimentos em relao a John esfriaram o suficiente para dar distncia e eu
pensar racionalmente.

- E o que voc tem a dizer da sua raiva de Philip? - perguntou Rebecca.

- Voc no deve ter pesado a monstruosidade que ele me fez.

- No  verdade, eu tive pena de voc, me doeu quando voc contou. Foi horrvel o que voc passou, mas no tem quinze anos? As coisas costumam esfriar depois de
quinze anos. Por que esse ferro continua em brasa?

- Na noite passada, eu estava cochilando e pensei no meu caso com Philip; ele entrou na minha cabea, invadiu meus pensamentos e se espatifou no cho. Ento
eu me vi olhando para o cho e examinando os cacos. Vi a cara dele, seu apartamento sem graa, minha juventude estragada, minha desiluso com a vida universitria,
a amizade de Molly que perdi e, enquanto olhava aquela pilha de destroos, vi que tudo aquilo era... imperdovel.

- Lembro de Philip dizer que no perdoar e imperdovel so duas coisas diferentes, no , Philip? - perguntou Stuart.

Philip concordou com a cabea.

- No sei se entendi - disse Tony.

 - Imperdovel deixa a responsabilidade fora de voc, enquanto no perdoar coloca a responsabilidade em quem no quer perdoar - explicou Philip.
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Tony fez sinal de entender. -  a diferena entre assumir a responsabilidade pelo que faz ou culpar o outro?

- Exatamente. E, como disse Julius, a anlise termina quando acaba a culpa e surge a responsabilidade - disse Philip.

- S para citar Julius de novo, Philip, gostei do que voc disse - acrescentou Tony.

- Voc melhora o que eu digo. E mais uma vez, sinto que voc se aproxima, Philip. E gosto - disse Julius.

Philip sorriu de forma quase imperceptvel. Quando ficou claro que no ia dizer mais nada, Julius se dirigiu a Pam: - Como est se sentindo?

- Para ser sincera, fico pasma como as pessoas se esforam para ver mudanas em Philip. Ele empina o nariz e todo mundo faz oooh! e aaah! A arrogncia dele  ridcula
e como as observaes bobas que faz causam uma tal comoo. - Imitando Philip, ela repetiu em ritmo montono - A anlise termina quando acaba a culpa. - Depois,
mais alto: - E a sua responsabilidade, onde est, Philip? No disse uma porra sobre isso, s besteira sobre alterao de clulas cerebrais e, portanto, que no foi
voc quem fez aquilo. No, voc no esteve l.

Aps um silncio estranho, Rebecca disse, gentil: - Pam, quero deixar claro que voc pode perdoar. Perdoou uma srie de coisas, disse que perdoou meu passeio pela
prostituio.

- A nica vtima foi voc - respondeu Pam, rpido. Rebecca continuou: - Todos ns vimos como perdoou Julius na
hora, sem nem perguntar se prejudicou alguma amiga por transar com ela.

Pam suavizou a voz. - Julius tinha acabado de ficar vivo. Estava chocado. Imagine o que  perder uma pessoa que ele amava desde o colgio. D um tempo para ele.

Bonnie alfinetou: - Voc perdoou Stuart pela transa com a mulher bbada, perdoou at Gill por esconder de ns o alcoolismo tanto tempo. Perdoou  bea. Por que
no perdoa Philip?

Pam balanou a cabea. -  diferente perdoar algum pelo que fez com outro e perdoar pelo que fez com voc.

O grupo ouviu, solidrio, mas insistiu: - Pam - disse Rebecca -, eu a perdo por querer que John largasse os dois filhos pequenos.
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- Eu tambm - disse Gill. - E perdo pelo que fez com Tony aqui. Voc tambm se perdoa por atirar na cara dele aquele dia de confisso e terminar o caso com
ele em pblico? Aquilo foi humilhante.

- J pedi desculpas aqui por no falar com ele antes da confisso. Foi imprudncia minha.

Gill insistiu: - Tem mais: voc se perdoa por usar Tony?

- Usar Tony? Eu usei Tony? O que voc est dizendo?

- Parece que o caso foi uma coisa para ele (bem mais importante) e outra para voc. Parece que voc no estava se incomodando muito com Tony, mas com os
outros, talvez at com Philip atravs de Tony.

- Ah, essa idia ridcula de Stuart, nunca fiz isso - disse Pam.

- Usado? Voc acha que fui usado? - perguntou Tony. - No tenho nada a reclamar, podem me usar assim quando quiserem.

- Calma, Tony, chega de brincadeiras. Pare de pensar com a cabecinha - disse Rebecca.

- Cabecinha?

- Isso, a cabea do pau.

Tony deu uma risada lasciva e Rebecca atacou: - Filho da puta, voc entendeu o que eu disse! S queria que eu falasse. No brinque, Tony, temos pouco tempo. Voc
no pode dizer que no se incomodou com o que Pam disse.

Tony parou de rir.  - Bom, levar o fora de repente fez, sabe, que me sentisse jogado. Mas ainda tenho esperanas.

- Tony, voc ainda tem muito a aprender sobre mulher. Pare de implorar,  humilhante. Disse que as mulheres podem usar voc como quiserem porque s quer uma coisa
delas: transar. Isso deprecia voc e elas tambm.

- No achei que estivesse usando Tony - disse Pam. - Tudo me pareceu recproco. Mas, para ser sincera, quando falei aqui, no pensei muito. Liguei o piloto automtico.

- Como eu fao h muito tempo. Piloto automtico - disse Philip, baixo.

Pam ficou pasma. Olhou um instante para Philip e baixou o olhar.

- Quero perguntar-lhe uma coisa - disse Philip.

Como Pam no olhou, ele repetiu: - Uma pergunta para voc, Pam. Pam levantou a cabea e encarou-o, Os outros se entreolharam.
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- H vinte minutos, voc disse que se desiludiu com a vida universitria. Mas h poucas semanas disse tambm que quando quis se especializar, pensou muito em
fazer filosofia, at numa tese sobre Schopenhauer. Sendo assim, pergunto: ser que fui um professor to ruim?

- Eu jamais disse que foi um mau professor. Voc foi um dos melhores professores que j tive - respondeu Pam.

Surpreso, Philip olhou srio para ela.

- Diga o que est sentindo, Philip - pediu Julius.

Philip no quis responder e Julius disse: - Voc lembra tudo, de cada palavra que Pam diz. Acho que ela  bem importante para voc.

Philip continuou calado.

Julius virou-se para Pam. - Estou pensando nas suas palavras, que Philip foi um dos melhores professores que teve. Por isso deve ter se desapontado e se sentido
mais enganada.

- Acertou. Obrigada, Julius, voc est sempre atento. Stuart repetiu o que ela disse.
 - Um dos melhores professores que teve. Estou totalmente pasmo por voc dizer algo to... generoso para Philip. Um grande progresso.

- No aumente as coisas - disse Pam. - Julius acertou na mosca. Por Philip ser um bom professor, o que ele fez foi, no mnimo, pior ainda.

Tony considerou o que Gill disse a respeito de sua relao com Pam e abriu a sesso seguinte dirigindo-se a ela: - Olha,  meio estranho, mas fiquei guardando
meus sentimentos. Quer dizer, o que aconteceu conosco me deixou mais chateado do que admiti. Mo fiz nada de errado com voc, ns dois fomos para a cama e agora
eu sou a person non grata...

- Persona non grata - corrigiu Philip, baixo.

- Persona non grata - repetiu Tony e continuou: - E parece que estou sendo castigado. A gente se separou e eu no entendi. ramos amigos, depois namorados, e agora
estou numa espcie de purgatrio, voc foge de mim. Gill tem razo: levar o fora em pblico foi humilhante  bea. Fiquei sem nada: nem cama, nem amizade.

 - Ah, Tony, me perdoa. Eu errei, eu, ns nunca devamos ter feito isso. Para mim tambm est esquisito.
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- Que tal a gente voltar ao comeo?

- Voltar para onde?

- Sermos amigos, mais nada. Sair depois da sesso, como todo mundo faz, exceto meu companheiro Philip que est se aproximando. - Tony esticou a mo e deu um aperto
carinhoso no ombro de Philip. - Sabe, voltarmos a conversar sobre o grupo, comentar de livros, essas coisas.

- Parece uma atitude adulta - respondeu Pam. - E seria a primeira vez, porque depois que tenho um caso, sempre dou uma cortada no cara.

Bonnie se ofereceu para falar. - Fico pensando, Pam, se mantm distncia de Tony por medo de ele interpretar uma proposta de amizade como um convite para sexo.

- , isso mesmo, tem muito disso. Tony s pensa numa coisa.

 - Bom, a soluo  bvia: explique. Seja clara, a indefinio piora tudo. Algumas semanas atrs, ouvi voc dizer que pode ser que fiquem juntos depois que o
grupo terminar.  isso mesmo ou s uma forma de amenizar o tranco? Aquela promessa s serve para atrapalhar a situao, deixa Tony perdido.

- Isso mesmo - disse Tony. - Foi timo voc dizer h umas semanas que podemos continuar um dia. Tento deixar as coisas como esto para manter essa possibilidade.

- com isso, voc perde a oportunidade de trabalhar seus problemas enquanto esse grupo e eu ainda estamos aqui - disse Julius.

- Sabe, Tony, transar no  a coisa mais importante do mundo, no  a nica coisa - disse Rebecca.

- Eu sei, eu sei, por isso estou falando agora. Me d um tempo. Aps um pequeno silncio, Julius disse: - Tony, ento continue
trabalhando nisso.

Tony olhou para Pam. - Vamos fazer o que Gill sugeriu e esclarecer as coisas. O que voc quer, Pam?

 - Quero voltar ao comeo. Quero que me perdoe pelo constrangimento de forar voc a contar uma coisa. Voc  um sujeito timo, Tony, gosto de voc. Outro dia ouvi
meus alunos da faculdade usarem essa nova gria ficar com algum, acho que foi o que fizemos e foi bom na hora, mas agora no 
mais, nem no futuro, pois o grupo  mais importante. Vamos nos concentrar em resolver nossos problemas.
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- Por mim, tudo bem, aceito.

- Ento, Tony, voc est liberado, pode falar tudo o que tem deixado de dizer sobre voc, Pam ou o grupo - sugeriu Julius.

Nas sesses restantes, o liberado Tony voltou ter seu papel no grupo. Instigou Pam a lidar com seus sentimentos em relao a Philip. Havia uma possibilidade de ela
brigar com Philip depois de elogi-lo como professor, mas isso no ocorreu. Tony ento insistiu para ela pensar por que continuava com tanta raiva de Philip, embora
conseguisse perdoar outras pessoas do grupo.

Pam respondeu: - J falei que  mais fcil perdoar gente como Rebecca, Stuart ou Gill porque no fui vtima deles. O que fizeram no alterou minha vida. E mais:
posso perdoar outros aqui porque eles se mostraram arrependidos e, acima de tudo, porque mudaram.

- Eu mudei, hoje acredito que  possvel perdoar a pessoa, mas no o que ela fez. Acho que poderia perdoar Philip se ele tivesse mudado. S que no mudou. Perguntaram
como pude perdoar Julius. Bom, pois olhem para ele:  uma pessoa que no pra de dar. E tenho certeza que vocs todos j perceberam que ele est nos dando uma ltima
ddiva de amor: est nos ensinando a morrer. Conheci o Philip de antes e posso garantir que  o mesmo que est aqui. No mximo, est s mais frio e mais arrogante.

Aps uma breve pausa, ela acrescentou: - E no faria mal algum se ele me pedisse desculpas.

- Philip no mudou? - perguntou Tony. - Acho que voc est vendo o que quer. Ele no corre mais atrs de mulheres, isso mudou. - Tony ento virou-se para Philip:
- Voc no disse, mas mudou, no?

Philip concordou. - Mudei muito, h doze anos no transo.

- Isso no  mudana? - perguntou Tony para Pam.

- Ou reforma? - perguntou Gill.

Antes que Pam pudesse responder, Philip interrompeu. - Reforma? No,  incorreto. No houve a inteno de reformar. Explico: no mudei minha vida ou, como foi dito
aqui, meu vcio em sexo, por alguma deciso moral. Mudei porque minha vida estava um desespero que no dava mais para agentar.

- Como deu esse passo? Houve alguma gota d'agua? - perguntou Julius.
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Philip ficou sem saber se respondia. Depois, respirou fundo e comeou a falar mecanicamente como se fosse movido  corda: - Uma noite, eu estava voltando para casa
de carro aps uma longa orgia com uma mulher lindssima e conclu que tinha conseguido o que queria. Estava saciado. O carro, eu, tudo cheirava a sexo: minhas
mos, meus cabelos, minhas roupas, meu hlito. Era como se eu tivesse entrado numa banheira de sais aromticos de mulher. E a, no fundo da minha cabea, percebi
que o desejo estava voltando, pronto para atacar de novo. Foi essa a gota d'agua. De repente, fiquei enjoado da minha vida e vomitei. Ento - Philip virou-se para
Julius - lembrei do que voc disse do epitfio. E vi que Schopenhauer tinha razo: a vida  um sofrimento eterno e o desejo  insacivel. A roda do sofrimento no
pra de girar, eu tinha de dar um jeito de sair dela e foi a que resolvi pautar minha vida pela de Schopenhauer.

- E deu certo durante todos esses anos? - perguntou Julius.

- At agora, at eu vir para o grupo.

- Voc melhorou tanto, Philip - disse Bonnie. - Est to mais acessvel, to mais afvel. vou ser sincera, do jeito que voc era quando comeou aqui, eu no via
ningum consultando voc como terapeuta, nem mesmo eu.

- Infelizmente - respondeu Philip -, estar acessvel aqui significa que preciso saber das desgraas de todo mundo, o que s aumenta a minha. Diga, como esse acessvel
pode ser til? Quando eu estava na vida, estava pssimo. Nos ltimos doze anos fui um visitante, um observador da vida que se passava na minha frente e vivi num
mar de tranqilidade. - Philip levantou e abaixou as mos abertas para ilustrar o mar. - Agora que este grupo me obrigou a voltar  vida, estou de novo angustiado.
Contei da agitao que tive depois do grupo, algumas semanas atrs. Ainda no voltei  calma de antes.

- Acho que h um erro no que voc falou, Philip - disse Stuart. - Tem a ver com estar na vida.

Bonnie se adiantou. - Eu ia dizer isso. Acho que voc nunca esteve na vida realmente. Voc nunca falou num verdadeiro relacionamento. No ouvi nada sobre amigos
e, quanto a mulheres, voc disse que era um destruidor.

 -  mesmo, Philip? Nunca teve um relacionamento para valer? - perguntou Gill.
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Philip balanou a cabea. - Todas as pessoas com as quais me relacionei me magoaram.

- Seus pais? - perguntou Stuart.

- Meu pai era uma pessoa distante e, acho, com depresso crnica. Suicidou-se quando eu tinha treze anos. Minha me morreu h poucos anos, mas eu estava afastado
dela h vinte. No fui ao enterro.

- No tem irmos? - perguntou Tony. Philip balanou a cabea. - Sou filho nico.

- Sabe o que pensei? - interrompeu Tony. - Quando eu era pequeno, quase no comia o que minha me fazia. S dizia: "No gosto disso" e ela sempre perguntava: "Como
pode no gostar, se no provou?". A sua vida me lembra isso.

Philip respondeu: - Podemos conhecer muitas coisas apenas atravs da razo. A geometria, por exemplo. Ou algum pode ter uma experincia dolorosa e concluir a partir
dela, ou pode olhar, ler, observar os outros.

- Mas o seu amado Schopenhauer no disse que conseguiu muita coisa ouvindo o prprio corpo, sentindo, como foi que voc disse? A experincia do momento?

- A experincia imediata.

- Isso, a experincia imediata. No acha que voc est decidindo uma coisa importante com base em informaes de segunda mo, quer dizer, informaes que no
so sua experincia imediata?

- A pergunta  pertinente, Tony, mas tive uma experincia direta depois daquele dia da confisso aqui.

- Voc se refere quela sesso outra vez, Philip. Parece que ela foi um ponto de mutao - disse Julius. - Talvez seja hora de contar o que houve com voc naquele
dia.

Como antes, Philip parou, respirou fundo e passou a contar de maneira metdica o que ocorreu aps aquela sesso. Quando falou na agitao que sentiu, sem conseguir
dominar suas tcnicas para se tranqilizar, ficou bastante nervoso. E ao falar que o assunto no lhe saa da cabea, ficou grudado, gotas de suor brilharam na sua
testa. Ao falar no ressurgimento de seu "eu" predador e agressivo, a camisa vermelho-claro ficou manchada nas axilas e o suor escorreu pelo queixo, o nariz e o pescoo.
A sala ficou parada, estavam todos impressionados com a torrente de palavras e a transpirao.
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Ele parou de falar, respirou fundo outra vez e continuou: - Fiquei pensando coisas sem sentido, as imagens surgiam confusas na minha cabea, coisas esquecidas h
muito tempo. Lembrei de meus dois encontros com Pam. E vi o rosto dela, no o de agora, mas o de quinze anos atrs, como uma nitidez enorme. Era um rosto radiante,
eu queria segurar aquele rosto e... - Philip no conseguia segurar mais nada, seu cime, o desejo de homem das cavernas de possuir Pam, nem a imagem de Tony com
msculos de Popeye. Ele transpirava sem parar e ficou totalmente molhado de suor. Levantou-se e saiu da sala dizendo: - Estou encharcado, preciso sair.

Tony foi atrs dele. Dois ou trs minutos depois, os dois voltaram, Philip usando a camisa do San Francisco Giants de Tony e este s com sua camiseta preta e
justa.

Philip no olhou para ningum; desmontou na cadeira exausto, sem dvida.

- Ressuscita ele - disse Tony.

- Se eu no fosse casada, me apaixonava pelos dois, pelo que acabaram de fazer.

- Eu estou solto na rea - disse Tony.

- Sem comentrios - disse Philip. - Para mim, chega por hoje. No tenho mais uma gota a dizer.

 - Uma gota? Essa  sua primeira piada aqui. Adorei - disse Rebecca.
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*** 39

Alguns no conseguem se libertar dos seus prprios grilhes, mas conseguem libertar os amigos.

- NIETZSCHE

39

A FAMA, ENFIM

Poucas coisas foram to menosprezadas por Schopenhauer quanto o desejo de fama. Mesmo assim, ah, como ele a desejava!

A fama tem papel importante em seu ltimo livro, Parerga e Paralipomena, dois volumes de observaes esparsas, ensaios e aforismos, completado em 1851, nove anos
antes de sua morte. com uma enorme sensao de misso cumprida e alvio, ele terminou o livro e declarou: - vou enxugar a pena da minha caneta e dizer "o
resto  silncio".

Mas encontrar um editor era um desafio e nenhum dos que teve antes aceitou a proposta, pois perderam muito dinheiro nos outros livros, que encalharam. Mesmo sua
obra mxima, O mundo como vontade e representao, vendeu pouco e teve uma nica e opaca resenha. At que um de seus fiis apstolos convenceu um livreiro de Berlim
a imprimir 750 exemplares, em 1853. Schopenhauer receberia dez exemplares de graa, mas nenhum direito autoral.

O primeiro volume de Parerga e Paraliponema contm uma notvel trinca de ensaios sobre como ganhar e manter a auto-estima.
    305

O primeiro ensaio, O que  o homem, mostra como o pensamento criativo proporciona uma riqueza interior, que por sua vez confere auto-estima e permite que se vena
o vazio e o tdio da vida, causadores de seguidas conquistas sexuais, viagens sem fim e jogos de azar, diz o autor.

O segundo ensaio, O que o homem tem, analisa uma das maiores compensaes para a pobreza interior: o acmulo de bens que acabam fazendo com que a pessoa seja
possuda por suas posses.

O terceiro ensaio, O que o homem representa, mostra melhor a sua viso a respeito da fama. A auto-estima ou mrito interior  o que importa, da a fama ser algo
secundrio, mera sombra do mrito. "No  a fama, mas o que merecemos que realmente vale. (...) a maior felicidade do homem no  que a posteridade v saber alguma
coisa sobre ele, mas se ele vai ter idias que merecem ser consideradas e mantidas por sculos". A auto-estima baseada no mrito interior resulta numa autonomia
que no pode ser tirada de ns (fica em nosso poder), enquanto a fama jamais est em nosso poder.

Ele sabia que no querer a fama  difcil; comparava essa negao a "extrair um doloroso espinho de nossa carne" e concordava com Tcito, que escreveu: "O homem
sensato deve deixar por ltimo a sede de fama". E ele jamais conseguiu deixar de lado essa sede. Seus escritos so cheios de amargura por ele no ter alcanado o
sucesso. Costumava ler jornais e publicaes em busca de alguma citao ou meno a ele e sua obra. Sempre que viajava, deixava a tarefa a cargo de Julius Frauenstdt,
seu apstolo mais fiel. Embora no parasse de reclamar de ser ignorado, acabou se conformando com o anonimato. No prefcio de seus ltimos livros, ele se dirigiu
s futuras geraes que o descobririam.

Ento, o inesperado aconteceu. O livro Parerga e Paralipomena, que falava na insensatez de perseguir a fama, deu fama ao autor. Nessa obra derradeira, ele abrandou
o pessimismo, diminuiu as lamentaes e deu conselhos sensatos de como viver. Embora continuasse acreditando que "a vida  apenas um camada fina de mofo sobre a
superfcie da Terra" e "uma alterao na ditosa calma do nada", seguiu um rumo mais prtico em sua ltima obra. Como somos obrigados a viver, escreveu ele, devemos
sofrer o menos possvel. (Schopenhauer sempre viu a felicidade como um fato negativo - era a falta do sofrimento
    306

- e valorizava a mxima de Aristteles: "O homem prudente no aspira ao prazer, mas  ausncia da dor".

Assim, Parerga e Paralipomena ensina como pensar com independncia, como manter o ceticismo e a razo, como evitar
buscar emolientes sobrenaturais, como pensar
bem de ns mesmos, ter ambies pequenas e evitar se apegar ao que se pode perder. Embora
"todo mundo deva atuar no teatro de marionetes da vida e sentir o arame
que nos mantm em movimento", h certo consolo na perspectiva sublime do filsofo de que, em relao  eternidade, nada importa. Tudo passa.

Parerga e Paralipomena traz um outro tom. Embora continue a destacar o trgico e lamentvel sofrimento da vida, traz a idia da ligao, isto , de que atravs
do sofrimento nos ligamos aos outros. Num importante trecho, o grande misantropo mostra uma viso mais suave e indulgente de seus companheiros bpedes.

O tratamento mais adequado entre dois homens no deveria ser "Senhor, Sir, Monsieur, masmeu companheiro sofredor". Por estranho que parea, estaria de acordo com
os fatos, pondo o outro na luz adequada e nos lembrando do que  mais necessrio: a tolerncia, a pacincia e o amor pelo prximo que todos precisam e, portanto,
todos se devem.

Poucas frases depois, ele acrescenta uma idia que poderia servir tambm na abertura de um livro de psicoterapia hoje.

Devemos encarar com tolerncia toda loucura, fracasso e vcio dos outros, sabendo que encaramos apenas nossa prpria loucura, fracasso e vcio. Pois eles so
os fracassos da humanidade  qual tambm pertencemos e assim temos os mesmos fracassos em ns. No devemos nos indignar com os outros por esses vcios apenas
por no aparecerem em ns naquele momento.

Parerga e Paralipomena foi um grande sucesso e foram feitas inmeras selees de textos, publicadas separadamente com ttulos mais populares (Aforismos de sabedoria
prtica, Conselhos e mximas, Sabedoria de vida, Pensamento vivo de Schopenhauer, A arte da literatura, Religio: um dilogo).
    307

Em pouco tempo, Schopenhauer estava na boca de todo alemo instrudo. At na vizinha Dinamarca, o filsofo Kierkegaard escreveu em seu dirio,
em 1854, que "o assunto literrio do momento  S., jornalistas e escritorzinhos comeam a se interessar por ele".

Comeam tambm a aparecer elogios na imprensa. A Inglaterra, onde ele quase nasceu, foi a primeira a dedicar-lhe uma tima resenha de sua obra completa com o
ttulo de Iconoclasta na filosofia alem, publicada no respeitado Westminster Review. Pouco depois, a resenha foi traduzida e muito lida na Alemanha. Artigos parecidos
logo apareceram na Frana e Itlia, e a vida de Schopenhauer mudou por completo.

Curiosos entravam aos bandos no restaurante Englisher Hof para ver o filsofo almoar. Richard Wagner mandou-lhe o libreto original da pera Anel dos Nibelungos
com dedicatria. As universidades comearam a ensinar sua obra, ele recebia convites para participar de sociedades culturais e cartas elogiosas chegavam pelo
correio; seus livros anteriores ressurgiram nas livrarias, os habitantes de Frankfurt o cumprimentavam na rua e as lojas de animais de estimao tiveram enorme procura
de poodles iguais ao de Schopenhauer.

Era bvio o enlevo e alegria do filsofo. "Quando algum passa a mo no plo de um gato, ele ronrona. Da mesma forma, quando se elogia um homem, seu rosto reflete
um doce enlevo e alegria." Schopenhauer esperava que "o sol matinal de minha fama doure com seus raios o entardecer da minha vida e dissipe sua melancolia".
A famosa escultora Elisabeth Ney passou quatro semanas em Frankfurt para fazer um busto dele, e Schopenhauer ronronou: - Ela trabalha o dia todo na minha casa. Quando
chego, tomamos caf juntos, sentamos no sof e me sinto como se fosse casado.

Desde a melhor poca de sua vida (os dois anos passados no Havre, com os Blesimaire), Arthur no falava com tanta ternura e satisfao na vida domstica.
    308

*** 40

Ao chegar ao fim da vida, nenhum homem sincero e de posse de suas faculdades vai desejar viver de
novo. Preferir morrer para sempre

40

Na penltima sesso, as pessoas entraram na sala com sentimentos diversos: algumas estavam tristes porque o grupo ia acabar logo; outras, pensavam nos problemas
pessoais que deixaram de abordar; outras, ainda, olhavam para Julius como se fossem gravar o rosto dele na memria. E todas estavam muito curiosas para ver como
Pam reagiria s revelaes de Philip na sesso anterior.

Mas, em vez de satisfazer essa curiosidade, Pam tirou um papel da bolsa, desdobrou-o devagar e leu alto:

Um carpinteiro no vai me dizer "Oua o discurso que escrevi sobre a arte da carpintaria" Ele se compromete a construir uma casa e constri ((... ) Seja assim voc
tambm coma como um homem, beba como um homem (... ) case-se, tenha filhos, participe da comunidade, saiba como suportar as afrontas e os outros.

Depois, virando-se para Philip, perguntou. - Adivinhe quem escreveu isso?

Philip deu de ombros.
    309

- O seu filsofo Epcteto, por isso eu trouxe. Sei que voc o adora, essa  uma parbola dele. Por que citei? Estou tratando do tema levantado por Tony, Stuart e
outras pessoas na semana passada ao dizerem que voc nunca viveu. Acho que os textos de filsofos que voc escolheu foram para confirmar a sua opinio e...

Gill interrompeu. - Pam, essa  nossa penltima sesso. Se voc vai fazer mais um dos seus ataques a Philip, no tenho tempo para isso. Faa o que est mandando:
seja objetiva e diga o que sente. Deve ter muito a comentar do que Philip falou na sesso passada.

- No, no, escute - respondeu Pam, rpido. - No  um ataque a Philip. Minha inteno  outra. O ferro est esfriando, quero dizer alguma coisa que seja til para
Philip. Acho que ele foge da vida apoiando-se na filosofia. Usa Epcteto conforme lhe convm ou no.

- Boa observao, Pam - disse Rebecca. - Tocou numa coisa importante. Comprei num sebo um livrinho chamado A sabedoria de Schopenhauer, que leio h duas noites.
Tem de tudo, coisas timas e pssimas. Li ontem um trecho que me arrasou, onde ele diz que, se entrarmos num cemitrio, batermos nas lpides e perguntarmos aos espritos
l dentro se gostariam de voltar a viver, todos diriam enfaticamente que no. - Virou-se para Philip e perguntou: - Voc acha que seria assim? - Sem esperar a resposta,
Rebecca continuou: - Bem, eu no. No  o meu caso, mas queria conferir com vocs. Vamos votar?

- Eu gostaria de viver de novo. A vida  uma merda, mas tambm  tima - disse Tony. O grupo concordou em coro e Julius atalhou: - S fico em dvida numa coisa:
passar de novo pela dor da morte de minha mulher. Mesmo assim, eu aceitaria, gosto muito de viver. - S Philip continuou calado.

- Desculpem, mas concordo com Schopenhauer - disse ele. - A vida  um sofrimento do princpio ao fim. Seria melhor no haver nenhuma forma de vida.

- Melhor para quem? - perguntou Pam. - Para Schopenhauer, voc quer dizer? Parece que para as pessoas dessa sala, no.

 - No  s Schopenhauer quem acha. Pense nos milhes de budistas para os quais a primeira das quatro grandes verdades  "a vida  sofrimento."
    310

- Fala srio, Philip? O que houve com voc? Quando fui sua aluna, voc discorria com entusiasmo sobre mtodos de discusso filosfica. Que mtodo  esse?
A verdade por decreto? Por uso da autoridade ?  como a religio faz, mas voc sem dvida segue Schopenhauer no atesmo. Ser que lembrou que Schopenhauer tinha
depresso crnica e que Buda viveu num tempo e num lugar em que havia muito sofrimento causado pela peste e a fome? E que, para a maioria das pessoas, a vida era
realmente um sofrimento sem-fim ? Ser que pensou...

- Que mtodo de discusso filosfica  esse? - reagiu Philip.

- Qualquer aluno mediano sabe a diferena entre sntese e eficcia de discusso.

- Um momento, um momento - pediu Julius. - Vamos parar um instante e conferir. - Olhou cada uma das pessoas no grupo.

- Como os outros esto se sentindo com isso ?

- Boa idia. Eles estavam se esmurrando, mas com luvas de pelica - disse Tony.

-  melhor do que lanar olhares fulminantes - disse Gill.

- , eu tambm prefiro - concordou Bonnie. - Voavam fascas entre Pam e Philip, mas eram menos incandescentes

- Concordo, mas s at dois minutos atrs, quando a coisa mudou - disse Stuart.

- Stuart, na sua primeira sesso aqui, voc disse que sua mulher o acusava de falar frases telegrficas - disse Julius.

- , voc hoje est de poucas palavras, se usar mais algumas no vai lhe custar nada - disse Bonme.

- Est bem, pode ser que eu esteja regredindo porque... esta  a penltima sesso. No sei, no estou triste; como sempre, tenho de supor meus sentimentos. S sei,
Julius, que gosto de voc cuidar de mim, me cobrar, tratar do meu caso. Fui claro?

- Foi timo e eu vou continuar cuidando. Voc disse que gostou da conversa de Pam com Philip at dois minutos atrs. Por qu?

 - No comeo, parecia uma boa discusso, como aquelas brigas de famlia Mas o ultimo comentrio de Philip foi
desagradvel, qualquer estudanti mediano sabe disso.
No gostei, Philip. Foi estpido e, se voc me dissesse isso, eu ficaria ofendido. E ameaado, pois no sei nem o que quer dizer discusso filosfica.
    311

- Concordo com Stuart - disse Rebecca. - Escute, Philip, o que voc estava sentindo? Queria ofender Pam?

- Ofender? No, nem um pouco. Era a ltima coisa que eu pretendia - respondeu Philip. - Fiquei... hum... aliviado (no sei bem que palavra usar), quando ela disse
que o ferro no estava mais em brasa. O que mais senti? Sabia que uma das razes para ela trazer um texto de Epcteto era me confundir. bvio. Mas lembrei do que
Julius disse quando eu trouxe aquela fbula para ele: que estava contente com meu esforo e com o afeto que havia por trs do gesto.

 - Bom, vou falar como Julius costuma dizer - disse Tony. - Parece que voc queria dizer uma coisa, mas disse outra.

Philip fez cara de no ter entendido. Tony explicou:

- Voc disse que ofender Pam era a ltima coisa que pretendia, mas ofendeu, no?

Relutante, Philip concordou.

- Ento - continuou Tony, parecendo um advogado triunfante comparando provas -, voc precisa colocar a inteno e a ao no mesmo nvel.  preciso que sejam congruentes,
ser essa a palavra? - Tony olhou para Julius, que concordou. - E talvez por isso voc devia fazer terapia. A terapia trata de congruncia.

- Bem argumentado - disse Philip. - No tenho nenhum contra-argumento. Voc est certo,  por isso que preciso de terapia.

- O qu? - perguntou Tony, sem acreditar no que ouviu. Olhou para Julius, que fez cara de quem diz "esse sujeito  um espanto".

- Me segurem, vou desmaiar - disse Rebecca, desmontando na cadeira.

- Eu tambm - disseram Bonnie e Gill, desmontando tambm.

Philip deu uma olhada na metade do grupo que fingia estar desmaiado e, pela primeira vez desde que entrou l, sorriu. Depois, acabou com a brincadeira voltando
ao tema tipo de orientao. - A discusso de Rebecca a respeito da lpide de Schopenhauer mostra que a minha viso ou de qualquer outra pessoa sobre o que ele disse
 invlida. Lembrem que eu passei anos sofrendo muito com algo que Julius no pde curar e s consegui seguindo os conselhos de Schopenhauer.

Na mesma hora, Julius concordou com Philip. - No nego que voc fez um bom trabalho. A maioria dos
terapeutas hoje acredita ser
    312

impossvel vencer sozinho uma grave obsesso por sexo. O tratamento  bem longo, ou seja, dura anos, e o programa de recuperao consiste em anlise individual e
de grupo vrias vezes por semana, em geral similares ao "princpio dos doze passos", dos A.A. Mas naquela poca ainda no existia um programa de recuperao e, sinceramente,
no acredito que voc fosse aceit-lo.

- Portanto, quero registrar que foi um grande feito seu: as tcnicas que voc usou para controlar seus impulsos funcionaram melhor do que tudo que ofereci, por mais
que me esforasse.

- Tenho certeza de que se esforou ao mximo - disse Philip.

- Uma pergunta, Philip: ser que seus mtodos no esto obsoletos?

- Ob... o qu? - perguntou Tony.

- Obsoleto, do latim obsoleo, estar fora de uso - cochichou Philip, que estava sentado ao lado de Tony.

Tony agradeceu com um aceno de cabea.

- Outro dia - continuou Julius -, fiquei pensando como dizer isso a voc; imaginei ento uma cidade antiga que construiu uma muralha para se proteger das inundaes
de um rio. Sculos depois, o rio j estava seco h muito tempo, mas a cidade ainda gastava muito dinheiro na conservao da muralha.

- Voc fala de continuar usando uma soluo, apesar de o problema ter acabado - disse Tony. - Como colocar um curativo num machucado que j sarou.

- Exatamente, talvez o curativo seja uma metfora melhor - disse Julius.

- Discordo - disse Philip para Julius e Tony. - Meu machucado no est curado, ainda exige cuidados. A prova  que fico pouco  vontade no grupo.

 - Esse no  um bom exemplo. Voc no tinha experincia em ficar prximo, em demonstrar sentimentos, em ter retorno do que fala ou faz e em se abrir com
os outros. Isso  novo para voc, que viveu ensimesmado anos e eu joguei voc no meio desse grupo forte. Claro que tinha de ficar pouco  vontade. Mas quero falar
do seu problema manifesto, da obsesso sexual que talvez tenha acabado. Voc est mais velho, passou por muita coisa,  deve ter chegado  terra da calmaria sexual.
 um lugar timo,clima bom, ensolarado.  Estou nele h anos.
    313

- Eu diria que Schopenhauer curou voc, mas agora voc precisa se curar dele - disse Tony.

Philip abriu a boca para responder, mas fechou e refletiu sobre o que Tony disse.

- Outra coisa: quando pensar no seu mal-estar no grupo - continuou Julius -, lembre da dor e da culpa que voc enfrentou aqui por causa de um encontro casual no
passado.

- No ouvi nada sobre culpa da parte dele - disse Pam Philip respondeu na hora, encarando Pam - Se eu tivesse sabido

na poca dos anos que voc ficou sofrendo, no faria o que fiz. Como j disse, foi falta de sorte voc cruzar o meu caminho. A pessoa que eu era no pensava nas
conseqncias. Eu vivia no piloto-automtico.

Pam concordou e ficou olhando para ele. Philip encarou-a um instante e depois voltou a ateno para Julius. - Entendo o que diz do enorme estresse nesse grupo, mas
insisto que isso  s parte da histria.  a que discordamos na orientao. Concordo que o relacionamento com os outros  difcil e, provavelmente, gratificante
tambm, embora eu no tenha essa experincia. Mesmo assim, tenho certeza que viver  difcil e sofrido. Permita que eu cite Schopenhauer um minuto.

Sem esperar resposta, Philip olhou para cima e comeou a declamar:

O homem nunca  feliz, passa a vida inteira lutando por algo que acha que vai faz-lo
feliz. No consegue e, quando consegue, fica desapontado. Ele  um nufrago e
chega ao porto de destino sem mastros nem cordames. No interessa mais se ele foi feliz ou infeliz, pois a vida foi sempre apenas o presente, que estava sempre sumindo
e agora terminou.

Aps um longo silncio, Rebecca disse: - Senti um frio na espinha.

- Entendi - disse Bonnie.

 - Pareo uma nervosa professora de ingls - disse Pam, falando para todos. - Mas peo que no se iludam com a retrica. Aquele texto no acrescenta nada ao
que Philip vem dizendo, s enfatiza. Schopenhauer tinha muito estilo e o melhor texto de todos os filsofos,
    314

depois de Nietzsche, claro. Ningum escreveu melhor que Nietzsche.

- Philip, quero responder seu comentrio sobre a orientao que voc e eu temos - disse Julius. - No creio que estejamos to distantes quanto voc acha. Concordo
bastante com o que voc e Schopenhauer disseram sobre o drama da condio humana. Nossa discordncia est no que fazer. Como viver? Como encarar o fato de sermos
mortais? Como viver, sabendo que somos apenas formas de vida, jogadas num universo indiferente, sem qualquer finalidade definida?

- Como voc sabe - continuou Julius -, embora eu tenha mais interesse por filosofia do que a maioria dos terapeutas, no sou especialista. Mas sei de outros grandes
pensadores que enfrentaram esses duros fatos e encontraram solues bem diferentes das de Schopenhauer. Falo especialmente de Camus, Sartre e Nietzsche, que defendem
a ao, em vez da resignao de Schopenhauer. O filsofo que conheo melhor  Nietzsche. Como voc sabe, assim que soube da minha doena e entrei em pnico, abri
Assim falou Zaratustra e fiquei ao mesmo tempo calmo e inspirado, sobretudo pelo comentrio que celebra a vida, dizendo que devemos viver de  forma que possamos
aceitar, se nos oferecerem viver outra vez e mais outra, exatamente do mesmo jeito.

- Por que essa idia lhe deu alvio? - perguntou Philip.

- Pensei na minha vida e senti que tinha vivido direito, no tinha arrependimentos, embora, claro, detestasse o fato de minha mulher ter morrido. O livro me ajudou
a resolver como eu deveria viver o tempo que me restava: continuando a fazer exatamente o que sempre deu prazer e teve sentido para mim.

- No sabia desse fato entre voc e o livro de Nietzsche, Julius - disse Pam. - Fico ainda mais prxima de voc porque Zaratustra, melodramtico como , continua
sendo um dos meus livros preferidos. A frase que mais gosto  ele dizendo: " isso a vida? Ento, de novo ela!" Gosto de gente que abraa a vida e me irrito com
quem se encolhe frente a ela. Estou me referindo a Vijay, na ndia. Acho que na prxima vez que eu colocar anncio num consultrio sentimental de revista feminina,
vou citar a frase de Nietzsche e a da lpide de Schopenhauer e pedir para os candidatos escolherem. Assim fico sabendo quais so os derrotistas e quais os lutadores.
    315

- Tenho outra frase que gostaria de mostrar. - Pam virou-se para Philip. -  claro que, aps a ltima sesso, pensei muito em voc. Estou dando um curso de biografia
e nas leituras da semana passada encontrei um trecho timo da biografia de Erik Erikson sobre Lutero. Diz mais ou menos o seguinte: "Lutero considerou a prpria
neurose como se fosse a de um paciente universal e depois tentou resolver em escala mundial o que no conseguiu resolver nele". Acho que Schopenhauer tambm cometeu
esse grande erro e voc foi atrs.

-Talvez - disse Philip, de forma conciliadora - a neurose seja uma construo social e precisemos de um tipo de terapia e de filosofia para cada tipo de pessoa:
um, para os que apreciam a proximidade com os demais; outro, para os que preferem a vida intelectual. Pense, por exemplo, quanta gente vai a centros de meditao
budista.

- Queria comentar uma coisa com voc, Philip - disse Bonnie. - Acho que sua viso do budismo  equivocada. Participei de retiros budistas cujo foco estava no
exterior, isto , valorizavam a bondade e a ligao com os outros, e no para dentro, a solido. Um bom budista pode ser uma pessoa ativa, que est no mundo,
at politicamente ativa, s por amor aos outros.

- Ento, est ficando mais claro - disse Julius - que seu erro de avaliao envolve tambm os relacionamentos humanos. Outro exemplo: voc citou a viso de vrios
filsofos a respeito da vida e da morte, mas no o que eles (estou me referindo aos gregos) falaram sobre as alegrias da philia, a amizade. Lembro de um dos meus
supervisores citar um trecho de Epicuro onde diz que a amizade  o ingrediente mais importante para uma vida feliz, e que fazer uma refeio sem a presena de um
amigo era viver como um leo ou um lobo. E a definio de Aristteles para amigo (aquele que incentiva e destaca o que o outro tem de melhor  parecida com
a idia que fao do terapeuta ideal.

- Philip, como est se sentindo? Ser que estamos jogando muita coisa para cima de voc de uma vez? - perguntou Julius.

 - Rebato dizendo que nenhum dos grandes filsofos jamais se casou, exceto Montaigne, que era to desinteressado da famlia que no sabia direito quantos filhos
tinha. Mas, como s temos uma sesso, de que adianta dizer isso?  difcil gostar de ouvir ataques ao meu curso e a tudo o que planejo oferecer como orientador.
    316

- Acho que isso no  verdade. Voc pode ajudar em muita coisa, da mesma forma que ajudou as pessoas aqui. No ? - perguntou Julius, olhando o grupo.

Depois que muitas cabeas concordaram com firmeza, Julius continuou: - Mas, se voc quer ser orientador, precisa entrar no mundo social. Gostaria de dizer que
muitos, at a maioria dos que vo procur-lo, precisaro de ajuda nos relacionamentos pessoais, e, se voc quer viver desse trabalho, tem que entender muito do assunto,
no h outro jeito. D uma olhada no grupo: todos entraram aqui devido a relacionamentos complicados. Pam, por problemas com os homens, Rebecca porque sua aparncia
influenciava sua relao com os outros, Tony por causa de uma relao destrutiva com Lizzy e brigas com outros homens. O mesmo motivo para todos os demais
integrantes do grupo.

Julius pensou e resolveu incluir os que faltavam. - Gill veio por causa de conflitos conjugais. Stuart, porque a mulher ameaava deix-lo, Bonnie por solido, problemas
com a filha e o ex-marido. Como voc v, no se pode ignorar os relacionamentos. E lembre-se, foi por isso tambm que insisti para voc entrar no grupo, antes
de fazer sua superviso.

- Talvez eu no tenha jeito. No tenho relacionamentos passados nem presentes. No tenho famlia, amigos, nem namorada. Gosto da minha solido, mas voc se surpreenderia
com o tamanho dela.

- Algumas vezes, depois da sesso, convidei voc para ir comigo  lanchonete, mas no aceitou. Pensei que tinha outro programa

- disse Tony.

- H doze anos almoo e janto sozinho. Talvez tenha comido um sanduche junto com algum, no um almoo de verdade. Voc tem razo, Julius. Epicuro devia achar
que vivo como um lobo. Algumas semanas atrs, depois daquela sesso que me deixou to transtornado, uma das coisas que pensei foi que a manso de idias que constru
no tem aquecimento. O grupo  caloroso. Esta sala  quente, mas o lugar onde moro  um gelo. Quanto a amor,  coisa que desconheo.

- Aquelas mulheres todas, centenas, que voc comentou conosco

 - disse Tony. - Deve ter havido algum amor, voc deve ter gostado de algumas, ou elas de voc.
    317

- Isso foi h muito tempo. Se alguma gostou de mim, tratei de evit-la. E se me amaram, no gostaram de mim, do meu verdadeiro eu, mas da minha tcnica.

- Qual  o seu verdadeiro eu? - perguntou Julius.

Philip respondeu, cada vez mais srio. - Lembra no que eu trabalhava quando nos conhecemos? Eu era um exterminador, um qumico inteligente que descobriu como matar
insetos usando os hormnios deles para impedir que se reproduzissem. Que tal essa ironia? O matador com a arma de hormnio.

- E qual  o seu verdadeiro eu? - insistiu Julius.

Philip olhou bem nos olhos de Julius. -  um monstro, um predador. Solitrio. Matador de insetos. - Seus olhos lacrimejaram. - Cheio de dio. Intocvel. Ningum
que me conheceu gostou de mim. Jamais. Nem podia.

De repente, Pam levantou-se e foi at Philip. Fez sinal para Tony trocar de lugar, sentou-se ao lado de Philip e segurou na mo dele. Disse, carinhosa: - Eu podia
ter gostado de voc, foi o homem mais bonito e interessante que conheci. Liguei e escrevi semanas para voc, depois que no quis me encontrar mais. Podia ter amado
voc, mas voc estragou...

- Psssiu - Julius tocou no ombro de Pam para ela se calar. - No, Pam, no v por a, fique na primeira parte, repita.

- Eu podia ter gostado de voc.

- Voc foi o homem mais... - ajudou Julius.

- O homem mais bonito que eu conheci.

- De novo - cochichou Julius.

Pam continuou segurando a mo de Philip, que chorava, e repetindo: - Podia ter gostado de voc, voc foi o homem mais bonito...

Philip ento escondeu o rosto com as mos e saiu da sala.

Tony imediatamente encaminhou-se para a porta. - Essa  a minha deixa.

Julius tambm se levantou e segurou Tony: - No, Tony, essa deixa  minha. - Saiu da sala e viu Philip no final do corredor, encostado na parede, soluando. Julius
abraou-o e disse: -  bom colocar tudo para fora, mas temos de voltar para a sala.

Philip soluou mais alto e negou com a cabea, tentando retomar o flego.
    318

- Tem que voltar, amigo. Foi por isso que veio para c, exatamente para isso e no pode desperdiar. Voc trabalhou bem hoje, do jeito que deve fazer para se tornar
um terapeuta. Temos s mais dois minutos de sesso. Volte comigo e sente-se l com os outros. Fique calmo.

Philip ps a mo, apenas um instante, sobre a mo de Julius, aprumou-se e voltou com ele para a sala. Sentou-se. Pam tocou no brao dele e Gill, sentado do outro
lado, deu um tapinha no ombro dele.

- Como est voc, Julius? Parece cansado - disse Bonnie.

- De cabea, estou timo, satisfeito com o trabalho do grupo. Muito contente de ter participado disso tudo. De corpo, confesso que estou indisposto e cansado.
Mas tenho energia para nossa ltima sesso na semana que vem.

- Julius, posso trazer um bolo para comemorar nossa ltima sesso? -perguntou Bonnie.

- Claro, pode trazer qualquer bolo de cenoura que quiser.

Mas no houve despedida. No dia seguinte  sesso, Julius teve uma dor de cabea fortssima. Horas depois, entrou em coma e morreu trs dias depois. Na segunda-feira,
 mesma hora de sempre, o grupo se reuniu na lanchonete e dividiu o bolo de cenoura em silenciosa tristeza.
    319

*** 41

Consigo suportar a idia de que poucas horas depois que eu morrer, os vermes comero meu corpo, mas estremeo ao imaginar professores criticando minha filosofia.

41

A MORTE CHEGA PARA ARTHUR SCHOPENHAUER

Schopenhauer enfrentou a morte como tudo na vida: com extrema lucidez. Sem esquivar-se, sem entregar-se a fceis crenas espirituais, continuou racional at
o fim.  pela razo, disse ele, que descobrimos a morte: vemos os outros morrerem e, por analogia, conclumos que tambm morreremos. E  pela razo que chegamos
 concluso bvia de que a morte  o fim da conscincia e a destruio irreversvel do eu.

Disse tambm que h duas formas de encarar a morte: pela razo ou pela iluso e a religio, com sua esperana de que existe conscincia e vida aps a morte.
Assim, a existncia da morte e o medo dela so o pai do pensamento e a me da filosofia e da religio.

Por toda a vida, Schopenhauer lidou com a onipresena da morte. Em seu primeiro livro, escrito aos vinte e poucos anos, afirmou: "A vida  apenas a morte sendo
evitada e adiada. (...) Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaa e assim lutamos com ela a cada segundo".
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Como ele descreveu a morte? Sua obra traz muitas metforas sobre o tema: somos ovelhas pastando e a morte  o aougueiro que escolhe com cuidado uma ovelha e
depois outra; ou somos como crianas num teatro ansiosas para a pea comear e, felizmente, sem saber o que vai nos acontecer; ou, ainda, somos marinheiros evitando
os rochedos e remoinhos do mar, seguindo para o grande e catastrfico naufrgio final.

As descries que faz do ciclo da vida mostram sempre uma viagem inexorvel e desesperada.

Como o nosso comeo  diferente do fim! No comeo, temos o delrio do desejo e o xtase do prazer sensual; no fim, a destruio de todos os rgos e o cheiro do
cadver em decomposio. O caminho, do nascimento  morte,  sempre um declive no bem-estar e na alegria. Infncia sonhadora, juventude alegre, vida adulta difcil,
velhice frgil e em geral lastimvel, a tortura da ltima doena e, finalmente, a agonia da morte. No parece que a vida  um tropeo cujas conseqncias aos poucos
ficam mais bvias?

Ser que Schopenhauer temia a morte? Em seus ltimos anos, demonstrou muita calma em relao a ela. De onde vinha essa calma? Se o medo da morte  onipresente, se
a morte nos ameaa a vida inteira, se  to temida que muitas religies surgiram para diminuir esse medo, ento como o isolado e leigo filsofo conteve tal medo?

Seus mtodos se baseavam em analisar as origens da angstia da morte. Tememos a morte porque ela  estranha e desconhecida? Ento, diz ele, estamos enganados, pois
a morte  muito mais conhecida do que pensamos. No s sentimos o que ela  todos os dias, no sono ou em estados de inconscincia, mas todos ns passamos por um
estado de no-ser antes de sermos concebidos.

Tememos a morte porque ela  m? (Pense nos horrveis desenhos e ilustraes que costumam representar a morte.) Nesse ponto, tambm, ele insiste que estamos enganados:
" absurdo considerar a no-existncia como ruim: cada mal, como cada bem pressupe existncia e conscincia. (...)  claro que no  ruim perder o que no se pode
ter". O filsofo pede para lembrarmos que a vida  sofrimento, um mal em si. Ento, ser ruim perder uma coisa ruim? A morte, diz ele,
    321

deveria ser considerada uma beno, um alvio da inexorvel angstia da existncia bpede. "Deveramos saudar a morte como um fato feliz e desejado, em vez
de, como costuma ser, com medo e tremor. Deveramos insultar a vida por interromper nossa agradvel no-existncia", e ele faz sua polmica afirmao: "Se batermos
nas lpides e perguntarmos aos mortos se querem voltar  vida, balanaro a cabea dizendo que no". E cita frases parecidas de Plato, Scrates e Voltaire

Alm de seus argumentos racionais, Schopenhauer tem mais um, que beira o misticismo. Ele namora (mas no se casa) com a idia de uma espcie de imortalidade.
Acredita que nossa natureza interior  indestrutvel porque somos apenas uma manifestao da fora da vida, a vontade, a coisa em si que continua existindo eternamente.
Assim, a morte no  o fim, pois, quando nossa insignificante vida acaba, ns nos reintegramos com a fora vital primal e atemporal.

A idia de reintegrar-se a essa fora vital aps a morte dava um alvio a Schopenhauer e a muitos leitores dele (como, por exemplo, Thomas Mann e seu protagonista
Thomas Buddenbrooks), mas, como no implica um eu contnuo, muitos acham que  apenas um pequeno consolo. (O consolo que Thomas Buddenbrooks sente tambm  passageiro
e acaba poucas pginas depois.) Schopenhauer criou um dilogo entre dois filsofos gregos em que a idia da imortalidade no  muito confortadora. Na conversa, Filaleto
tenta convencer Trasmaco (um grande cptico) que a morte no assusta, pois a essncia humana  indestrutvel. Os argumentos de ambos so to lcidos e firmes que
o leitor fica sem saber o que pensa o autor. O cptico Trasmaco no se convence e d a palavra final.

FILALETO - Quando voc diz eu, eu, eu quero existir, no  s voc quem diz Tudo diz, tudo o que tiver o menor trao de conscincia.  o grito no do indivduo,
mas
da prpria existncia (... ) ele apenas admite o que voc e sua vida so realmente, ou seja, a vontade universal de viver. A questo vai lhe parecer pueril e muito
ridcula.

TRASMACO - Voc  pueril e ridculo como todos os filsofos, e se um homem da minha idade perde quinze minutos de converssa com um tolo desses,
    322

 apenas porque me diverte e passa o tempo. Tenho mais o que fazer, adeus.

Schopenhauer tinha outro mtodo para afastar a angstia da morte: quanto mais realizao pessoal houver, menor ser a angstia da morte. Se alguns acham que sua
idia de unidade universal  fraca, esse outro argumento , sem dvida, forte. Mdicos que tratam de pacientes terminais j notaram que a angstia  maior nos que
acham que tiveram uma vida mal realizada. A sensao de completude, de ter "consumado a vida", como diz Nietzsche, reduz a angstia da morte.

E o que diz Schopenhauer? Ser que ele viveu bem e bastante? Cumpriu sua misso? Ele tinha certeza que sim. Veja o final de suas notas autobiogrficas.

Sempre quis morrer rpido, pois quem viveu s a vida inteira saber avaliar melhor esse tema solitrio. Em vez de sumir em meio s tolices e bufonerias preparadas
para os lastimveis bpedes humanos, vou terminar feliz, consciente de estar voltando para onde vim (...) e de ter cumprido minha misso.

O mesmo sentimento (orgulho de ter percorrido seu talentoso caminho) aparece em versos curtos que fecham seu ltimo livro.

Estou cansado, no final da estrada,

A fronte exausta mal consegue suportar os louros.

Mesmo assim, vejo com alegria o que fiz,

Sem me intimidar com a opinio dos outros.

Quando foi lanado seu ltimo livro,Parerga e Paralipomena, cie constatou: - Estou muito satisfeito de ver o nascimento de meu ltimo filho.  como se tirassem de
meus ombros um peso que carrego desde os vinte e quatro anos. Ningum imagina o que seja.

Na manh do dia vinte e um de setembro de 1860, a criada preparou o caf da manh de Schopenhauer, limpou a cozinha, abriu as janelas da casa e saiu. O filsofo
j havia tomado seu banho frio e estava lendo no sof na sala, que era um cmodo grande e arejado,
    323

mobiliado com simplicidade. Ao lado do sof, no tapete preto de pele de
urso, estava deitado Atman, seu querido poodle. Na parede do sof havia um grande
retrato a leo de Goethe, vrios desenhos mostrando ces, Shakespeare e o imperador romano Cludio. Em outras partes da sala havia daguerretipos de Schopenhauer;
na escrivaninha, um busto de Kant e, num canto da mesa, um busto de Christoph Wieland, filsofo que incentivou o jovem Schopenhauer a estudar filosofia. Num canto,
ficava a estimada esttua dourada de Buda.

Pouco depois de a criada sair, o mdico que lhe fazia visitas peridicas, entrou na sala e encontrou seu cliente cado no canto do sof. Um "ataque do pulmo" (embolia
pulmonar) o levara desse mundo, sem dor. Seu rosto no estava alterado nem mostrava a agonia da morte.

O funeral num dia chuvoso foi mais desagradvel do que o normal, devido ao cheiro de carne putrefata no pequeno e fechado necrotrio. Dez anos antes, Schopenhauer
tinha dado instrues claras para ser enterrado pelo menos cinco dias aps a morte, at a decomposio comear. Talvez esse tenha sido um ltimo gesto de misantropia,
ou talvez de medo de sofrer uma catalepsia, interrupo temporria das funes vitais e ser enterrado vivo. O necrotrio ficou to cheio e o cheiro to forte, que
vrias pessoas tiveram de sair durante o longo e empolado obiturio feito por seu testamenteiro Wilhelm Gwinner, que comeou dizendo:

Este homem que viveu entre ns, mas se manteve um estranho, era possuidor de raros sentimentos. Ningum aqui presente est ligado a ele por laos de sangue. Morreu
isolado como viveu.

Sobre o tmulo de Schopenhauer foi colocada uma pesada lpide de granito belga. O testamento pedia que dela constasse apenas seu nome, mais nada - nem data, nem
ano ou palavra.

O homem enterrado naquele modesto tmulo queria que sua obra falasse por ele.
    324

*** 42

O ser humano aprendeu comigo algumas coisas que jamais esquecer.

42

TRS ANOS DEPOIS

O sol do entardecer entrava pelas grandes janelas abertas do Caf Florio. A antiga jukebox tocava rias ao Barbeiro de Sevilha acompanhadas pelo zunido de uma mquina
de caf expresso aquecendo o leite para os cappuccinos.

Pam, Philip e Tony estavam na mesma mesa  janela onde, desde a morte de Julius, se reuniam para um caf toda semana. Outras pessoas do grupo tinham participado
no primeiro ano, mas nos dois ltimos anos s eles se encontravam. Philip parou a conversa para ouvir uma ria e cantarolar junto. - Uma voc poo f, essa  uma
das minhas rias preferidas - disse ele, quando retomavam a conversa. Tony mostrou o diploma da faculdade. Philip informou que estava jogando xadrez duas noites
por semana no Clube de Xadrez de San Francisco (primeira vez que jogava com parceiros desde a morte do pai). Pam falou de sua boa relao com o novo namorado,
especialista na obra de Milton, e tambm de suas idas aos domingos s cerimnias budistas em Greem Goutin, em Marin.
    325

Ela olhou o relgio. - Est na hora de vocs entrarem em cena, rapazes. - Olhou para os dois. - Vocs so dois fofos, esto timos, mas Philip, essa jaqueta - Pam
balanou a cabea - no d mais, veludo cotel no se usa h vinte anos, nem esses falsos remendos nos cotovelos. Na semana que vem vamos fazer compras. - Olhou
a cara deles. - Vocs vo fazer bonito. Se na hora voc ficar nervoso, Philip, lembre das cadeiras que ganhou de Julius e que ele gostava dos dois. E eu tambm.
- Deu um beijo na testa de cada um, deixou uma nota de vinte dlares na mesa e disse: - Hoje  um dia especial, vocs so meus convidados - e foi embora.

Uma hora depois, sete pessoas entraram no consultrio de Philip para a primeira sesso do grupo e sentaram-se, sem jeito, nas cadeiras que foram da sala de Julius.
Depois de adulto, Philip tinha chorado duas vezes na vida: uma, na ltima sesso do grupo, e outra, ao saber que tinha herdado aquelas nove cadeiras.

- Sejam bem-vindos ao nosso grupo. Tentamos dar as regras na sesso individual que tivemos com cada um de vocs. Agora, vamos comear.

- Certo, s isso? No h mais instrues? - perguntou Jason, um homem baixo e magro, de meia idade, que usava uma camiseta Nike preta e justa.

- Lembro do medo que tive na minha primeira sesso de grupo - disse Tony, que se inclinou para a frente na cadeira. Estava bem vestido, de camisa branca de mangas
curtas, calas caqui e mocassins marrons.

- No estou falando em medo, mas na falta de orientao sobre o funcionamento do grupo - replicou Jason.

 - Bom, do que voc precisa para comear? - perguntou Tony.

- Informao, que  a mola do mundo hoje. Isso aqui  para ser um grupo de orientao filosfica. Vocs dois so filsofos?

- Eu sou, com doutorado na Columbia. Tony, meu assistente,  um aluno de orientao - disse Philip.

- Aluno? No entendi. Como vocs vo atuar aqui? - devolveu Jason.

 - Philip vai trazer idias da filosofia que possam ajudar, e eu, bem, estou aqui para aprender e dar uma ajuda onde puder. Sou mais
    326

especialista em facilitao emocional. Certo, companheiro? - perguntou Tony a Philip. Philip concordou.

- Facilitao emocional ? D para saber o que isso significa ? - perguntou Jason.

- Jason, eu me chamo Marsha - interrompeu outra participante do grupo - e gostaria de dizer que essa  a quinta agresso sua em cinco minutos no grupo.

- E da?

- E que voc  o tipo do sujeito macho exibicionista com o qual eu tenho problema  bea.

- E voc  o tipo da patricinha que eu acho um p no saco.

- Parem, parem, vamos congelar a ao um instante - disse Tony - e ter um retorno dos outros a respeito de nossos primeiros cinco minutos aqui. Primeiro, quero lhe
dizer uma coisa, Jason, e a voc, Marsha, algo que Philip e eu aprendemos com Julius, nosso professor. Tenho certeza de que vocs dois esto achando um comeo
tempestuoso, mas tenho a impresso, a forte impresso de que, quando este grupo terminar, vocs tero grande importncia um para o outro. Certo, Philip?

 - Certo, companheiro.
    327

***

Notas

Pagina 9 "Cada vez que respiramos " The World as Will and Representation, de A Schopenhauer, trad E F Payne, 2 vols (Nova York, Dover Publications, 1969) vol l,
p 311

Pagina 24 "xtase no ato da copula " Manuscript Remains in Four Volumes, de Schopenhauer ed Arthur Hubscher, trad E F Payne (Oxford Berg Publishers, 188 90), vol
3, p 262

Pagina 29 "A vida e uma coisa miservel " ed Eduard Gnsebach, Schopenhauer's Gesprache und Selbstgesprache (Berlim E Hoffman, 1898) p 3

Pagina 37 "O talento e como um comerciante " World as Will, de Schopenhauer vol 2, p 391, cap 31 "On Genius"

Pagina 39 "Ningum me ajudou " Schopenhauer and the Wild Years of Philosophy, de Rudiger Safranski, trad Ewald Osers (Cambridge Harvard University Press, 1991) p
11

Pagina 41 " Uma vida feliz e impossvel " Parerga and Parahpomena, de Schopenhauer, trad E F Payne, 2 vols (Oxford Clarendon Press, 2000), vol 2, p 322

Pagina 46 ' A base solida de nossa viso ' Ibid , vol l , p 478, capitulo 6, On the Different Periods of Life

Pagina 47 "Toda moa que pensa em se casar   " Schopenhauer, de Safranski p  14

Pagina 47    Eu no fingia amor ardente   " Ibid , p  13

Pagina 49 Se olharmos a vida em seus pequenos detalhes " trad de T Bauley Saunders Complete Essays of Schopenhauer Seven Boo/(s in One Volume (Nova York Wiley, 1942),
hvro 5, p
24 Ver tambm Parerga and Parahpomena, de A Schopenhauer, vol 2, p 290

Pagina 53 "Uma hora so de calma " Os Buddenbroot(s, de Thomas Mann, trad H T Lowe Porter (Nova York Vintage Books,1952), p 509

Pagina 49 "Uma mente-mestra poderia se apoderar    " Ibid , p 510

Pagina 54 "Ser que eu queria continuar vivo    " Ibid , p 513

Paginas 54 55 "to perfeitas e consistentemente claras " Essays of Three Decades, dt Thomas Mann, trad H T Lowe Porter (Nova York Alfred Knopf, 1947), p 373

Pagina 55 "emocional, empolgante, jogando com contrastes enormes       Ibid , p 373

Pagina 55 "deixou aquele gnio dinmico e lgubre agir ' Ronald Hayrnarij/V/frzihc A Critical Life (Nova York Penguin, 1982), p 72

Pagmal "A religio tem todas as coisas a seu favor ' Wotlda* Will, de Schoptnhaut r, vol 2, p 166, cap 17 On Man's Need for Metaphysics

Pagina 62 "Poderamos jircver " Complete  ftfys dt Saundi rs, livro 5, p i Vet tarn hem Pareiga and Paralipomtna, <l< Schopcnhaut r, vul 2, p 2')8298.


328

33 IRVIN D YALOM

Pgina 64. "Num espao infinito , inmeras esferas luminosas...": World as Will, de Schopenhauer, vol. 2., p. 3., cap. 1: On the Fundamental View of Idealism.

Pgina 74. "Na infncia, o aparelho...": Ibid., vol. 2., p. 394, cap. 31: "On Genius."

Pgina 74. "os mais felizes...": Schopenhauer, de Safranski, p. 26.

Pgina 74 . "No se esquea que seu pai deixou...": Ibid., p. 29.

Pgina 75. "O encontro de dois amigos...": Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol. 2. p. 299.

Pgina 75. "Eu estava num pas desconhecido...": Schopenhauer, de Safranski, p. 280.

Pgina 77. "A maior sabedoria t..."Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol. 2. p. 284.

Pgina 89. "Os reis deixaram suas coroas e cetros...": Schopenhauer, de Safranski, p. 44.

Pgina 89-90. "deixe de lado todos esses escritores...": Ibid., p. 37.

Pgina 92. "Aos dezessete anos...": Ibid., p. 41.

Pgina 92. " esse o mundo que dizem ter feito...": Ibid., p. 41.

Pgina 93. "No fim da vida ...": Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol. 2, p. 285.

Pgina 107. "Uma pessoa de raros dons intelectuais...": World as Will, de Schopenhauer, vol. 2, p. 388, cap. 31: "On Genius".

Pgina 108. "Nobre, e maravilhoso esprito, a qual devo tudo ...": Schopenhauer, de Safranski, p. 278.

Pgina 108. "Danar e andar a cavalo ..." e outras citaes de cartas de Heinrich: Ibid., pp.
52-53.

Pgina 109. "Sei que voc no foi um jovem.." Ibid., p. 81.

Pgina 109. "Continuo com meu pato...": Ibid., p. 55.

Pgina 109. "Sua personalidade": Johanna para A. Schopenhauer (28 de abril de 1807). Em Der Briefwechsel Arthur Schopenhauer Hrsg. v. Carls Gebbart Deri Bnde. Erste
Band (1799) Munique: R. Iper & Co. p. 129. Trad, de E Reuter e Irvin Yalom.

Pgina 109. "Sempre escolho o mais interessante": Der Briefwechsel Arthur Schopenhauer. Herausgegeben von Carl Gebhardt. Erster Band (1799-1849). Munich: R. Piper,
1929. Aus: Arthur Schopenhauer: Samtliche Werke. Herausgegeben von Dr. Paul Deussen. Vierzehnter Band. Erstes und zweites Tausend. Munich: R. Piper, 1929. pp. 129ff.
Nr.71. Correspondence, Gebhardt and Hbscher, eds. Letter from Johanna Schopenhauer, April 28,1807, trans, by Felix Reuter and Irvin Yalom.

Pgina 110. "O torn srio calmo e srio...": Ibid.

Pgina 111. "Se voc fosse outra pessoa": Schopenhauer, de Safranski, p. 84.

Pgina 112. "Interessante que...": World as Will, de Schopenhauer, vol. 1. p. 85.

Pgina 119. "S a mente masculina ...": Parerga and Paralipomena, vol. 2., p. 619.

Pgina 119. "Seus eternos sofismas...": Schopenhauer, de Safranski, pp. 92-94.

Pgina 122. "Sei como so as mulheres. Elas querem se casar s...": Arthur Schopenhauer: Gesprche. Hrsg, v. Arthur Hbscher, Stutgart-Bad Cannstatt 1971, p. 152.
Trad, de F. Reuter e Irvin Yalom.

Pgina 122. "Veja bem minhas condies...": Schopenhauer, de Safranski, p. 94.

Pgina 124. "Raiz qudrupla? Sem dvida...": Ibid., p. 169.

Pgina 124. "A porta que voc fechou com tanto estrondo...": ed. Paul Densen,/owr"a/ of the Schopenhauer Society, 1912-1944, trad. F. Reuter, Frankfurt: 1973, p.
128.

Pgina 125. "A maioria dos homens sente atrao..."Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol. 4. p. 504. Eieooruov

Pgina 126. "As grandes dores fazem com que as menores ..." World as Will, de Schopenhauer, vol. 1. p. 316

Pgina 137. "Nada mais consegue assust-lo ou emocion-lo... ": Ibid., vol. l, p. 390.

Pgina 147. " preciso ter o caos ...": Thus Spofe Zarathustra, de F. Nietzsche, trad. R. J. Hollingdale (Nova York: Penguin, 1961), p. 46.

329


Pagina 151   "A flor respondeu   " Parerga and Parahpomena, de Schopenhauer, vol  2

p 649

Pagina 166 "A alegria e despreocupao da nossa juventude   " Ibid , vol  l  p 483, cap

6 "On the Different Periods of Life "

Pagina 167 "meio louco devido aos excessos    " Arthur Schopenhauer, de Arthur Hubscher

Em Lebensbild, Dntte Auflage, durchgesehen von Angelika Hubscher, mit emer Abbildung

und zwei Handschriftproben (Mannheim FA Brockhaus, 1988), S  12

Pagina 167 "Embora eu no d qualquer importncia   " Schopenhauer, de Safranski, p 40

Pagina 167 "Gostaria que voc tivesse aprendido   "  Ibid , p 40

Pagina 167 "Ao lado do quadro esto    " Ibid , p 42

Pagina 167 "Acho que a vista do cume de uma montanha   " Ibid,p51

Pagina 168 "A filosofia  uma estrada isolada numa grande montanha    '  Manuscript

Remains, de Schopenhauer vol   1   p  14

Pagina 168 "Entramos num aposento onde havia criados bbados    ' Schopenhauer, de Safranski,

P 51

Pagina 168  "O canto estridente da multido   "  e citaes seguintes nesse pargrafo

Ibid , p 43

Pagina 168 "lastimo que sua estada    " Ibid , p 45

Pagina 168 "Sempre que me misturo aos homens ' Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol 4, p 512 Etecnrrov  32

Pagina 168 'Repare se seus julgamentos objetivos ' Schopenhauer, de Safranski, p 167

Pagina 169 "Feliz e o homem Complete Essays, de Saunders, livro 2, p 63 Ver tambm Parerga and Parahpomena, de Schopenhauer, vol I, p 445 capitulo 5 Conselhos e
Mximas

Pagina 179 "O sexo se intromete com seu lixo ' The World as Will and Representation, de Schopenhauer, vol 2, p 533, cap 44 Metafsica do amor

Pagina 180 "Obit anus, abit onus " The Philosophy of Schopenhauer, de Bryan Magee (Oxford Clarendon Press, 1983, revista em 1997), p 13, nota de rodap

Pagina 180 "Puta prestimosa    Schopenhauer, de Safranski, p 66

Pagina 180 "Eu gostava muito deles   "  Ibid , p 67

Pagina 180 "Mas eu no queria uvas ' Arthur Schopenhauer Gesprache Heraus gegeben von Arthur Hubscher Neue, stark erweiterte Ausg Stuttgart Bad Cannstatt, 1971,
p 58, trad Felix Reuter

Pagina 181 "Espero que voc no perca a capacidade ' Schopenhauer, de Safranski, p
245

Pagina 181  "E contra a natureza da mulher, limitar se a um s homem   " Ibid,, p 271

Pagina 181  "Numa certa fase    " Ibid , p 271

Pagina 181 "Todos os grandes poetas foram infelizes " Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol 4 p 505 Ei{eai)Tov  25

Pagina 182 Casar-se em idade avanada " Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol
4 p 504 Eieautov  24

Pagina 182 "Depois do amor a vida ' The Woild as Will and Representation, de Schopenhauer, vol 2, p 523 A vida das espcies

Pagina 182 "Se considerarmos tudo isso    " Ibid , vol 2 p 534, Metafsica do amot

Pagina 183 Embora os dois envolvidos ignorem ' Ibid , vol 2 p 535, cap 44 A metafsica do amor

Pagina 183 'Portanto o que realmente dirige ' Ibid , vol 2, p 539, cap 44
Metafsica do amor

Pgina 183 "O homem e possudo ptloispmto " Ibid.vol 2, p 554,tip 44 Mtt.ifisu.i do amor

330

Pgina 183. "Pois est sob influncia...:" Ibid., vol.2, p. 556, cap. 44: Metafsica do amor.

Pgina 183: "O que no  concedido pela  razo...": Ibid., vol. 2, p. 557, cap. 44: Metafsica do amor.

Pgina 185. "Se no conto meu segredo... ": Parerga e Paralipomena, de Schopenhauer, vol. 1. p. 466, cap. 5: Conselhos e mximas.

Pgina 198. "A primeira regra para no ser...": Manuscript Remains, de Schoepnhauer, vol. 4. p. 466, EiCeooiTOV  20.

Pgina 198. "Se voc se interessa...": Epcteto: Discourses and Enchiridion, trad. T. Wentworth Higginson (Nova York: Walter J. Black, 1944), p. 338.

Pgina 199. "Quando eu tinha trinta anos...": Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol. 4, p. 513. EifeauTOv  33.

Pgina 199. "Num dia frio de inverno...": Parerga e Paralipomena, de Schopenhauer, vol.
2, p. 651.

Pgina 200. "Quem tem muito calor interno...": Ibid., vol. 2. p. 652.

Pgina 200. "mais alta classe do gnero...": Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol. 4, p. 498. EiCeotuTOv  33.

Pgina 200. "Minha inteligncia no pertence a mim... ": Ibid., vol. 4. p. 484, Eieccuirov 20.

Pgina 200. "O jovem Schopenhauer parece ter mudado...": Schopenhauer, de Safranski, p. 120.

Pgina 200. "Seu amigo, nosso grande Goethe...": Ibid., p. 177.

Pgina 201. "Concordamos em vrios pontos...": Ibid., p. 190.

Pgina 201. "O homem de gnio brilha...": World as Will, de Schopenhauer, vol. 2. p., 390, cap. 31: On Genius.

Pgina 201. "Numa discusso, se...": Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol. 2, p. 268.

Pgina 202."Melhor no dizer nada..." Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol. 4. p.
512, EieauTov  32.

Pgina 203. "um verdadeiro ser humano...": Ibid. vol. 4. p. 501, EifeauTOv  29.

Pgina 202. "Quase todos o contato com o homem...": Ibid., vol.4, p. 508, EiCeautov  22.

Pgina 202. "No conte a um amigo o que seu inimigo...": Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol.1, p. 466, cap. 5: Conselhos e mximas.

Pgina 203. "Considere todos os assuntos...": Ibid., vol. 1. p. 465, cap. 5: Conselhos e mximas.

Pgina 203. "Metade da sabedoria consiste...": Ibid., vol. 1. p. 466, cap. 5: Conselhos e mximas.

Pgina 203. "A segurana  a me da desconfiana..": Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol. 4, p. 495, Ei(eauTOV  17.

Pgina 203. "Esquecer os defeitos .."'.Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol. 1. p. 466, cap. 5: Conselhos e mximas.

Pgina 203. "A nica forma de um homem se manter superior...": Complete Essays, de Saunders, livro 2, p. 72. Ver tambm Parerga and Paralipomena, de Schopenhauerr,
vol. l, p. 451 28.

Pgina 203. "Desconsiderar  ganhar considerao": Ibid., p. 72. Ver tambm Parerga and Paralipomena, de Schopenhaur, vol. 1. p. 451  28.

Pgina 203. "Se temos algum...": Ibid., p. 72. Ver tambm Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol. l, p. 451  28.

Pgina 203. "Melhor deixar que os homens sejam...": Maunuscript Remains, de Schopenhauer, vol. 4. p. 508, Elf eauTov  29, nota de rodap.

Pgina 203. "Jamais devemos demonstrar raiva e dio...": Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol. 1. p. 466: Conselhos e mximas.

331

332 IRVIN D YALOM

Pagina 203 "Sendo simptico e gentil   " Ibid , p 463

Pagina 205 "Poucas coisas deixam ", Parerga and Parahpomena, de Schopenhauer, vol l p 459, cap 5 Conselhos e mximas

Pagina 218 "Deveramos limitar nossos desejos ' Ibid , vo l, p 438, cap 5 Conselhos e mximas

Pagina 221 'No ha rosa sem espinhos " Complete Essays, de Saunders, livro 5, p 97 Ver tambm Parerga and Parahpomena, de Schopenhauer, pp 440 453

Pagina 222 O corpo e um objeto material " Vet discusso em Philosophy of Schopenhauer, de Magee, pp 440-453

Pagina 223 "Para todo lugar que olhamos " The World as Will and Representation, de Schopenhauer, vol l p 309

Pagina 224 "Trabalho, preocupao, cansao, problemas " Parerga and Parahpomena, de Schopenhauer, vol 2, p 293

Pagina 224 "Em primeiro lugar, o homem nunca e feliz " Complete Essays, de Saunders, livro 5, p 21 Ver tambem Parerga and Paiahpomena, de Schopenhauer, vol 2 p 284

Pagina 225 "Somos como cordeiros brincando no campo " Pareiga and Parahpomena, de Schopenhauer, vol 2 p 292

Pagina 227 "No escrevi para a multido " Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol
4 p 207

Pagina 235 "De repente, o homem " Complete Essays, de Saunders, livro 5, p 19 Ver tambm Parerga and Parahpomena, de Schopenhauer, vol 2 p 283

Pagina 237 "Numa viagem, quando o navio " Discourses and Enchiridion, de Epicteto, p 334

Pagina 239 "A vida pode ser comparada a um bordado " Parerga and Parahpomena, de Schopenhauer, vol l, p 482, cap 6 Sobre as diversas fases da vida

Pagina 242, "Mesmo sem motivo, sinto " Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol 4, p 507 EiCeauirov  28

Pagina 244 "    teve uma agenda rgida" Philosophy of Schopenhauer, de Magee, p 24

Pagina 245  "Num jantar, um jovem perguntou     " Schopenhauer, de Safranski, p 284

Pagina 245 "Objeto de ouro aos pobres " Schopenhauer's Anel(dotenbuchletn (Frankfurt,
1981) Trad Felix Reuter e I Yalom, p 58

Pagina 245 "Contam-se muitas historias   " Ibid

Pagina 245 "Boa constituio fsica   " Schopenhauei, de Safranski, p 284

Pagina 245 "S como cehbatario ' Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol 4 p
503, EieauTOV  24

Pagina 246 "Dois meses no quarto   '   Schopenhauer, de Safranski, p 288

Pagina 248 "Os escritos e idias " Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol 4 p 487, EieccuTOv  7

Pagina 263 "Eruditos e filsofos europeus   '   Ibid , vol 4, p  121

Pagina 263 "Desconfiana, sensibilidade, impetuosidade e orgulho ' Ibid , vol 4, p
506, EiCeauTOv  28

Pagina 263 "Herdei de meu pai   " Ibid , vol 4, p 506, Ei(Cruov  28

Pagina 264 "Precaues e rituais    " Schopenhauer, de Safranski, p 287

Pagina 264 "Em 1906, um medico e historiador " Iwan Bloch, ' Schopenhauers Krankheit im Jahre 1823" em Medizmische Klomi^, n05 25-26, (1906)

Pagina 265  "No lerei mais suas cartas   '   Schopenhauer, de Safranski, p 240

Pagina 265 "banal, oco, asqueroso " Parerga and Parahpomena, de Schopenhauer, vol l, p 96

Pagina 265 266 ' No podemos dtixar sem resposta ' Sihoptnhaun, di S.ifranski, p ^15

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Pgina 266. "Mas deixe-o em paz...": Complete Essays, de Saunders, livro 5, p. 97. Ver tambm Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol. 2, p. 647.

Pgina 268. "Visto da juventude...": Ibid., vol. l, p. 483-484, cap. 6: As diversas fases da vida.
Pgina 274. "Quer dizer anular completamente a vontade...'1: Ver discusso zmPhilosophy of Schopenhauer, de Magee, pp. 220-225.
Pgina 280. "Quando nasce um homem como eu..."-.Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol. 4. p. 510, EiCeauiov  30.
Pgina 280. "Desde jovem percebi...": Ibid., vol. 4, p. 484, EieaUTOV  3.

Pgina 281. "Minha vida  herica...": Ibid., vol. 4, pp. 485-486, Ei{e<xutov  4.

Pgina 281. "Quando mais jovem...": Ibid., vol. 4, p. 492, EiCecxutov  12.

Pgina 281. "No estou no lugar": Ibid., vol. 4, p. 495, Eieconov  17.

Pgina 281. "quanto menos a vida pessoal. ."'.Schopenhauer's Gesprche, deGrisenbach, p. 103.

Pgina 281. "Sempre fui muito s... ": Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol. 4, p.
501, EiCeautov  22.

Pgina 282. "A melhor ajuda para a mente...": Ibid., vol. 4, p. 499, EiCeouruov  20.

Pgina 282. "Quern quer silncio e calma...": Ibid., vol. 4, p. 505, Eiieocutov  26.

Pgina 282. "Qualquer um pode...": Ibid., vol. 4, p. 517 / EieccuTOV - Mximas e trechos preferidos.

Pgina 282. "s vezes me sinto infeliz ...": Ibid., vol. 4, p. 488, EieauTOV  8.

Pgina 283. "a nica coisa que varia. .."-.The World as Will, de Schopenhauer, vol. l, p. 315.

Pgina 284. "Onde esto os verdadeiros mongamos?...": Complete Essays, de Saunders, livro 5, p. 86. Ver tambm Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol. 2.
p. 624.

Pgina 291. "Quem ama...": World as Will, de Schopenhauer, vol. 2, p. 540, cap. 44: Metafsica do amor.

Pgina 294. "Devemos encarar com tolerncia...": Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol. 2, p. 305. cap. 11.

Pgina 305. "Alguns no conseguem se libertar dos prprios grilhes...": Assim falou Zaratustra, de F. Nietzsche, p. 83 (Nova York: Penguin Books, 1961). Traduo
alterada por W. Sokel e I. Yalom.

Pgina 305. "voc enxugar a pena...": Philosophy of Schopenhauer, de Magee, p. 25.

Pgina 306. "No  a fama...": Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol. l, p. 397 e 399, cap. 4: O que representa o homem.

Pgina 306. "extrair um doloroso espinho ... ": Ibid., vol. l, p. 358, cap. 4: O que representa o homem.

Pgina 306. "A vida  apenas uma camada fina .." World as Will, de Schopenhauer, vol. 2, p. 3: Viso bsica do idealismo.

Pgina 306. "Uma alterao na ditosa..."'.Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol. 4, p.
517: Mximas e trechos preferidos.

Pgina 307. "O homem prudente no aspira...": Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol. 4. p. 517: Mximas e trechos preferidos.

Pgina 307. "Todo mundo deve atuar no teatro ...": Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol. 2, p. 420.

Pgina 307. "O tratamento mais adequado...": Ibid., vol. 2. p. 304 e 305.

Pgina 307. "Devemos encarar com tolerncia ...": Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol. 1. p. 353. cap. 4: O que representa o homem.

Pgina 308. "... o assunto literrio do momento...". Magee, Philosophy of Schopenhauer, p. 26

Pgina 308. "Quando algum passa a mio...": Parerga and Paralipomena, de Schopenhauer, vol. l, p. 353, cap. 4: O que representa o homem.

Pgina 308. "o sol matinal da minha (m..."'.Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol.
4, p. 516, EveoiuTov  36.


333

334

IRVIN D. YALOM

Pgina 308. "Ela trabalha o dia todo na minha casa...": World as Will, de Schopenhauer, p. 348.

Pgina 309. "Ao chegar ao fim da vida, nenhum homem...": World as Will, de Schopenhauer, vol. 1. p. 324.

Pgina 309. "Um carpinteiro no vai me dizer.. ": Philosophy as a Way of Life Spiritual Exercices from Socrates To Foucault, de Pierre Hadot, ed. Arnold Davidson,
trad, de Michael Chase (Oxford: Blackwell, 1995).

Pgina 314. "O homem nunca  feliz...": Parerga and Parahpomena, de Schopenhauer, vol. 2. p. 284.

Pgina 320. "Consigo supor a idia...": Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol. 4. p. 393: Semha.

Pgina 320. "A vida  apenas a morte...": World as Will, de Schopenhauer, vol. 1. p. 311.

Pgina 321. "Como o nosso comeo...": Parerga and Paraltpomena, de Schopenhauer, vol. 2, p. 288.

Pgina 321. Pensamentos finais de Schopenhauer sobre a morte...: Schopenhauer, de Safranski, p. 348.

Pgina 321. " absurdo considerar a no-existncia...": World as Will, de Schopenhauer, vol. 2, p. 465, cap. 41: Sobre a morte e sua relao com a mdestrutibihdade
de nossa natureza interior.

Pgina 322. "Deveramos saudar a morte...": Parerga zn Parahpomena, de Schopenhauer, vol. 2, p. 322.

Pgina 322. "Se batermos nas lpides...": The Woildas Will, de Schopenhauer, vol. 2, p.
465, cap. 41: Sobre a morte e sua relao com a mdestrutibihdade de nossa natureza interior.

Pgina 322. "Dilogo entre dois filsofos gregos...": Parerga and Parahpomena, de Schopenhauer, vol. 2, p, 279.

Pgina 322. "Quando voc diz eu, eu, eu...": Ibid., vol. 2. p. 281.

Pgina 323. "Sempre quis morrer rpido...": Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol. 4, p. 517, Eierxvrtov  38.

Pgina 323. "Estou cansado, no final da estrada...": Parerga and Parahpomena, de Schopenhauer, vol. 2, p. 658: Finale.

Pgina 323. "Estou muito satisfeito de ver...": Philosophy of Schopenhauer, de Magee, p. 25.

Pgina 324. "Este homem que viveu entre ns...": Schopenhauer, de Karl Pisa. (Berlim: Paul Neff Verlag, 1977) p. 386.

Pgina 325. "O ser humano aprendeu..."-.Manuscript Remains, de Schopenhauer, vol. 4, p.
328: Spicegia.

334

"Viver  sofrer." Para Arthur Schopenhauer, filsofo do sculo XIX conhecido por suas idias pessimistas em relao ao sentido da vida, os relacionamentos e os desejos
s levam  dor e ao tdio. A salvao para o sofrimento humano, causado pela existncia,  renunciar ao mundo, tornando-se assim verdadeiramente livre.

***

Para Julius Hertzfeld, psiquiatra renomado e ferrenho defensor da terapia em grupo, a salvao s  atingida quando se constri relacionamentos slidos, baseados
no amor e na compreenso das diferenas e dos limites de cada um.  a vontade de ajudar as pessoas a encontrarem esse caminho que o leva a continuar trabalhando,
mesmo fragilizado com a notcia de que tem um cncer incurvel. Ao fazer uma avaliao de sua longa carreira como psicoterapeuta, Julius decide procurar seu
maior fracasso - um antigo paciente chamado Philip Slate, viciado em sexo e que curou a si prprio seguindo as doutrinas de Schopenhauer - e o convida a participar
da sua terapia em grupo. A presena de uma ex-conquista de Philip, que o odeia pela frieza com que a descartou, obriga-o a encarar o passado e desencadeia conflitos
entre os pacientes e acirradas discusses filosficas com Julius.

A Cura de Schopenhauer  o relato comovente de personagens demasiadamente humanos, que no processo da terapia em grupo desnudam suas mentes e seus coraes, tornando-se
mais reais do que a prpria realidade.

Ediouro

ISBN 85-00-01483   O

"I788500II01483311
#9769
